31 outubro 2011

AS ÚLTIMAS FOTOGRAFIAS DE PATRICE LUMUMBA

Embora eu as achasse originalmente um retoque de sofisticação desnecessário, tenho que reconhecer que a adição de câmaras aos telemóveis está a ter uma influência significativa na forma como evoluiu a cobertura jornalística dos acontecimentos – constate-se isso com as imagens recentes dos últimos momentos de Gaddafi depois de capturado. Mas que isso não nos faça esquecer que a novidade é apenas a exibição da barbárie e não a sua prática. O exemplo alternativo que aqui trago para o demonstrar é o do momento da captura de Patrice Lumumba no Congo em Dezembro de 1960.
Já aqui me havia referido à independência do Congo da Bélgica e à pessoa de Patrice Lumumba, o líder do MNC e o primeiro primeiro-ministro da nova nação independente que rapidamente mergulhou numa guerra civil depois disso. Também então as potências europeias e os Estados Unidos apoiaram descaradamente uma das facções. Como se deduz pela multiplicidade de perspectivas, vários foto-jornalistas presenciaram a captura de Lumumba. Mas essa publicidade não é suficiente para descansar o prisioneiro, cujo semblante preocupado se torna premonitório do fuzilamento que lhe está destinado…

HOUSE, M.D.

Esta fotografia pode ser mais do que um mau momento fotográfico do actor Hugh Laurie. Pode também ser uma metáfora do que seria regularmente o aspecto da cara do doutor House - note-se o olho pisado... - não fosse ele uma personagem de ficção.

30 outubro 2011

ELE NÃO VALE A PENA FAZER CONTAS, CONCENTREMO-NOS NA ARGUMENTAÇÃO…

Gostei muito deste poste no Jugular. De facto, como demonstra e conclui o autor, João Pinto e Castro, é muito fácil alinhavar um chorrilho de disparates mencionando apenas factos e números verdadeiros. Nem de propósito lembrei-me de uma das últimas vezes que fiz um daqueles estudos inúteis à economista com factos e números verdadeiros: foi por ocasião da última campanha eleitoral e, com os blogues políticos a ferver, acusava-se mais uma vez o Miguel Abrantes da Câmara Corporativa de ser uma personalidade forjada por detrás da qual se abrigava a actuação de vários autores.
O tal estudo, muito prosaico e que se sintetiza no gráfico acima, consistiu em contar a frequência mensal de postes publicados desde o início do Câmara Corporativa (Setembro de 2005) e compará-la com a frequência do Herdeiro de Aécio – esse eu sabia que só tivera um autor desde sempre. O resultado é o que se pode observar acima, a linha azul da lufa-lufa de Miguel Abrantes (515 postes em Maio de 2011) em comparação com a minha linha vermelha (52 postes nesse mesmo mês), a um ritmo mais constante, mas de tartaruga. Fiquei sem saber se se podia concluir qualquer coisa daquele apanhado e assim decidi-me por nada publicar.

Citando outra vez o João Pinto e Castro aquilo poderia não passar de um chorrilho de disparates baseado em números verdadeiros quando, para mais, o Miguel Abrantes sempre insistiu até hoje que é uma e só uma pessoa...

29 outubro 2011

JOAN MIRÓ

Miró (acima, 1893-1983) foi um pintor surrealista catalão. Não sou apreciador da sua obra mas nunca mais me esqueço a ocasião em que primeiro tomei contacto com ela: numa daquelas revistas semanais de há 40 anos (a Vida Mundial, se não estou em erro), por altura das vésperas do Natal, nas páginas de sugestões de prendas alguém sugeria a oferta de um livro com gravuras de quadros de Miro. Alegava-se que o estilo infantilizado do pintor (abaixo) o tornaria uma boa prenda para crianças da idade que eu tinha então… É o género de imbecilidade pedante que nunca mais se esquece.

28 outubro 2011

PREOCUPAÇÕES FILATÉLICAS

E ainda num remate final ao assunto Salvador Allende e ao Golpe de Estado de 1973 no Chile aprecie-se como, logo em Novembro, mal eram passados dois meses e já a Alemanha Democrática manifestava filatelicamente a sua solidariedade para com o povo chileno no outro hemisfério. Curiosa filatelia essa, que entretanto deixara passar em claro o que acontecera a povos vizinhos, húngaros em 1956 e checoslovacos em 1968…

SALVADOR ALLENDE - A ÚLTIMA FOTOGRAFIA

Ainda a propósito do poste anterior, vale a pena dar o realce que ela merece à famosa fotografia de Salvador Allende no Palácio de La Moneda em 11 de Setembro de 1973. Allende e quem o acompanha preparam-se para atravessar uma área descoberta e olham instintivamente para o ar à procura de uma eventual ameaça. É que neste Golpe de Estado, a Força Aérea já se mostrara¹ e fizera-o do lado dos insurrectos, bombardeando o Palácio presidencial. A relação de forças militares mostrava ser claramente desfavorável ao presidente legítimo.

