22 agosto 2017

A DECLARAÇÃO DE GUERRA DO BRASIL

22 de Agosto de 1942. Há 75 anos o Brasil declarava guerra simultaneamente à Alemanha e à Itália. Mas haveria que esperar dois anos, pelo Verão de 1944, para que as tropas brasileiras se engajassem em Itália na guerra contra a Alemanha.

OS LOUROS DE CÉSAR (16)

Fixem-se os ingredientes da receita pois esta vai tornar-se importante para a evolução da história. Num registo mais sério e para quem quiser saber mais sobre o modo como os romanos cozinhavam - e tentar reproduzi-lo em casa - há vários livros.

21 agosto 2017

«WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS»


21 de Agosto de 1940. Como alguém hoje me recordou, foi há 77 anos que Lev Trotsky morreu assassinado no México - morreu mas com uma pequena ajuda dos seus amigos (with a little help from (his) friends). Como se se tratasse de uma resposta ao primeiro verso da canção (What would you do if I sang out of tune?), é sabido que entre os comunistas sempre se teve pouca paciência para os que cantavam desafinados (...sang out of tune...). E 21 de Agosto, mas de 1968, é também o dia em que a União Soviética e outros países do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia. Neste outro caso foram os amigos russos e polacos e húngaros e alemães e búlgaros que foram todos dar uma pequena ajuda aos checos e aos eslovacos. 21 de Agosto é uma data repleta de exemplos de amizade dialéctica, a merecer a evocação desta imortal canção dos Beatles.

OS LOUROS DE CÉSAR (15)

Aquela piada a respeito de pôr os dois gauleses a cozinhar como alternativa ao cozinheiro bretão (inglês) Autodidax só se perceberá se tomarmos em conta que, na época em que a história foi concebida, a habilidade dos ingleses para a cozinha era considerada nula. Hoje, já não é bem assim. Há uma data de figuras mediáticas inglesas que escrevem livros e têm programas de televisão a respeito do assunto, como é o caso do Jamie Oliver. O que não quer dizer que os ingleses tenham necessariamente aprendido a cozinhar. A receita de paella de Jamie Oliver, é célebre pelos maus motivos:

O NADADOR QUE FEZ O SEU MINUTO DE SILÊNCIO SOZINHO


Conta-se nos jornais: «O nadador espanhol Fernando Álvarez pediu à organização do Mundial de Masters de Budapeste, em que está a participar, que fosse feito um minuto de silêncio antes da realização das provas em homenagem às vítimas do atentado de Barcelona. A organização recusou. “Não se pode perder nem um minuto”, foi a resposta da organização da prova de veteranos ao nadador espanhol. Álvarez não se conformou e, quando chegou a sua vez de competir, na prova dos 200 metros bruços, quando todos os outros nadadores partiram, o espanhol ficou quieto e em silêncio durante um minuto na prancha, e só depois partiu, acabando por perder a prova.»

É uma história daquelas que apetece mesmo contar, com uma boa causa e um David bem intencionado contra uma organização insensível, mas despersonalizada, que acaba sancionada no fim - acabou obrigada a perder o tal minuto que alegadamente "não se podia perder". O que esta história em particular tem de diferente em relação a centenas de histórias parecidas precedentes, figurantes que subvertem a cenografia de que faziam parte, é que a colaboração do realizador de TV com a organização tornou-se actualmente num detalhe irrelevante: há não sei quantas câmaras opcionais a captar as imagens de uma perspectiva inconveniente para quem quereria que o assunto fosse abafado. Não se tratou apenas de fazer o minuto de silêncio, foi sobretudo a particularidade de o ter feito ao arrepio da organização e, sobretudo, as imagens do gesto.

