22 outubro 2017

ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES


Se a obra de Samuel Huntington se designa por Choque de Civilizações o que aqui pretendo fazer é uma Associação de civilizações. A Orquestra é a Filarmónica de Berlim, o maestro é japonês (Seiji Ozawa) e o compositor é outro russo: Aleksandr Borodin. A peça intitula-se Danças Polovetsianas e os Polovets (actualmente prefere empregar-se a expressão Kipchaks) são a designação medieval que os eslavos orientais (russos e ucranianos) davam aos povos turcos que habitavam (e ainda habitam) as estepes da Ásia Central.

O EMBARAÇOSO RESULTADO DAS ELEIÇÕES CHECAS

Os resultados das eleições checas realizadas este fim de semana vêm mais uma vez comprovar quanto as consultas populares se tornam rotineiramente num susto para os poderes europeus estabelecidos. Como se previa, o partido do milionário Andrej Babiš (aquela mistura entre Berlusconi e Trump) venceu. O parlamento de 200 lugares, que albergava deputados de 7 formações diferentes, ainda está mais disperso, porque as formações agora representadas agora são 9 (e isso apesar da regra eleitoral dos 5% mínimos, que em tantas outras circunstâncias e também noutros países impediu os exotismos parlamentares). Pelos vistos, foi expediente que já deu provas, mas que actualmente já não chega para deixar de fora do parlamento formações como o partido pirata que elegeu 22 deputados. O SPD da extrema-direita também se estreou com 22 deputados, assim como o STAN centrista com 6 deputados, perfazendo um total de 50 deputados (¼ da câmara) pertencentes a formações que anteriormente não estavam representadas. Os dois partidos da esquerda, quer os sociais-democratas do ČSSD, quer os comunistas do KSČM foram severamente castigados, perdendo em conjunto 20% dos votos e um pouco mais do que isso em representação parlamentar. Mas o problema maior é o que se pode fazer num país que acaba de sufragar com 30% dos votos um escroque que anda a fugir à polícia. Comparado com isso, o caso de Isaltino Morais é detalhe consolador. Como dizia um amigo meu: pimenta no cu dos outros às vezes funciona como refresco.

O REGRESSO DA KREMLINOLOGIA?

A expressão kremlinologia perdeu popularidade porque já não há Kremlin. Mas há uns cinquenta anos e porque a queda de Nikita Khrushchev resultara de uma conspiração de bastidores maquinada pela confederação de sensibilidades que compunha a oligarquia soviética, houve a necessidade de criar-se a disciplina da kremlinologia, traduzindo para os leitores aquilo que era a opacidade do vértice do poder soviético. Era preciso conhecerem-se os nomes, não apenas o de Brejnev, o líder do partido, Kossygin, o chefe do governo, ou ainda Podgorny, o chefe de Estado, mas ainda os de Gromyko, o homem dos negócios estrangeiros, ou Suslov, o ideólogo (é o que aparece no cartaz da fotografia abaixo). Era preciso alguém que ouvisse os seus discursos soporíferos, formatados nas fórmulas tradicionais, e dali produzisse uma síntese (no caso disso valer a pena). Nenhum dos kremlinólogos se terá apercebido, nem mesmo com Gorbachev, do quanto tudo aquilo estava apodrecido por dentro. Não estranho que tivesse sido assim: é contranatura o analista aperceber-se do desaparecimento do seu ganha pão. Agora reaparece o mesmo método, só que aplicado ao PSD e às suas figuras gradas. A sério, eles lá no Observador acham que, se Vítor Matos não mo «descodificar e comentar», eu não consigo compreender o sentido de um discurso de Passos Coelho? Ele também fala em russo?...

UM DOS PRIMEIROS REGISTOS DE UM ECLIPSE SOLAR

22 de Outubro de 2 136 antes de Cristo. Neste mesmo dia de há 4 153 anos registava-se um eclipse anular do Sol cujo apogeu teve lugar por sobre o ocidente do Oceano Pacífico, naquilo que é hoje é conhecido por Mar das Filipinas, sensivelmente a meio caminho entre esse arquipélago e o das Marianas (mapa abaixo). Assim como os cálculos precisos de mecânica celeste permitem aos astrónomos prever quando serão os futuros eclipses solares e lunares, com uma antecipação que pode chegar a milhares de anos, esses mesmos cálculos também permitem recalcular para o passado esses mesmos acontecimentos. Existem tabelas publicadas pela NASA compilando-os até datas pré-históricas. A grande maioria deles não terá qualquer interesse histórico, o que distinguirá este, de que hoje se celebra o aniversário, foram as suas consequências. Uma das áreas em que este eclipse do Sol de 2 136 a.C. foi observável foi, evidentemente, a China. E sabe-se hoje que o monarca e a corte de um dos reinos da cultura Longshan, em que então se decompunha a estrutura política ao longo do Rio Amarelo, foram surpreendidos pelo acontecimento. O que era grave, considerando que na corte havia, já nessa altura, astrónomos precisamente para essa função de calcular antecipadamente tais eventos. Dois deles, Hi e Ho, foram dados como bêbados e incompetentes para as suas funções e acabaram sendo executados. Note-se que aquilo que terá merecido ter ficado registado para a posterioridade neste primeiro registro de um eclipse, foi a sanção disciplinar, não propriamente o fenómeno astronómico.

21 outubro 2017

O CENTENÁRIO DOS PRIMEIROS AMERICANOS NAS TRINCHEIRAS


21 de Outubro de 1917. Pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial vêm-se finalmente tropas americanas a guarnecer as trincheiras na Frente Ocidental (no sector de Lunéville). A 2 de Novembro registar-se-ão as primeiras mortes em combate, um cabo e dois soldados, quando de um raid alemão sobre as trincheiras americanas, muito provavelmente concebido para testar o ânimo dos noviços. Recorde-se que os Estados Unidos haviam declarado guerra à Alemanha em 6 de Abril de 1917 e que passados dois meses e meio, em fins de Junho, os primeiros destacamentos de soldados americanos haviam chegado a França. Mas haviam sido precisos mais quatro meses adicionais para que os recém-chegados recebessem o treino táctico suficiente para ocuparem posições na frente de batalha. Alheios a esses preciosismos operacionais, nesse mesmo Outono, mas ainda do outro lado do Atlântico, uma canção patriótica americana fazia furor por lá e era adoptado como hino oficioso da AEF (American Expeditionary Forces): «Over There». O entusiasmo da letra porém, era tal, que soava a pretensioso aos ouvidos europeus, na confiança manifestada de que a chegada dos americanos seria decisiva para o conflito.

