31 agosto 2007

IMPÉRIOS E MONARQUIAS MODERNAS

No seu livro Colossus – The Price of America´s Empire, o historiador britânico Niall Ferguson considera que os Estados Unidos possuem actualmente três deficits que, conjugados, explicam o seu desempenho inferior quando em referência com outros impérios que os antecederam. Existe o deficit económico, o deficit de recursos humanos e aquele por ele classificado como o mais sério dos três, o deficit de atenção.

Se os dois primeiros deficits se explicarão logo pela própria designação, o da atenção poderá ser sintetizado pela existência na vida política americana de ciclos eleitorais demasiado curtos (2 anos entre eleições legislativas e 4 anos entre presidenciais), o que força o poder executivo, condicionado pela opinião pública e pelos consequentes resultados eleitorais, a buscar soluções que tenham uma recompensa política imediata.
Tomando por boas as conclusões daquela análise de Ferguson, isso quererá dizer que uma boa parte das causas dos problemas geopolíticos em que os norte-americanos se têm envolvido também poderiam ter fundamentos comportamentais e não estruturais. É que uma das características do norte-americano médio é a de, quanto solicitado, emitir opiniões sobre tudo, mesmo que não faça a mínima ideia do que está a falar…

Como diria Paulo Bento, é com toda a tranquilidade que aparecem documentários onde os inquiridos – alguns deles com formação universitária… – aprovam invasões e bombardeamentos a países inexistentes ou aliados dos Estados Unidos ou saúdam a chegada de países como o Canadá à era do avião a jacto ou da rádio FM… E é com esta matéria prima de ingenuidade e ignorância que se constroem os resultados das sondagens nos Estados Unidos…
Mas suponho que este será o preço a pagar por impérios verdadeiramente fundados na democracia das opiniões públicas das sociedades modernas. O Reino Unido, cujo Império antecedeu o americano e que parece que serviu de referência a Niall Ferguson aos predicados que um império mundial deveria possuir (veja-se em Empire, um livro seu que antecedeu Colossus), já não sendo um império, ainda é uma monarquia.

Hoje, quando passam dez anos da morte da princesa Diana, percebe-se quanto as sociedades ocidentais evoluíram e como o Império britânico, se tivesse sobrevivido até à actualidade, seria uma realidade distinta da do período vitoriano, e muito semelhante nos seus defeitos ao Império norte-americano moderno… Onde é que a Rainha Vitória (1819-1901) se teria vergado às pressões populares na evocação de uma sua ex-nora tonta e caprichosa como aconteceu com a sua trineta Elizabeth?

30 agosto 2007

ROMA S.A.


A ideia essencial de Roma S.A. é brilhante: contar a história da construção do estado romano desde a fundação da cidade em 753 a.C. mas empregando os conceitos modernos empregues na gestão das grandes empresas actuais. A ideia é explicar a evolução de Roma e as causas do seu sucesso em terminologia de gestão. O autor é Stanley Bing, o pseudónimo de um vice-presidente da CBS norte-americana. A publicidade da capa informa-nos que o livro foi eleito o Best Business Book 2006 por uma revista do meio (Strategy + Business) e a publicidade da promoção considera Bing o autor de culto da classe executiva.

Passe o exagero, é muito provável que o livro seja um razoável sucesso editorial, bastante vendido. Mas, parecendo-me daqueles livros que causa sempre boa impressão informar os colegas que se anda a ler, creio que será bastante menos lido (e ainda menos terminado…) do que aquilo que os indicadores de vendas possam sugerir. Isso, porque o livro é uma caricatura de uma história de Roma, onde o autor para contar a sua versão da história de maneira irónica não tem tempo de a contar na sua versão clássica. Ora a maioria dos leitores nunca conheceu ou já não se lembra da versão canónica…

Suponho que é preciso uma formação média/superior robusta para ainda ter presente os contornos (mesmo que genéricos) dos episódios de Rómulo e de Remo e da fundação de Roma, do rapto das sabinas, das guerras púnicas e de Aníbal, ou das guerras civis entre Mário e Sila e depois da entre César e Pompeu… Sem eles, o humor que se pode extrair do livro é parecido com aquele que nos faz rir de caricaturas de pessoas que não conhecemos pessoalmente… E não é tudo: para um leitor europeu existe o problema dos gestores de topo mencionados no livro serem todos norte-americanos, alguns deles desconhecidos…

Enfim, com todos os ingredientes para ser um daqueles livros de sucesso social (Já leu? Muito giro!), destinado a repousar gloriosamente na estante para enfeitar, por terminar ou terminado a custo. Apenas um pormenor final. Na minha opinião, o autor passa quase completamente ao lado do que seria o período mais adequado para o estabelecimento de paralelos entre os conceitos da moderna gestão empresarial e a história romana: o período imperial. Aí é que se podiam traçar paralelos entre a capacidade de mudança de uma grande e pesada instituição como o império e as multinacionais actuais, quando se defrontam com grandes transformações exógenas…

Suponho ter sido uma boa aposta editorial mas, por tudo o que ficou escrito, fraco no conteúdo.