20 agosto 2017

O ECLIPSE AMERICANO

Neste anúncio de um MacDonalds algures nos Estados Unidos profundos, o gerente precavido avisa os seus clientes que os seus empregados irão interromper as suas funções amanhã entre a 1H17 e a 1H20 da tarde, para verem o eclipse solar. Retomarão o trabalho à 1H21. É que amanhã (21 de Agosto) vai haver um eclipse solar sobre os Estados Unidos. E desconfio que amanhã, todos aqueles que consultam a informação, vamos descobrir facilmente isso...
E contudo, um eclipse do Sol é um fenómeno relativamente comum. Costuma haver pelo menos dois eclipses por ano. Há quase precisamente um ano (a 1 de Setembro de 2016, acima), houve um sobre África, enquanto há coisa de meio ano (26 de Fevereiro de 2017) houve um outro atravessando desde a América do Sul até África passando pelo Atlântico Sul (abaixo). E os próximos dois eclipses (em Fevereiro e Julho de 2018) ocorrerão sobre a Antártida.
O que é curioso é apercebermo-nos da repercussão noticiosa que um destes fenómenos pode receber. É expectável que aqueles que têm lugar na Antártida ou sobre o Polo Norte (daqui por um ano, em Agosto de 2018) a tenham muito pouco, por falta de espectadores. Mas, quando o eclipse ocorre nas regiões mais densamente habitadas, é natural que a comunicação social dessas regiões dê relevo ao fenómeno, tanto mais que existirá uma curiosidade natural, nunca saciada, do público.
O que é menos expectável é que as regiões não afectadas pelo eclipse - é o caso da Europa em geral e de Portugal, em particular - possam atribuir um relevo noticioso distinto ao mesmo fenómeno celeste, conforme o local onde ocorre. Alguém ainda se lembra das repercussões noticiosas do eclipse de há seis meses, tanto mais que ele até ocorreu sobre Angola? Pois bem, preparemo-nos para amanhã tirar as dúvidas, se, até nisto, a comunicação social portuguesa (e europeia) não está acriticamente engodada com o que se publica nos Estados Unidos...
PS para os leitores que não consultam os links: Será que a Radio Comercial vai repetir o seu cabeçalho de há seis meses: «Hoje há eclipse solar mas Portugal nem vai dar por isso»?

O LANÇAMENTO DA VOYAGER 2


20 de Agosto de 1977. Foi há precisamente quarenta anos que foi lançado de Cabo Canaveral um foguetão Titan IIIE transportando a sonda Voyager 2. Paradoxalmente, considerando a numeração, a sua irmã gémea Voyager 1 só viria a partir 16 dias depois, a 5 de Setembro. Mas a diferença entre as missões de ambas iria fazer com que a Voyager 1, justificando o número, assumisse uma trajectória mais curta e alcançasse primeiro Júpiter dali por 18 meses (Março de 1979) e Saturno 20 meses depois disso (Novembro de 1980).
Todavia, numa espécie de reedição da corrida da lebre e da tartaruga, embora numa escala sideral, a Voyager 2 só chegou a Júpiter 4 meses depois (Julho de 1979) e a Saturno 9 meses depois (Agosto de 1981) da sua irmã. Mas veio a desforrar-se depois, porque foi a primeira - e até agora única - missão a explorar os dois planetas seguintes do Sistema Solar: Úrano (Janeiro de 1986) e Neptuno (Agosto de 1989). As boas imagens existentes daqueles dois gigantes gasosos (abaixo) e dos seus satélites devem-se à Voyager 2.
Depois dos 12 anos de uma missão complexa que a levou a passar pelos 4 maiores planetas do nosso Sistema Solar (1977-1989), a Voyager 2, já semi retirada mas ainda activa, prossegue ainda hoje a sua viagem já nos confins do sistema, distanciando-se do Sol a uma velocidade de 55.570 km/h. A sua distância actual para o planeta donde partiu é mais de 100 vezes superior à distância que separa a Terra do Sol (150 milhões de km). O hiato das comunicações com a sonda é actualmente superior às 15 horas mas espera-se que a Voyager 2 nos vá dando notícias pelo menos até 2025.

DEZANOVE VALORES!