UMA POUCA VERGONHA!

O autor é o ucraniano Félix Lupa, embora o local da foto seja Israel. Um outro título admissível para a fotografia, menos ultrajado mas mais irónico, seria: "O sentir das partes".

20 outubro 2017

AS ANALOGIAS PODEM NÃO SER SEMPRE ANALÓGICAS

A análise do New York Times como decorrera a sessão bolsista de há trinta anos dificilmente podia ser mais acabrunhante: «A BOLSA AFUNDOU-SE. A bolsa teve o seu pior dia da história. O índice Dow Jones perdeu, segundo se estima, 508 pontos até bater nos 1.738,74, numa sessão com tantas transacções que as actualizações das cotações chegaram a estar atrasadas durante horas. Mais de 604 milhões de acções mudaram de mãos, ultrapassando em muito o record de 338,5 milhões que acabara de ser estabelecido na Sexta-Feira, e a queda de 22,6% foi muito superior à descida de 12,82% que se havia registado na fatídica Segunda Feira Negra de 1929 que veio a desencadear a Grande Depressão.» O jornal não era o primeiro (nem seria o último) a estabelecer a analogia entre crashs bolsistas, entre o que se acabara de verificar e o de 1929, espalhando o pânico para fora do circuito financeiro tradicional. O espectro do regresso a uma gigantesca recessão mundial ao jeito do que acontecera na década de 1930 - conforme alertaria um grupo de 33 eminentes economistas, nos quais se contavam 5 Nobeis - era algo que deixava os dirigentes dos grandes países capitalistas muito desconfortáveis, lutando contra novas reemergências de totalitarismos, comunistas ou fascistas. Mas os campeões das analogias desta vez estavam errados: o desmoronamento dos mercados financeiros de Outubro de 1987 nunca se chegou a propagar à economia. No nosso caso concreto da economia portuguesa, por exemplo, e nos quatro anos que vão de 1987 até ao final da década, a economia portuguesa crescerá 30%. Virá a existir um colapso sim, dali por dois anos, mas do Muro de Berlim, arrastando consigo, não o capitalismo, mas o seu inimigo figadal, o comunismo.

IDIOSSINCRASIAS DA CULTURA LUSA: O SEMI-DEFICIENTE

Para todos aqueles que passam o tempo a indignar-se com fenómenos que consideram que acontecem apenas no nosso país, quando isso depois se vem a revelar mentira, apreciemos este episódio que nos distingue verdadeiramente de outras culturas: o conceito de semi-deficiente, tal qual ele é assumido pelo condutor(a) da Skoda Octávia da fotografia acima. Ele(a) não será bem deficiente mas, por outro lado, também sofrerá das suas maleitas e é por isso que deixa apenas duas rodas a ocupar o lugar de estacionamento de deficiente. As outras estão sobre o passeio e, na sua opinião, dessa maneira ainda restará espaço suficiente para que um deficiente, esse inteiramente deficiente, estacione devidamente o seu carro. O que porventura não terá ocorrido ao(à) semi-deficiente (de imaginação) é que o deficiente inteiro, para quem até lhe guardou o espacinho, precisasse de espaço suplementar para manobrar (por exemplo) uma cadeira de rodas, conforme a que está desenhada no pavimento...

19 outubro 2017

QUEM ESPERA NEM SEMPRE ALCANÇA

Desconheço quem seja o autor da fotografia mas parece-me ser um excelente desmentido visual ao conhecido ditado popular. Não só não alcança, como se arrisca a ser alcançado... pela maré.

548º ANIVERSÁRIO DO CASAMENTO DE FERNANDO DE ARAGÃO E ISABEL DE CASTELA

19 de Outubro de 1469 foi a data do casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela. A cerimónia realizou-se em Valladolid, os noivos tinham, respectivamente, 17 e 18 anos. O enlace teve lugar pendente de validação canónica, a qual só veio a ter lugar dois anos depois, com a Bula de Simancas emitida pelo papa Sisto IV. O acontecimento a que hoje se atribui a génese da unidade espanhola teve assim um começo muito periclitante, o qual só veio a adquirir todo o significado histórico e político que possui actualmente com o tempo, significado e simbolismo que não deve ter escapado a Madrid quando se verificou a coincidência das datas entre o aniversário do consórcio e o esgotamento dos prazos que impôs a Barcelona. Sabendo isto, é evidente o quão se torna disparatado atribuir intenções políticas visionárias aos dois adolescentes, mas não deixa de ser um exercício assaz interessante especular sobre o que os notáveis das duas facções políticas reunidas na boda de há 548 anos poderiam pensar dos comportamentos actuais de Rajoy e Puigdemont.

SOBRE A RECUPERAÇÃO DAS ARMAS ROUBADAS, MAS SOBRETUDO SOBRE OS COMENTÁRIOS QUE SE PRODUZIRAM A ESSE RESPEITO...

