30 abril 2017

A VOLTA À GÁLIA (1)

Repare-se que, ao contrário do que será a tradição das histórias de Astérix (este é ainda o quinto álbum da série), esta Volta à Gália não começa por uma imagem quase panorâmica da vida aprazível da tal aldeia gaulesa que cada vez se torna mais familiar para o leitor. Numa certa inflexão irónica, os protagonistas da vida aprazível são, no caso, os ocupantes romanos... Esse entendimento tácito vai ser perturbado pela chegada do dirigente romano zeloso e ambicioso. E a primeira coisa que os militares romanos lhe vão fazer é boicotar as suas ordens... Dali por treze anos, os dois autores vão repegar no mesmo tema e levá-lo a limites muito mais delirantes, mas inserir um motim de uma unidade militar numa história de BD em 1963 é ousado. O Golpe dos generais fora em 1961... 

A SÉRIE DE SUCESSO DA BBC

Este livro foi traduzido e editado em 2009 pela Bertrand para complementar o que seria uma série de sucesso da BBC (como se pode ler naquele selinho azul), série essa que provavelmente viria a ser transmitida por cá. Se o foi, em três episódios com a duração de uma hora cada, confesso que nem dei pela sua transmissão, quanto mais pelo seu sucesso. O Mundo Perdido do Comunismo descobre-se assim ser assim como mais um exemplar inglorioso de um elenco infindável de variados fiascos editoriais publicados prematuramente, caso de Administração Hillary, as desastradas premonições políticas de Raquel Vaz-Pinto e de Bernardo Pires de Lima, publicado mês e meio antes da vitória eleitoral de Donald Trump. O (in)sucesso da série televisiva da BBC é tanto mais notável quando, por cá, apenas a menção dessa origem é logo meio caminho andado para o comentário elogioso. Só que neste caso, porque o tema era o fracasso do comunismo, isso terá sido razão, só por si, para a alienação de uma boa metade da intelectualidade doméstica que em algum momento do passado namoriscou com a ideologia e tem ainda hoje com o comunismo uma relação, no mínimo, ambígua (o que não se passa no Reino Unido). Cada um dos três episódios procura evocar o que era a vida sob os regimes ditos socialistas de três países da Europa de Leste: a Alemanha dita Democrática, a Checoslováquia e a Roménia. Há nas histórias que se contam estranhas reminiscências do que por cá acontecia antes do 25 de Abril de 1974 (e que por lá só acabou em 1989...), desde as perseguições políticas a quem era dissidente até aos efeitos por vezes caricatos da censura, à promoção de uma certa imagem de fachada dos respectivos regimes. Havia muitas pessoas infelizes, aparecem também algumas nostálgicas, se calhar os taxistas de lá também resolvem os problemas de marginalidade de Berlim oriental invocando o retorno de Erich Honecker. Todavia, vistas com objectividade, uma Ditadura é sempre uma ditadura, independentemente da retórica que a acompanha, mas isso é uma tese algo impopular entre a intelectualidade doméstica. Mesmo que não tenha sido a tal série de sucesso que a Bertrand promovia, vai-se sempre a tempo de ver uma boa série televisiva, agora que alguém a disponibilizou no YouTube (abaixo). Infelizmente só o primeiro episódio, o referente à hoje extinta República Democrática Alemã, se encontra legendado. É pena porque o episódio da Checoslováquia é interessantíssimo e o da Roménia também.

Alemanha Democrática

Checoslováquia

Roménia

O JORNAL DE DAVID DINIS

Esta é uma das páginas impares da opinião da edição de ontem do Público. À primeira vista parece de uma generosidade tremenda o gesto de David Dinis e da sua equipa em emparelhar numa mesma página opiniões tão distintas das suas quanto as de Manuel Loff e de Francisco Louçã, regulares prosadores daquele jornal. Como se pode deduzir pelos títulos, o tema tratado é o mesmo, as eleições presidenciais francesas, e, como por acaso, a reforçar a coincidência, a opinião dos dois opinadores comunistas coincide em pertencerem àquela esquerda que absolve Jean-Luc Mélenchon por não dar indicação de voto para a segunda volta. Sobre o tema em si, já aqui me referi que a atitude não me surpreendia, mas também já deu para perceber quanto a opinião daqueles dois está longe de ser unânime ou sequer dominante entre quem se confessa daquela área ideológica. Mas provavelmente ontem não deve ter havido espaço para mais...

29 abril 2017

IMAGENS DE FICÇÃO CIENTÍFICA - MAS DO PASSADO...

Estas são fotografias de como as companhias aéreas promoviam os seus aviões há muitos, muitos anos... Acima são fotos da BOAC e da Lufthansa exibindo o seu interior e as suas sete cadeiras por fila dos então recentíssimos (1970) Boeings 747 enquanto abaixo se exibem as cinco cadeiras por fila do (ligeiramente mais antigo 1968 e bastante menor) Boeing 737. Os aviões pareciam preenchidos e os passageiros instalados mas sem aquela imagem moderna de ajoujamento em que os passageiros estão entalados nos seus respectivos lugares... Mas, há medida que o tempo passa, só mesmo os mais idosos é que ainda sabem que era possível viajar de avião de outro modo.

A VOLTA À GÁLIA (0)

Porque estou a pensar realizar brevemente uma muito pequena volta à Gália, achei que o pretexto era bom para ir aqui publicando as pranchas dessa história homónima de Astérix. O álbum é o quinto da série das aventuras do herói gaulês e foi publicada originalmente em 1963. Precedendo-a, na sofisticação a história é nitidamente mais rude do que a d'O Combate dos Chefes que aqui acabei de publicar. A ideia de levar a dupla Astérix e Obélix a cumprir uma volta pela Gália recolhendo o que de mais típico existe na gastronomia local é excelente, mas a inexperiência de Goscinny levou-o a conceber uma história que, devidamente concebida, teria de ser demasiado longa para se encaixar nas 44 pranchas de um livro de BD convencional. Resultado: alguns dos locais a visitar numa volta à Gália tiveram que ser descartados e os que o foram receberam quase sempre um tratamento simplificado em jeito de bilhete postal. Mas, como aconteceu com a história precedente, publiquemos cada prancha de cada vez e comentemo-las au fur et à mesure.