Grande Marcelo!
Ao deslocar-se a Barcelona para apresentar os seus pêsames no local à família portuguesa enlutada, teve um gesto que não imaginamos a qualquer dos seus predecessores. Já se sabia mas convém repeti-lo: Marcelo é um estilo! Ao decidir-se a comparecer à missa de hoje acabou por "arrastar" António Costa a atravessar toda a península a um Domingo de madrugada para estar de manhãzinha em Barcelona. A presença dos dois na cerimónia religiosa deu um relevo particular, pela importância da representação, à solidariedade portuguesa, criando uma situação a que os espanhóis deram o natural destaque protocolar (acima). Mais nenhum país correspondeu da mesma forma, nem aproximadamente. Como país vizinho, Portugal tem que se esmerar nestas ocasiões, mas desta vez, esmerou-se Mesmo! Menos óbvio e um bocadinho mais rebuscado: os agradecimentos de Mariano Rajoy a António Costa em directo na TV não escondem que, para um círculo político restrito mas importante, a própria pessoa do primeiro-ministro português a circular em Espanha é uma bandeira a uma solução política ("geringonçal") que não é nada conveniente para o presidente do governo espanhol.

Adenda: Menos bem: a notícia de que os dois teriam regressado de Barcelona no mesmo avião. Se for assim, não se deve brincar com a segurança.

OS LOUROS DE CÉSAR (14)

Cláudio Qualquerius, o pater familias, não se ensaia nada de tratar em voz bem alta o seu filho, Graco, por imbecil. Mas isso eram os romanos (e Goscinny), que ainda não haviam ouvido falar dos pedopsicólogos...

19 agosto 2017

OS VISIONÁRIOS E OS REALISTAS

Embora frequentemente se antagonizem, há muitas coisas nesta vida que resultam da síntese dos visionários e dos realistas. No caso da fotografia acima, por exemplo, se há quem antecipe o futuro traçado da via e a imagine já cheia de trânsito, também pode ter sido alguém que tenha encontrado em armazém algum excesso daquela tinta branca para pavimentação e tenha logo feito a passadeira...