A notícia da recuperação da grande maioria das armas roubadas em Tancos permite esclarecer qual o grau de pertinência da grande maioria dos comentários que apareceram produzidos nos órgãos de informação por altura da descoberta dos roubos: nenhum. Os mais sóbrios e sensatos entre os comentadores ficaram-se pelas generalidades e quanto aos mais ousados a especulação tomou dois rumos: ou minimizando a gravidade da ocorrência, que foi protagonizada por uma facção que se considerará mais pró-governamental, ou então maximizando-a, atitude essa que foi protagonizada por uma facção mais da oposição. Este desfecho, a confirmar-se que o armamento estava escondido a uns escassos 25 km de onde fora roubado, virá provar que nenhuma daquelas facções tinha razão e que apenas aproveitaram a atenção dispensada para andarem a expressar os palpites que tinham por convenientes: é que houve mesmo roubo e não regularizações de inventário mas, em contraste, o perigosíssimo material roubado não se destinou a armar uma tenebrosa organização terrorista islâmica.
O que é bom na actividade de comentador é que não se costuma ser escrutinado nas previsões, porque há uma enorme falta de memória colectiva entre nós. Temos até um presidente que se celebrizou por errar previsões. O que se costuma fazer é baixar a cabeça e manter um perfil baixo durante um par de semanas até ao assunto em que se meteu água sair de agenda. Ou então ignorá-lo, olimpicamente. O que não fica bem é fazer como Nuno Rogeiro que, com todo o topete e esquecendo-se daquilo que escreveu, se apressa a chamar a atenção para as asneiras da facção contrária. Se recuperarmos e levarmos a sério aquilo que Rogeiro escreveu (leia-se abaixo), será que, mesmo reconhecendo que afinal houve roubo, ele nos pode explicar, por outro lado, quais terão sido os problemas de logística da Al Qaeda ou do Daesh para que tivesse deixado as tão prementes (e letais) 44 armas anticarro M72 LAW a aboborar por três meses nalgum local recôndito da Chamusca?...

18 outubro 2017

NÃO HAVERÁ INDIGNAÇÕES ANTIFASCISTAS NO PRÓXIMO FIM DE SEMANA...

Depois das indignações antifascistas nas redes sociais do fim de semana transacto terem ficado muito aquém do esperado por dispersão por outras causas indignantes como os incêndios, no fim de semana que se aproxima poder-se-á assistir a uma transição das atenções - e indignações - eleitorais da Áustria para a vizinha República Checa. Ao contrário do primeiro caso, neste segundo país que vai a votos no próximo fim de semana, o panorama partidário é mais repartido e não existe um grande partido fascista (FPÖ) que recolha 27% dos votos, daqueles onde apeteça malhar, para recuperar a inolvidável expressão de Augusto Santos Silva. O melhor que se pode arranjar para as franjas anti-sistema é um médio partido comunista (KSČM, que recolheu quase 15% dos votos nas últimas eleições), mas que são comunistas daqueles puros e duros como o pessoal do Avante! gosta, que nem levam a mal aquela invasãozinha de 1968; e ainda um menor partido de extrema-direita denominado SPD, que resulta de dissidências noutras formações, que se vai estrear em eleições e cujas sondagens (acima) atribuem um resultado abaixo de 10% mas seguramente com representação parlamentar. Como o exotismo parece impregnar a extrema-direita europeia moderna, com uma profusão (nunca devidamente realçada) de lésbicas e homossexuais entre os seus dirigentes, também aqui no SPD checo, formação nacionalista e mesmo xenófoba, se exercita o paradoxo de ser liderado por alguém de ascendência mista: checa e japonesa. Mas o aspecto mais interessante das eleições que se aproximam relaciona-se com o partido que tem liderado as sondagens, o ANO 2011, e o seu líder Andrej Babiš. Este último apresentar-se-á às eleições já depois de ter sido formalmente acusado de fraude na obtenção de subsídios comunitários, o que aconteceu no princípio deste mês. Para isso acontecer, no mês anterior, havia sido o parlamento checo a despojá-lo da imunidade parlamentar. E, para quem considerasse que tudo isto não passava de uma manobra de baixa política de última hora, constata-se que a investigação já datava de 2015 e que envolvia desde o princípio o próprio Organismo Europeu de Luta Antifraude. Se na imprensa internacional há quem compare Andrej Babiš a Sílvio Berlusconi ou a Donald Trump, prefiro recorrer a um outro exemplo mais doméstico, e constatar que a República Checa se arrisca a transformar-se num gigantesco concelho de Oeiras, elegendo um escroque ao jeito de Isaltino Morais para a dirigir. Estou para apreciar como será o volume de indignação das redes sociais a respeito do resultado das eleições checas, quais são as prioridades de quem se indigna: um aldrabão ou um fascista?

A GATA FÉLICETTE, A HEROÍNA DO «PROGRAMA ESPACIAL FRANCÊS»

