13 dezembro 2017

O ALARGAMENTO QUE (RE)COLOCOU A ALEMANHA NO CENTRO DA EUROPA

13 de Dezembro de 2002. Durante a Cimeira de Copenhaga, que reunia os quinze chefes de Estado e de governo da União, foi anunciado o futuro alargamento da organização de quinze para vinte e cinco estados membros (assinalados a amarelo no mapa acima). Essa expansão viria a concretizar-se em 1 de Maio de 2004 mas o que era possível discernir de imediato na intenção era uma ruptura completa com o processo de alargamento da União que, compassadamente, viera a decorrer até aí: aos seis membros originais, haviam-se vindo a juntar mais três em 1973, um outro em 1981, mais dois (incluindo Portugal) em 1986 e ainda outros três em 1995 (nove países em 22 anos). Há precisamente quinze anos, anunciava-se um pacote de 10-países-10 sem que se ouvisse por parte dos dirigentes europeus uma expressão de quaisquer preocupações quanto aos efeitos que essa decisão poderia provocar nos delicados equilíbrios internos da União Europeia, equilíbrios esses que haviam sido sempre cuidadosamente sopesados em todos os alargamentos precedentes. O único efeito que parecia evidente para quem conhecesse a História da Europa dos últimos 150 anos era o ingresso em bloco na União de toda a região que ficara designada na época áurea do expansionismo alemão por Mitteleuropa (abaixo). Com a nova configuração, a Alemanha, que nos quase cinquenta anos precedentes sempre fora o Leste da Europa Ocidental, passava a ser o Centro da Europa redesenhada. Não iria ser a última vez em que se constatava que, aquilo que a Alemanha queria e a que a França não se opunha, não seria necessariamente o melhor para a instituição União Europeia.

12 dezembro 2017

QUEM SE RI NO FIM...

Eu não gosto particularmente da expressão sobre quem se ri no fim (é quem ri melhor). Em rigor, a maioria das histórias nunca têm fim, a não ser que lhe ponhamos um. Mesmo não o tendo, neste caso apetece-me que exista esse fim nessa história do ecofin. Para se perguntar aos fotógrafos fashion e aos jornalistas de fofocas se eles já foram investigar se, para além daquele sorriso um pouco tonto, Centeno gosta de andar de mota ou se a sua mulher é também uma loura vistosa com predilecção por jantares românticos. É uma reportagem engraçada que está por fazer, especialmente para quem gosta de analisar as ascensões nos órgãos europeus de uma perspectiva egótica e para contrastar com a espantosa máquina mediática que rodeou Varoufakis, quando atravessou cadente e candente toda a crise das dívidas soberanas, mas que saiu dela incompatibilizado com todos, até com Tsipras.

O KWANGMYŎNGSŎNG-3 Unidade 2


12 de Dezembro de 2012. Foi há precisamente cinco anos que, depois de várias vicissitudes, se reconhecia que os norte-coreanos haviam conseguido colocar pela primeira vez um satélite em órbita. Era o décimo país do mundo a conseguir fazê-lo recorrendo apenas a tecnologia própria. O nome, que se pode apreciar no título é um pouco difícil de pronunciar. Depois disso, a Coreia do Norte lançou já um outro satélite, em 7 de Fevereiro de 2016. Além de ter realizado uma meia dúzia de testes de um IRBM, que só têm interesse mediático na condição de o seu alcance estimado o fizer poder atingir os Estados Unidos... Mas o mais deplorável será a fanfarronice irresponsável como Donald Trump está a lidar com estas proezas: se em finais de Junho deste ano a farronca consistia em dizer que «a era da paciência (com a Coreia do Norte) tinha acabado», em princípios de Novembro e porque a paciência acabada parecia reciclar-se continuamente, a farronca transformara-se em «a paciência estratégica (com a mesma Coreia do Norte) tinha acabado». Ou seja, em quatro meses e a pretexto da Coreia do Norte, Donald Trump parece ter aprendido a existência da palavra estratégica...

PELOS OITENTA ANOS DE UMAS ELEIÇÕES «AMPLAMENTE DEMOCRÁTICAS»

12 de Dezembro de 1937. Realizaram-se as primeiras eleições legislativas na União Soviética depois da aprovação da Constituição de 1936. No artigo 126 daquela podia ler-se que "o partido comunista é a vanguarda dos trabalhadores na sua luta para desenvolver e consolidar o sistema socialista e que representa o núcleo dirigente para todas as organizações dos trabalhadores, sejam públicas ou estatais". Realizadas através do processo em que o eleitor tem de escolher de entre um candidato único, agora adivinhem lá quem ganhou?...

11 dezembro 2017

A PRIMEIRA EXIBIÇÃO PÚBLICA DO «CONCORDE»


11 de Dezembro de 1967. Depois da entrada em Jerusalém de que se tratou no poste anterior, 50 anos depois tivemos outra grande operação de show off, a primeira apresentação pública em Toulouse do Concorde, o futuro avião supersónico de transporte de passageiros, resultado de uma parceria anglo-francesa (que os segundos não tardariam a abarbatar quase toda para eles). Pelo que se vê no vídeo, a noite anterior deve ter sido fria, a deduzir pelo ar enregelado dos gendarmes que guardaram a aeronave. Apesar de uma distribuição equitativa entre tricolores e Union Jacks por todo o décor, torna-se óbvio que os franceses são os anfitriões da cerimónia e que os britânicos são apenas os compères. Cerimónia essa que se limita à retirada do protótipo do Concorde de um hangar para o vir exibir cá fora. Onde se nota que o sistema de movimentação do cone do nariz do avião (que se tornará uma das mais conhecidas caraterísticas do aparelho) parece ter sido camuflado. Contudo, aquilo que verdadeiramente interessaria, naquela e em qualquer aeronave, o seu primeiro voo, estaria prometido para ter lugar só dali a dois meses. Na realidade, virão a decorrer quinze meses até que isso aconteça, em Março de 1969 (abaixo). A operação de há 50 anos, perceber-se-á depois, fora um grande NADA.

A RECONQUISTA DE JERUSALÉM

11 de Dezembro de 1917. Os otomanos haviam evacuado a cidade nos dias precedentes mas este foi o dia consagrado para assinalar a entrada dos Aliados em Jerusalém. A fotografia acima é o resultado da coreografia concebida pelos britânicos para a ocasião: no momento, pouco passará do meio-dia e o general Edmund Allenby (1861-1936), entra a pé pelo portão de Jaffa por deferência para com a santidade do local. Está acompanhado de um leque reduzido e escolhido do seu staff, onde se contam também os oficiais de ligação dos aliados francês, italiano e norte-americano, conforme se pode observar, aliás, no vídeo abaixo (os britânicos não se terão poupado a meios para cobrir a cerimónia). Seguiu-se um desfile participado por unidades constituídas na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, Austrália, Nova Zelândia, Índia, França e Itália. Mais do que a conclusão de uma operação militar, tratou-se de uma épica operação de relações públicas da Grã Bretanha, 730 anos depois da expulsão dos cruzados da cidade santa por Saladino. Em 1917 Jerusalém era uma cidade de 70.000 habitantes com uma maioria judaica um pouco inferior a ⅔ da população (45.000 judeus, 15.000 cristãos e 10.000 muçulmanos). Curiosamente, apesar de nestes 100 anos a população de Jerusalém se ter multiplicado por 12 e de também se ter tornado a capital de Israel, a proporção de judeus que a habitam continua a ser sensivelmente a mesma...