O «RAID» DE DIEPPE

19 de Agosto de 1942. Neste dia de há 75 anos, uma força britânica, mas maioritariamente composta por canadianos, realiza um raid sobre a vila costeira francesa de Dieppe. O plano de operações original dos atacantes era o de derrotar as defesas alemãs instaladas nas praias e ocupar a vila por algumas horas, destruindo as infraestruturas que pudessem aproveitar aos alemães, antes de reembarcar. No fundo, tratava-se de uma exibição de força e ousadia. Entre as unidades que iriam participar no assalto contava-se um regimento blindado, equipado com mais de 50 tanques Churchill e viaturas de reconhecimento Dingo. Por seu lado, a Royal Navy agrupava oito destroyers para apoiar a força de desembarque anfíbia, que incluía mais de duzentas embarcações, e a Royal Air Force mobilizava 74 esquadrões para lhes propiciar uma cobertura aérea adequada. Um esforço agregado, quando considerados todos os ramos, de cerca de 10.500 homens, dos quais 6.000 (5.000 canadianos e 1.000 britânicos) desembarcariam em terras francesas logo pelas 05H00 da manhã.
Do outro lado (e entenda-se a expressão com mais do que um sentido, porque Hitler estava do outro lado da Europa, em Vinnytsia na Ucrânia, de visita à Frente Leste), o susto foi grande, mas passou depressa. Para além da 302ª divisão, que guarnecia a região, o general Adolf Kuntzen, comandante do 81º Corpo de Exército, apressou-se a accionar em resposta as divisões móveis existentes em reserva, a divisão Leibstandarte SS Adolf Hitler e a 10ª divisão panzer. Mas nem chegaram a ser precisas. O desembarque veio a ser um fracasso completo para os atacantes, detido apenas pelos meios locais - 1.500 homens. A lista das perdas dos atacantes impressiona: perderam 33 das embarcações envolvidas no desembarque, para além de um dos oito destroyers que as apoiava; a RAF perdeu 106 aviões, o dobro das perdas sofridas pela Luftwaffe (48); mas o pior para a moral dos assaltantes foram, não apenas os mortos (900 contra 300 alemães), mas sobretudo os que tiveram de ficar para trás, aprisionados, por impossibilidade de os reembarcar - cerca de 2.000 homens (acima e abaixo).
Em suma, uma hecatombe militar, a que há que acrescentar o adicional de ter durado pouco tempo: às 9H00 da manhã já os assaltantes se tinham apercebido da inutilidade dos seus esforços e dado ordens para o reembarque. O pior era cumprir essas ordens debaixo do fogo nutrido que varria as praias. O tenente-coronel Dollard Ménard (abaixo), por exemplo, que comandava os Fuzileiros de Mont-Royal (uma unidade francófona), acabou sendo evacuado pelos seus homens mas depois de ter sido ferido por cinco(!) vezes. Contudo, 60% dos seus 900 fuzileiros ficaram para trás. Lê-se nos relatórios dos alemães que às 16H00 todo o comércio de Dieppe reabrira como se se tratasse de um dia normal. O comportamento dos habitantes locais fora irrepreensível, tendo inclusive havido casos de auxílio à captura de soldados britânicos transfugidos. Como gesto de retribuição, Adolf Hitler mandou libertar os prisioneiros de guerra franceses de 1940 que fossem oriundos de Dieppe - cerca de 1.500. A moral e a confiança dos alemães atingiu um novo patamar.
Do outro lado do Canal, travou-se uma outra batalha para reinventar a operação militar e a História, em busca de um paradigma diferente do verdadeiro fiasco total em que ela se tornara. O almirante Louis Mountbatten (abaixo), que, à frente das Operações Combinadas, mostrara ser o maior apoiante e entusiasta da iniciativa, bem podia ser um militar imprudente e medíocre, mas também se mostrava um cuidadoso gestor da sua imagem numa época em que o conceito era novo e conseguiu escapulir-se das consequências. A explicação e justificação que no QG de Mountbatten se foi desencantar para a debacle era, entre outras (para além da inexperiência das tropas canadianas*), que as insuficiências detectadas pelo desembarque de Dieppe vieram a ser apreendidas e solucionadas, para que se poupassem milhares de vidas naquele que veio a ser o desembarque da Normandia. Uma tese ridícula que só não foi mais ostensivamente contestada por causa das necessidades de guerra. Mas os canadianos nunca perdoaram o sacrifício de tantos a Mountbatten, que sempre foi considerado naquele país uma persona non grata.
Mas o melhor comentário a respeito daquela desculpa disparatada inventada pelos britânicos para justificar este seu triste desastre militar (que lhes custou mais de 900 mortos), é o comentário que atribui - ironicamente - a Louis Mountbatten um conceito inovador na «doutrina de instrução» das suas tropas: a realização de manobras onde, para além do emprego de fogos reais, se envolveria a participação de inimigos reais. E rematava-se sarcasticamente: as tropas ficavam muito bem instruídas, veteranas mesmo, os custos humanos e materiais é que se assemelhavam aos das batalhas a sério...

* Tão inexperientes quanto todas as unidades que vieram a desembarcar nas praias da Normandia...

OS LOUROS DE CÉSAR (13)

E continua o absurdo: enquanto os dois gauleses desancam os homens da segurança de Tifus, há alguém que os acha divertidos e pretende comprá-los. As negociações têm lugar por interposta pessoa (mais uma vez se percebe que Astérix não tem mesmo jeito para negociar) e são os próprios escravos que pretendem pagar o valor acordado a um ultrajadíssimo Tifus. Um dos episódios que poderá escapar ao leitor decorre simultaneamente por detrás da acção principal, ao jeito dos gags múltiplos de um filme de Jacques Tati: a antipática da escrava velha, que começa por «protestar em nome de todo o stock», acaba por ser uma merecida vítima colateral da pancadaria, ao apanhar em cheio com um dos adversários despachados por Obélix. Num dos quadros da próxima prancha, vemo-la KO em cima do palco (abaixo).

18 agosto 2017

A IMAGINAÇÃO AO PODER?