18 de Outubro de 1963. Os soviéticos tinham tido os seus cães, nomeadamente a célebre cadela Laika (acima, à esquerda), pioneira e mártir do primeiro voo orbital habitado em Novembro de 1958. Os norte-americanos, por seu lado, preferiam os chimpanzés e o seu pioneiro foi Ham, que acima aparece envergando um capacete da NASA pouco antes do seu voo suborbital em Janeiro de 1961. E completam-se hoje precisamente 54 anos que os franceses, naquela sua conhecida folie des grandeurs (mania das grandezas), resolveram adicionar, para glória do seu programa espacial, mais um bicho, o gato, ou melhor uma gata, à gesta da bicharada pioneira do espaço. Baptizaram-na de Félicette e a biografia que para ela criaram dava-a como uma genuína gata frequentadora dos algerozes parisienses antes de ter sido recolhida, qual trabalhadora do Pigalle apanhada pela ramona... Menos oficial mas ainda mais interessante era a historieta transmitida em surdina, que Félicette viera substituir à última hora Félix, um seu colega que, selecionado antes dela, dispensara, por assim dizer, a honraria de se tornar gato pioneiro no espaço, evadindo-se para se cafrealizar, misturando-se com a gataria de Hammaguir, a vila argelina onde então se realizavam os ensaios dos foguetes franceses. A verdade é que os fait-divers a respeito da viagem espacial de Félicette pareciam ser mais interessantes do que os hard-data. Sobre estes últimos, o que havia a dizer era que o lançamento se inseria no programa de pesquisas espaciais da França, especificamente pesquisas no campo da biologia espacial. O foguete lançador era designado por Véronique. Como acontecia com os concorrentes soviético e americano, a concepção e design dos foguetes franceses também devera muito aos trabalhos percursores que os técnicos alemães haviam desenvolvido em Peenemünde durante a Segunda Guerra Mundial.
O que o voo em que Félicette participaria pretenderia alcançar era transportá-la até uma altitude de 157 km (na viagem ela estaria sujeita inicialmente a uma pressão de 9,5 G para depois estar cerca de 5 minutos em condições de imponderabilidade), para recuperar depois a cápsula, de preferência com a gata viva. Nesse aspecto, a viagem de Félicette veio a revelar-se um sucesso. Félicette teve a sorte do seu lado; um seu colega que participou num outro voo daí por seis dias não a terá... A importância da gata pode ser avaliada pelo facto de haver duas fotografias acima retratando o mesmo momento, o da colocação da gata na ogiva do foguete (onde a fotografia da esquerda parece ser a encenada). Apesar das aparências e das irrelevâncias promocionais (nunca terá havido nenhum Félix evadido), a realidade é que o programa espacial francês se encontrava quase uma década atrasado em relação ao das duas superpotências. A viagem de Félicette apenas repetia aquilo que norte-americanos e soviéticos já haviam testado na década de 1950. A França ainda teria que esperar mais dois anos até conseguir colocar o seu primeiro satélite em órbita. E, no campo concreto das pesquisas em biologia espacial, a França nunca veio a desenvolver uma capacidade autónoma para colocar um homem em órbita (para além dos dois países que já então a tinham adquirido, tal capacidade só veio a ser adquirida em 2003 pela China). A esta distância percebe-se nitidamente que a viagem de Félicette não passava do que hoje designaríamos por um golpe publicitário para maior glória de França!

17 outubro 2017

PELO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA OFENSIVA PARA A LIBERTAÇÃO DE MOSSUL

17 de Outubro de 2016. Ao raiar da aurora de há um ano começava finalmente o assalto para a conquista da cidade iraquiana de Mossul. O que se seguirá nos nove meses, até Julho de 2017, não terá sido uma paródia de guerra como a do Solnado, mas terá sido decerto uma paródia de cobertura informativa de uma guerra, à qual dediquei, de resto, dois postes troçando da falta de escrutínio e de profissionalismo dos meios de informação quanto ao que por lá se estava a passar: em Fevereiro e Junho deste ano. A ironia dos tempos modernos é que, ao contrário do que acontecia antigamente, a informação deixou de ser secreta, aparece aí totalmente disponível para os interessados. Uma consulta à Wikipedia mostra que os atacantes de Mossul dispunham de uma superioridade numérica sobre os defensores de 8 a 10 para 1. E, contando com o apoio aéreo dos países ocidentais aos iraquianos, o poder de fogo de cada um dos contendores acentuaria ainda mais a desproporção entre os beligerantes. Contudo, não me recordo de ouvir qualquer dos nossos especialistas mediáticos no tema acompanhar-me no cepticismo quanto ao muito fraco empenho que as forças atacantes estariam a pôr na operação que justificasse, ao menos, que toda essa superioridade humana e material não se concretizasse em resultados. O número de baixas sofridas pelos atacantes no final da operação, um máximo de 1.500 mortos e de 7.000 feridos ao longo de nove meses, parece confirmar essa asserção que havia muita propaganda, mas pouca gente disposta a morrer por Mossul. Não fora assim e nove meses de encarniçados combates ter-se-iam transformado naturalmente num épico, uma espécie de Estalinegrado do Médio Oriente (cidade pela qual se combateu durante cinco meses e meio). Para sintetizar e simbolizar a atitude dos atacantes, que mais do que combatê-los, estiveram à espera que os seus inimigos se aborrecessem e se fossem embora, encontrei a fotografia acima. Evidentemente encenada, aos dois combatentes não parece faltar armamento, nem equipamento: duas armas para cada um (num dos casos um RPG), colete e estojo de primeiros socorros, a pose marcial e aguerrida acaba estragada pelo alçar da perna de um deles, deixando ver uma sapatilha, que estes guerreiros modernos devem ter uns pés sensíveis, a quem as tradicionais botas militares fazem muitas bolhas...

OS LOUROS DE CÉSAR (44)

Encontram-se frequentemente pelas redes sociais reacções como a adoptada por Homeopatix: diante da evidência, guardam uns últimos comentários sobre o acessório, convencidos que, fazendo-o, não se perceberá tanto a enormidade do desfecho. Esta história deixa, porém, um óbvio Post Scriptum por contar: o que terá acontecido a Abraracourcix quando Bonemime descobriu que ele lhe havia sovado o irmão...

16 outubro 2017

EVOCAÇÃO COMO SE FOSSE «AREIA NA GERINGONÇA»

Porque isto é um blogue, ainda se vai a tempo de, a pretexto dos resultados das últimas eleições autárquicas de dia 1, se invocar a vitória do PS em Almada e exibir em contraponto uma notícia do Verão Quente do PREC, a dar conta precisamente de um boicote a um comício desse mesmo partido em Almada, estava-se a 22 de Julho de 1975. «Marcelo Curto, do Secretariado do PS, começou a falar, mas não chegou ao fim do seu discurso». «Assobios contínuos e gritos de "abaixo a reacção" impediram (...) um comício do PS que estava a decorrer ao ar livre, junto da Sociedade Incrível Almadense.» «O comício dever-se-ia realizar no salão da Sociedade (...), mas em face dos acontecimentos do último fim de semana e de ameaças de boicote, aquela colectividade resolveu não ceder a sua sede, por recear (...) que resultassem prejuízos nas suas instalações». Percebe-se que, a bem do funcionamento da geringonça, o PS registe vitórias eleitorais como a que obteve em Almada com a atitude o mais descomprometida possível. Mas haverá uma franja muito limitada dos que ainda guardarão memória de como era o ambiente político de há 42 anos ali para as bandas de Almada e que quererão e se disporão a interpretar a risadinha de Inês de Medeiros abaixo de uma maneira (para eles) muito pessoal.