28 abril 2017

AS OPINIÕES DOS «CROQUETES»

Foi já há muitos anos que, certo dia e por malícia, resolvi dar a alcunha de Croquetes a uma pessoa das minhas relações profissionais. Porquê croquetes? Eu encontrava-me com essa pessoa tanto em reuniões de trabalho quanto em ocasiões ditas sociais que, de social, nada tinham. Creio que comigo, a esmagadora maioria dos que a elas compareciam o faziam por razões profissionais. Enfim, para o que interessa agora, o meu amigo Croquetes parecia ser duas pessoas distintas conforme o teor da reunião. A apagada pessoa que raramente intervinha nas reuniões convencionais e que, quando o fazia, beirava regularmente o desastre pela ignorância das questões de que dava mostras, transmutava-se numa outra pessoa quando a ocasião era social. Parece que a posse de um croquete (daí a alcunha...), um coquetel ou mesmo um canapé lhe conferiam a segurança que lhe faltava quando as conversas eram a doer e que havia que emitir e sustentar opiniões. A verdade parece-me muito mais prosaica do que isso: as conversas de canapé e coquetel na mão têm uma etiqueta muito própria - e competências muito distintas. É por isso que o meu amigo Croquetes, no domínio das pequenas graçolas, das anedotas toleráveis mas não muito inteligentes e de discorrer profundamente sobre precisamente nada era o maior. Há quem se especialize: conseguem falar genericamente sobre uma multitude de temas, mas não conseguem falar aprofundadamente sobre quase nenhum. São os reis da recepção, que conseguem meter conversa com qualquer interlocutor que lhes calhe em sorte, que sabem deixar os outros à vontade quando estão de anfitrião. E que são uns tudólogos de eleição quando falam para círculos assim mais alargados, os com saída até são convidados para aparecer na televisão. Ao ler escrito por aí por um, e a propósito destas últimas eleições presidenciais francesas, que havia «uma regra "republicana" de que, contra um candidato de extrema-direita, o voto era “cego” em quem quer que se lhe opusesse», e de que «isso, afinal, havia acabado, até na esquerda», apeteceu-me perguntar, a respeito deste comentário taxativo (que me parece combinar muito bem com o moscatel...), desde quando é que existe essa regra "republicana"? É que a História está repleta de episódios de esquerdas dissidentes. Na própria França, agora no centro das atenções, ficou célebre a atitude de indiferença do PCF ao não fazer nenhuma recomendação de voto para a segunda volta das eleições presidenciais francesas de 1969. Mas disso já aqui falei num poste de há três anos. Vamos regressar 85 anos ao passado, às eleições presidências alemãs de 1932, com a presença de Adolf Hitler (himself), e veja-se pelo gráfico abaixo como foi o comportamento eleitoral da esquerda comunista (KPD - assinalada a vermelho). Para a primeira volta foi até a extrema-direita que se apresentou dividida, com Adolf Hitler a dividir os votos com Theodor Duesterberg dos Capacetes de Aço, e ambos concorriam contra o comunista Ernst Thälmann e o presidente em funções, Paul von Hindenburg. Este último, como se percebe pelo arco-íris que enfeita a sua votação, recebia o apoio dos restantes partidos de Weimar (os democráticos), desde os sociais-democratas do SPD até ao centro católico (Z). Refira-se que este apoio dado pelo SPD a um conservador como Hindenburg foi muito mal acolhido nas franjas mais esquerdistas dos seus militantes. Deve-se a essa discordância, por exemplo, a dissidência de um militante como Klaus Fuchs, mais tarde celebrizado por se ter tornado um espião do programa atómico norte-americano em prol da União Soviética. Mas, mais importante do que as militâncias, aprecie-se o comportamento eleitoral das massas de uma eleição para outra: os candidatos da segunda volta acabam por ser a repetição da primeira, apenas com a desistência de Duesterberg, cuja grande maioria dos votos se transferiram para Adolf Hitler, mas a insistência de Thälmann em continuar a concorrer foi premiada com a perda de ¼ dos votos que recebera originalmente. Numa conclusão inequívoca, se Adolf Hitler perdeu essas eleições presidenciais de 1932 para Paul von Hindenburg, isso aconteceu apesar do comportamento dos comunistas, e não por causa deles. Portanto: em 1932 a regra "republicana" ainda não existia na Alemanha e em 1969 a regra "republicana" já não existia em França. Se calhar a regra que todos agora invocam para fustigar o comportamento de Jean-Luc Mélenchon nunca foi assim tão rigorosa, é mais coisa para se invocar ao ritmo das duas trincadelas num canapé...