10 dezembro 2017

DISSERTAÇÃO ESPECULATIVA SOBRE ENSAIOS MUSICAIS DOMÉSTICOS

Sobre a conjugação destas duas fotografias submetidas a um mesmo tema (ensaios musicais em casa), o que me ocorre dizer é que, se por um lado ele há instrumentos que contribuirão mais do que outros para o agudizar das relações com a vizinhança (acima), ele há instrumentos que não imaginamos a ser ensaiados em certas circunstâncias (abaixo). Por exemplo, não imaginaremos o trombone de cima a ser ensaiado na casa de banho abaixo - é uma questão de falta de espaço, é uma questão de acústica, será quiçá até uma questão de soprar por dois lados ao mesmo tempo...

A ABDICAÇÃO DE EDUARDO VIII

10 de Dezembro de 1936. O rei Eduardo VIII assina o seu instrumento de abdicação, pondo fim a um reinado que não chegará a completar um ano (desde 20 de Janeiro de 1936) e sobretudo terminando uma crise política que apaixonou a opinião pública de então, porque o motivo aparente que a provocava seria de cariz sentimental. O rei, apesar dos seus 42 anos, permanecia solteiro e queria casar com a mulher com quem vivia: uma norte-americana de 40 anos, divorciada de um primeiro casamento, mas ainda casada com um segundo marido, do qual aguardava o divórcio. Não tinha filhos, não era bonita nem graciosa, nem se preocupava em transmitir de si uma imagem de cultivada ou benemérita. Um verdadeiro desastre em termos de relações públicas, mas esse parece ter sido o menor dos problemas para os poderes por detrás do trono da época. O que os oitenta e um anos entretanto transcorridos dão a perceber é que o pretexto para a crise pode ter sido Wallis Simpson, a noiva, mas as raízes do problema seriam, muito provavelmente, Eduardo VIII, o monarca. Em geral, os poderes por detrás do trono são conservadores, preferem sempre preservar a ordem constitucional. São inimagináveis as habilidades a que se dedicam para preservar a imagem dos protagonistas desde que eles se comportem de acordo com as expectativas e cumpram o seu papel, por escassas que sejam as suas qualificações e habilidade para o desempenho dos cargos que ocupem: por exemplo, há 30 anos, a revista TIME transformava uma viúva, dona de casa de 53 anos com cinco filhos e sem quaisquer ambições políticas e intelectuais prévias, na Mulher do Ano 1986! Eduardo VIII, porém, mais do que limitado, ter-se-á mostrado imprevisível, mais do que nos seus comportamentos, também nas suas simpatias políticas. E aí estará a beleza da manobra que lhe foi montada: tratava-se de denegrir o rei mas apenas indirectamente, para que as críticas recaíssem sobre o protagonista e não sobre a instituição. E essas críticas não deviam ser levadas a grandes extremos, para que não se gerasse uma onda de simpatia pelo monarca. A esse respeito e como sintetizou Winston Churchill (que até apoiou o monarca nesta): «a aristocracia até aceitava que ela fosse divorciada, não aceitava é que fosse americana, enquanto o povo aceitava que ela fosse americana, não tolerava é que ele fosse divorciada». A verdade é que hoje se percebe que, os poderes por detrás do trono não estavam à procura de uma solução de compromisso para o problema. Fosse Eduardo VIII mais fiável, talvez. Mas assim, ele foi verdadeiramente encostado à parede: nem a sua proposta de um casamento morganático foi considerada (ele continuaria a ser o rei, mas Wallis não se tornaria rainha; possuiria um título menor e os filhos que pudessem ter não herdariam o trono*). As hipóteses que lhe colocaram foram: ou desistia do casamento, ou casava e o governo demitia-se, criando uma crise política ou então abdicava. Embora a metáfora não pareça adequada a episódios envolvendo a aristocracia britânica, parecia a escolha de cartas da vermelhinha... Quando o escutamos no dia seguinte a proferir o seu discurso de abdicação aos microfones da BBC, apesar da falta de empatia gerada por aquele sotaque afectado, é impossível não ter pena do homem.

* É o que hoje acontece com o segundo casamento do seu sobrinho-neto Carlos, herdeiro do trono.

09 dezembro 2017

HÁ CINQUENTA ANOS: JIM MORRISON VAI «DENTRO»


9 de Dezembro de 1967. Jim Morrison (1943-1971), o vocalista dos The Doors foi detido em plena actuação no palco, na cidade de New Haven, no estado americano do Connecticut. Ainda hoje não se conseguem estabelecer com precisão os acontecimentos que terão antecedido a detenção, mas aquilo que é conhecido está muito longe de exonerar Morrison da escalada de provocações e retaliações que conduzirão àquele clímax. Não havendo ainda os telemóveis da actualidade, sempre à disposição para nos mostrarem os momentos insólitos, já havia então as câmaras de 8 mm guardadas para grandes momentos canónicos, que terão preservado as imagens (mas não o som) quando esses momentos se transformaram de uma coisa noutra, como foi este caso da detenção de Jim Morrison em palco (acima) ou então o muito mais famoso assassinato de John Kennedy em Dallas em Novembro de 1963. Pela reacção das imagens, adivinha-se que Morrison (que acabara de festejar 24 anos no dia anterior) não estaria à espera da atitude policial. 
Numa qualquer outra sociedade ocidental democrática, mesmo há cinquenta anos, a atitude policial teria sido condenada agressivamente pela assistência e considerada um desastre para a polícia em termos de relações públicas, contemplando a notoriedade dos The Doors e o seu «Light My Fire» naquela época. E, mesmo nas não democráticas, será que em Portugal e naqueles mesmos anos, a PSP ou a PIDE se atreveriam a ir prender Zeca Afonso em plena actuação no palco?... Claro que tudo dependeria do que tivesse sido feito mas, mesmo assim, só depois de pensar duas vezes. E contudo, nos Estados Unidos da época e ainda hoje, a polícia parece ser concebida como um corpo segregado da sociedade, como que encarregue de a reprimir em vez de a defender, imune às sensibilidades do resto da sociedade. E daí nascerá a necessidade de uma produção desmesurada de séries policiais para televisão, como que para humanizar uma polícia que não é percebida como tal no dia a dia...

O APRIMORAMENTO DA EXPLICAÇÃO

Entre a legenda da esquerda e a da direita ainda houve espaço para uma rectificação adicional, não se desse o caso do eventual leitor chegar a confundir um pinguim postado na paisagem com um tocador de gaita de foles fardado a rigor. O precioso autor cometerá uma evocação, ainda que involuntária, de um dos episódios iniciais dos Monty Python, «Como identificar diferentes tipos de árvores de uma distância apreciável» (How To Recognize Different Types Of Tree From Quite A Long Way Away)

08 dezembro 2017

QUANDO AS INSTITUIÇÕES, SENDO DUAS COISAS, SÃO MUITO MAIS UMA QUE OUTRA

Assim como as venerandas organizações comunistas, considerando-se marxistas-leninistas, sempre foram na prática muito mais leninistas que marxistas, também o letreiro deste colégio de arquitectura e planeamento exibe à saciedade porque é que a instituição será muito mais dedicada à arquitectura do que ao planeamento...