O RACIONAMENTO ATÉ PARA OS SUÍÇOS

16 de Outubro de 1942. Há 75 anos e como se podia ler neste jornal de Neuchatel, na Suíça impunha-se o racionamento do pão e do leite. Não se pode dizer que a medida tivesse colhido os suíços de surpresa. Cercada por países em guerra e pelo impacto que isso tivera no comércio internacional, a Suíça evidenciava as fragilidades de quem sempre contara com o exterior para se alimentar. Como acontecia em Portugal, também por lá houve medidas de propaganda para aumentar a produção agrícola, aproveitando inclusive as superfícies urbanas: acima, na notícia ao lado da do anúncio do racionamento, o tema era a plantação de batatas nos jardins do Palácio Federal;
e nesta outra procede-se à colheita de cereal numa das praças centrais de Zurique (notem-se os basbaques - quem diria que na Suíça também há basbaques? - e o eléctrico em fundo). Todas essas iniciativas eram mais simbólicas que substantivas e não podiam, contudo, esconder a fraca produtividade dos terrenos agrícolas suíços e a consequente escassez de alguns produtos alimentares. O racionamento de outros produtos porém, caso do leite, surgia como uma enorme surpresa, a atender à tradicional imagem bucólica suíça das vacas e dos seus badalos, nos seus pastos de altitude. Em tempos de guerra, porém, os mitos e os bilhetes postais não serviam para alimentar a população.

15 outubro 2017

AS INDIGNAÇÕES ANTIFASCISTAS EXIBEM-SE EM ESCALA SUPORTÁVEL E APENAS NOS PAÍSES CONVENIENTES

As eleições legislativas austríacas tiveram lugar hoje e os resultados vão-se saber daqui a um bocado. As últimas sondagens davam maioritariamente a vitória aos conservadores do ÖVP (~32%), mas a grande surpresa era o potencial segundo lugar que poderia ser alcançado pelo FPÖ de extrema-direita (~26%) que ultrapassaria o SPÖ (~24%), o outro partido histórico austríaco, de cariz social-democrata. As estimativas, como se percebe pelo gráfica acima, resultam das sondagens dos últimos 15 dias. E o que é que, nas redes sociais, a esquerda activamente preocupada, se tem falado nisso? Onde é que pararam os ultrajes pré-eleitorais equivalentes aos manifestados no princípio deste ano a respeito de Marine Le Pen (em França) ou de Geert Wilders (na Holanda)? Não dei por eles, o que é tanto mais estranho quanto a votação que aparece prevista para o FPÖ (26%) corresponde ao dobro da que foi alcançada pelo PVV na Holanda ou, mais recentemente, também pela que foi obtida pelo AfD na Alemanha. Ou seja, se há país europeu onde a extrema-direita tem uma posição das mais reforçadas é a Áustria. Mas nunca se fala nisso... nem sequer se admite uma piadita sobre as origens (austríacas) de Adolf Hitler.

O MSU «TORNA A ATACAR»

Edição do Diário de Lisboa de 15 de Outubro de 1977. Para aqueles que já se estivessem esquecido daquilo que era o MSU e do que eles haviam dito há dois meses, o grupo de amigos tornava a atacar, com a colaboração de sempre do vespertino pró-comunista. Se no Verão a «análise» fora sobre «a situação política», no Outono o mesmo exercício incidia agora sobre a «crise política». A situação descambara numa crise. Os factos viriam a provar que os analistas do MSU tinham razão. A crescente fragilidade manifestada pelo executivo socialista (minoritário) de Mário Soares farejava-se no ar. Nessa semana que então terminava - 15 de Outubro de 1977 foi um Sábado - o facto político assinalável fora a demissão de José Medeiros Ferreira, ministro dos Negócios Estrangeiros que, quiçá por causa do seu faro, abandonara o navio. Quanto ao resto do governo, tudo se irá precipitar na derrota da votação de uma moção de confiança que o próprio executivo apresentará na Assembleia da República daí por menos de dois meses (8 de Dezembro). Mas, nem mesmo a presciência a respeito do que não passariam dos incidentes normais da vida de uma democracia parlamentar normal pareciam ter a capacidade de temperar a linguagem de pau deste clube de intelectuais já nosso conhecido (Vitorino, Hasse Ferreira, Brandão de Brito ou Rui Namorado), clube que possui a virtude de, erigido em sigla a quem os jornais davam toda esta notoriedade, nunca ter tido a ousadia de submetê-la ao escrutínio do voto popular. Actualmente, o Daniel Oliveira ou a Raquel Varela não precisam de nenhuma sigla: fazem a festa sozinhos.
A Comissão Política Nacional do Movimento Nacionalista Unificado esteve reunida nos dias 8 e 9 do corrente, analisando a crise política e económica, o endurecimento e o reforço das posições dos partidos da direita a que chama «a desagregação do Governo do PS e do seu apoio partidário». Sobre estas questões, o Secretariado Nacional do MSU divulgou um comunicado onde, depois de sublinhar que a estratégia do Governo, de combater primordialmente combater o défice financeiro, nomeadamente da balança de pagamentos, não conduziu a qualquer recuperação económica significativa, antes se tendo agravado as dificuldades já existentes que os «pacotes» 1 e 2 não superaram, se acusa a política do FMI de «apontar para a deterioração das condições de vida dos trabalhadores», preconizando «o reforço da dependência face ao estrangeiro e do comprometimento da independência nacional através da contenção do desenvolvimento económico e da opção preferencial de saneamento financeiro».
Segundo o comunicado, com as tentativas de aniquilamento dos sectores público e nacionalizado, sob a égide do FMI, «o Governo PS reinstala o capitalismo de miséria e reconduz o País à dependência dos grandes exploradores nacionais e do imperialismo».
Para o MSU, «uma alternativa de direita ao actual Governo do PS, além de claramente contrária aos interesses dos trabalhadores, rompe definitiva e formalmente o compromisso eleitoral do PS e conduz inevitavelmente à agudização dos conflitos sociais e da repressão».
O MSU considera igualmente que «uma solução política de tipo presidencialista, que passe eventualmente pelo papel determinante da instituição militar, ainda que aparentemente exequível é ilusória e abre o caminho a soluções autoritárias de direita».
O comunicado do MSU conclui com a afirmação de que «só defendendo o projecto constitucional e as conquistas populares do 25 de Abril, a prática da unidade de classe na luta sindical e a unificação política das forças genuinamente socialistas é que é possível oferecer uma frente de resistência à política da burguesia e construir no concreto uma alternativa de Poder político, económico e social que viabilize a transição para o socialismo, aspiração justa e actual da maioria do Povo Português».