SISSENHOR... SISSENHOR…

A história de enquadramento é mais antiga, tem onze anos, data dos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996 onde, como de costume, os políticos gostam de aparecer associados às vitórias dos atletas portugueses – às medalhas de ouro*. A daquele ano foi ganha por Fernanda Ribeiro nos 10 000 metros e o governo de António Guterres, embora de férias mas cioso de fazer as coisas de forma muito mais humana do que os de Cavaco, lá despachou Jorge Coelho (na altura ministro adjunto) para felicitar pessoalmente a nova campeã à aldeia olímpica em Atlanta.
Possivelmente a equipa da RTP ter-se-á atrasado, e quando chegou, já se estava na fase do convívio que se seguiria à cerimónia, conforme nos explicava a locução da reportagem. Como será de imaginar o convívio é que não parecia nada animado com ministro, comitiva e atletas com ares infelizes e desconfortáveis sem saber que dizer uns aos outros. Mas, ao ver o microfone e a câmara ameaçadores da RTP, Coelho mostrou todas as suas habilidades, ao romper o silêncio embaraçoso, afivelando um sorriso amarelo, e lançando para o ar uns sissenhor… sissenhor… para dar som à coisa. Foi ridículo!
A lição que dali se podia extrair é que nem sempre vale a pena aparecer na televisão… Uma lição que podia ter aproveitado a Luís Marques Mendes com a sua visita recente ao Museu Nacional de Arte Antiga onde fez uma figura deplorável ao passear-se como um iniciado tentando acompanhar as certezas explicadas pela directora em fim de mandato. É que se tornava patente que Marques Mendes não se preparara, não percebia um boi do assunto, concordava sempre com a directora e concluiu a visita com um discurso mais do que previsível. Felizmente não mata…
* A propósito, a quem aproveitaria uma mensagem de ânimo e confiança do presidente e do primeiro-ministro seria a Naide Gomes, que viu as suas hipóteses de uma classificação no pódio esfumarem-se num ápice no final da sua prova. Não sei se alguma mensagem lhe foi enviada, mas pelo menos não foi noticiada. Era bom para os dois lados: dava ânimo à atleta e outra autoridade moral aos que parecem que só aparecem nos sucessos…

29 agosto 2007

EUFÉMIA, CADA VEZ MAIS VERDE, CAMUFLADA NA PAISAGEM...

Estou convicto que, conforme proclama, o Bloco de Esquerda terá certamente muitas políticas alternativas a propor aos portugueses, mas parecer-me-á que para a condução da sua actividade política continuará a socorrer-se daquelas regras clássicas e canónicas, algumas delas velhas de séculos, que todos os partidos políticos de uma democracia multipartidária como a nossa costumam praticar.
Regras canónicas onde se conta, por exemplo, aquela de Frederico II da Prússia (1712-1786), rei, filósofo e general, que estabelece que nunca se deve reforçar um fracasso, precisamente daquele género do que se veio a revelar, em termos de imagem para a opinião pública, a invasão e destruição da plantação de milho transgénico do passado dia 17 de Agosto em Silves.

Regras canónicas como a conclusão de um general anónimo e vitorioso, que ficou sem saber quem tinha ganho a batalha que acabara de travar, mas que sabia perfeitamente quem ficaria com as culpas se ele a tivesse perdido… Este será o tipo de pensamento que, nesta altura, colherá provavelmente algum reconhecimento por parte de Gualter Baptista, não fosse ele tão hostil aos militares…
Regras canónicas, criadas há muito pelos serviços secretos às suas operações, que permitem aos dirigentes negar com plausibilidade a associação entre a acção dos Verde Eufémia e a instituição Bloco de Esquerda, dado as ligações entre os dois serem meramente circunstanciais*: Gualter Baptista – o tal que, na acção, fez como Bill Clinton com o charro: fumou mas não inalou… – será apenas um activista de base do partido, ou nem isso.