A BANDEIRA DE UM CONTINENTE QUE CONTINUAMOS A ENCARAR COMO PROVINCIANOS


8 de Dezembro de 1955. Há precisamente 62 anos o Conselho da Europa escolheu a bandeira supra para representar o continente. Durante as suas primeiras décadas ela não terá passado de uma curiosidade até que em 1986 - já Portugal aderira à CEE - a então Comunidade Económica Europeia a adoptou como bandeira própria e a partir daí passou a projectar todo um outro significado político. Com aquele gesto, a bandeira azul das doze estrelas transformou-se também na nossa segunda bandeira, uma referência que é mais conhecida do que compreendida e isso acontece até mesmo com os maiores vultos do jornalismo nacional: abaixo, em 2009, ou seja 23 anos depois da sua adopção, assista-se a este momento peregrino de Ricardo Costa na SIC, a cometer a gaffe monumental de considerar que uma dessas bandeiras - por sinal, disposta numas instalações do PSD - está desactualizada por presumir que o número de estrelas corresponderia ao dos estados membros da (já então) União Europeia... Ora, não se compadecendo com a tudologia assertiva, a Verdade é que a bandeira sempre teve doze estrelas...

Mas este texto, para além de evocar o aniversário da criação da bandeira da Europa, não é para se destinar a desfazer ignorâncias arrogantes como as de Ricardo Costa, nem para criticar como se contemporiza com essas ignorâncias. Embora tenha a ver com uma outra atitude colectiva que nos é própria e com o que a SIC Notícias transmitiu ontem à noite: A Quadratura do Círculo. A parte nobre do programa foi dedicada a comentários à nomeação de Mário Centeno para chairman do Eurogrupo. Na verdade, a União Europeia enquanto estrutura política tem problemas bem mais graves com que se entreter, sejam as negociações do Brexit, sejam as inesperadas dificuldades que se estão a encontrar entre o seu membro mais poderoso, a Alemanha, para constituir governo. Realce-se que José Pacheco Pereira chamou a atenção para esse aspecto provinciano de discutir as questões europeias, mas qual quê! Logo houve quem o assumisse e com muita honra! (Jorge Coelho - aos 29:40). Enfim, se descrevermos uma conversa de largo do coreto em Beja ou em Bragança, em que o tópico dela seja a condição de alentejano ou transmontano do novo membro do governo "lá em Lisboa", aí talvez Jorge Coelho (e outros) já consigam perceber o limitado dessa forma de comentar a política. Mas assim, envolvendo Lisboa e Bruxelas, já não consegue(m) esse exercício imenso do raciocínio mental que é a extrapolação...

07 dezembro 2017

UM «REBRANDING» DO BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME

Que é que me dizem se, em vez de ser o Marcelo a fazer ainda mais coisas, por ocasião da próxima campanha de angariação do Banco Alimentar contra a Fome, dessa vez seja Carolina Patrocínio que, com umas fotografias ao seu jeito, se associe a Isabel Jonet para conferir uma imagem mais moderna à instituição?... De facto, não há como a silhueta das costelas de Carolina Patrocínio para corporizar a fome que se pretende combater com aquelas campanhas de angariação de géneros alimentícios.

A PEGADA HIDROLÓGICA DO HIPOPÓTAMO

Se a expressão pegada ecológica se tem vindo a consagrar no vocabulário actual, então faz sentido potenciar o conceito subjacente a essa expressão e empregá-la adaptada para a fotografia acima, onde o hipopótamo deixa a sua pegada hidrológica visivelmente estampada no fluxo da água que escorre pelas paredes da represa onde se banha.

OPERAÇÃO: CASCAS DE NOZES

7 de Dezembro de 1942. Há setenta e cinco anos tinha início a Operação Frankton, uma audaciosa iniciativa de um punhado de fuzileiros britânicos para sabotar os navios cargueiros acostados no porto de Bordéus. Como Bordéus se localiza bem a montante do estuário da Gironda, no rio Garona, a última fase da aproximação teria que se fazer discretamente, com a...
...equipa de sabotadores a viajar em canoas a remos por uma distância apreciável (cerca de 100 km). A viagem tomou-lhes quatro dias, o treino intenso a que os membros do "comando" de elite haviam sido submetidos fora para lhes dar resistência como remadores, mas esse será o aspecto que menos interessará ao desenhador da história da operação que apareceu publicada...
...em Outubro de 1968 no jornal Tintin. A fase de maior emoção residirá no período de aplicação das minas culminando com as explosões dos navios minados. O resto da história, a que a prancha da BD reserva um palavrosíssimo último quadrado, teve, contudo, um desfecho bem menos empolgante: dos dez membros do "comando" que participaram na operação, somente dois sobreviveram.

06 dezembro 2017

...ATÉ O WALLY JÁ NÃO É O QUE ERA

Depois de ter opinado sobre uma biografia de Washington e voltando à actualidade e pensando naquele que é o seu 45º sucessor no cargo de presidente dos Estados Unidos, apetece comentar o quanto tudo está em transformação, que até o pacatíssimo Wally, que o que mais desejava era passar desapercebido para nos pormos à sua procura, já nem esse é o que era...

WASHINGTON Uma Biografia

Quando não se é norte-americano, a biografia do primeiro presidente dos Estados Unidos não é uma prioridade das leituras. Manda o rigor histórico reconhecer que o que aconteceu nos Estados Unidos daquela época é de um interesse periférico. O país estaria fadado para um futuro brilhante, até mesmo para a hegemonia mundial, mas a realidade é que as estimativas demográficas apontam para que em 1775, no ano anterior à sua declaração de independência, as treze colónias contassem com um total de 2,5 milhões de habitantes (dos quais 20% eram escravos). Ora isso era a população de Portugal europeu por essa mesma época - e Portugal tinha colónias, como o Brasil. Contudo, mesmo que a importância do país de que Washington foi co-fundador e primeiro dirigente fosse muito inferior à que se subentende pela actualidade, a sua personalidade, tal qual é revelada por este compacto volume (817 páginas + anexos), vem a revelar-se extremamente interessante. Devem-se-lhe algumas das idiossincrasias da política norte-americana, herdadas da forma como Washington desempenhou os seus dois primeiros mandatos como presidente entre 1789 e 1797. De facto, tende a esquecer-se que a figura presidencial só apareceu bem tarde na ordem constitucional dos jovens Estados Unidos da América: a declaração de independência data de 1776, o seu reconhecimento pelo Reino Unido só correu sete anos depois, em 1783, e a necessidade de maior coesão entre as antigas colónias com a criação de organismos verdadeiramente federais só produziu os seus frutos ainda mais quatro anos passados, em 1787. Observado desta perspectiva da vida de George Washington, percebe-se que a estruturação da administração federal dos Estados Unidos foi um processo muito mais tacteante e titubeante do que aquilo que a propaganda moderna nos quer dar a entender. É por isso que a personalidade de Washington - e com isso, esta biografia - se tornam tão interessantes, pois muito do que se tornou tradição se deverá aos costumes então estabelecidos. Exemplo, o facto de o presidente poder permutar caso a caso e na ocasião que entender os membros da sua administração e não o fazer em bloco e na mesma altura como acontece com os governos na Europa. O autor tem - e não procura esconder - um fraquinho pelo biografado (e outro por Alexander Hamilton), mas, a não ser a respeito da questão da escravatura (em que se excede a desculpabilizar Washington), as simpatias não me parecem perturbar aquilo que se pode aprender da leitura.