OS LOUROS DE CÉSAR (43)

Um pormenor que cada vez se torna mais perceptível, mesmo à medida que as histórias de Astérix se tornam mais sofisticadas, é que Goscinny continuará a nem sempre planificar de antemão a evolução dos seus argumentos para que coubessem nas 44 pranchas canónicas para os álbuns de BD deste género. Já o havíamos assinalado com A Volta à Gália e também neste caso d'Os Louros de César é evidente a compressão do ritmo dos acontecimentos no final das histórias para que tudo possa acabar com o tradicional banquete na página 44. Resta o indispensável para que o argumento flua e alguns gags, a ironia do gajeiro negro e o instinto quase sobrenatural de Júlio César. Por falar nesse aspecto, a associação do seu pensamento dever-se-á ao facto dos franceses utilizarem frequentemente o funcho para condimentar o peixe grelhado.

14 outubro 2017

O MEU AMIGO PODE FAZER AS PERGUNTAS QUE QUISER...


Embora possa ser uma opinião minoritária, até há que admitir razões para que José Sócrates se tenha sentido incomodado com a pergunta que Vítor Gonçalves lhe endereça - Hoje, como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas? Descontada a exaltação, compreendo a resposta de José Sócrates (aos 0:12): - O que é que o senhor tem a ver com isso? O que eu já não compreendo é como toda aquela exaltação se esvai num minuto e de enfiada está a tratar o entrevistador por meu caro amigo (aos 1:22). Teria sido a ocasião mais propícia para que Vítor Gonçalves esclarecesse o seu entrevistado que era apenas um jornalista encarregue de o entrevistar. Responder-lhe qualquer coisa como: - Mas eu não sou seu amigo, estou aqui apenas para lhe fazer perguntas, algumas das quais já se percebeu que não gosta. É uma pena, mas compreende-se que tenha faltado a Vítor Gonçalves o espírito repentista para devolver a José Sócrates o distanciamento que ele impusera apenas um minuto antes. Afinal, Portugal é um país pequeno, não pode competir com outros países maiores que exibem entrevistadores com uma outra categoria. Mesmo assim, e observando o erro cometido com a referência à pensão (acima, aos 0:40, Gonçalves antecipou-se a Sócrates e deu a este último mais um bónus), creio que em Portugal há capacidade para encontrar entrevistadores mais qualificados do que Vítor Gonçalves...

QUANDO OS ADVOGADOS PRETOS DE WASHINGTON PASSARAM A SER IGUAIS AOS BRANCOS

14 de Outubro de 1958. Aquilo que equivalerá à Ordem dos Advogados do Distrito de Colúmbia (onde se situa a capital norte-americana de Washington) pronuncia-se favoravelmente quanto à aceitação de futuros membros de ascendência africana. O facto é tanto mais notável quanto mais de metade da população da cidade (à época, rondando as 750.000 pessoas) era de ascendência africana. E tanto mais notável também, porque o processo histórico de constituição dessa comunidade afro-americana de Washington a tornava distinta dos estados (esclavagistas) circundantes: o comércio de escravos fora proibido no Distrito desde 1850, e em 1861, quando da tomada de posse de Abraham Lincoln, entre 75 a 80% da população de ascendência africana da capital era composta por cidadãos livres. Nem mesmo essa génese distinta servira para atenuar as consequências da discriminação racial. Esta discriminação concreta para com os advogados negros na própria capital do país, que ainda se mantinha em vigor quase 100 anos depois da emancipação dos escravos promulgada por Lincoln, mostra à evidência o quanto a discriminação racial se perpetuava diante dos sucessivos presidentes que, depois dele, ocuparam a Casa Branca.

...A 9,98 O PAR

Agora que se aproxima o Outono será sempre boa ideia resguardá-los, necessariamente aos dois, que esta inventividade do marketing de adulterar os preços para os tornar mais atractivos tem vezes que resulta absurda. Qual o sentido de alguém se passear com um resguardado e outro desprotegido?...

13 outubro 2017

CENTENÁRIO DA SEXTA E ÚLTIMA APARIÇÃO DE FÁTIMA

Sábado, 13 de Outubro de 1917. Por uma última vez e dessa vez perante uma multidão que foi contabilizada em dezenas de milhares de pessoas, ter-se-á registado um fenómeno sobrenatural com o Sol. O que terá tornado o episódio ainda mais notório foi a presença entre a multidão de jornalistas propositadamente ali destacados para a cobertura do acontecimento - acima, a primeira página da edição de Segunda-Feira seguinte do matutino lisboeta O Século. Há tantas opiniões sobre Fátima que eu não sinto necessidade de ter alguma, presumo-me eclético a respeito do que aconteceu e aceito como plausível muito do que se diz sobre o assunto, tanto o que foi escrito pelo historiador passista Rui Ramos, como comentado pelo economista comunista Sérgio Ribeiro. Aqui, limito-me a assinalar o centenário do último acto dos eventos que têm hoje uma relevância social indiscutível.

OS LOUROS DE CÉSAR (42)

Confesso que, desde que li esta história pela primeira vez, me intrigou a questão da permuta da coroa de louros pela coroa de funcho. Se haveria algum significado mais profundo na escolha do funcho como substituto do louro, para além das disponibilidades momentâneas da despensa do taberneiro. Segundo vim a descobrir muitos anos depois, já nesta era da internet, a coroa de funcho seria, para os romanos, um sucedâneo muito inferior à de louros, era atribuída aos melhores gladiadores.