Mas não vejo qualquer razão para surpresas quando um jornalista como Mário Crespo não se disponha a ouvir impávido a milonga** do costume, e aproveite a aceitação do convite feito a Gualter Baptista para estar presente no seu programa da SIC Notícias para tentar esclarecer algumas curiosidades do assunto, confrontando o convidado com algumas das incongruências do seu discurso e do da organização de que foi (ocasionalmente...) porta voz, eleito ad hoc por um colectivo envolto em mistério…
Afinal, do ponto de vista informativo, a atitude de Crespo é até muito compreensível, porque creio que o espectador tipíco destas entrevistas na SIC Notícias não será semelhante aos dos canais generalistas onde se perguntam e respondem… generalidades. Os que aqui se dispõem a sentar-se à frente do ecrã, já conhecem o problema de antemão e esperam do entrevistador que ele seja seu porta-voz nas perguntas que coloca ao entrevistado.

Goste-se ou não, é o estilo que Mário Crespo tem vindo a desenvolver. Não se pode é elogiá-lo em Valentim Loureiro e criticá-lo em outros convidados que nos sejam mais simpáticos. É que com um estilo tão vincado, Crespo também corre os seus riscos: o de perder convidados é um deles... Ou o de ser descomposto por um dos seus convidados num dia em que seja assertivo em excesso. Não seria um caso inédito
Uma coisa certa parece resultar de tudo isto: agora parece que se passou a falar de transgénicos em Portugal! O problema é que me parece que se fala deles como assunto introdutório de outros. É como o espectáculo dos activistas do Greenpeace que se interpõem entre os navios baleeiros e as baleias. As imagens são tão espectaculares que só nos lembramos quanto aqueles gajos são corajosos e até nos esquecemos das baleias…

* Gualter Baptista é um colaborador regular do blogue do BE, foi apoiante de uma candidatura autárquica do partido, era (antes dos acontecimentos de Silves…) um dos oradores convidados para um evento por ele patrocinado já para os inícios de Setembro…
** Milonga é uma dança tradicional argentina. A palavra também tem o significado de confusão, desordem ou, a que para aqui interessa, o de enredo extenso mas de conteúdo previsível.

28 agosto 2007

PUBLICIDADE INSTITUCIONAL

Os manuais de marketing ensinam-nos o conceito de publicidade institucional, quando as campanhas desenvolvidas pela empresa se destinam a sedimentar uma boa imagem sua, mas sem fazer qualquer menção directa aos produtos ou serviços que ela comercialize. O objectivo é o de procurar desencadear a simpatia instintiva de um consumidor actual ou potencial, do mesmo tipo daquela que nos leva, por exemplo e quando em Espanha, a abastecer-nos em bombas de gasolina da GALP, apenas pelo patriotismo dela ser uma empresa de origem portuguesa.
Se a publicidade institucional funciona assim, não se compreende porque haja necessidade que se encontrem benefícios directos e imediatos nos casos em que haja indícios de corrupção, como aconteceu, para citar dois casos recentes, com o caso da Somague e das contas do PSD e o caso Apito Dourado. Creio ser uma maneira habilidosa de tentar deslocar a discussão do que é essencial, a de procurar forçar a busca de uma contrapartida imediata ao favor prestado. Muitas vezes, a corrupção, tal qual alguma publicidade, é institucional. Na realidade, ao PSD basta saber que a Somague está ali quando for precisa, e aos árbitros que Pinto da Costa lhes controla os processos de classificação e a carreira…

27 agosto 2007

O CHARME DE RENATO CURCIO

Se bem percebi a história, numa entrevista a uma revista feminina italiana daquelas onde não se devem proferir afirmações com densidades que não flutuem ou exprimir opiniões que se situem fora do que é canónico, a actriz francesa Fanny Ardant quebrou essa regra sacrossanta, pronunciando-se sobre a sua opinião sobre o fenómeno das Brigadas Vermelhas:
Sempre me fascinou e cativou o fenómeno das Brigadas Vermelhas. Era uma época onde era preciso escolher o seu lado, e em que havia aqueles que decidiam pegar em armas e que podiam matar ou ser mortos. (…) Actualmente em Itália (…) só há os interesses económicos. E depois de lhe fazerem notar que muitos dos protagonistas italianos desses tempos acabaram por entrar para o governo:
Têm um que para mim é um herói: Renato Curcio. Esse não se converteu num homem de negócios.
Houve quem não gostasse, sobretudo em Itália, e as suas declarações provocaram uma turbulência enorme entre os políticos italianos (sobretudo à direita), a actriz já se retractou e pediu desculpa, houve quem a defendesse em França, alegando que a actriz não está politizada (...), mas a minha medalha de ouro dos comentários vai para um político italiano chamado Luca Volontè que, comentando as declarações da actriz, tem este preâmbulo arrasador:
Ninguém pede a uma actriz que seja inteligente ou que esteja informada…