A julgar pelas capas das revistas internacionais de grande circulação desta semana, nem por isso... Nem no poder, nem no contra-poder.

O JOGO DA VERMELHINHA, MAS EM AZUL CLARINHO

Aparecido em 1976, o jornal comunista O diário e o seu slogan a verdade a que temos direito tornou-se o paradigma do que pode ser um jornalismo dedicadamente rendido a uma causa ideológica, aquilo que de mais parecido poderia haver com uma publicação partidária como o Avante!, embora aparentemente desfardada da sua militância. O que surpreende foram os catorze anos de sobrevivência da publicação (1976-1990), mas o que perdurou na memória colectiva era aquele famoso slogan que sempre se prestou a duas interpretações antagónicas: a) ou a Verdade que era sonegada pelo resto da comunicação social; b) ou uma Verdade alternativa à que era publicada pelo resto dessa comunicação social. Quanto ao que se publicava em O diário, não sei se se tratava verdadeiramente de jornalismo, mas reconheço que era um estilo de redigir notícias...
...que quarenta anos depois vi recuperado pelo outro extremo do espectro partidário no jornal Observador. Deixa de ser vermelho para passar a ser azul claro mas o facciosismo continua lá todo. Tomemos o exmplo escandaloso destas duas notícias que têm um ano a separá-las e se referem ao mesmo assunto: o desempenho da economia portuguesa no 2º trimestre do ano (1) e (2). O autor das duas notícias é até o mesmo: Nuno André Martins. Mas, como o que ele escreve não foi concebido para ser lido em conjunto, o resultado não é nem coerente nem consistente. A ideia parece ser apresentar os resultados do crescimento económico como insatisfatórios, qualquer que tenha sido a sua expressão. Ora assim não vale, assim parece o jogo da vermelhinha, aquele onde nunca se acerta na carta (há por lá quem saiba do que se trata), só que no Observador a carta da aldrabice é em azul claro...
Mais do que isso: é admissível confiar em malabaristas deste calibre para fazerem «Fact-Checks»? Obviamente que não.

OS LOUROS DE CÉSAR (12)

A página é de um humor absurdo. Os membros do mostruário mostram-se de um segregacionismo paradoxal, considerando que são apenas escravos. A escrava velha comenta reprovadoramente o hálito a vinho de Obélix e o escravo efeminado faz um comentário que se pretende tão espirituoso quão desdenhoso (mas que se perde na tradução*), embora o protagonismo dos insultos e da sofisticação vá para o atleta grego que assume sucessivamente poses de esculturas clássicas como O Pensador (1º quadro), Laocoonte e seus filhos (3º quadro) ou O Discóbolo (5º quadro) enquanto antipaticamente esgota a paciência dos gauleses com provocações sucessivas. Suponho que qualquer leitor tenderá a acolher com simpatia a reinterpretação em estilo moderno da pose do Discóbolo no 6º quadro. Mas toda a animosidade e os danos no mostruário foram demais para o senhor Tifus e para a preservação da imagem de qualidade do seu estabelecimento...
* «pacotilha de argonauta» (4º quadro) é um insulto que não faz qualquer sentido em português. No francês original «pacotille à l'argus» é um trocadilho com a expressão «pas côté à l'argus" que é uma expressão utilizada em França no comércio dos automóveis usados. O valor destas viaturas, tomando em conta o ano de fabrico e a quilometragem, costumam estar cotadas no jornal L'Argus. Não estar ali cotado (pas côté à l'argus) significa que a viatura usada é considerada como tendo um valor comercial residual.