12 outubro 2017

«MENINO DE OURO» MAS TAMBÉM DE OUTRAS DIVISAS...

Segundo o despacho de acusação do ministério público, que apareceu finalmente concluído depois de rebentar todos os prazos a que se comprometera (abaixo), o menino não era apenas de ouro mas seria também de euros, de dólares, não surpreenderia que fosse até de bitcoins, conhecida a predilecção de José Sócrates pela novas tecnologias - eu ainda não me esqueci do seu boneco do contrainformação a repetir incessantemente «Eu adoro tecnologia aos saltos!». Mas o que se tornará interessante nos dias que correm será ouvir a autora d'O Menino, a jornalista Eduarda Maio, para contraponto entre o que consta daquela sua biografia tão elogiosa de 2008 e esta outra biografia mais recente de 2017, que foi coordenada por Rosário Teixeira. A não ser que a Eduarda Maio se ande a fazer propositadamente pequenina, como tantos outros amigos do antigo primeiro-ministro, do tamanho da letra em que acima aparece redigido o panegírico que acompanhava a sua obra magna.

A CELEBRAÇÃO DOS 2.500 ANOS DO IMPÉRIO PERSA


12 de Outubro de 1971. Com a chegada do Xá a uma base militar próxima de Persépolis, iniciavam-se as cerimónias das celebrações dos 2.500 anos da fundação do império persa por Ciro, o Grande. A data escolhida foi, obviamente, tão especulativa quanto arbitrária - estava-se a celebrar algo que teria acontecido em 529 a.C.! Contudo, o que era importante era o significado político da celebração e não o seu rigor histórico. Através dela, o regime iraniano procurava demarcar-se daquela que seria a sua «civilização» (para empregar uma terminologia que então não existia, só veio a ser popularizada vinte e dois anos depois com Samuel Huntington) e para ir buscar as suas raízes a várias estruturas políticas muito bem sucedidas que haviam precedido o Islão: os impérios aqueménida, arsácida e sassânida. Era uma movimentação ousada, mas intelectualmente brilhante, que procurava atribuir ao Irão uma especificidade outra que não a religiosa, nomeadamente o xiismo, que o distinguia das outras correntes do Islão. Com a valorização que se pretendia com o gesto atribuir àquelas raízes pré-islâmicas procurava-se fomentar ainda mais o laicismo da sociedade iraniana, aquilo que, na época, parecia condição favorável para as reformas e a sua ocidentalização, conforme se comprovara com o que acontecera nos cinquenta anos precedentes com a vizinha Turquia. Se a ideia se apresentava teoricamente brilhante, a sua implementação, tal qual ela pôde ser apreciada nestas cerimónias, revelou-se um desastre. Cerimónias como o cortejo histórico (que se pode ver no vídeo mais abaixo) só podiam suplantar na magnificência dos meios, que não na imaginação, aquilo que já se vira noutras celebrações equivalentes, até mesmo por cá, por ocasião da exposição do Mundo português de 1940.
O ponto frágil de todas as celebrações, contudo, percebe-se hoje, foi a prioridade que se deu a projectar as cerimónias para o exterior, e a falta de cuidado que houve em transformá-las em festas populares. Houve uma preocupação extrema em ter presentes as mais destacadas figuras políticas internacionais (especialmente monarcas - Bélgica, Dinamarca, Etiópia, Jordânia, Nepal, Noruega,...), mas isso apenas acentuou o carácter aristocrático das cerimónias - significativamente, os banquetes que foram servidos, previstos para 500/600 convidados, um deles para durar cinco horas e meia(!), foram encomendados em Paris, ao restaurante Maxim's. Não é por isso de estranhar que todos os vinhos e espumantes que acompanhavam os banquetes fossem franceses. Enquanto isso, e porque Persépolis se situa numa das regiões remotas do Irão e nada fora pensado em termos de transportes colectivos para o local, o melhor que qualquer iraniano poderia fazer para acompanhar as cerimónias que proclamavam a grandiosidade e perenidade do seu país era segui-las pela... televisão. Caso o conseguisse, porque as emissões de cobriam apenas 30% dos iranianos. Escolhi uma fotografia que me parecesse simbólica da ocasião: nela se vê, à direita, o Xá a discursar, por detrás dele vê-se toda a comitiva que o acompanhava, doméstica e internacional, mas não se chega a ver para quem é que o Xá está a discursar. Na realidade, o que a fotografia não mostra é que não estaria lá ninguém, o povo iraniano brilhou pela ausência nestas cerimónias que, não fora a seriedade política que o regime iraniano lhes pretendeu atribuir, bem podiam ser comparadas no seu exclusivismo aristocrático a uma daquelas caçadas à raposa típicas da gentry inglesa.

O CONSPIRADOR QUE TINHA UMA FORMA DEMASIADO INTELECTUAL DE SE EXPRIMIR

A aventura denomina-se O Daily Star e o protagonista é Lucky Luke. Mas a personagem mais interessante da história é John Fenweek, o merceeiro de Dead End City, um dos vilões pertencentes às forças vivas da sociedade civil que as denúncias do primeiro jornal da localidade vão incomodar. Ao contrário dos seus colegas de conspiração (o dono do saloon e o cangalheiro), Fenweek vem a revelar-se um verdadeiro intelectual - até usa óculos! - na forma como expõe as suas ideias, embora nem sempre da forma mais conseguida tendo em atenção a obtusidade do auditório. E tudo isto aconteceu antes (1984) do aparecimento das redes sociais... Nestas é que é pertinente, mas dá muito trabalho escrever o comentário: não percebi nada do que você escreveu, explique-se de forma a que nós entendamos.