Embora se vejam uniformes ao fundo, a impressão dominante é que a guarda pessoal do presidente é composta por civis. E as armas destes, espingardas AK-47 de concepção soviética, são também simbólicas num país sul-americano que sempre orbitara na esfera dos Estados Unidos… Crê-se que esta foi a última fotografia tirada a Salvador Allende. O seu autor foi o então fotógrafo oficial do palácio, Luís Orlando Lagos, mas essa autoria, também símbolo dos anos de chumbo que se iriam seguir ao Golpe, só viria a ser definitivamente confirmada em 2007.

¹ Por exemplo, sobre Lisboa durante o 25 de Abril de 1974 nem se deu por ela

27 outubro 2011

O «DÍFICIL» ENTERRO DOS MÁRTIRES

Há cerca de cinco meses, uma alargada equipa de peritos procedeu à exumação dos restos mortais de Salvador Allende para determinar a causa e a forma como morreu o presidente chileno durante o golpe de estado que o depôs a 11 de Setembro de 1973 (acima). A ocasião foi aproveitada pela comunicação social para repescar a controvérsia quanto às circunstâncias em que ocorrera a sua morte (abaixo).

Os resultados dessa investigação, realizada a pedido e com a concordância da própria família Allende, tornaram-se públicos uns escassos dois meses depois, em Julho passado: o presidente suicidara-se com uma AK-47, foi a conclusão unânime dos membros da equipa de investigação. Mas, mal se deu por ela… Parece mais do que óbvio que este é um exemplo clássico de que só é notícia quando é o homem que morde no cão.
Ontem, David Pryor, um dos especialistas que integrou aquela equipa esteve em Lisboa a proferir uma palestra a respeito desse seu trabalho no Chile. Digite-se o seu nome nas notícias do Google hoje (em português) e encontrar-se-á... nada. Certamente que não haverá interesse nenhum em saber-se como se comprovou definitivamente que Salvador Allende não fora assassinado pelos militares fascistas. Pensando nos mais obcecados com a Causa, até se pode dizer que é uma pena que não tivesse sido assim...
De há uma década para cá, Salvador Allende e o aniversário do golpe de estado no Chile reapareceram em força todos os anos para fazer um barulho alternativo ao do aniversário do ataque ao WTC. E são episódios como este que aqui acabei de narrar que mostram como a preocupação que se nota tanto por aí em evocar a efeméride chilena não passam afinal de exercícios de oportunismo e hipocrisia política…

O BARBEIRO NOVO

O meu barbeiro tradicional parece estar de regresso ao Brasil (com sinais de não voltar) e fui atendido por um substituto que se esmerou mas tudo acabou com os retoques finais a terem de ser feitos por mim em casa… Só em retrospectiva é que me apercebi como o episódio poderia passar por uma metáfora da evolução política recente: mesmo não o apreciando por aí além, já estava habituado ao que estava, este novo que veio, apesar de esforçado, ainda se mostra assustadoramente impreparado para a tarefa…

26 outubro 2011

OS BEIJOS DE ROBERT DOISNEAU

Embora o seu beijo mais famoso seja indiscutivelmente o trocado diante do Hotel de Ville (acima) em 1950, a verdade é que a obra de Robert Doisneau (1912-1994)
…conta com várias fotografias de beijos trocados naquelas mesmas circunstâncias, desde o casal que troca um beijo mais exibicionista, ao outro mais abstraído do Mundo ao redor,…
…há ainda um terceiro casal onde o beijo é mais ternurento que apaixonado, mas o meu favorito é este último, aristocrático e misterioso, com o beijo endereçado a alguém que não se vê...

25 outubro 2011

…O INFINITO E MAIS ALÉM!

A frase do título é do filme Toy Story. Porque há coisas que só podem ser uma brincadeira. Porque se há sempre qualquer coisa de constrangedor num daqueles livros, pretensas biografias, que logo pela capa se percebe que são um panegírico descarado, o caso acima prova que, para além do constrangedor, se vai ainda mais além para os limiares do ridículo. Neste caso, de um filho, herdeiro do pai, nascido para liderar. Diz-nos a sinopse da obra:
Com uma herança pesada, mas superando as expectativas, Paulo Azevedo é um dos mais reconhecidos gestores da sua geração: É rápido a decidir; Prefere a razão à intuição; É informal e acessível; Delega e exige; Gosta de metas difíceis; Quer sempre aprender mais; É insatisfeito por natureza.