A EXPLOSÃO DE HALIFAX


6 de Dezembro de 1917. A colisão acidental de dois navios cargueiros no porto canadiano de Halifax provocou o incêndio num deles, o francês Mont-Blanc, que transportava uma perigosíssima carga de explosivos para as munições do exército francês então engajado em plena Primeira Guerra Mundial. Do embate resultou um incêndio, este propagou-se à carga e pouco depois das 09H00 da manhã de há 100 anos (o acidente tivera lugar meros 20 minutos antes) teve lugar a maior explosão não nuclear registada de toda a nossa História, que terá tido uma potência estimada de 2.900 toneladas de TNT (o que equivalerá a cerca de 20 a 25% da potência da bomba depois lançada sobre Hiroxima).
A explosão arrasou instantaneamente 800 hectares da área portuária da cidade (que contaria na época, dinamizada pelo intenso tráfego marítimo com a Europa, uns 65.000 habitantes). A contagem dos mortos nunca pôde ser apurada com precisão. Terá havido cerca de 1.600 mortos e 9.000 feridos como consequência imediata da explosão. A gravidade dos ferimentos terá feito subir o número de mortos até aos 1.950 nos dias seguintes, mas os 2.000 mortos hoje considerados resultam de uma estimativa, já que até ao Verão de 1919, dali por ano e meio, se encontrarão cadáveres soterrados de vítimas da explosão. Ironicamente, da tripulação do Mont-Blanc, sobreviveram todos menos um...

05 dezembro 2017

VIAGENS AO PASSADO PARA DESCOBRIR O QUE NOS PROMETIAM PARA O FUTURO

Estas eram as previsões para 1968 que apareciam na edição de há 50 anos de um vespertino lisboeta, atribuídas a um «cosmobiologista» mexicano chamado Arnoldo Krum Heller, o «Nostradamus» local. Uma consulta adicional permite-nos destacar um pormenor que escapou ao jornalista da France-Press (F.P.) responsável pela elaboração e difusão das previsões: é que Arnoldo Krum-Heller seria tão esotérico que nos fazia as suas previsões já do Além: as páginas respeitantes à sua pessoa que constam da wikipedia dão-no como falecido em 1949... Quanto à revolta dos brancos norte-americanos eu creio que ela só veio a acontecer em 2016, quando, se calhar como desforra da eleição anterior de Obama, uma apreciável percentagem deles votou em Donald Trump...

«DIE SCHLACHT BEI LEUTHEN»


5 de Dezembro de 1757. Dia em que se travou a Batalha de Leuthen, quando se enfrentaram os 36.000 prussianos, que eram comandados pelo seu próprio rei Frederico II (1712-1786), com os 66.000 austríacos comandados pelo príncipe Carlos Alexandre de Lorena (1712-1780), o cunhado da imperatriz Maria Teresa de Habsburgo (1717-1780). Apesar da significativa inferioridade numérica, o desfecho foi favorável aos prussianos, mas não é isso que me interessa hoje invocar. Os territórios, onde mais de 100.000 combatentes daqueles dois exércitos de cariz indiscutivelmente germânico se defrontaram há 260 anos, numa província - a Silésia - cuja posse os dois países disputavam por a considerarem inquestionavelmente germânica, esses terrenos, escrevia, pertencem actualmente (foto abaixo) à aldeia de Lutynią, distrito de Miękinia, condado de Środa Śląska, ou seja, constate-se toda a toponímia de ressonâncias indisputavelmente eslavas (no caso polacas), que é a consequência da deslocações de fronteiras e das transferências de populações que ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial, à custa da Alemanha e das populações alemãs. Die Schlacht bei Leuthen poderá ter ainda hoje um grande significado noutras paragens mas, descontando os benefícios turísticos, Bitwa pod Lutynią terá significado discreto para os cerca de 1.100 residentes actuais no local onde ela se travou. Há quem considere, como eu, que isso ainda se pode tornar no futuro num problema da Europa. Há quem deseje, mais do que considerar, que não, que os alemães agora são gente pacífica. E há uma ampla maioria de europeus que nem sabe que a questão existe.

OS RABISCOS QUE DEUS FAZ PELO CÉU

Assim como nós nos entretemos assinando as vidraças embaciadas nos dias húmidos de inverno, temos que dar o devido desconto a Deus quando ele faz algo muito parecido com as nuvens do Céu em dias de semi-nebulosidade. Só é estranho que, como em tantas outras coisas, também nesta Deus tenha que se exprimir em inglês...

04 dezembro 2017

O HISTORIADOR QUE ATÉ MERECE UM LOGOTIPO

Ser-se historiador é uma condição privilegiada para se compreender como a arte de escrever artigos de opinião evoluiu com os tempos. Os de hoje já nada têm com aqueles em que a mais apaixonada e assertiva das opiniões estava destinada a ser convertida poucos dias depois no forro de um caixote de lixo. Eram dias diferentes os de antanho, em que trabalhos como o que se publica abaixo obrigavam a pesquisas demoradas numa biblioteca. Hoje é de uma desarmante simplicidade compilar os artigos de opinião que o historiador Rui Ramos dedicou no Observador ao eminente acontecimento recente que foi o colapso do BES. Foram cinco, dos quais quatro concentrados entre o final de Maio de 2014 e meados de Agosto seguinte, no período de dois meses e meio em que se assistiu à derrocada do que parecia uma das instituições mais sólidas do nosso sistema financeiro. Tanto assim, que no primeiro artigo que Rui Ramos dedica ao assunto, porventura fazendo-se eco do que consideraria ser o senso comum, ainda ele se pergunta sobre quem quer tramar Ricardo Salgado, o banqueiro que encarnava a instituição. Mas a trama revelava-se mais complicada, o BES transformou-se na Crise no GES conforme se pode perceber pela tag que passa a acompanhar as opiniões de Rui Ramos. Ainda não passara um mês e já a sua opinião evoluíra, a pessoa do tramado Ricardo Salgado tornara-se indesejada, embora se percebesse pelo desenvolvimento da opinião que a responsabilidade não se devia personalizar nele, antes na falta de «democratização da economia, com mercados abertos e concorrenciais, reguladores atentos e decisivos». E tanto a culpa seria estrutural e não pessoal que, mais um mês transcorrido e já faria sentido apiedarmo-nos do banqueiro, segundo ainda a opinião do mesmo Rui Ramos. Azar o do historiador porque, escassos dias depois dessa demonstração de compaixão, o BES - e não o grupo GES como muito se insistiu na altura - teve que ser resgatado de emergência. Sobre o assunto substantivo, a perspectiva de falência, a urgência das decisões ou a enorme injecção de capitais (4.900 milhões) que teve que se efectuar, nada se sabe da opinião de Rui Ramos. Só temos opiniões dele sobre a pessoa que dirigiu o banco e a quem se poderia assacar responsabilidades. A penúltima coluna de opinião que o historiador dedica ao assunto é, mais uma vez, à pessoa de Ricardo Salgado e não ao banco falido. É de significado equívoco, porventura ameaçador: E se ele fala? Mas a resposta está escarrapachada no final do mesmo artigo: «Ele não fala». Aparentemente Rui Ramos vem a desdizer-se quatro meses passados, no último artigo da série, que é dedicado (ainda e sempre) a Ricardo Salgado e às suas declarações a uma comissão parlamentar de que hoje o que melhor recordamos foi o uso de um provérbio chinês envolvendo peles de leopardo. Desde aí, e depois da promessa de que ele não falava, quem não falou mais sobre o assunto foi Rui Ramos.
Depois disso, já se passaram praticamente três anos e Rui Ramos já publicou uns 270 artigos de opinião no Observador. Mas mais nenhum deles relacionado com o colapso do BES que, como se percebe pela síntese acima, é um assunto que, ele, testemunha da História, só lhe parece merecer interesse se envolver a pessoa de Ricardo Salgado. É diante destas constatações que me pergunto: o que é que qualifica estes opinadores para lhe ser conferido esse estatuto? O que é o que o historiador Rui Ramos recuperaria do que na época escreveu o opinador Rui Ramos a respeito daquela que terá sido a maior crise da banca portuguesa? Provavelmente nada neste exemplo e provavelmente nada na esmagadora maioria dos outros - o propósito político dos artigos é tal que, estatisticamente, no último ano, 12% dos títulos dos artigos de opinião de Rui Ramos no Observador têm uma referência explícita a António Costa - e nenhuma delas é abonatória... Tanta é a abnegação mostrada em distorcer os tópicos para uma perspectiva de direita ultraliberal que eu creio que Rui Ramos merece um logotipo próprio; inspira-se no que foi utilizado na Suécia no dia em que mudaram o sentido tráfego, porque de tudo o que escreve conclui-se sempre que só há uma maneira de conduzir as coisas: é passar para a direita e de preferência encostado o mais possível à direita...