A SUPERIORIDADE CULTURAL DO SOCIALISMO E AS «MAIS AMPLAS» LIBERDADES DEMOCRÁTICAS

Uma típica página do Diário de Lisboa com a crítica de televisão de Mário Castrim (à direita) numa das edições de Abril de 1977. As simpatias comunistas do autor eram conhecidas e os encómios endereçados ao serão teatral do dia anterior eram mais do que expectáveis, dado que a peça escolhida - baptizada de Escritório na versão portuguesa - era de origem checoslovaca. Ora era sabido que, para Castrim, todos os programas que fossem transmitidos pela RTP e que tivessem origem ou inspiração em qualquer um dos países socialistas (comunistas) era sempre excelentes! E uma peça checoslovaca não iria constituir uma excepção a esse axioma do marxismo-leninismo. Aborrecido mesmo para que o texto fosse ortodoxo era a identidade do dramaturgo: chamava-se Václav Havel... que há-se vir a ser muito mais conhecido dali por uns 12 anos, quando vier a ser eleito o presidente da Checoslováquia e depois da nova República Checa. Mas nessa primavera de 1977 ainda ele estava do outro lado, do lado dos perseguidos políticos, destacando-se somente como um dos subscritores principais de um documento de protesto contra as liberdades políticas na Checoslováquia. Conhecido por Carta 77, esse documento fora publicitado (apenas) na comunicação social ocidental em 6 de Janeiro de 1977, três meses antes desta crónica, e congregara as atenções das opiniões públicas para a situação interna na Checoslováquia, oito anos e meio depois da invasão do país pelos soviéticos. Os signatários da Carta 77 foram perseguidos, a meia dúzia de cabecilhas (incluindo Havel) julgados e condenados a penas de prisão. Adivinhe-se o que Castrim, que adorava deambular discorrendo pelos temas associados com as mais amplas liberdades democráticas, escreveu nesta altura a respeito de Havel e da Carta 77? Precisamente: nada. A obtusidade política selectiva é doença para a qual ainda não se descobriu vacina.

BÓSFORO

Nesta fotografia, da autoria do fotógrafo Orion Lafuente, uma criança contempla sonhadora o outro lado do estreito do Bósforo que divide a moderna Istambul nas suas componentes europeia e asiática. É uma metáfora da encruzilhada das opções contraditórias sempre presentes no devir da Turquia, dividida entre a sua identidade turca, adquirida por causa das tribos nómadas dessa origem que há mil anos chegaram à Ásia Menor vindas da Ásia Central, em contraste com a omnipresente herança helenística dos que já lá estavam antes disso, herança forjada por quase dois mil anos de pertença ao espaço cultural helénico no Mediterrâneo oriental. Já depois de um referendo cuja surpresa foi apenas a margem apertada da vitória das propostas do presidente Erdogan, a Turquia continua a ser notícia pelos 9.000 polícias que suspende de funções, pelas 800 pessoas que prende. Não restam dúvidas de qual é a face das duas de Janus que representa as intenções do presidente turco. Ouvi-lo abaixo a criticar o Conselho da Europa por ostracizar o regime turco parece uma comédia de mal entendidos quando o vemos a anunciar que a Turquia vai reconsiderar o seu pedido de adesão à União Europeia, quando se já descobriu há muito que, do outro lado, o bloco que actualmente comanda a União Europeia (com a Alemanha à cabeça) nunca terá tido a intenção de admitir a Turquia na organização...

27 abril 2017

AINDA O COMBATE DOS CHEFES

Este mapa, que foi buscar ao New York Times, mostra-nos o resultado das eleições presidenciais francesas de Domingo da forma geográfica canónica a que muitos se habituaram: os vencedores em cada círculo eleitoral recebem uma cor distinta e o conjunto da montagem dá-nos uma ideia das prevalências regionais. Neste caso, e por causa da distribuição das votações muito equilibradas pelos quatro candidatos principais, o efeito torna-se enganador. Na esmagadora maioria dos casos, o candidato mais votado registou apenas uma maioria relativa: recebeu ⅓ ou talvez um pouco mais dos votos expressos. As manchas acima estão, por isso, muito longe por isso de constituir os bastiões que se costumam referir quando da feitura destes quadros, de que um caso exemplar, até bem tarde na nossa Democracia portuguesa, foi o caso do Alentejo comunista. Podendo induzir em erro, o mapa também não mostra aquilo que considero importante concluir dos resultados: evidencia-se mais uma vez, aquela que é uma tradicional discrepância política entre Paris e o resto da França. Ela consubstancia-se na diferença significativa dos resultados alcançados pela candidata da extrema-direita à escala nacional (21,3%) e na capital (5,0%). As capitais não são regiões como as outras. São os domicílios dos órgãos de decisão política e judicial, sede dos principais interesses económicos, albergam os expoentes do pensamento intelectual e são responsáveis pela formação da imagem da sociedade por ali se localizarem os principais órgãos de comunicação social. E a formação da imagem dessa França institucional ocorre nesta cidade de Paris onde Marine Le Pen tem uma expressão eleitoral que é menos de ¼ do que acontece no resto do país. Será que a imagem é suficientemente rigorosa e não nos aparece por cá distorcida?
É que eu lembro-me das eleições de 25 de Abril de 1975. Só pelo resultado delas é que deu para perceber que existia para lá de Lisboa e da sua cintura industrial um outro Portugal que o poder político e a comunicação social da época não tomavam em conta... Até o Quim Barreiros do poste imediatamente abaixo ainda não havia descoberto onde estavam os seus verdadeiros admiradores...

Adenda do dia seguinte: Nem de propósito, o jornal Le Monde do dia seguinte ao da publicação do meu poste insere uma pequena análise sobre a distribuição da votação em Paris, com Fillon a vencer a Paris ocidental dos ricos, Mélenchon as periferias pobres, e Macron tudo o resto. O problema é que se tende a tomar Paris pela França e Paris não é a França.

QUANDO O QUIM BARREIROS ANDAVA A CHEIRAR OS BACALHAUS REVOLUCIONÁRIOS

Sempre pensei que havia em Quim Barreiros qualquer coisa de genuinamente revolucionária, desde o espevitar de umas forças armadas que andariam a dormir antes de ele chegar de acordeão (acima), até à Mariazinha que, antes dele, nunca antes exibira os predicados odoríferos do seu bacalhau (abaixo). É uma pena que o disco de cima não esteja disponível no You Tube para estas mostras das canções revolucionárias do PREC, que sempre surgem quando dos 25 de Abril.