Inspirado pelo pai mas com um estilo muito próprio, Paulo Azevedo é aqui analisado pela jornalista Blandina Costa, que ao longo de vários meses entrevistou amigos, familiares, colegas de trabalho e traçou o perfil de gestão, mas também o perfil humano do novo HOMEM SONAE.
Torna-se tão patético que a autora, que acima vemos felicíssima, merece certamente a honra de uma fotografia sua pelo frete…

KA MATE! KA MATE! KA ORA! KA ORA!

Com um vídeo de há 7 anos atrás de um Haka dos All Blacks precisamente contra a França - o Haka original, o Ka Mate, e não a versão mais recente Kapa O Pango - ainda capitaneado pelo memorável Tana Umaga, me despeço desta Taça do Mundo com algumas opiniões que quero compartilhar. Não fiquei desapontado com a qualidade do râguebi jogado na final porque não quis criar expectativas quanto à sua espectacularidade. Por causa do passado, acho preferível moderar as expectativas em relação a finais da Taça do Mundo. Até houve ensaios – ao contrário do que aconteceu em 1995 e 2007

Confirmando o aforismo que cada jogo tem a sua história, o embate da final não teve nada de semelhante com os 37-17 com que os All Blacks haviam mimoseado os seus adversários na fase de grupos. Foi um jogo cerradamente disputado com um vencedor justo e um vencido digno. Mas constata-se que o râguebi é cada vez menos um jogo de XV e cada vez mais um jogo de XXII, quando não de mais uns quantos. A perda de qualquer jogador, por muito influente que seja, já não pode servir de justificação para os maus resultados. Mesmo sem Dan Carter a Nova Zelândia conquistou o título…

E houve jogos excepcionais. Entretanto, será impressão minha ou este género de defesa agressiva sem dar tempo aos oponentes está a tornar o jogo progressivamente mais agressivo? Não fui consultar estatísticas para verificar evolução da frequência das lesões de sangue, mas o número de médios que foram parar ao estaleiro – se bem contei, por lesões, os All Blacks usaram 4 médios de abertura durante a Taça do Mundo… – pareceu-me uma anomalia ou então uma coincidência. Não irei gostar se daqui por uns anos o IRB tenha que recomendar a adopção de capacetes como os do futebol americano. Adenda: Abaixo, a cara de Morgan Barra, o abertura francês ao chegar a Paris, três dias depois da final...

Finalmente, para aqueles que aqui há quatro anos atafulharam de elogios a actuação dos Lobos, quando, na minha modesta opinião, ela não passou de uma prestação mediana de acordo com o que seria de esperar dela, seria bom que agora pusessem os olhos na prestação da selecção da Geórgia, uma das duas selecções – a outra é a da Rússia – com quem ultimamente disputamos as presenças nas Taças do Mundo. É que a Geórgia conseguiu aquilo que nós não conseguimos há 4 anos: fugir mais uma vez ao último lugar do seu grupo agora batendo concludentemente a selecção da Roménia por 25-9!


24 outubro 2011

DESCOBERTA: SERÁ QUE O GASÓLEO NÃO É UM DERIVADO DO PETRÓLEO?

A batalha é permanente contra a cartelização do preço dos combustíveis em Portugal, aquela decisão administrativa que foi originalmente apresentada como a liberalização dos mesmos… O abuso das petrolíferas foi tanto que acabou por chamar a atenção do público para o fenómeno, de forma que, quando o preço do barril de petróleo desce significativamente, passaram a preferir ser elas a chamar preemptivamente a atenção para as reduções dos preços dos combustíveis dele derivado.

O jornalismo – mesmo o especializado – agradece e engole a notícia com isco e com chumbo incluído: O preço do gasóleo vai subir esta semana, mas a gasolina vai ficar mais barata. A tendência dos mercados indica mais esta alteração no valor do litro de cada combustível. Grandes mercados! Conseguem ficar com a responsabilidade da descida do preço da gasolina por causa da evolução do preço da matéria-prima mas também com a da subida do preço do gasóleo sem se perceber porquê!?

Ou querem ver que o gasóleo já não resulta da refinação do petróleo?...