Trata-se de um preâmbulo lapidar e que ilustra perfeitamente a reacção instintiva que experimentei recentemente a respeito dos autores de alguns comentários aparecidos numa caixa dos ditos num poste a respeito da guerra dos directores de museus de um outro blogue

ROLLERBALL 2

(em continuação)

Vale a pena recomeçar o assunto da admissibilidade de limites morais em desportos que se transformaram em espectáculos, lembrando um deles, montado a 24 de Setembro de 1988 em Seul, na Coreia, por ocasião da final dos 100 metros masculinos, no âmbito das competições de atletismo dos Jogos Olímpicos que ali se realizavam. Perante uma assistência de muitos milhões (eu) o vencedor da prova foi o senhor que se destaca na fotografia de baixo (também se pode ver o vídeo), um atleta canadiano de nome Ben Johnson.
Três dias depois, desmentindo o testemunho presencial desses milhões, o vencedor passara a ser outro (o norte-americano Carl Lewis), porque o laboratório de análises encontrara uma substância dopante (esteróides anabolizantes) na urina de Johnson e ele fora desclassificado. O paradoxo é que, como se veio a descobrir, Johnson se deixara apanhar no controlo por causa da imprudência das suas ambições: ele queria ganhar o título olímpico a todo o custo, enquanto as circunstâncias aconselhavam que desistisse.

O programa de preparação de Ben Johnson para aqueles jogos havia sido preparado com meses de antecedência, incluindo a ingestão dos tais esteróides, cuja administração fora programada para que os seus vestígios já tivessem desaparecido do organismo por altura dos controlos da competição. Simplesmente, Johnson apanhara uma violenta gripe no princípio desse ano e, tendo de parar de treinar por algumas semanas, atrasou todo o programa de treinos, assim como o da administração dos tais cocktails maravilha
A prudência mandava que Johnson desistisse de participar nas olimpíadas invocando uma conveniente lesão. Resolveu correr o risco. Não vale a pena ter pena dele, mas vale a pena inserir o seu gesto num contexto mais amplo: é que entre os atletas que se classificaram nos cinco primeiros lugares naquela corrida, quatro tiveram incidentes com a ingestão de substâncias proibidas durante as suas carreiras*. Hoje sabe-se que o novo vencedor, Lewis, também tinha testado positivo em testes efectuados nesse mesmo ano

Mas o caso fora abafado… Nessas mesmas olimpíadas, mas no sector feminino, houve uma atleta norte-americana (Florence Griffith-Joyner) que cometeu a proeza de vencer as corridas tanto dos 100 como dos 200 metros com enormes avanços sobre as suas rivais (abaixo). As marcas que então estabeleceu nunca mais foram sequer aproximadas nos 19 anos que decorreram depois disso… Contudo, apesar das controvérsias de quem se recusava a aceitar tais resultados sem reservas, nada de anormal foi detectado no laboratório. Mas isso não inibia as más línguas de considerar que ao menos Florence não se constipara...
Uma das vantagens do atletismo é a de ser uma modalidade com marcas e, por isso, com memória. As marcas podem permitir a comparação entre atletas de gerações diferentes. Florence continua imbatida desde 1988... Noutras modalidades, como o ciclismo, as memórias são as de antigos campeões, como as do francês Jacques Anquetil (1934-1987, mais abaixo), que ganhou a Volta a França por cinco vezes**, e que teve um famoso comentário na televisão, onde observou que só um ingénuo é que acreditaria que era possível fazer correr uma etapa de Bordéus a Paris, à custa de água…

Os escândalos consecutivos da Volta a França deste ano, para além das suspeitas que ficaram por resolver, mostram como no ciclismo tudo parece permanecer essencialmente na mesma como era há quarenta anos atrás. E o mesmo se pode dizer do atletismo, a respeito das perspectivas para os actuais Campeonatos do Mundo que se estão a disputar em Osaca, no Japão. Pelo contrário, o que parece bizarro são as baixas taxas de incidentes de dopagem noutras modalidades-espectáculo como o futebol, o ténis ou o basquetebol…
Creio ser desnecessário, mas poder-se-ia continuar a enumerar os múltiplos casos que fundamentam a impressão geral que as denúncias dos casos de doping desportivo, especialmente nestes desportos que se transformaram em enormes espectáculos e imponentes negócios apenas correspondem à pequena parcela emersa de um enorme iceberg em que as denúncias e a repressão parecem apenas interessar na medida em que o gesto possa melhorar a imagem da modalidade junto da opinião pública.