A COROAÇÃO DE BOKASSA I

4 de Dezembro de 1977. Tem lugar em Bangui (uma cidade de 300.000 habitantes situada no coração de África) a coroação de Bokassa I, o primeiro imperador do Império Centro-Africano. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata do primeiro monarca africano a reclamar esse título: os soberanos da Etiópia usaram um título equivalente durante séculos. O que tornava a cerimónia mais memorável do que muitas coroações que houvera até aí (e outras que aconteceram depois) era a sua cenografia, que se ia decalcar aos costumes de um outro continente (Europa) e de um outro século (XIX). O novo imperador era não só um francófilo como um admirador entusiasmado da figura de Napoleão Bonaparte. E muito, senão quase tudo, do cerimonial pensado para ter lugar em Bangui destinava-se a mimetizar a coroação do seu ídolo que ocorrera em Dezembro de 1804 em Paris. Obviamente, com a distância de 5.000 km e de 173 anos, houve que fazer adaptações e são elas que aportam o lado mais bizarro aos acontecimentos. A cerimónia teve que ter lugar no pavilhão polidesportivo de Bangui, uma infraestrutura construída pelos jugoslavos ao abrigo de um protocolo de cooperação e o edifício com maior capacidade da capital. Só ali se podiam juntar os cerca de 5.000 convidados para a cerimónia, uma assistência em quantidade mas não em qualidade, visto que muitos dos convidados estrangeiros, a começar pelo Papa, incluindo outros monarcas e chefes de Estado declinaram prudentemente o convite. A censura implícita da comunidade internacional não dissuadiu a ostentação de que o futuro monarca deu mostras, aprecie-se nas imagens o trono, a coroa ou a capa escarlate de arminho. As cerimónias que se seguiram, nomeadamente o banquete, estiveram à altura: os cozinheiros eram obviamente franceses e as bebidas também: dezenas de milhares de garrafas de borgonha e de champanhe. Assim como os talheres, o serviço de copos e o serviço de pratos. A França bem podia destacar-se a pregar moral e a fazer-se representar ostensivamente na cerimónia pelo secundaríssimo ministro da Cooperação, Robert Galley, mas, como qualquer prostituta da Place Pigalle, a economia francesa aproveitou tudo o que podia da cerimónia para facturar. Facturou com o trono que foi criado pelo escultor Olivier Brice, facturou com o guarda-roupa imperial que foi desenhado por Pierre Cardin, facturou com a coroa em ouro puro e 7.000 quilates de diamantes que foi concebida pelos joalheiros da Arthus-Bertrand, facturou até com os oito cavalos brancos que puxavam a carruagem imperial, que vieram da coudelaria de Pin, na Normandia (com tanto azar que dois deles morreram quase no fim da cerimónia, obrigando a família imperial a terminar o seu passeio numa limousine). Tudo aquilo era um despropósito para um país com pouco mais de 2 milhões de habitantes, com os custos estimados da cerimónia a representarem qualquer coisa como 20% do seu PIB. Mas a última palavra do ponto de vista diplomático, estava reservada para o novo monarca, que não se esqueceu de manifestar o seu desagrado pela subestimação que a França lhe conferira: quando da cerimónia de apresentação de cumprimentos, o encarregado do protocolo de Estado implicou com o comprimento do vestido da esposa do ministro Galley, bloqueando a audiência até que aquela se fosse trocar. Naquele mundo velado de subtilezas que é o da diplomacia, a insolência visava mais do que a esposa daquele que seria um quase desconhecido ministro francês, visava a França através da filha do Marechal Leclerc de Hauteclocque.

03 dezembro 2017

TODOS PODEMOS SER O NOSSO PRÓPRIO ŽIŽEK*

Assim como o gato, o frio que grassa induz-nos a (re)leituras aconchegadas e compenetradas de obras como o Manifesto Comunista.
 
* Slavoj Žižek (1949- ), é um filósofo, sociólogo, cientista social e várias outras coisas oriundo da Eslovénia. Para quem aborda aqueles assuntos herméticos, aparece bastante em vídeos e na TV onde normalmente fala em inglês de tudo, com um sotaque carregadíssimo a que acresce um acentuado defeito de pronúncia, para além de estar constantemente a coçar o nariz, mas é um sucesso e é chiquíssimo evocá-lo.

O QUE É QUE TEM O BARNABÉ (CENTENO) QUE É DIFERENTE DOS OUTROS?


Sobre a tão discutida questão da candidatura de Mário Centeno para presidir ao fórum dos ministros das Finanças dos países da zona Euro, gostaria de deixar previamente expresso que continuo a pensar precisamente o mesmo que há 20 meses, quando publiquei neste mesmo blogue a montagem abaixo, com o ministro alemão Schäuble a manipular o seu homólogo holandês, Dijsselbloem, que presidia ao fórum, como se este não passasse de um roberto. De facto, considerando a estrutura de forças em que parece assentar a Europa, será muito mais importante saber a identidade e a filiação política do próximo ministro das Finanças do governo alemão (executivo esse que Angela Merkel se está a deparar com inesperadas dificuldades em formar), do que todo este frufru que agora se está a gerar à volta do lugar secundário a que Mário Centeno concorre - diz-se - como favorito.
É verdade que é preciso opinar com cautela quanto ao assunto porque: a) Mário Centeno já excedeu em muito as minhas expectativas quando ao seu sucesso no desempenho das suas funções; b) há sempre aquele argumento irrebatível que estabelece que é melhor que seja ele a ocupar aquele lugar do que um outro qualquer de um outro país. Mas os portugueses que prestam atenção a estas coisas andarão decerto cansados do tal argumento do prestígio acrescido para Portugal, que não se concretizou em nada de tangível quer no caso de Durão Barroso, quer no caso de António Guterres. Acresce a esse distanciamento cínico, o facto da promoção da candidatura estar a ser feita em bases aldrabadas: como abaixo se lê (e se esquece), a "família socialista" que presta agora o "claro apoio" a Centeno é precisamente a mesma "família" a que pertencia o predecessor Jeroen Dijsselbloem de triste memória...
Parece que as "famílias" já não são o que eram, e claro que o problema de fundo é outro, é uma questão da soberania de Portugal versus a parcela dela que foi insidiosamente cedida a Bruxelas sem que o assunto fosse por cá verdadeiramente discutido, mas sobre isso, suponho que António Costa não se queira pronunciar.