23 outubro 2011

MEMÓRIAS E AMNÉSIAS: A EDUCAÇÃO NO ESTADO NOVO E NA ALEMANHA ORIENTAL – 1

Portugal tem a História do Século XX com que ficou. Metade desse Século, os 48 anos que vão de 1926 a 1974 são a História de um regime ditatorial, com uma ideologia de inspiração nitidamente fascista durante as duas primeiras décadas de existência, ideologia que depois teve de amenizar por causa da evolução do Mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas um regime que manteve sempre o seu cariz autoritário e anti-democrático até ao seu derrube. Hoje, em democracia, devem ser muito poucas e politicamente irrelevantes as opiniões que o defendem e/ou que simpatizam com o Estado Novo.
Por serem tão poucos, é a contragosto que ouço os apelos vindos dos seus adversários de outrora, pedindo que não apaguem a memória desses anos, como se o esquecimento desses tempos fosse um acto deliberado. Já agora, promovido por quem? É que eu registo o paradoxo engraçado de se situarem na mesma área política (quando não se tratam das mesmas pessoas…) os mais enérgicos memorialistas da história do fascismo em Portugal mas também os maiores amnésicos da história do comunismo no Mundo… E contudo, a História do período dos regimes totalitários do Século XX parece estar ainda por fazer.
Pouco importam os contorcionismos dialécticos daqueles que se mantêm na política activa. A verdade objectiva é que sempre houve muitos aspectos a aproximar os dois tipos de regimes e que o Estado Novo e a Espanha de Franco são duas ditaduras de tradição fascista que se sobrepõem durante quase 30 anos (1945-1974 ou 75) na Europa Ocidental às suas homólogas comunistas do Leste. Recuperando algumas fotografias temáticas (neste caso sobre a Educação na República Democrática Alemã) poder-se-ão ver muitas semelhanças entre aquilo que os comunistas aqui criticavam e lá consideravam ser muito positivo.

MEMÓRIAS E AMNÉSIAS – A EDUCAÇÃO NO ESTADO NOVO E NA ALEMANHA ORIENTAL – 2

Este primeiro caso é o de uma escola primária, uma fotografia de 1963, onde se notam, ao fundo, afixados os Dez Mandamentos da Moral Socialista que foram conclusões do 6º Congresso do Partido Socialista Unificado (SED) de 1958. Abaixo pode ainda ler-se Nós amamos a nossa República. Com Walter Ulbricht para a felicidade da Alemanha. Será que isto é assim tão diferente daqueles cartazes com as Lições de Salazar que estão afixados na parede da sala de aula naquela outra fotografia mais acima? Ou é a ausência de referências ao partido (União Nacional) que fará a diferença?
Continuando nas idades mais jovens aprecie-se aquilo a que aqui já me referi como o equivalente socialista da Mocidade Portuguesa, a Organização dos Pioneiros Ernst Thälmann que enquadrava as crianças dos 6 aos 14 anos. Ao contrário da Mocidade, onde o uniforme era completo, neste caso ele era simplificado: apenas a camisa branca e o lenço identificativo, de cor azul ou vermelha conforme o grau de senioridade. Porém, em contrapartida, o regime leste-alemão reclamava uma taxa de adesão de 98 a 99% de voluntários entre as crianças daquela idade, algo que em Portugal foi sempre uma miragem (ninguém gramava a bufa)…
Outro momento típico de um regime com ambições totalitárias era a cerimónia pública denominada Jugendweihe (acima em Berlim em 1979) para as crianças que terminavam o 8º ano de escolaridade (cerca dos 14 anos), uma espécie de pré-iniciação à vida adulta, um crisma secular, que era dispensável em Portugal dada a cumplicidade entre o regime e a Igreja e muito criticado pelas Igrejas alemãs. É evidente que a cerimónia, pretendendo demonstrar uma preocupação cívica, era tudo menos politicamente neutra. No painel detrás pode ler-se: Tudo fazer para o bem do povo – é o propósito do socialismo.

MEMÓRIAS E AMNÉSIAS – A EDUCAÇÃO NO ESTADO NOVO E NA ALEMANHA ORIENTAL – 3

Como em Portugal, a forma(ta)ção continuava depois. Esta fotografia é de 1988 de uma aula de uma disciplina do 10º ano muito parecida com a OPAN¹ dada nos liceus antes de 1974. No quadro lê-se: a RDA (República Democrática Alemã²) e a RFA (República Federal da Alemanha²), dois estados com ordens sociais diferentes. Mais abaixo, RDA: estado socialista; propriedade socialista dos meios de produção; poder da classe operária em aliança com as outras classes trabalhadoras; RFA: estado imperialista; propriedade privada e capitalista dos meios de produção, monopólio do poder pela burguesia.
Se a fotografia anterior é eloquente quanto à abertura e profundidade do debate ideológico, também o é quanto à hostilidade do regime contra a República Federal da Alemanha, o estado capitalista rival. Terá sido a pretexto dela que a Alemanha Democrática levou a formação escolar a extremos que aqui o Estado Novo não teria ousado, como ministrar aulas de instrução militar ao 9º e 10º anos de escolaridade – primeiro facultativas, elas vieram a tornar-se obrigatórias a partir de 1978. Nesta fotografia acima de 1975, vê-se um sargento do NVA a ministrar uma dessas aulas tendo por tema a balística.
Finalmente, há uma clara distinção de atitude entre os regimes no que respeita ao ensino universitário. Enquanto em Portugal a Universidade atravessou o período dos 48 anos de ditadura ensimesmada e paroquial, desde o princípio que a da Alemanha Democrática, também por causa dos princípios ideológicos do internacionalismo proletário, se tornou cosmopolita, especialmente para os estudantes de países irmãos ou em vias de desenvolvimento. De 2.000 estudantes estrangeiros por ano na década de 1960, a Alemanha Democrática acolhia 5.000 dez anos depois e 10.000 na década de 1980.