E poucos serão os que acreditam na sinceridade do princípio mais invocado para justificar a despistagem da ingestão de substâncias proibidas que é o da defesa da saúde do atleta. E manter essa ficção, quando se atingem os montantes que se atingem com os espectáculos montados à volta de certas actividades desportivas – futebol, basquetebol, atletismo, ciclismo, etc. – não é simplesmente credível. Como outrora se pelejava pela ficção do desportista amador***, hoje ainda se tenta fazer crer no desportista impoluto. No Manchester United, haverá alguém disposto a sacrificar o rendimento desportivo de Cristiano Ronaldo por causa da sua qualidade de vida quando ele tiver 50 anos?
Até pode ser que haja alguns, ao princípio, mas se olharmos para os protagonistas em volta deste enorme negócio do entretenimento das multidões (o tal que no filme é representado pelo Rollerball), percebemos como os atletas têm que se vergar às vontades de quem faz as coisas acontecerem. Sobre a moral destes últimos (e estou a pensar em alguns nomes nacionais, gente recomendável…) suponho que nem vale a pena falar… O que vale a pena informar é que a prática é tão antiga que já os gladiadores eram tutelados pelo seu lanista… A profissão de Pinto da Costa não será tão antiga como outras, mas é muito antiga, mesmo assim.

* Ben Johnson do Canadá, Carl Lewis e Dennis Mitchell dos Estados Unidos e Linford Christie da Grã-Bretanha. A excepção (que vale a pena destacar) foi o norte-americano Calvin Smith (4º classificado).
** 1957 e 1961 a 1964.
*** Até que as exigências dos países ocidentais na Guerra-Fria a fizeram desaparecer: os atletas do Leste eram todos amadores; só treinavam, mas tinham outras profissões oficiais (polícia, bombeiro, etc.), sobre as quais mostravam não saber nada.

26 agosto 2007

ROLLERBALL

Rollerball é o título de um filme de antecipação de 1975, realizado por Norman Jewison e protagonizado por James Caan e John Houseman. Considero-o um excelente filme, inquietante e denso pelas várias questões que levanta (a história baseou-se num conto de antecipação que concorreu ao Prémio Pulitzer), mas que, apesar dessa sua densidade, acabou por registar um descomunal sucesso entre os de espectadores menos densos, que adoraram as cenas de acção do filme…

A ambiente do filme situa-se num futuro distante*, quando o governo mundial está a cargo duma agremiação de corporações, onde cada uma tem o monopólio da sua área funcional (há a da energia, dos transportes, habitação, alimentação, etc.) e com isso foram resolvidos os problemas básicos de subsistência de toda a humanidade. Mas há um problema político que resta por resolver: o da ocupação dos tempos livres da população. Foi para isso que se inventou o Rollerball!
O Rollerball tornou-se o jogo universal que sublima as paixões violentas da humanidade. Numa das frases de promoção do filme dizia-se: No futuro já não haverá guerras, mas haverá Rollerball, e noutra, A próxima guerra já não será travada mas jogada… O Rollerball trata-se de um jogo de regras necessariamente simples e extremamente violento, mas cativante: segundo consta, duplos, membros da equipa técnica e figurantes entretiveram-se a jogá-lo no intervalo das filmagens** no ringue construído para o efeito…

Quanto à história do filme propriamente dita, envolve a maior vedeta do Rollerball (James Caan) que começa a questionar o sistema onde está inserido e assim passa a ser apercebido como uma ameaça política pelos detentores do poder (as corporações representadas por John Houseman) por causa da sua popularidade entre a multidão***. A intenção daqueles passa a ser a de eliminar Caan, mas de preferência dentro de campo e por um adversário, nem que para isso seja preciso ir alterando as regras do jogo… As cenas de violência durante os jogos são tanto um aceno a precedentes históricos de sociedades saciadas, como a da Roma imperial e o seu Coliseu, como pretendem transmitir a condenação da violência pela saturação da sua exibição em cena, de uma forma que se assemelha à que Stanley Kubrick usara no filme A Laranja Mecânica (1972). O uso de música clássica nas duas bandas sonoras é apenas um exemplo dessa semelhança: o filme começa ao som da Tocata e Fuga BWV 565 de J.S. Bach.

Mas, ao contrário do que aconteceu com o filme de Kubrick, é muito provável que os autores de Rollerball se devam ter sentido bastante desapontados ao aperceberem-se que as expressões de maior apreço pelo seu filme vinham daqueles que haviam pegado na história pelo lado lúdico do jogo, esquecendo todas os outros problemas explícitos e implícitos levantados pelo filme: desde o da posse do poder, passando pelo da alienação das multidões até ao do estabelecimento das regras da prática desportiva.
E é precisamente sobre este último aspecto que o filme levanta uma questão que continuou em aberto e se tornou ainda mais importante passados 32 anos sobre a sua estreia: será praticável estabelecer limites morais para competições que se deixaram ultrapassar pela sua vertente de espectáculo? Se é o espectáculo o factor determinante a estabelecer esses limites na prática, qual é a verdadeira importância dos factores secundários, como a integridade física dos praticantes, por exemplo, que é nenhuma, em Rollerball?