O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAÇÃO

3 de Dezembro de 1967. Há precisamente cinquenta anos tornava-se notícia a realização do primeiro transplante de coração bem sucedido da História da Medicina. O mais surpreendente, porém, era o local onde isso acontecera: a improvável Cidade do Cabo, na África do Sul. Para que o assunto fosse ainda mais interessante do ponto de vista informativo, especialmente para as audiências ocidentais, o cirurgião herói, o Dr. Christiaan Barnard, era muito fotogénico, na linha dos protagonistas de séries televisivas como o Dr. Kildare (abaixo). Significativo do como as notícias não tinham o desgaste dos dias que correm, o assunto ainda valia a capa das edições de 15 de Dezembro das duas principais revistas de notícias dos Estados Unidos (acima), muito por causa, conceda-se, do facto de o transplantado ainda estar vivo. Contudo e infelizmente, o homem de 54 anos que recebera o coração de uma mulher de 25, veio a falecer cerca de uma semana depois. A propósito, parece que não tem havido nada para dizer de novo a respeito de Salvador Sobral...

02 dezembro 2017

RECORDANDO QUE O FACCIOSISMO JORNALÍSTICO NÃO COMEÇOU COM O OBSERVADOR

2 de Dezembro de 1979. Há precisamente 38 anos tinham lugar as únicas eleições legislativas intercalares da história deste regime. Ganhou-as a AD, a Aliança Democrática, que era uma coligação dos partidos da direita (PSD, CDS e PPM). Mas ganhou-as mesmo: a AD ficou com a maioria absoluta da representação parlamentar da Assembleia eleita naquele acto eleitoral (128 deputados em 250). Mas não é das eleições que aqui quero falar, é da campanha eleitoral precedente, e recuperar o teor dos artigos que uma jornalista encarregada de acompanhar uma das formações concorrentes (precisamente a AD que saiu vencedora) foi escrevendo consecutivamente para o seu jornal, o Diário de Lisboa. O Diário de Lisboa era um vespertino conotado como muito próximo dos comunistas e as simpatias da jornalista em questão, Fernanda Mestrinho, não deviam andar muito longe dessa conotação. E isso faz-se sentir no resultado do seu trabalho, aqui sintetizado em títulos de uma parcialidade que é mais do que evidente. A dinâmica de popularidade (acima é a fotografia do comício de Faro) que levou a AD ao poder passou-lhe completamente ao lado, mas também ela nem parece estar à procura de a ver. Quando hoje apreciamos os engajamentos (noutras convicções) de jornalistas mais nov(o)as, casos de Helena Matos ou Fernanda Câncio, há que tomar em conta o quanto existe de há muito uma tradição instalada de indulgência para com a falta de objectividade na informação política em Portugal.

A PRIMEIRA REACÇÃO NUCLEAR CONTROLADA

2 de Dezembro de 1942. Escondida da atenção mediática que então se concentrava nos vários teatros de guerra da Segunda Guerra Mundial (África, Pacífico, Rússia), tinha lugar a primeira experiência em que se conseguia proceder a uma reacção nuclear controlada. A proeza teve lugar nas instalações vagas de um estádio desportivo desactivado em Chicago. A documentação que comprova o feito tem a falta de espetacularidade da imagem acima, o crescimento exponencial da intensidade dos neutrões na folha de registo, que consta da página 441 do livro abaixo. Em retrospectiva, conhecendo-se os problemas posteriores que se vieram a colocar sobre a questão da segurança nuclear e considerando que se tratava de uma experiencia pioneira, em que muito poderia ter corrido mal, não deixa de ser tremendamente irónico que o feito tivesse tido lugar num sítio tão povoado quanto a cidade de Chicago. Mas, mais do que a preocupação com a produção de energia, o que era importante no processo ali concretizado há 75 anos, era um subproduto resultante da reacção, o plutónio-239. Dali por dois anos e meio, o conjunto de reactores entretanto activados já havia conseguido produzir a quantidade suficiente de plutónio para construir (e detonar) duas armas nucleares: a experimental de Alamogordo e também a utilizada sobre Nagasáqui.

01 dezembro 2017

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO, MAS EM VERSÃO FOFINHA DE METROPOLITANO

VOCÊ JÁ SE ESQUECEU QUE HOJE NÃO DEVERIA SER FERIADO?

Se há coisa pela qual a nossa sociedade peca é pela falta de memória. E, consequentemente, se há coisa pela qual a nossa sociedade se fragiliza, é pela facilidade como quem dispõe da opinião publicada consegue fazer reviver ou enterrar a seu gosto os temas que considera convenientes. Hoje seria um excelente dia para ir perguntar a Miguel Frasquilho se ele ainda mantém a opinião a respeito dos feriados que expressava há seis anos ou se entretanto mudou de opinião. Mas como Frasquilho, apesar de ser do PSD, é um dos poucos equilibristas que restam ao regime, daqueles que estão em todas (já foi presidente da AIECP e é actualmente o chairman da TAP, escolhido pelo accionista Estado), percebe-se o desinteresse do PS em expô-lo ao ridículo de o exibir politicamente derrotado, por muito bem fundamentadas que estivessem as explicações apresentadas na altura para a supressão dos quatro feriados. Ainda hoje eu gostaria de tirar a limpo se tudo aquilo estava assente numa convicção técnica, ou se, com todo o seu voluntarismo, Miguel Frasquilho se prestou apenas a ser um peão de brega de uma causa necessariamente impopular.

30 novembro 2017

COMO EVITAR CUIDADOSAMENTE UM ASSUNTO


30 de Novembro de 1967. Há precisamente cinquenta anos, o Reino Unido concedia a independência ao Iémen do Sul. O documentário acima, mostrando as últimas horas da presença britânica na colónia, capricha na espampanância precisamente para esconder o quanto o processo de descolonização fora uma humilhação para as autoridades coloniais britânicas. A marcialidade da fanfarra da banda sonora acaba por destoar do conteúdo das imagens. Nelas, vêem-se as últimas malas dos soldados expedicionários a serem transportadas de helicóptero para os navios, mas sem se explicar que os britânicos já não controlavam as próprias instalações portuárias em Áden e não queriam correr os riscos de as carregar para bordo da forma tradicional; também por incapacidade em assegurar um perímetro seguro em terra, a última guarda de honra ao Alto-Comissário Humphrey Trevelyan, com o simbólico arriar da bandeira, teve lugar ao largo, a bordo de um navio, o HMS Intrepid. Um conjunto de pormenores verdadeiramente inconvenientes, que a frota de 25 navios deslocados para o resgate e a parada de aviões não consegue escamotear, apesar dos ângulos como as imagens são captadas. No mar, a Royal Navy podia-se prestar a tais cenas mas, se tivesse sido em terra, não haveria um único soldado britânico a almejar a duvidosa honra de ser o último a morrer no conflito para defender a presença britânica em terras iemenitas.
O tema é tanto mais pertinente quanto se constata o esquecimento que é dado a este cinquentenário por toda a comunicação social do Reino Unido. E essa omissão é tanto mais difícil de compreender quanto, precisamente hoje, a primeira-ministra Theresa May se encontra naquelas mesmas paragens do Médio Oriente, mais concretamente na Arábia Saudita, para discutir com o rei Salman a concessão de ajuda humanitária aos - adivinhem? - iemenitas (abaixo). Pois bem, em todo o Reino Unido não consegui encontrar um jornalista que fosse que tivesse feito essa aparentemente simples sinapse entre os dois acontecimentos. Parece-me que, pior do que se ter um passado colonial, será ter um passado colonial mal concluído...