¹ Organização Política e Administrativa da Nação.
² No alemão original respectivamente DDR (Deutsche Demokratische Republik) e BRD (Bundesrepublik Deutschland).

22 outubro 2011

O HERDEIRO

Como aconteceu hoje com o da Arábia Saudita, é sempre uma tristeza saber-se que um Príncipe Herdeiro morreu sem chegar a ocupar o trono: será sempre um projecto pessoal de exercício do poder que não se irá concretizar embora esse projecto vá ser substituído por outro, que ninguém irá exercer o poder para sempre e todo o detentor de um cargo político, por mais poderoso que seja, irá ter sempre um sucessor… Um pormenor, contudo, desperta a nossa atenção: o herdeiro, Sultan bin Abdul Aziz bin Abdul-Rahman bin Faisal bin Turki bin Abdullah bin Muhammad bin Saud, estava na faixa dos oitenta e tal anos, é difícil precisar a idade certa. Há quem lhe atribua como ano de nascimento 1930, 1926 ou mesmo 1924. Ora, 1924 é também o ano de nascimento de Mário Soares e nós não estaremos o nosso bochechas è espera de herdar seja o que for…
Na verdade, de acordo com a Lei Básica da Governança, adoptada em 1992 sob o Rei Fahd, que regulamenta as regras da sucessão ao trono saudita, a posição de Príncipe Herdeiro acaba por combinar não apenas a questão das precedências na sucessão futura ao trono mas também os equilíbrios com o exercício do poder político na actualidade. Assim foi em 2005 quando o Rei Abdallah (nascido também em 1924) sucedeu ao seu meio-irmão Fahd (1921-2005) e assim será agora quando o Conselho se reunir para escolher o sucessor de Sultan, em que o favorito é o Príncipe Nayef bin Abdul-Aziz bin Saud (n. 1933). Claro que estes costumes são retrógrados, reaccionários e de cariz feudalista. Onde é que já se viu numa sociedade socialista, cientificamente evoluída, o poder transitar assim de um dirigente octogenário para um seu irmão septuagenário?...

«SHAMPOO MASTER CARPET CLEANER APLICATOR»

A fotografia acima é profundamente triste mas nem percebemos muito bem porquê. Pouco passa das 10H30 de um dia qualquer dos princípios da década de 1960 em Kingston, um dos bairros de Londres. O destaque da fila de pessoas que esperam por um autocarro vai para a senhora da esquerda que segura/exibe orgulhosamente um aparelho para limpar carpetes ainda embrulhado, acabadinho de comprar. Ainda são tempos de pobreza resignada, muito antes dos aspiradores e outros electrodomésticos de que a próxima geração (imediatamente à direita) vai poder usufruir. Dando um retoque adicional a essa cultura remediada, vê-se a traseira de um calhambeque na rua, à direita. E, como que tutelando essa resignação, dois letreiros anunciam cremações e funerais… A fotografia é de John Hoppy Hopkins.

21 outubro 2011

NÚMERO ERRADO

Quando os telefones apareceram, as conexões entre os aparelhos eram realizadas manualmente por operadores em centrais destinadas a esse fim (acima). Como, desde o princípio se deu preferência a que os operadores fossem mulheres, a função deu origem a uma imagem profissional: a da menina do PBX. Que, reputadamente, se enganavam com muita frequência: quem não se lembra do calvário que foi ligar para a dona Rosa no filme O Pátio das Cantigas?... Que acabou com o Evaristo a ligar um número ao acaso?...
Contudo, a verdade é que muito se evoluiu tecnicamente desde essa altura. Há mais de 50 anos que a esmagadora maioria das centrais telefónicas são automáticas e, exceptuando alguns excepcionais erros de configuração, os telefones ligam para o número que foi marcado pelo utilizador. Nos modelos de telefone clássicos (abaixo) havia ainda a possibilidade deste último poder discar um número errado por engano mas os modelos mais recentes, além de recorrerem a teclas contêm um mostrador com o número entretanto digitado…
Contudo a sociologia não tem acompanhado a técnica e quem marca um número errado ainda se pensa nos tempos do Evaristo, culpando algum génio malfazejo por estar a interferir nas suas comunicações. A quantos de nós não nos aconteceu já, atender o telefone e uma voz do lado de lá perguntar-nos assertiva e inquisidoramente: - Donde é que fala? O tom costuma colocar-nos à defesa como se a culpa fosse nossa e o incómodo alheio, quando se trata precisamente do contrário... Responde-se no mesmo tom, seco: - E para onde é que quer ligar?