(continua)

* Distante da época de realização do filme mas já próxima da actualidade: o ano é 2018…
** Supõe-se que deve ter sido de forma menos violenta do que a das partidas do guião….
*** Seria como se Luís Figo desse sinais de pretender passar a activista político.

25 agosto 2007

A CRUZ SUÁSTICA FINLANDESA

Quem tenha oportunidade de ver fotografias da participação finlandesa numa das três guerras em que se viu envolvida durante a Segunda Guerra Mundial costuma surpreender-se, ao descobrir que o símbolo identificativo dos seus equipamentos das suas forças armadas, como aviões (acima) ou blindados, por exemplo, era uma cruz suástica, desenhada em azul claro.

Vale a pena ficar a saber que aquela explicação mais imediata, a que associaria esse facto à circunstância dos finlandeses terem combatido ao lado da Wehrmacht alemã, que também usava o mesmo símbolo nos seus equipamentos (só que em preto), está... errada. A utilização da cruz suástica finlandesa é até mais antiga do que a alemã.
A cruz suástica era o emblema de uma família nobre sueca (e rica), os Von Rosen, cujo conde Eric (1879-1948) doou em 1918 à jovem nação (à facção Branca na Guerra Civil…) um ou dois aviões (as fontes divergem...) que serviram para a fundação da Força Aérea finlandesa (a segunda mais antiga do mundo) que estavam decorados com o seu emblema condal…

Talvez por gratidão, depois talvez por inércia, os emblemas acabaram por ser adoptados como distintivo da aviação e depois dos blindados finlandeses. A cruz suástica alemã negra foi um símbolo posteriormente adoptado pelo partido nazi (NSDAP) e introduzida nos emblemas do Estado Alemão (com resistências várias…) apenas a partir da chegada daqueles ao poder em 1933.
A cruz suástica acabou por ficar indelevelmente associada à Alemanha nazi e é claro que a Finlândia teve que mudar o seu emblema em 1945. Fica apenas um pormenor por contar. Uma das razões para a sua adopção pelos nazis residia no facto dela ser um antiquíssimo símbolo religioso usado pelos povos indo-europeus, que se espalharam em tempo pré-históricos da Europa até à Índia.

Aliás, imune à conotação negativa que o símbolo goza na Europa, ainda hoje se pode encontrar a cruz na decoração dos templos indianos (abaixo). Também a esmagadora maioria dos idiomas que hoje se falam tanto na Europa como na Índia são de origem indo-europeia. Mas entre as raras línguas europeias que não são dessa origem* conta-se precisamente o finlandês…
* Entre as línguas da União Europeia as excepções são o Húngaro, o Estónio, o Maltês e o Finlandês.

24 agosto 2007

WILLIAM VANCE

William Vance é o pseudónimo do desenhador belga William Van Cutsen (abaixo), nascido em 1935 em Bruxelas. De entre o enorme elenco de autores daquela que é conhecida como a escola de banda desenhada franco-belga do pós guerra, considero William Vance o desenhador que mais se aproxima do traço realista. Alguns dos desenhos das suas histórias, especialmente os do início da sua carreira, onde se esmerava (ainda mais) nos detalhes, chegam-me a parecer planos de cinema.
O seu primeiro herói foi Howard Flynn, um oficial da Royal Navy dos finais do Século XVIII e embora as histórias (da responsabilidade de Yves Duval) não voem muito alto, é um regalo ver as pranchas onde se acumulam os detalhes minuciosos dos navios de época. O mesmo se passa com Ringo (abaixo), um Western que seria banal, não fora o detalhe e rigor com que aparecem desenhados os uniformes confederados da Guerra Civil norte-americana ou uma diligência da Wells Fargo, por exemplo...
Com a criação de Bruno Brazil, Vance abandona as aventuras históricas e muda-se para as histórias de espionagem (da autoria de Greg), provavelmente na senda do sucesso obtido por James Bond naquela época. Mas as personalidades de Bruno Brazil, um agente secreto norte-americano, e dos outros membros da sua Brigada Caimão têm a mesma densidade da do famoso agente secreto britânico 007, com licença para matar: quase nenhuma.
Mas as histórias de Bruno Brazil tiveram uma popularidade muito superior às das suas antecessoras. Bob Morane foi outro herói desenhado por Vance com a competência do costume, também com as histórias a versar o tema da espionagem, embora a esta se junte o imaginário da ficção científica. Mas a evidência da qualidade do trabalho de Vance quando associado a uma boa história e a um bom argumentista começa-se a ver com Ramiro.

