08 março 2016

LISBOA, PRIMAVERA DE 1947

Lisboa, duas fotografias de dois ângulos complementares da Praça dos Restauradores captadas nos meses de Março e Abril de 1947. Esta Primavera de 1947 nada tem do ambiente de abertura política a que se normalmente associa a estação (a Primavera Marcelista, a Primavera de Praga). Pelo contrário, vive-se o refluxo da abertura débil que Salazar fora obrigado a promover no regime na segunda metade de 1945, por causa da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial - as tais eleições tão livres como na livre Inglaterra. Depois de tal interregno de liberdade, em Fevereiro de 1947 Salazar procedera a uma significativa remodelação governamental, quando substituíra os titulares da Economia, do Interior, das Colónias e da Educação, mas não o dos Estrangeiros, e isso por causa da pressão do ministro da Guerra, Santos Costa, o que até obrigou a que Salazar retirasse o convite que ele já havia endereçado nesse sentido a Supico Pinto. Raposa velha, condicionado pela ascensão do braço militar do regime - protagonizado por Santos Costa - que só ocorrera por causa da importância das armas durante a Guerra, Salazar abria a 4 de Março o flanco do poder a uma outra estrela (civil) potencialmente rival daquele, quando Marcello Caetano é nomeado presidente da Comissão Executiva da União Nacional, o braço político do regime. Na leva de apoiantes que Marcello arrasta consigo para os quadros da União Nacional conta-se Baltazar Rebelo de Sousa, o pai do actual presidente da República. Entre a oposição clássica, vinte anos de ditadura ainda não haviam esgotado as convicções do reviralhismo, que mais uma vez se veio a exprimir noutra conspiração fracassada, a da revolta da Junta Militar de Libertação Nacional. O mês de Abril de 1947 foi fértil em prisões de implicados, venerandas figuras de então mas também outras que viriam a ser venerandas mas só décadas depois, como Mário Soares. Entre a oposição comunista a arma era a das greves e o mesmo mês de Abril vai assistir à dos estaleiros navais da região de Lisboa envolvendo vários milhares de trabalhadores. O quotidiano de noventa e muitos por cento dos portugueses de então passava ao lado de tudo isto. Note-se nas duas fotos a escassez do parque automóvel particular e, nos transportes colectivos, a existência (ainda) de eléctricos abertos e a inexistência (ainda) de autocarros de dois andares. O Sporting Clube de Portugal viria a ganhar folgadamente o campeonato nacional de futebol de 1946/47 com uma média de quase cinco golos marcados por jornada, muito por causa da mestria da sua linha avançada, conhecida pelos cinco violinos. E os diálogos radiofónicos entre o Zequinha (Vasco Santana) e a Lelé (Irene Velez), todos os Domingos à noite, tornavam-se no primeiro verdadeiro caso de popularidade de um programa radiodifundido.

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