A BATALHA DE GRAVELOTTE

18 de Agosto de 1870. Foi nesta paisagem discreta e plácida que naquele dia de há 147 anos se travou a que viria a ser a maior batalha da Guerra Franco-Prussiana, a Batalha de Gravelotte (conhecida por Batalha de Saint Privat do lado francês). Como se pode observar, muitos dos 6.500 mortos que nela tombaram ainda hoje lá estão, alinhados nas suas sepulturas ou depositados nos ossários. Na fotografia de cima, ao fundo, no edifício onde se descortina uma águia imperial alemã, está instalado um museu, o Museu da Guerra de 1870 e da Anexação, um museu de reinauguração recente (2014) e que tive a felicidade de descobrir por acaso quando por ali passei há uns três meses (nestas viagens e como no resto, as programações bem feitas devem incluir tempo para as improvisações irrecusáveis). O Museu e o cemitério complementam-se. Se virem o vídeo abaixo hão de reparar, por volta dos 00:45, na profusão de buracos que foram deixados pelas balas nas paredes da igreja, buracos que assim permanecem há 147 anos, pormenor que confere uma dose de realidade impressiva aos visitantes.

17 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (11)

Apesar de toda a autopromoção os nossos dois heróis não conseguiram nada melhor do que ser exibidos à consignação.

A MORTE DE RUDOLF HESS

17 de Agosto de 1987. Rudolf Hess suicidava-se na prisão de Spandau em Berlim onde cumpria pena de prisão perpétua. Tinha 93 anos. Era o último dos condenados dos julgamentos de Nuremberga que ali cumpria a sua pena e não propriamente dos mais argutos daquele grupo. Desde 1966, com a libertação de Albert Speer e Baldur von Schirach, que a prisão funcionava exclusivamente por sua causa. Outros condenados a prisão perpétua haviam sido soltos por razões de saúde, casos de Erich Raeder e Walther Funk. Ao longo dos últimos anos da detenção haviam-se conjugado razões humanitárias e económicas propondo a libertação do último grande dirigente nazi. Sem efeito - a culpa era atribuída aos russos. E, aquela percepção de que o transcorrer do tempo, só por si, é um precioso auxiliar da História, soltando os detalhes que, na época dos acontecimentos, haviam permanecido obscuros por interesse de uma das partes, neste caso de Rudolf Hess é coisa que não parece aplicar-se. À data do seu suicídio, 46 anos depois dos acontecimentos e 42 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, permaneciam (quase) as mesmas dúvidas iniciais sobre as razões que haviam levado Rudolf Hess a pilotar pessoalmente e com grandes riscos pessoais um avião para se dirigir a um país inimigo (Reino Unido), para aí promover conversações de paz para as quais ninguém o havia mandatado. 30 anos depois da sua morte, melhores propostas para explicar o que aconteceu não apareceram, nem há perspectivas de que venham a aparecer. Também a sua morte é outra controvérsia. Há opiniões que defendem que ele não se suicidou. Mas então, por que se esperou tanto tempo para o suicidar? (Tanto mais que Hess já fizera uma tentativa em 1977?)

16 agosto 2017

QUANDO OS REVOLUCIONÁRIOS ERAM MAIS IMPORTANTES QUE AS ESTRELAS ROCK

Ainda 16 de Agosto de 1977. Morria num acidente em Moçambique Ramiro Correia, que fora um dos militares de Abril. Não propriamente um militar do 25 de Abril (era primeiro-tenente médico...), mas um dos militares do depois do 25 de Abril, do PREC. Foi marcante o seu desempenho à frente da 5ª Divisão, que se tornara o órgão doutrinador da facção comunista do MFA. Tornara-se por isso um dos derrotados do 25 de Novembro. Por causa da coincidência das datas, é interessante fazer a comparação de como era feita a cobertura noticiosa no Diário de Lisboa (um jornal comunista) daqueles dois óbitos.
 
«Todos os portugueses que para sempre se integraram no "25 de Abril de 1974" estão hoje de luto.» Era assim que começava, logo na página 2, a notícia da morte acidental de Ramiro Correia aos 39 anos, que era até precedida de uma chamada de primeira página (acima, à esquerda).
 
«Milhões de admiradores estão hoje de luto pela morte de Elvis Presley, o rei do "rock-roll" e ídolo de uma geração». Mas, apesar do preâmbulo, e porque não tinha qualquer outro destaque, a tal geração tinha que ter folheado o jornal até à página 13 para ler a notícia da morte do seu ídolo.
 
Tempos de critérios editoriais bem bizarros.