26 abril 2017

«GREAT AMERICAN EQUIPMENT»

Momento promocional com o presidente Donald Trump a conversar com os dois astronautas norte-americanos presentemente em órbita na Estação Espacial Internacional (ISS). Por acaso, a ISS tem, neste momento, mais quatro tripulantes, três russos e um francês (este último tirou umas fotografias de Portugal por ocasião do 25 de Abril), mas isso, como diria a Teresa Guilherme, agora não interessa nada, concentremo-nos na conversa havida entre Donald Trump na Casa Branca, que aparecia sentado entre a filha e uma outra astronauta, e a dupla lá em cima em órbita.

Ao contrário dos gags de televisão que dele troçam, a piada mais inteligente do sketch é usada logo a abrir, quando Donald Trump se refere ao funcionamento do great equipamento americano. É que, por detrás da grandiloquência de Trump que ali aparece a promover um programa espacial para ir a Marte, que está prometido lá para a década de 2030, a verdade prosaica é que, na situação presente, aqueles (e quaisquer outros) astronautas norte-americanos que estejam na ISS, têm que ter viajado para lá em naves e foguetões russos, como se vê pelo vídeo abaixo do passado dia 20 de Abril...

EVOLUÇÃO DA DÍVIDA PÚBLICA EM % DO PIB (de 1992 a 2016)

Sempre me perguntei porque, a substituir a utilização dos défices orçamentais (cuja limpidez como indicador económico e estatístico se está a perder), não se passava a privilegiar a análise da evolução da dívida pública. Alguém terá tido essa mesma ideia antes de mim e brindou-nos com este gráfico na página Dívida Pública de Portugal na Wikipédia. Para a sua concepção misturam-se não apenas os dados financeiros mas também a situação política vigente na época, assinalada pela cor (laranja ou rosa) do partido então no poder, complementando-se essa informação ainda por uma sinalética (apresentada em legenda) para as situações políticas especiais (coligações ou apoios parlamentares). Completei o gráfico que ali existia com os dados de 2016 e esta nova situação política. Cingindo-me apenas aos anos mais recentes, há conclusões que se parecem impor:

a) Aquelas três grandes barras rosas para os anos de 2009, 2010 e, também, ainda que parcialmente o de 2011, demonstram o a dimensão do descontrole financeiro e desmentem totalmente a narrativa que José Sócrates quis pôr a correr de que tudo teria continuado bem se o seu governo não tivesse sido derrubado.

b) Aquela outra grande barra laranja respeitante ao ano de 2012, a que há que adicionar parcialmente a do ano anterior, mostram que o tratamento de choque socialmente violento que veio a ser adoptado não teve quaisquer consequências positivas imediatas, ao contrário daquilo que prometera Pedro Passos Coelho.

c) E que a inflexão de política protagonizada por António Costa não teve as consequências gravosas de retorno à situação de descontrolo financeiro inicial, pelo menos não da forma imediata como havia sido profetizado por Pedro Passos Coelho. Isto são as conclusões objectivas mas uma boa discussão política não tem nada a ver com objectividade...

PRAÇA DOS RESTAURADORES - 2

Outras fotografias da mesma Praça dos Restauradores de Lisboa, mas desta vez fotografadas em Setembro de 1940 e em Junho de 1943, nos anos da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do que se vê nas fotos deste mesmo local que publiquei anteriormente em Abril de 1964 e de 1968, os três anos que medeiam entre estas duas dão a perceber uma diminuição nítida da circulação automóvel na Baixa da cidade, provavelmente em resultado do racionamento de combustível em vigor naqueles anos. Registe-se a curiosidade de que o filme em exibição no cinema Eden ser Fátima, Terra de Fé, estreado com a pompa que o Estado Novo lhe quis conferir 26 anos depois das aparições.

MELÂNCTON

Alguém me contou que José Manuel Fernandes passou o programa televisivo do passado Domingo de presidenciais francesas a rebaptizar o candidato Jean-Luc Mélenchon com um nome que soava a coisa parecida com Melâncton (acima). Não vi, não posso dizer que tenho pena (andava a seguir as eleições francesas noutro canal), mas confesso que agradeceria que alguém mo confirmasse ou desmentisse a proeza, porque à história ouvi-a detalhada e sarcástica, incluindo o pormenor de um vizinho de programa que acabou, ao fim de várias repetições do erro, a corrigi-lo, enfadado. Confesso que o que ouvi combina com a personagem, de um gongorismo intelectual pretensioso que o leva nos dias bons a confundir São Francisco de Assis com São Francisco Xavier. Num dia assim pior, para José Manuel Fernandes um candidato presidencial francês bem pode assumir o nome de um teólogo alemão protestante do século XVI. Reconheça-se porém, que até mesmo para pessoas com o cosmopolitismo intelectual de José Manuel Fernandes pode tornar-se episodicamente difícil pronunciar certos nomes estrangeiros...

25 abril 2017

O FIM DO CICLO PRESIDENCIAL DOS BAIXINHOS

Como se comentava cruel mas merecidamente diante desta capa do Paris Match do Verão de 2015, o casal Sarkozy/Bruni fora passar as suas férias a um local verdadeiramente paradisíaco chamado... Photoshop. Neste caso até, nem fora sequer apenas o tradicional milagre fotográfico de dar mais alguns centímetros de altura ao ex-presidente (e agora sem recorrer aos tacões altos nos sapatos), pois adicionalmente a fotografia do casal conseguira roubar uns 20 anos ao corpo de 47 (e dois filhos) de Carla Bruni. De resto, e quanto a estaturas, a substituição de Sarkozy por François Hollande em 2012 parecera ter deixado tudo na mesma, com o Chefe de Estado francês passível de ser gozado numa qualquer cerimónia a passar revista a uma guarda de honra (no estrangeiro!). Durante um decénio as instituições competentes no Palácio do Eliseu sublimaram o handicap remetendo para a analogia com Asterix, que há quase 60 anos não se envergonha de contracenar com um parceiro que é muito maior que ele (abaixo). Esses tempos parecem, contudo e felizmente, estar a chegar ao fim. Com um metro e 78, Emmanuel Macron está longe de ser um colosso, mas tem a mesma altura de Marcelo Rebelo de Sousa. É o que basta...