Com o argumento de Jacques Stoquart, Ramiro é o filho bastardo de um Rei de Castela (Afonso VIII, 1155-1214), e a acção – que é extremamente bem documentada e minuciosamente desenhada – decorre numa Península Ibérica medieval que não costuma aparecer nos livros de história, onde o predomínio pelo controlo peninsular ainda está a ser disputado – e está muito longe de estar decidido… – entre cristãos e muçulmanos, numa espécie de guerra civil e religiosa.
Apesar da qualidade (considero-a a série mais equilibrada de todas as desenhadas por Vance), é compreensível que o tema e época escolhidos se tornassem um obstáculo à sua popularidade. Essa chegou finalmente com o aparecimento de XIII (mais abaixo), em parceria com os excelentes argumentos de Jean Van Hamme. A história de XIII, é a de um agente operacional amnésico que parte em busca do seu passado, que está associado a uma grande conspiração.

Regressando um pouco ao figurino Brazil (XIII é norte-americano), mas agora com a solidez da imaginação de Van Hamme por detrás, XIII acabou por se tornar uma série de acção e intriga que ganhou a categoria de série de culto, sobretudo entre as gerações mais novas. Qualquer pessoa da geração do Tintin semanal não deixaria de sorrir ao ler uma etiqueta nos álbuns de Bruno Brazil promovendo-os por serem do mesmo desenhador de XIII
Além de continuar a desenhar XIII, que se tornou naturalmente a sua imagem de marca, Vance regressou aos temas da sua predilecção através de Bruce J. Hawker, outra história da Royal Navy dos princípios do Século XIX ou repegando Blueberry, o herói de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, para, em colaboração com este último, desenhar Marshal Blueberry, uma sequela das aventuras do famoso tenente e um pretexto para desenhar mais uns uniformes e umas paisagens do Oeste…

23 agosto 2007

FINLÂNDIA: TENTANDO “PASSAR POR ENTRE OS PINGOS DA CHUVA” (Os últimos 200 anos da sua história)

Os finlandeses têm um idioma muito exclusivo. A entrada da Finlândia para a História da Europa foi feita através dos suecos que lhe deram o nome pela qual a conhecemos. Mas os próprios finlandeses designam a sua terra por Suomi e daí a justificação de se empregarem as iniciais SF (Suomi-Finland) como referência à Finlândia. O sueco ainda é, a par do finlandês, idioma oficial da Finlândia e falado coloquialmente por uma minoria. Mas os finlandeses em geral cultivam, em relação aos seus vizinhos escandinavos aquilo que se pode designar, da forma mais benigna possível, como uma saudável rivalidade. Nokia e Ericsson representam mais do que rivalidade comercial…

O grande problema finlandês é que os vizinhos do outro lado ainda são piores… No seguimento das várias vicissitudes das várias Guerras Napoleónicas a Finlândia foi transferida da suserania sueca para a suserania russa em 1809. Apesar de no final da história (1815), tanto a Suécia como a Rússia estarem ambas do lado vencedor (contra a França), ao bom estilo da época, a Suécia foi compensada com a Noruega e a Finlândia preparou-se para um século de convivência com o Império Russo. A figura jurídica, tal como acontecia com a Polónia, era a de uma união pessoal do monarca: o Czar da Rússia era também Rei da Polónia e Grão-Duque da Finlândia.

O historial das relações entre o Grão-Duque e os seus súbditos é muito mais distendido do que o do Rei com os seus... Durante o período mais liberal do reinado do Czar Alexandre II (1855-1881), a Finlândia teve oportunidade de recriar a sua Dieta* (1863), que se pôde bater por alguns privilégios específicos, como o da identidade religiosa (evangélica), linguística (o finlandês foi equiparado ao sueco) e autonomia económica (moeda própria). Contudo os Czares que se sucederam, Alexandre III (1881-1894) e Nicolau II (1894-1917), travaram, quando não reverteram mesmo, essa tendência e o país estava maduro para a independência em 1917.