«I REMEMBER ELVIS PRESLEY»


16 de Agosto de 1977. A meio de um Agosto sempre parco de notícias, as redacções internacionais e as domésticas de há 40 anos animam-se com a notícia da morte de Elvis Presley aos 42 anos (1935-1977). O pesar é grande mas a história da decadência do artista é confrangedora. Apanha-se uma dose cavalar das músicas do defunto, algo adicionalmente penoso, já que não há tempo para filtrar o material vindo do Estados Unidos onde, aí de facto, o artista fora genuinamente popular. A Europa associa-se assim à comoção e ao pesar pelo acontecimento, mas por uma boa dose de inércia de estar tudo de férias. Pináculo dessa solidariedade europeia pela perda dos norte-americanos, um holandês vai gravar dai por umas semanas uma marcante canção alusiva ao passamento de Elvis Presley que irá atingir os topes... europeus.

OS LOUROS DE CÉSAR (10)

Convém comentar que, se a táctica de Obélix de há duas pranchas - entrar pelo palácio de Júlio César e partir aquilo tudo até encontrar a coroa de louros - parecia ser de uma simplicidade infantil, este plano de Asterix não estará desprovido das suas críticas. Tornarem-se escravos para entrar no referido palácio deixa por explicar como é que posteriormente vão recuperar a sua alforria. No entretanto, realce-se do quanto esta página é marcante pela sua amoralidade: o comércio de escravos é retratado como se se tratasse de um outro negócio qualquer, um mercado com pregões e em que há casas selectas que se distinguem pela sobriedade do seu mostruário. A mercadoria não sai embrulhada, mas pode sair acorrentada. O produto diferencia-se pela origem - Tifus promove «um lote de bretões, acabado de chegar». Lembrei-me muitas vezes das imagens desta página quando do apogeu da promoção dos gurus locais do liberalismo, há uma meia dúzia de anos. Por eles, não havia razão para nos condoermos por aqueles que estavam no sopé da sociedade.

15 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (9)

Um escravo que se mostra, para além de resignado, contente e mesmo algo orgulhoso, da sua pessoa («...sou de óptima qualidade, mas pouco dócil...») e da sua função («...não é que me aborreça, mas o meu ofício é de um tal servilismo.») constitui um desvio àquilo que seria (e creio que ainda é) o pensamento admissível a respeito do tema da escravatura. Está a banalizá-la.

A INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO


15 de Agosto de 1947. Há precisamente 70 anos a Índia e o Paquistão alcançavam simultaneamente a independência, dividindo entre si os territórios do subcontinente que haviam estado submetidos ao raj britânico. Os desejos de John Bull no cartoon abaixo não se concretizaram. a partição da Índia esteve muito longe de ser pacífica.