MAPAS COMPARATIVOS ENTRE A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS - 2

O mapa acima compara, usando a mesma escala, os coeficientes de Gini de distribuição da riqueza nos países europeus e nos estados norte-americanos. Variando entre 0 e 1, quanto menor for esse coeficiente (assinalado na escala a azul progressivamente mais escuro), mais homogénea a sociedade e menor serão as assimetrias registradas na distribuição da sua riqueza. O efeito inverso a esse pode apreciar-se com os tons de vermelho. A Europa está dominada pelo azul e os Estados Unidos pelo vermelho. Por exemplo e embora com níveis de riqueza completamente distintos, o estado de Nova Iorque possui uma desigualdade na repartição dela que é equivalente à da Turquia. Vem a propósito disso recordar que a sua famosa estátua é conhecida exclusivamente por Estátua da Liberdade, deixe-se para lá a Igualdade e a Fraternidade, os outros dois ideais da França e da sua Revolução que a ofereceu aos Estados Unidos em 1886...

AS PORTAS QUE ABRIL (NÃO) ABRIU

Durante precisamente 40 anos, de 25 de Novembro de 1975 a 26 de Novembro de 2015, o discurso político do PCP foi o que se pode sintetizar pela frase que aparece destacada acima, proferida originalmente (como não poderia deixar de ser...) por Álvaro Cunhal. "O actual Governo é o pior desde o 25 de Abril" Por quatro décadas este exagero foi dito e repetido à exaustão como um dogma. O alvo foram 20 governos das composições mais distintas, 12 primeiros ministros diferentes. Cada um deles o pior desde o 25 de Abril na época em que exerceu funções, Soares e Cavaco, Guterres e Barroso, o discurso permaneceu por 40 anos obtusa e tacticamente coerente. Foi preciso atingir-se um governo que fosse, a sério, o pior desde o 25 de Abril, acumulado com o perigo de que a mesma equipa governamental e a mesma ideologia liberal prosseguisse no poder para que o PCP arrepiasse caminho e contribuísse positivamente pela primeira vez em 40 anos para uma solução governamental. Devemos tratar as histórias dos 43 anos de Democracia da mesma forma como no PCP gostam que se tratem as dos 48 anos de Ditadura. Fazer por não as esquecer.

O COMBATE DOS CHEFES (44)

Estas últimas pranchas das histórias de Astérix, por se obrigarem a incluir o tradicional banquete com o bardo amarrado para não cantar, nunca se revelam muito interessantes, a não ser pela imaginação mostrada pelo desenhador (Uderzo) quanto ao plano de conjunto final.

24 abril 2017

OLHA QUEM FALA

Não se consegue ler este título no The Times, a descrever o rescaldo das presidenciais francesas, sem pensar numa certa desforra vingativa por aquilo que aconteceu há dez meses do outro lado da Mancha. Nessa altura foi a elite britânica a humilhada por se ter permitido convocar um referendo na presunção de que conseguia controlar o desfecho... Pela reputação do Times, parece que a disposição não é para que as elites respectivas se consolem reciprocamente nestas horas más.

MAPAS COMPARATIVOS ENTRE A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS - 1

O que aparece representado é a esperança de vida média nas grandes regiões dos países que compõem a União Europeia e nos estados que compõem os Estados Unidos. A escala é rigorosamente a mesma num lado e noutro, o vermelho mais escuro representando esperanças de vida mais baixas até ao verde escuro que as representa mais altas. Aceitando a esperança de vida média como indicador de bem estar a comparação é eloquente: a esmagadora maioria dos estados norte-americanos só se comparam às regiões dos países da antiga Europa de Leste. É caso para dar um significado renovado ao título do famoso filme de 2007 dos irmãos Coen.

O (OUTRO) COMBATE DOS CHEFES

Não foi apenas Emmanuel Macron que ganhou as eleições por ter conseguido obter a votação mais elevada, foi também Marine Le Pen que a perdeu por o não ter conseguido. Como um Napoleão em Waterloo, só a vitória eleitoral nesta primeira fase interessaria a Marine para, com ela e com o frenesim mediático que se seguiria, obter aquele elan que lhe permitisse disputar com a convicção do seu eleitorado a fase decisiva da segunda volta das presidenciais. Assim, esta arrisca tornar-se uma daquelas cerimónias de que se conhece a coreografia de antemão. Pela eliminação dos candidatos dos partidos tradicionais e pela passagem à segunda volta de um candidato de extrema direita e de um outro (que depois tudo deseja que ganhe), as presidenciais francesas assemelham-se ao que aconteceu na Áustria o ano passado. A diferença estará na diferença da relevância dos dois países na União Europeia e também nas responsabilidades políticas muito superiores que assentam sobre o presidente francês. As portas do Eliseu parecem-lhe escancaradas mas, como se deduz do que ontem ouvi na France 2 a um político de velha cepa como Jean-François Copé (Republicanos), os problemas de Emmanuel Macron vão começar quando ele, vindo do exterior dos aparelhos dos partidos, tiver que arranjar uma maioria parlamentar para governar a França. Já li por aí algumas opiniões expressas de que, por esta vez, os institutos de sondagens não se enganaram e que as reacções elogiosas nunca terão a proporção das críticas de episódios precedentes, casos do referendo do Reino Unido ou das eleições presidenciais americanas. Perdoou-se o plebeísmo da comparação, mas a referência às sondagens assemelha-se ao que se possa dizer sobre a arbitragem de um jogo de futebol: não nos podemos desfazer em elogios a uma arbitragem que cumpriu as suas funções de não se dar por ela. Se calhar é injusto, mas é a triste sina da arbitragem e dos institutos de sondagem.