QUEM MANDOU MATAR ALFRED HERRHAUSEN?

30 de Novembro de 1989. Na Alemanha ainda se vivia sob a impressão de euforia que se sucedera à queda do Muro de Berlim (três semanas antes - 9 de Novembro) quando foi surpreendida com a notícia de um sofisticado e bem sucedido atentado cometido contra Alfred Herrhausen, o presidente do Deutsche Bank. Parecia o regresso aos princípios do Deutscher Herbst (Outono alemão) de 1977, quando a Alemanha Federal atravessara uma enorme crise de segurança por causa do rapto de um dirigente empresarial (Hanns-Martin Schleyer, posteriormente assassinado pelos raptores), encadeado depois com o desvio de um avião da companhia aérea estatal Lufthansa. A crise culminara com o suicídio suspeitamente oportuno dos dirigentes terroristas da Fracção do Exército Vermelho já julgados e condenados. Regressando a 1989, por causa do que acontecera com Schleyer, as condições de segurança que rodeavam um alvo potencial como Alfred Herrhausen eram completamente outras e é por isso que vale a pena descrever o atentado, assim como as condições especiais de que se revestiu para ter sido bem sucedido. A viatura blindada onde viajava Herrhausen seguia no meio de um comboio de três viaturas com a sua equipa de protecção. A bomba, com 7 kg de explosivos, que estava colocada na mochila de uma bicicleta esquecida ao lado da estrada, detonou com uma precisão milimétrica ao lado da porta blindada do lugar onde viajava o alvo. Para alcançar essa precisão, o explosivo foi detonado pela interrupção de um feixe de luz infravermelho (invisível) que foi causada pela deslocação do próprio Mercedes onde seguia Herrhausen. A rematar a sofisticação do atentado, e para ultrapassar a protecção fornecida pela porta blindada, aos explosivos fora acoplado um sofisticado dispositivo penetrativo (Misznay-Schardin) que é semelhante ao que é utilizado por algumas munições anti-tanque. Só assim o projéctil formado em consequência da explosão conseguiu atravessar a porta atingindo Alfred Herrhausen. Seccionou-lhe as duas pernas provocando, por causa da hemorragia, uma emergência médica incontrolável. Nos dias que correm um tal dispositivo tornou-se uma banalidade, popularizado nomeadamente no Médio Oriente (Líbano, Iraque), mas há 28 anos tratou-se de uma novidade de deixar boquiabertos os - ditos - especialistas. Impondo a pergunta: quem fornecera tal know-how aos autores do atentado? Não faltou quem apontasse o dedo para os suspeitos óbvios, para a outra Alemanha, a que acabara de colapsar. Só que, naquelas circunstâncias, a iniciativa já não fazia sentido. Seria que, até no terrorismo, se poderiam verificar os efeitos de inércia burocrática e que a preparação do atentado já estaria demasiado adiantado para que o HVA da Stasi o pudesse abortar?...
Mas, num indício de que a opacidade e a encenação a respeito do que acontecera parecia abranger tanto os autores quanto as vítimas, as imagens que acompanhavam as notícias do atentado exibiam retratos de um Herrhausen com uma aparência artificialmente jovem para os quase 60 anos que ele contaria à data. Quanto à pergunta que o Bild então exibia em primeira página, Warum? (Porquê?), essa ainda hoje está por responder. Nem o porquê, nem o quem, embora a sofisticação de que se revestiu o atentado limitasse substancialmente o campo das pesquisas. Este parece-me ser um daqueles casos em que a ausência de empenho posterior em encontrar uma resposta é, em si, uma resposta, pelo menos uma resposta para aquilo que os responsáveis por tal investigação estariam à espera de encontrar (e que não lhes interessou).

OS OLHOS ARRANCADOS ou O ESCRUTÍNIO DA OPINIÃO PUBLICADA

Repare-se na data. Esta profecia tem dois anos e a pergunta que impõe é: quantas asneiras são precisas para que um político, que se dedica exclusivamente a publicar opiniões nos jornais, seja sancionado pelas suas precipitações e erros de leitura política? Ou, como se suspeita, prevalecerá a capacidade de dar graxa aos que o financiam e lhe estão por cima? Em vez da capacidade de prestar satisfações aos seus pares e ao público que é suposto lê-lo. Ou é suposto escrever apenas coisas para animar a malta do clube, em jeito de claque futebolística? Se tomássemos a leitura política de José Manuel Fernandes a sério, a imagem abaixo bem poderia ser aquilo que restava de um dos grupos parlamentares de um dos partidos da Geringonça... Se tomada a sério.

29 novembro 2017

TRADUÇÃO LIVRE

Mesmo que os conhecimentos linguísticos do leitor - como os meus - não cheguem para saber ler todos estes avisos, dá para perceber que o apelo ao silêncio deste cartaz é subtilmente distinto conforme o idioma em que se expressa. Por exemplo, a explicação complementar que é dada aos falantes de inglês (os exames em curso), parece ser desnecessária para quem se expressar em alemão - cumprem e pronto! Entre os latinos, tradicionalmente menos cumpridores, aquilo que se pede aos que falam castelhano (não fazer ruído) não é rigorosamente o mesmo do que o que se pede aos que falam italiano (que é manter o silêncio). E haverá uma importante diferença entre mantê-lo e respeitá-lo, tal qual é pedido aos francófonos, como se o respeito pelo silêncio fosse algo inimaginável entre os transalpinos. Confesso a minha extrema curiosidade a respeito dos expedientes que serão utilizados para persuadir chineses e japoneses a permanecerem silenciosos... E falta o aviso em português: Chiu! Pouco barulho.