11 outubro 2017

A EVOLUÇÃO DA CIVILIDADE DA RELAÇÃO ENTRE OS ESPECTADORES E AS EMISSORAS DE TELEVISÃO

Nestes tempos mais próximos em que, celebrando-se os 25 anos de emissões da SIC, se assinala também a inauguração das emissões de televisão privada em Portugal, permitam-me esta evocação acima da televisão a preto e branco de antanho, em que havia a cortesia de pedir desculpa ao espectadores pelas vicissitudes da programação.
Com as emissoras actuais, os incidentes são tão quotidianos como seriam as interrupções de outrora, seja agora pelo conteúdo comprovadamente imbecil das mensagens (acima), seja pela enormidade embaraçosa dos erros de ortografia praticados (abaixo), só que agora não parece valer a pena que alguém peça desculpa pelo sucedido.
As faltas que antigamente era atribuíveis à técnica, hoje deixaram de o poder ser. São pessoais e têm responsáveis, mas não é só isso: há também a arrogância implícita na atitude. E o preço paga-se. Nos raros casos em que as televisões se vêm obrigadas a prestar contas, como aconteceu no caso abaixo, em que o convidado Pedro Santana Lopes...

...se queixou em directo do tratamento displicente que lhe fora dispensado durante a entrevista que lhe estavam a fazer (acima), as explicações do director da estação Ricardo Costa (abaixo), para além da sua completa falta de substância (está a responder a alhos com bugalhos*), dirigiam-se a um ambiente de espectadores que lhe era hostil.

* O fulcro da questão é que a «reportagem» que interrompeu a entrevista de Santana Lopes foi uma reportagem totalmente falhada. Invocando a chegada de José Mourinho ao aeroporto para a interrupção, desta só se vê por alguns minutos imagens atabalhoadas do famoso treinador a entrar para uma viatura... Dispensando-se a SIC de pedir desculpa aos espectadores pelo fiasco, seria de bom tom pedi-las ao menos ao seu convidado a quem interrompera a entrevista por causa desse mesmo fiasco...

A ABERTURA DO CONCÍLIO VATICANO II


11 de Outubro de 1962. Há 55 anos iniciava-se em Roma, com a pompa que as imagens acima mostram, o Concílio Vaticano II. Este é o tipo de efeméride que, quando a ela me refiro aqui no Herdeiro, tenho grandes dúvidas quanto à necessidade de explicações adicionais do que é que se tratou: é o tipo de assunto sobre o qual a grande maioria das pessoas já sabe (ou ignora...) aquilo que lhe interessa saber (desconhecer). Foi precisamente esse o tratamento informativo que o Diário de Lisboa daquela época deu ao assunto: um grande destaque de primeira página embora pouco desenvolvido, e isso porque o assunto era reconhecidamente importante, com o resto dos pormenores a serem remetidos para uma obscura página interior (página 11) para os interessados se entreterem, que toda a gente sabe como estes assuntos de religião são normalmente chatos - nomeadamente o discurso do papa (João XXIII).

PAIRANDO SOBRE PREVISÕES PROFÉTICAS ou NEM SÓ O AMOR É FODIDO

Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, não é apenas o amor que é fodido, uma boa memória em política também...

10 outubro 2017

«NÃO SERVIMOS PRETOS, MESMO QUE ESTEJAM BEM VESTIDOS E MESMO ATÉ QUE SEJAM MINISTROS...»

10 de Outubro de 1957. Três dias antes, dois clientes negros, apesar de impecavelmente vestidos, não foram devidamente atendidos num restaurante de Dover, a capital do pequeno estado norte-americano do Delaware. Nada haveria de notável em tal incidente se aquele cliente, a quem serviram o sumo de laranja só na condição de o levar, porque não o deixavam consumi-lo no local, restrito à frequência só de brancos, não fosse o ministro das Finanças do Gana. Esclareça-se que o Gana era então um país africano recente (tornara-se independente há apenas sete meses), mas não se pode deixar de compreender a reacção ofendida ao insulto de Komla Agbeli Gbedemah (assim se chamava o ministro), quando deixou no balcão o sumo, o troco, um comentário altaneiro sobre o estatuto social da clientela que ele via a ser atendida quando em comparação consigo, e finalmente a promessa de criar uma verdadeira tempestade diplomática por causa daquilo que acabara de acontecer. Cumpriu a promessa e beneficiou do momento, acertando em cheio nas virilhas da diplomacia americana que vivia então um momento intensamente pan-africano, pressionando todos os países com colónias africanas em conceder-lhes a independência o mais brevemente possível. Mas, se isso era a fachada da política externa dos Estados Unidos, em contraste e dentro de portas, o americano médio, neste caso o do Delaware (que fora um estado esclavagista até 1865), continuava com a sua prática de discriminação racial de sempre. O episódio tornou-se um escândalo muito inoportuno porque expunha toda a hipocrisia da atitude norte-americano em relação aos africanos e foi preciso mobilizar os bons ofícios do próprio presidente Eisenhower que convidou, há precisamente 60 anos, o ministro ofendido para um pequeno-almoço de desagravo na Casa Branca, consigo e com o vice-presidente Richard Nixon: sumo de laranja e também ovos com bacon. Isto era no tempo em que o presidente dos Estados Unidos, apesar de também passar muito do seu tempo a jogar golfe, ainda era útil nestas ocasiões porque tinha maneiras e sabia ser simpático...

Quanto ao ministro Gbedemah, que acima vemos ao lado esquerdo do líder ganês Kwame Nkrumah durante o discurso que este último profere por ocasião das cerimónias da independência a 6 de Março de 1957, esclareça-se que a sua carreira política vai ser encurtada - terminou em 1961 - por um conflito de personalidade com Nkrumah, nomeadamente por causa do despesismo faraónico pelo qual este último ficou conhecido. Acho esta última nota estranhamente oportuna no dia em que Pedro Santana Lopes se apresta a concorrer à liderança do PSD... Isto é coisa para os militantes do partido reflectirem, mas preparemo-nos para assistir a algumas cambalhotas argumentativas muito divertidas a propósito das virtudes políticas da austeridade que a geringonça não podia deixar de cumprir...