23 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (43)

Na recomposição final das coisas para que a circunferência da história se encerre no ponto onde começara, destaquem-se apenas duas sanções: para políticos colaboracionistas (como Aplusbégalix) e para druidas vocacionados precocemente para a psiquiatria (Amnésix). Como já dissera aqui, é um bocado injusto para este último.

UMA NOVA COCA-COLA QUE NINGUÉM PEDIRA

23 de Abril de 1985. Com toda a força que as suas promoções sempre tiveram, a Coca-Cola anunciou para esse dia o lançamento da New Coke, que se anunciava ser a transformação da famosa fórmula secreta original da bebida para uma nova versão, mais adequada aos novos tempos. Durante a década anterior, a rivalidade da Coca com a Pepsi Cola, com esta a ganhar quota de mercado, tornara-se até um dos temas anedóticos da publicidade televisiva norte-americana (abaixo). Como produto, a Pepsi, porque mais doce, aparentava ser a bebida preferida na esmagadora maioria dos testes cegos que se realizavam. A rivalidade tornara-se mundial e transferira-se mesmo para os territórios mais hostis ao capitalismo: a Coca-Cola ganhara a corrida ao mercado chinês, mas a Pepsi Cola fora a primeira a instalar-se na União Soviética.

A New Coke apresentava-se assim como uma gigantesca mas indispensável operação de marketing para dar a volta a uma situação que à Coca-Cola parecia inexorável: a perda da liderança do mercado. A operação saldou-se directamente por um fiasco histórico, embora se viesse a concluir com um resultado satisfatório para a Coca-Cola e isso apesar do que haviam sido as intenções originais dos seus gestores e marketeers. Com a clarividência de se saber o desfecho, percebeu-se depois que uns e outros pareciam não perceber nada do que era a essência do seu negócio. As Colas são uma bebida social e o seu sabor é apenas um factor residual das fidelidades do consumidor. No caso da New Coke de há 32 anos, a facção conservadora dos norte americanos manifestou-se exuberantemente contra a mudança e não havia facção simétrica que os contradissesse.

Dois meses e meio depois a Coca-Cola voltava à produção da sua antiga fórmula escondida por detrás da designação de Coca Cola clássica. Gradual e discretamente, a New Coke passou para um papel secundário até ter deixado de se produzir. A operação serviu para mostrar como era possível que as grandes corporações capitalistas também adquirissem aquele vícios estruturais que só se costuma(va)m imputar aos organismos do estado e aos políticos. Aqui, os gestores, pressionados para fazerem qualquer coisa, também fizeram qualquer coisa, e o aparelho, neste caso representado pelo marketing, em vez de os alertar para os resultados dos estudos de mercado, adaptou-os para que dali se concluísse o que os gestores queriam ouvir. Numa manobra redentora final, apareceu o boato de que esta operação New Coke não passara de uma manobra rebuscada, mas genial, para reavivar a notoriedade à bebida...

O COMBATE DOS CHEFES (42)

Estas batalhas são um clássico dos livros de Asterix. Não há mortos nem feridos, apenas aleijados. Um pormenor de referir: o mocho aparecido na prancha 20 por cá continua, apesar desta desventura final do legionário Plutoqueprévus.

22 abril 2017

AS PEDRAS QUE SE ARREMESSAM... ACABAM POR CAIR EM ALGUM LADO

Os instantâneos foram colhidos acompanhando os protestos estudantis em Caxemira, assunto sobre o qual a comunicação social portuguesa não tem dito nada. O fotógrafo poderia vender a foto acima a uma das facções e a de baixo à dos seus adversários. Reunidas tornam-se num manifesto pacifista.

QUANDO E ONDE É QUE FOI O NOVO EXAME DO RELVAS?

A última vez que Miguel Relvas foi relevante para o panorama mediático foi quando o mandaram ir estudar RELVAS. Perdeu o título académico, mas não foi por isso que o motivou a agarrar-se aos livros. Até reaparecer recentemente ao lado de Luís Montenegro num almoço, em que este último finge que até teve uma ideia, mas onde o resto da notícia parece ter sido escrito directamente para a revista Caras, inventariando o peso e a panache das presenças na audiência. Num dia em que ficámos a saber que há quem, bombasticamente, dê Pedro Passos Coelho por politicamente morto (José Miguel Júdice), nada melhor que este reaparecimento do aluno refractário para começarmos a ter já pena do putativo defunto. Com o PSD assim os gajos no PS ainda se convencem que são muito bons...

QUEM SABE COMO SE FAZ, FAZ, E QUEM NÃO SABE...

...vai para o FMI comentar (criticar) os que obtêm resultados.
O vice Abdelhak S. Senhadji deve ter uma pátria (árabe) algures nesse Mundo que estará decerto ansiosa por beneficiar dos seus profundos conhecimentos, disciplinando-lhe as finanças. O que torna Portugal num país avançado é que o nosso país já deu para esse peditório...

21 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (41)

A ESTRATIFICAÇÃO DOS ACTOS DE HIGIENE PRIVADA

Quando nos deparamos com concepções arrojadas de designers russos, como é o caso desta casa de banho que se vê acima, confesso que não sei o que pensar: estaremos perante a expressão do que pode ser o mais puro génio russo como acontece na música com Tchaikosvsky ou na literatura com Dostoiévsky, ou isto é pura e simplesmente delirante? Se bem interpreto o que vejo, houve ali um cuidado em hierarquizar pelos pisos as várias funções que se desempenham numa casa de banho. Mas o critério, como veremos mais adiante, não pode ser o da funcionalidade pela frequência. A começar pelo urinol e pelo duche, no piso térreo sobre a direita. Banho, costuma tomar-se um por dia, embora as idas à casa de banho para urinar sejam bastante mais frequentes. O gesto que costuma estar associado a essas idas é o de lavar as mãos. Porém, com pouca funcionalidade, o lavatório encontra-se localizado no piso intermédio sobre a esquerda, o que obriga o utente a recolher os pertences e subir um degrau para o poder fazer. Mas o acto a que o designer resolveu atribuir indiscutivelmente a primazia foi o de defecar, ao colocar a sanita ao centro e numa posição mais elevada do que todos os outros apetrechos, quase como se se tratasse de um trono e o momento de o utilizar o supremo requinte dos vários actos de higiene privada que se realizam numa casa de banho. O único senão que encontro na concepção e no desenho é a singeleza do suporte do rolo de papel higiénico, a pedir um dispensador automático de folhas de papel macio e absorvente. Claro que, numa perspectiva feminista, circunstância na qual se dispensará a utilização do urinol térreo, todas estas conclusões são substancialmente alteradas...