20 outubro 2011

OS «GATO PUTREFACTO»

Embora não os lendo com a frequência que eles mereceriam, creio que os grandes rivais actuais dos Gato Fedorento são alguns dos autores que escrevem no Cinco Dias, o blogue. Pode ser que isso aconteça por acaso mas, para quem não me consta que tenha tido formação na agora indispensável escrita criativa, os seus resultados estão à vista, meritórios: por muito que eles se levem a sério, publicam-se ali postes que se podem equiparar a verdadeiros scripts para os sketches da saudosa série Seinfeld!...

Então, a pretexto da manifestação do passado dia 15 de Outubro, envolvendo perto de 100 mil pessoas (– Aqui estão 50 mil! 50 mil! – como dizia o outro) que realizaram a maior Assembleia Popular desde o Cerco à Constituinte, a rapaziada anda mesmo passada, num enorme fervor revolucionário. Em suma, pretende-se Parar o Orçamento – Cercar o Parlamento e avança-se com um caderno reivindicativo recheado de arcaísmos que despertarão as saudades das almas mais revolucionariamente sensíveis
Mas, por falar em Revoluções, ocorreu-me a propósito uma citação de Marx, em que ele afirmava que Hegel considerara numa das suas obras que todos os grandes factos e personagens da História Mundial apareceriam, por assim dizer, por duas vezes. Mas que se esquecera de acrescentar que da primeira vez seriam como uma tragédia e da segunda como uma farsa. Marx estava a referir-se à França e a Napoleão III, mas eu lembrei-me de Portugal e da repetição de cercos a Assembleias democraticamente eleitas…
Desconfio que esta geração de revolucionários do Cinco Dias já não possuirá aquele lastro teórico que os faça aperceberem-se como o próprio Karl Marx qualificou esta sua eventual reedição do Cerco ao Parlamento como uma farsa depois da original de 12 para 13 de Novembro de 1975. Mas, já que estamos em clima de citações, gostaria de empregar a propósito uma outra citação também famosa, esta de Oscar Levant, que reclamava conhecer Doris Day ainda antes dela ser uma virgem
Parafraseando-o, também muitos de nós já conhecemos os democratas marxistas-leninistas, ainda antes do tempo em que eles passaram a ser dispensados de fingir conhecer uns rudimentos dos «Conceitos elementais (sic) do materialismo histórico» e de outros aspectos fundamentais do pensamento teórico de Karl Marx…

TRADUÇÕES «À TGV»

Outro dia referi-me aqui ao próximo lançamento cinematográfico de Tintin e houve quem manifestasse a sua preocupação como o idioma inglês poderá afectar o resultado. É um aspecto importante a considerar, tão «europeu continental» – e aqui limito-me a citar – é o repórter do Petit Vingtième. No encadeadamento daquela expressão, é preciso dizer que, nestes dias que correm, também será necessário desconfiar dos «europeus continentais» e das traduções que se fazem dos seus para o nosso idioma por muito ajustadas que pareçam, observe-se este exemplo (acima e abaixo) do álbum Obélix e Companhia. Desde quando é que nós trauteamos Feliz Aniversário em vez do nosso tradicional Parabéns a você nesta data querida,…?

19 outubro 2011

VÍTOR GASPAR, o DROOPY

A verdade é que, depois de nos gamar um sétimo do vencimento anual – alguém dúvida que os privados vão seguir o exemplo do sector público? E que a apropriação dos dois subsídios irá ser provisoriamente para sempre?... – todos andamos com uma vontade de dar uma alcunha antipática ao ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Já lhe vi serem dados inúmeros nomes mas considero os que li até aqui insatisfatórios.

A personagem com que o acho mais parecido é com Droopy, aquela cão discreto saído da imaginação de Tex Avery. Não é apenas pela semelhança física, com aquele olhar triste comum e em que aqueles intermináveis papos por debaixo dos olhos de Vítor Gaspar funcionam como cópias das orelhas do cão; é também pelo comportamento, em que a atitude composta e o discurso comedido dos dois os torna em irmãos inseparáveis

18 outubro 2011

«GOVERNO DEVIA TER MINISTRO PARA O ESTADO SOCIAL»