14 agosto 2017

A HISTÓRIA (IMERECIDAMENTE) ESQUECIDA DO PoSAT-1

Não sei quantos se recordarão ainda do PoSAT-1, um micro-satélite com uns 46 kg que foi lançado para o espaço a partir de Kourou, na Guiana, a 26 de Setembro de 1993, por um foguetão Ariane-4 da Agência Espacial Europeia (ESA). Do ponto de vista estritamente astronáutico, o satélite quase nada teria de importante: o PoSAT-1 era apenas um dos sete satélites da carga daquele Ariane-4 e, só naquele ano de 1993, realizar-se-iam mais seis lançamentos de outros foguetões Ariane-4 naquela mesma base de Kourou. Se adicionarmos ao programa desenvolvido pela ESA, os lançamentos que eram efectuados em paralelo pelas suas rivais norte-americana (NASA), russa (Roscosmos), chinesa, japonesa, indiana, etc., teremos uma melhor ideia da banalidade do feito. Mas isso seria apenas a questão técnica da façanha.
Politicamente porém, tratava-se do primeiro programa exclusivamente português no género e aí, para benefício da propaganda doméstica (na altura, imperava o cavaquismo), a história foi explorada até ao tutano. Também nada que fosse especificamente doméstico: um dos companheiros do PoSAT-1 era o Kitsat-2, outro micro-satélite, o segundo a ser enviado para o espaço pela Coreia do Sul. Dir-se-ia que estava na moda cada país ter os seus satélites. O português ainda fora montado em Inglaterra (o coreano já fora montado na própria Coreia), custara uns 8,5 milhões de euros (a preços actuais) e, para efeitos de propaganda, tinha um «pai». Só o pai, como acontece agora com Cristiano Ronaldo. O pai do primeiro satélite português. Nos artigos a propósito (acima), não se podia falar do engenho sem se falar do pai e (de preferência) com o pai. O pai (era) é Fernando Carvalho Rodrigues.
Acontece que, para além de outros predicados que o terão levado a chefiar a equipa responsável pelo PoSAT-1, Fernando Carvalho Rodrigues era extremamente parecido com o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) como se pode ver acima. E foi essa característica e não outras mais abonatórias, que, estranhamente, esteve na origem deste poste. Associando-o à Festa do Pontal do PSD de ontem, lembrei-me que foi na sua edição do ano seguinte ao do lançamento do primeiro satélite português (1994), que o vi a fazer um play-back do famoso tenor italiano. Tratando-se de um comício político foi bizarro e teve uma graça que o correr dos anos foi esbatendo. Fernando Carvalho Rodrigues revela-se uma pessoa estimável, mas o PoSAT tornou-se um consórcio que, descontado o seu efeito de propaganda à época, fracassou nos seus objectivos de uma intervenção de Portugal autónoma no espaço: admita-se que 24 anos é tempo demasiado para ainda estar à espera de um PoSAT-2...
Nota suplementar: já agora, para comparação e porque o referi, veja-se por este meu poste, até onde evoluiu entretanto o programa espacial sul coreano. Desenvolveram os seus próprios foguetões e, em 2009, um deles colocou pela primeira vez um satélite sul coreano em órbita. No ano anterior, um protocolo com os russos tinha dado oportunidade a que, pela primeira vez, um cosmonauta sul-coreano viajasse até ao espaço, por sinal, uma mulher.

A BATALHA DE ALJUBARROTA

14 de Agosto de 1385. Data da Batalha de Aljubarrota. Há cerca de uns cinquenta anos, o desenhador português Vítor Péon contava a história da batalha em três pranchas de BD.
Repare-se o contraste como é desenhado o rei português que aparece no quadrado da esquerda imediatamente acima e o rei castelhano, também do lado esquerdo mas imediatamente abaixo.
Há quase cinquenta anos que me lembro da imagem, mas não consigo identificar o que enfeita a espada ensanguentada do combatente da imagem do meio. Serão as tripas de algum inimigo?...

OS LOUROS DE CÉSAR (8)

Obélix é incapaz de perceber a ironia do plano apresentado por Astérix mas, em contrapartida, é capaz de ter a perspicácia de identificar os que estão mais vocacionados para sair do que para entrar.

13 agosto 2017

A "PICHAGEM" COMO RESPOSTA MAIS EFICAZ À DESFAÇATEZ POLÍTICA

Confesso que ver estes outdoors afixados com toda a desfaçatez me desperta uma vontade tremenda de os ir lá pichar, com alguns dos aspectos mais relevantes da escroqueria de Isaltino Morais. Para quem já se tenha esquecido do que foi o episódio do terreno cabo-verdiano que foi doado «a título pessoal» a Isaltino Morais (acima), ele encontra-se desenvolvido aqui no Expresso. O muito mais conhecido caso do sobrinho taxista que detinha uma conta na Suíça por onde passaram milhões (abaixo), esse pode ser recordado aqui do Diário de Notícias. Não deixa de ser engraçado que aquele que é tradicionalmente considerado o mais feroz jornal para estes casos de corrupção, o Correio da Manhã, se mostrou imensamente benigno quer num caso, quer noutro. Tenho a certeza que, se a Tânia Laranjo tivesse tratado os representantes de Isaltino Morais daquela mesma forma que ela trata João Araújo, o representante de Sócrates, as notícias não teriam saído assim...