LE PEN NA SEGUNDA VOLTA


21 de Abril de 2002. As sondagens à boca das urnas da primeira volta das eleições presidenciais francesas deixam os próprios e os observadores da comunidade internacional boquiabertos com o anúncio da passagem à segunda volta de Jean Marie Le Pen, o candidato da extrema direita. A data acabou por cunhar uma expressão política. Se, à época, a surpresa eleitoral foi a passagem do pai, quinze anos depois e na primeira volta das eleições presidenciais que terão lugar depois de amanhã, a grande surpresa acontecerá se a filha Marine Le Pen não passar à segunda volta. Se a expressão eleitoral da extrema direita é uma consequência dos problemas sociais da sociedade francesa (tese que é sempre passível de ser contraditada...), então é forçoso constatar que, nestes quinze anos, esses problemas terão estado cada vez mais longe de se resolver.

20 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (40)

A trapaça dos romanos a (não) acatar os resultados era previsível. Também não foi inesperada de todo a mesma atitude de uma facção dentro do Eurogrupo há uns três meses, antes de se saberem os resultados definitivos da execução orçamental (atitude desconfiada essa que foi entretanto esquecida...).

O ADIVINHO E A MENTIROSA

Há precisamente sete meses o líder trabalhista britânico Jeremyn Corbyn assegurava que a primeira-ministra Theresa May iria convocar eleições gerais daí a alguns meses. A afirmação era tanto mais importante quanto a visada havia assegurado no princípio daquele mês, na sua primeira grande entrevista depois de tomar posse, precisamente o contrário: que não iria convocar eleições antes de 2020, que o país precisava de um período de estabilidade depois das convulsões do resultado do referendo, blá, blá, blá,... Os factos encarregaram-se de dar razão completa às convicções de Corbyn. Fosse ele outra pessoa, e desconfio que a(lguma) imprensa britânica, assim como alguma outra internacional, estaria a dar verdadeiro relevo à presciência do dirigente trabalhista antecipando o tacticismo descarado da adversária. Mas não, nem os dois (elogio a Corbyn e crítica a May), nem só um, nem só outra. Nada. O próprio jornal Independent que acima publicou aquela notícia sobre a adivinhação de Corbyn parece agora esquecer-se de que o fez e só se interessa em saber se ele se irá demitir no caso de perder as eleições de 8 de junho. Porque, apesar de se verificar agora ter sido ele a dizer a verdade aos britânicos nesse aspecto das eleições e de, pelo contrário, a adversária ter mentido com todos os dentes que tem na boca, as sondagens mostram-se muito vantajosas para esta última, a antecipar uma vitória esmagadora sua nas urnas. Se calhar, os britânicos andam mais entretidos na imprensa a ler e ouvir as mentiras de Donald Trump do que se apercebem daquelas que lhes pregam directamente a eles...

O MASSACRE DE COLUMBINE

20 de Abril de 1999. Ao 18º aniversário do Massacre de Columbine pode associar-se o simbolismo de 18 anos ter sido a idade, não apenas dos dois autores do massacre, mas também de uma apreciável percentagem das vítimas (13 mortos e 21 feridos). Terão sido as elevadas consequências da tragédia que terão provocado a atenção mediática para o assunto dos tiroteios nas escolas norte-americanas. Foi aliás na sequência de Columbine que os serviços secretos foram encarregues de redigir um relatório sobre a questão, um relatório que se tornou público em 2002 e que compilava e procurava sintetizar um retrato padrão a partir das experiências recolhidas em 37 episódios semelhantes... Mas os factos continuarão a interessar mais o público do que propriamente as causas, pelo menos se atendermos à lição que se pode extrair da página da Wikipedia dedicada ao massacre de Columbine, onde os 27.000 caracteres dedicados à descrição metódica e detalhada de como ocorreu o massacre representam o triplo dos 9.000 onde se procura inventariar e especular posteriormente sobre quais terão sido as motivações e as causas para ele.

19 abril 2017

O COMBATE DOS CHEFES (39)

Veja-se como é com toda a moralidade, sem o doping da poção mágica, nem colinhos de qualquer arbitragem, que Abraracourcix derrota Aplusbégalix no Combate dos Chefes. Limpinho, limpinho...

O TÚMULO DOS PIRI...qualquer coisa

Se repararmos no título original em inglês do filme acima (Grave of the fireflies) talvez optar por O Túmulo dos Pirilampos tivesse sido a opção mais rigorosa. Mas, como o filme é infantil e todos conhecemos o sentido dúbio que a palavra pirilampo pode assumir - recorde-se abaixo Herman José a escangalhar-se repetidamente a rir ao tentar proferir o mandamento: Não pirilamparás a mulher do próximo... - talvez tivesse sido melhor assim, sem equívocos, para crianças modernas e desinibidas: O Túmulo dos Pirilaus!

Adenda: alguém me colocou a hipótese (que eu não previra) do tradutor não ser português e ter confundido as palavras, um pirilampo por um pirilau. Se assim, alguém o esclareça rapidamente da dimensão do erro, que há um que não brilha no escuro...