Alguém – a quem muito agradeço… – me ligou ontem à noite a recomendar que sintonizasse a TVI 24 onde Medina Carreira contracenava com Judite Sousa. E valia a pena! O primeiro debitava matéria enquanto a estrela da informação televisiva nacional – transferência milionária da temporada! – se debatia perplexa perante o significado – Evidente!, na opinião de Medina Carreira – de um gráfico de barras que anunciava um novo Apocalipse – este para as Despesas Sociais em 2020. Aplicadamente, Judite Sousa até pôs os óculos para ver se com eles aquelas barras coloridas se traduziriam em toda aquela informação que Medina Carreira debitava… Nada feito, o olhar confundido da jornalista dizia-nos tudo e poder-se-ia dizer até que seria passível de elogio presidencial em périplo açoriano
Mas há mais. O episódio foi tão divertido de assistir em directo quanto está a ser transformá-lo em poste. De tudo aquilo que ontem Medina Carreira disse, o site da TVI 24 guardou um sound bite proferido por si (Governo devia ter ministro para o Estado Social) e ainda 49 segundos das suas declarações - donde estão evidentemente excluídos aqueles momentos em que Judite Sousa, de óculos postos estragando a sua imagem televisiva, se terá concentrado mais a fundo… São meritórias as críticas que Medina Carreira dedica à superficialidade como a informação costuma trabalhar em Portugal. Em geral as suas críticas são acertadas. Mas, por causa disso mesmo, tornam-se desconfortáveis, senão mesmo patéticas, as situações – como é o caso… – em que essa mesma superficialidade se vira contra si…

SOBRE A SUPERIORIDADE MORAL DO EXÉRCITO DE CONSCRITOS

Mesmo quem estudou e sabe dar a devida importância à componente estratégica da Análise Histórica, esquece-se que antes do Século XX e das duas Guerras Mundiais, já as duas grandes potências periféricas da Europa (a França e o Reino Unido) se haviam coligado contra uma outra potência continental com pretensões hegemónicas que não a Alemanha. Aconteceu na década de 1850 contra a Rússia e o resultado foi a Guerra da Crimeia (1853-1856) que terminou com a derrota russa e a desistência desta a ambições expansionistas na Europa oriental… até 1945!

Mas o que me interessa aqui desenvolver é a forma como se estabeleceu a cooperação militar entre os dois exércitos que haviam sido os antagonistas da Batalha de Waterloo (1815) e o inesgotável tópico que consiste na forma geralmente sobranceira como os franceses viam (e vêem…) os seus aliados que apenas perde em inesgotabilidade para a forma desdenhosa como os britânicos lhes retribuíam – e retribuem… Um oficial francês deixou-nos as suas impressões – típicas – numa carta que enviou para casa:

Os soldados britânicos mostram-se entusiasmados, é gente forte e bem constituída. É de admirar os seus uniformes elegantes, todos novos, o seu excelente comportamento, a precisão e o rigor das suas manobras de ordem unida e a beleza dos seus cavalos, mas a sua maior fraqueza é que estão demasiadamente habituados ao conforto; vai ser difícil dar resposta aos seus inúmeros pedidos quando estivermos mesmo em campanha.

Neste caso, os militares franceses falavam de cima para baixo e com toda a propriedade dos seus homólogos britânicos: as Academias militares fundadas em França desde o período napoleónico (Saint-Cyr) formavam novas classes de oficiais profissionais que estavam tecnicamente mais bem preparados, eram tacticamente melhores e socialmente mais próximos dos seus homens do que os seus homólogos de origem aristocrática do outro lado do Canal da Mancha, onde as patentes de oficial ainda eram adquiridas pelos mais abonados. A adicionar, o exército francês contava com mais de duas décadas de uma contínua evolução táctica, envolvido como estava desde 1830 na Guerra da Argélia.

Um soldado francês de uma das unidades de elite formadas em consequência dessa Guerra, o 1º Batalhão de Zuavos (gravura acima – a designação Zuavos transformou-se no sinónimo de tropa de elite na segunda metade do Século XIX, tal como aconteceu algo parecido com a designação Comandos na segunda metade do Século XX), deixou-nos também a sua perspectiva na comparação entre os dois exércitos:

Os recrutadores britânicos parecem ter ido remexer os fundos da sua sociedade porque só as classes inferiores é que terão sido mais sensíveis às suas ofertas de dinheiro. Se os filhos dos remediados também fossem incorporados, os castigos corporais infligidos aos soldados britânicos pelos seus oficiais já há muito teriam sido proibidos pelo código penal militar. Só a visão da aplicação desses castigos nos revolta logo, lembrando-nos como a Revolução de 1789 aboliu o castigo das chicotadas no exército conjuntamente com o estabelecimento do recrutamento universal… O exército francês é composto por uma classe especial de cidadãos submetidos às leis militares, que são severas mas aplicadas com equidade a todas as patentes. No Reino Unido o soldado não passa de um servo – uma propriedade do Estado – que é dirigido por dois métodos contraditórios entre si. O primeiro é o do pau e o segundo é o do bem-estar material. Os britânicos têm um instinto apurado para o conforto: viver bem, numa tenda confortável, com um belo naco de carne grelhada para almoço, acompanhado de vinho tinto e um bom abastecimento de rum – são estes os objectivos do tarata inglês e são essas as pré-condições essenciais para o seu valoroso comportamento em combate… Mas se os seus abastecimentos se atrasarem, se ele tiver que dormir na lama, ir à procura da lenha para se aquecer ou avançar sem o seu beef e o seu grog, então as fileiras britânicas desmoralizam-se rápida e genericamente.