A CARTA DE LORDE LANSDOWNE

29 de Novembro de 1917. Há cem anos aparecia publicada no diário britânico The Daily Telegraph uma carta aberta intitulada Coordenação dos Objectivos de Guerra dos Aliados. Tratou-se de uma carta destinada a tornar-se circunstancialmente importante, apenas para depois cair rapidamente num conveniente esquecimento. Mas, para compreendermos esse ciclo de importância é aconselhável conhecer quem a assinava. Começar por dizer que Lorde Lansdowne (1845-1927) nasceu em berço de ouro é uma banalidade. Henry Charles Keith Petty-Fitzmaurice (de seu nome) era tão nobre que possuía um título de nobreza distinto por cada um dos três reinos que então constituíam o Reino Unido: era marquês de Lansdowne em Inglaterra, conde de Kerry na Irlanda e ainda barão de Nairne na Escócia. Numa época em que extensão fundiária ainda tinha imenso significado, os títulos representavam uns 80.000 hectares espalhados pelas duas ilhas. E, nascido durante o longuíssimo reinado da rainha Vitória (1837-1901), Lorde Lansdowne representava um dos últimos exemplares de aristocratas naturalmente destinados à carreira política, que essa mesma época vitoriana veria a ser substituídos gradualmente pelos políticos de ascendência comum. Era o reflexo da evolução da sociedade e da política britânica, que, no período de vida do próprio Lorde Lansdowne, assistira a um crescimento do eleitorado efectivo de 0,5 milhão de eleitores na década de 1840 para os mais de 10 milhões que virão a votar nas eleições de 1918. Mesmo considerando esse facto, de que a carreira política de Lorde Lansdowne se deveria muito mais ao seu nascimento do que aos seus méritos, o percurso que o levara até ali, em finais de Novembro de 1917 era impressionante: fora Governador-Geral do Canadá (1883-1888), Vice-Rei da India (1888-1894), Secretário de Estado (ministro) da Guerra (1895-1900) e Secretário de Estado (ministro) dos Negócios Estrangeiros (1900-1905). Colocado em reserva depois da chegada dos liberais ao poder em 1905, tornara-se o líder dos conservadores na Câmara dos Lordes a partir daí. É com esse estatuto que o vamos encontrar quando do episódio da carta. A caminho de completar 73 anos, Lorde Lansdowne tinha, assim, uma opinião a que havia que conceder a devida atenção.

O título da carta (Coordenação dos Objectivos de Guerra dos Aliados) não é muito revelador sobre o seu conteúdo: trata-se de uma recomendação para que se estudasse seriamente as possibilidades de chegar a uma paz negociada com os impérios centrais. Se o verdadeiro sucesso das partes beligerantes nos três primeiros anos de guerra se limitara ao registo dos desgastes morais entre o inimigo, então, pela argumentação expressa na carta, os alemães haviam sido bem sucedidos com Lorde Lansdowne. Eis algumas passagens do documento:

«Não vamos perder esta guerra, mas o seu prolongamento vai arrastar consigo a ruína do mundo civilizado e um aumento acrescido do sofrimento humano que por ele já é actualmente suportado (...) Não se deseja o aniquilamento da Alemanha como uma grande potência (...) Não se procura impor sobre o seu povo (alemão) qualquer forma de governo que não seja da sua própria vontade (...) Não se tem qualquer desejo de negar à Alemanha o seu lugar no comércio mundial (...)»

A proposta foi muito mal acolhida, tanto pela esmagadora maioria da imprensa britânica como pelos círculos de poder. Neste meio, Lorde Lansdowne foi não apenas censurado como condenado e votado ao ostracismo. Na época, quando se deu destaque à sua proposta foi sobretudo para a desfazer, como aconteceu, por exemplo, com o escritor H.G. Wells, que atribuía um cunho fortemente sociológico às preocupações do proponente: «...é uma carta de um aristocrata que tem mais receio da revolução do que da desonra da Pátria». De facto, quando a carta foi publicada, a Revolução de Outubro na Rússia ainda não tinha um mês... e as preocupações de Lorde Lansdowne não deviam ser apenas dele mas também de muitos da sua classe... e não só no Reino Unido. A Primeira Guerra Mundial durou quase mais um ano e, na hora da Vitória (11 de Novembro de 1918), o episódio fora convenientemente esquecido porque no Reino Unido nunca se duvidara do desfecho da guerra.

Uma nota final. Há uma tremenda ironia em ler uma crónica actual no The Times defendendo Lorde Lansdowne e a sua carta, apresentando-o neste centenário como uma vítima da ditadura das opiniões, acusado de derrotismo, qualificado como traidor, quando fora esse mesmo jornal o inicialmente escolhido pelo próprio Lorde Lansdowne para publicar a sua carta em 1917. Se não o fez, foi porque o editor do The Times de então se recusou a fazê-lo.

28 novembro 2017

COMO - FELIZMENTE - NEM TODA A IGNORÂNCIA PASSA IMPUNE

A primeira história tem mais de dez anos e ocorreu por ocasião de uma audição do então PGR no parlamento. O assunto que a provocou - um tal de Envelope 9 que pareceu assunto grave na altura - já foi, provavelmente como devia, há muito esquecido, mas o que não devia ter sido foi uma das reacções de Souto Moura, quando confrontado com a questão do formato em Excel dos ficheiros que eram alvo da polémica. Como se escrevia então (21 de Janeiro de 2006) numa passagem da notícia no Diário de Notícias :
 
'Nunca vi o programa Excel'
 
Questionado sobre o teor do comunicado da Procuradoria (de sexta-feira, 13), no qual foi dada a garantia de que no Envelope n.º 9 apenas se encontravam dados relativos à facturação detalhada de Paulo Pedroso, Souto Moura afirmou que foi essa a 'informação' que os magistrados do MP que acompanham o julgamento lhe deram no próprio dia. 'Acredito que não houve má-fé', sublinhou.
E disse que tal comunicado foi difundido sem a PGR ter conhecimento de um outro da PT, no qual a empresa, implicitamente, reconhecia o erro dando explicações sobre o funcionamento do programa informático Excel. 'Eu nunca tinha visto um programa Excel', desabafou aos deputados.
O que fica a faltar à descrição - infelizmente perderam-se os vídeos do momento - foi o enfâse dado por aquele alto magistrado à sua ignorância a respeito de um aplicativo informático corriqueiro como o Excel. Por essa vez, as redes sociais, se calhar porque ainda incipientes, não se escandalizaram (como deviam), mas o momento era patético: as pessoas podem ser ignorantes mas fica-lhes sempre mal orgulharem-se dessa ignorância. Mas o que me parece mais desconfortável é como essas manifestações de ignorância se referem a questões técnicas/científicas, não parecem ser depois sancionadas socialmente pela comunicação social - quando elas são, no mínimo, exibição de uma mediocridade auto-congratulatória. Coisa expectável se vindas do taxista, é muito triste se as virmos exibidas por um procurador geral da República. O que nos leva à segunda história que aqui é contada com um sentido de desforra. A desforra de que nem sempre a ignorância displicentemente confessada sai impune. O episódio (bem recente) ocorreu durante um daqueles programas de comentário futebolístico. Um dos convidados, José Guilherme Aguiar, alegando previamente aquela tradicional ignorância a respeito dos assuntos mais elementares da navegação na net (que continua por sancionar socialmente), resolveu troçar da publicidade associada a um site de um clube rival:
 
- (...) o meu informador, que toda a gente conhece dentro deste programa que é o meu filho, eu pedi-lhe, e ele mandou-me um... um... site, não é? É site que se diz?
- Sim.
- ...de um famoso comentador do Benfica, Hugo qualquer-coisa, não fixei o nome...
- Hugo Gil.
- ...e depois... ah, ah, ah, abri o artigo e depois aparecia a fotografia do... ah, ah, ah... desse senhor que apareceu agora na televisão, esse ex-jornalista, aparecia o princípio da notícia e depois aparecia uma coisa que era publicidade, «você quer acabar com as hemorróidas?», eh,eh,eh, era assim que vinha! E eu digo assim: olha que raio de anúncio é que eles vão pôr!
 
Azar o de José Guilherme Aguiar desconhecer que a publicidade que lhe aparece na sua página, e da qual tanta troça fez, não tem nada a ver com as escolhas do autor do site, mas antes com o seu próprio histórico de navegação... Riu-se muito mas, por ignorância, acabou por ser o próprio José Guilherme Aguiar a - por assim dizer - dar o cu ao manifesto.