UM CONFLITO COM A PRODUÇÃO DOS ESTÚDIOS DISNEY?

o mencionei anteriormente, mas continuo boquiaberto de surpresa do como este episódio da frota norte-americana (que afinal só virtualmente se «encaminhava» para a Coreia) se assemelha tanto ao «conflito» (imaginário) com a Albânia no filme Wag the dog de há 20 anos, conflito esse que nas cenas abaixo vemos a ser produzido em estúdio sem decoração, com todos os requintes de selecção e montagem de uma paisagem, do som ambiente e até do animal de estimação empunhado pela vítima. Imagino o que estariam a pensar os 5.000 tripulantes do porta-aviões Carl Vinson, quando todos os davam a caminho de uma região de tensão e eles apontados para o outro lado... Mas pior ainda deve ter sido para as tripulações chinesas e russas dos navios que (supostamente) estariam encarregues de o acompanhar.

18 abril 2017

...E SE A UM 18 DE ABRIL FÔSSEMOS AO CINEMA?...

O exercício é curioso: que cartaz de cinemas disporíamos em Lisboa há precisamente 80, 70, 60, 50 e 40 anos? Se fosse há 30 anos (na imagem abaixo) e depois disso, a oferta cinematográfica com as salas múltiplas (Sala 1, Sala 2, Sala 3,...) distorcerá qualquer comparação que se possa fazer com as anteriores. Embora se trate de um apanhado pontual, sem pretensões a que se conclua nada dele, notem-se algumas curiosidades: a 18 de Abril de 1937 predominava a oferta de filmes de língua alemã: 42%. Seguiam-se os de língua francesa (25%) e só depois os norte americanos (17%). Dez anos depois, o cenário mudara radicalmente: em 75% dos filmes exibidos falava-se inglês, quer com o sotaque norte-americano (58%), quer com o britânico (17%). Os filmes franceses mantinham a sua quota aparente de 25%. A amostra colhida na década de 1950 dá um resultado surpreendente: não o primeiro lugar do cinema norte-americano (50%), mas o segundo lugar ex-aequo do cinema italiano e espanhol (17% cada). Na década seguinte há um recuo dos norte-americanos (38%), acompanhado de uma consolidação dos italianos (24%) e um reaparecimento dos franceses (14%), para finalmente em 1977, já depois do 25 de Abril, a amostra revelar um resultado muito semelhante, os imperialistas norte-americanos ainda em maioria (42%), a que se seguiam os italianos (25%) e franceses (13%). A ideia de proceder a este exercício, ainda que rudimentar, surgiu-me ao ouvir alguém recentemente a fazer uma descrição de um passado do cinema exibido em Portugal que só deve ter existido na imaginação dele...

A ATENÇÃO À TENSÃO NA COREIA

A superficialidade como se está a cobrir a situação na Coreia dificulta bastante que eu consiga levar o assunto com a seriedade que ele, se calhar, merecerá. Que relevo poderá ter a presença de um mero porta-aviões nas águas adjacentes a uma península de 220.000 km² onde, para mais, já se conhece o precedente histórico de um conflito moderno que durou três anos (1950-53) e que envolveu largas centenas de milhares de combatentes? Como é que se consegue anunciar a movimentação de 150.000 soldados como se isso fosse qualquer coisa que se fizesse assim de um dia para o outro? Nestas guerras, as grandes unidades navais de combate anunciam o seu destino ostensivamente mas navegam bem devagar, enquanto, em contrapartida, parece não existirem problemas de logística entre os exércitos de terra e há até quem opine que os fiascos tecnológicos são malandrices encapotadas (acima) nos ramos do armamento mais sofisticado. Se fosse há muitos anos, comparar-se-ia a situação à guerra do Solnado. Como já estamos no século XXI, as comparações sofisticam-se para filmes como Manobras na Casa Branca (Wag the dog), a alusão a uma guerra oportunamente coreografada por um produtor de Hollywood para desviar as atenções de um episódio embaraçoso para a presidência. A propósito: alguém deu por alguma evolução recente em relação ao assunto das conexões russas com a candidatura de Donald Trump?...

«ÚLTIMAS» NOTÍCIAS

Hoje, como já há precisamente cinquenta anos, a Coreia do Norte exime-se de qualquer contenção quando o exercício é o da exibição no grande palco da cena internacional, ameaçando tudo e todos. A edição de 18 de Abril de 1967 do Diário de Lisboa dá-lhe este destaque de primeira página a um incidente envolvendo a projecção de um filme na sala de negociações conforme se percebe pela transcrição da notícia abaixo.

Panmunjon, 18 – A Coreia do Norte ameaçou hoje recorrer á força para impedir o comando das Nações Unidas de utilizar as reuniões da comissão militar de armistício para fins de «propaganda política mal intencionada».

Ambas as partes, durante a reunião de hoje, atribuíram á outra a responsabilidade das desordens que estalaram na reunião de sexta-feira passada e que terminou com o abandono da sala pela delegação norte-coreana, depois de os americanos terem passado um filme sobre a viagem do presidente Johnson á Coreia do Sul, em Novembro último.
O chefe da delegação comunista acusou o comando das Nações Unidas de, ao fazer propaganda política, estar a torpedear o acordo de armistício, que tem 4 anos*. «Deviam trazer Johnson para a conferência em vez de fitas de cinema. Se continuarem a servir-se deste local para fazerem propaganda política mal intencionada, não teremos outro remédio senão recorrer á força para o impedir».
O chefe da delegação das Nações Unidas, o general americano Richard Ciccolella, disse, por seu turno, que só mostrou o filme para refutar as afirmações comunistas de que o povo da Coreia do Sul estava a sofrer o «domínio imperialista americano».
Ciccolella disse também que a conferência estava a ser ameaçada pelas tácticas de violência usadas pelos norte-coreanos e recordou que um jovem oficial norte-coreano «comportando-se como uma fera, pegara num cinzeiro e ameaçara atirá-lo».
 
* Trata-se de um erro do jornalista, na verdade seriam 14 anos à data da redacção da notícia (nota pessoal).