Este poste já vai comprido mas, mesmo assim, é minúsculo comparado com a biblioteca que existirá analisando as vantagens sociais, políticas e outras entre a aplicação – ou não – do regime do serviço militar obrigatório e a existência de um exército de conscritos versus a de um exército de voluntários. Uma coisa é certa: trata-se de duas realidades distintas e há que sabê-las distinguir porque há quem ande para aí proferindo declarações em nome das Forças Armadas portuguesas como se elas fossem algo que já não são depois da sua profissionalização.

17 outubro 2011

TINTIN por STEVEN SPIELBERG

Fazer evoluir as personagens de BD para filme é sempre uma experiência arriscada em que se podem perder os fãs da primeira forma de expressão artística sem que se ganhem outros fãs de igual intensidade e sabedoria na segunda. No caso do filme de Astérix acima, por mais que se esforcem, os romanos não podem ter aqueles traços caricaturais que saíam da imaginação e do lápis de Albert Uderzo. E a violência física, que sempre foi elegantemente sugerida nas pranchas desenhadas, no filme tem que ser mostrada em toda a sua crueza… e inverosimilhança. Em suma, eu adoro a personagem de Obélix, que foi criada ao longo de duas dúzias de álbuns por Goscinny, mas passei o filme a encarar Gérard Depardieu (que o interpreta) como o gajo que ia a um baile de máscaras e acabou ali por engano…
É por causa desses fenómenos que me preocupa como será o próximo aparecimento de Tintin em 3D, cujo lançamento próximo descobri anunciado numa campanha televisiva acompanhando a publicidade ao Peugeot 5008 (acima). A preocupação não é por se tratar de uma realização de Steven Spielberg. É por causa daquela gigantesca máquina que se movimenta à sua volta que, a propósito de Parque Jurássico, até nos conseguiu persuadir que as crianças adorariam os dinossauros, criando uma denominada dinomania à escala mundial com brinquedos, desenhos, adereços, etc., a que os pais, entre o ignorante e o complacente, aderiram. Conhecendo o potencial das 23 Aventuras de Tintin para a produção desse pechisbeque, adivinho um futuro perturbado para as minhas memórias de Tintin…

16 outubro 2011

ALWAYS LOOK ON THE BRIGHT SIDE OF LIFE

Naquele que parece ser, final e verdadeiramente, o último fim-de-semana ensolarado do Verão e depois de uma semana em que o nosso primeiro-ministro nos anunciou que os salários anuais pagos em 14 prestações vão tornar-se numa graciosa recordação do passado, vale a pena ouvir esta singela canção dos Monty Python intitulada Always Look on the Bright Side of Life (Olhem Sempre para o Lado mais Positivo da Vida). O segredo do seu humor corrosivo é que a canção tem mais valor quando quem a ouve atravessa o estado de espírito que precisamente agora nos domina: sem paciência para discursos optimistas… Por isso achei-a apropriada para os dias que correm.

15 outubro 2011

AS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DO SINDICATO DOS SARGENTOS

Vale a pena conhecer o rosto por detrás das afirmações acima, António Lima Coelho, o presidente do sindicato dos sargentos. São afirmações de peso, proferidas por alguém que gosta de colocar peso nas suas declarações: ainda há dois anos dispunha-se a lutar com todos os meios contra o novo Regulamento de Disciplina Militar, uma expressão a fazer-nos reflectir quando empregue por alguém que pretende representar quem tem o armamento por ferramenta de trabalho

É este último aspecto que me intriga e que a comunicação social nunca me esclarece: não o peso das palavras mas o peso de quem as profere. Quantos filiados terá o sindicato dos sargentos? E desses, quantos terão as quotas em dia e participarão com regularidade nas suas reuniões? É importante percebermos qual é a legitimidade para que Lima Coelho se pronuncie em nome de «os militares» e das «Forças Armadas», quando até há uma hierarquia legítima para o fazer…
É que, dadas as circunstâncias, as afirmações são suficientemente sérias para poderem ser acauteladas como se se tratassem uma reedição do famoso juramento do Ralis de 1975 caso António Lima Coelho seja um verdadeiro representante dos escalões intermédios dessas Forças Armadas ou então é para serem parodiadas como mais uma daquelas coisas que a tertúlia dos camaradas adora dizer e que qualquer jornal se dispõe a publicar porque vende papel