Note-se contudo que, ao arrepio da imagem retrógrada do Império Russo, a Finlândia czarista do princípio do Século XX estava na vanguarda em alguns aspectos sociais: os membros da Dieta passaram a ser todos eleitos em 1906, e foi um dos primeiros países a instituir o sufrágio universal – incluindo o voto feminino**. Depois da primeira Revolução Russa de Fevereiro de 1917, a Dieta finlandesa, que havia sido eleita em 1916, mas ainda não se reunira, foi convocada. Outro sinal da especificidade social finlandesa: mesmo em eleições realizadas durante o período czarista, havia na Dieta uma maioria social-democrata (103 membros em 200)…
As relações entre o Governo Provisório russo, chefiado por Alexandre Kerensky, e a Dieta finlandesa não tardaram a azedar. Kerensky decretou a dissolução da Dieta. Não por causa do decreto de Kerensky, mas porque os sociais-democratas finlandeses agiam de forma concertada com os seus homólogos russos, de acordo com os ideais de então do internacionalismo, e os seus opositores agiam com o apoio evidente dos alemães, houve novas eleições que puseram os sociais-democratas em minoria na Dieta (Outubro de 1917). Sensivelmente um mês depois, os bolcheviques e Lenine alcançavam o poder em São Petersburgo.

A Dieta aproveitou esse momento de fraqueza do poder central russo para proclamar a independência da Finlândia (6 de Dezembro de 1917), para ela vir a ser reconhecida a 31 de Dezembro pelos soviéticos. E em Janeiro de 1918 começou a Guerra Civil finlandesa entre Vermelhos e Brancos, que se prolongou até Maio do mesmo ano. Tratou-se de uma guerra que tanto teve de disputa ideológica, quanto de disputa dos interesses estratégicos de duas potências (Rússia e Alemanha) travados por interpostas partes. O poder russo estava despedaçado, o alemão ainda intacto, e quando estes últimos decidiram participar directamente (Abril) na Guerra, o resultado ficou decidido.

A cobrança da conta da intervenção germânica traduziu-se na eleição pela Dieta, em Outubro de 1918, de um príncipe alemão, Frederico Carlos de Hesse, como novo Rei da Finlândia. Mas o reino nem tempo teve de ver o Rei (abdicou em Dezembro…) porque a derrota alemã no final da Primeira Guerra Mundial (11 de Novembro de 1918) tornou a deixar a República da Finlândia (Julho de 1919) sem potência protectora que a defendesse das inevitáveis futuras ambições russas. Mas a curto prazo, as fragilidades do poder soviético, desafiado simultaneamente por outros inimigos internos e externos, permitiram aos finlandeses obter um Tratado de Paz (Tartu) muito favorável.

O problema ressurgiu em Agosto de 1939, depois da Assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, quando Estaline se sentiu com liberdade de acção para redesenhar as fronteiras ocidentais da União Soviética. As propostas soviéticas, suaves de início (aluguer de algumas ilhas no Báltico com intuitos defensivos, propostas de permutas de territórios por forma a melhorar a sua situação defensiva – São Petersburgo não distava mais de 50 Km da fronteira finlandesa), vão endurecendo de tom. Os finlandeses aperceberam-se que a cobertura alemã desaparecera e que só podiam tentar ganhar tempo, porque a Segunda Guerra Mundial começara em Setembro de 1939.
A União Soviética lançou a sua ofensiva em 30 de Novembro de 1939, no começo do pico do Inverno, talvez convictos que as condições os favoreceriam. Na sua vertente política, a ofensiva soviética foi até bem montada. Quando a Sociedade das Nações (SdN), ainda viva mas no estertor da sua agonia, acusou a União Soviética de agressão não provocada contra a Finlândia, o representante soviético faz uma das rábulas mais cínicas da diplomacia moderna: Agressão? Pelo contrário, nunca as relações foram melhores, Molotov e Kuusinen acabaram de assinar um Tratado de Amizade! Falta esclarecer que Kuusinen era membro de um governo finlandês no exílio, de uma República Democrática da Finlândia, sob tutela soviética…

Na sua vertente militar (a Guerra de Inverno) é que as coisas correram muito mal para os soviéticos. Ao fim de um mês toda a sua campanha tinha-se revelado um fracasso total. O Inverno funcionou em proveito dos defensores, cujos planos militares dos últimos 20 anos tinham sido sempre de preparação para a contingência daquela invasão… Só que, ganha a reputação militar no campo de batalha (e perdida a correspondente entre os soviéticos…), faltava aos finlandeses o apoio político com que pudessem negociar com os invasores. Em Fevereiro de 1940, os soviéticos recomeçaram as operações e os finlandeses acabaram por ter de assinar um Tratado de Paz em Março de 1940, com as cláusulas exigidas pela URSS

Em Junho de 1941, com a Operação Barbarrosa (a invasão da URSS pelos alemães), os finlandeses, em combinação com os invasores aproveitaram a ocasião para recuperar o que lhe fora retirado 15 meses antes, naquela que foi baptizada na Finlândia por Guerra de Continuação. Embora bem sucedidos nessa recuperação, tendo a Finlândia umas tradicionais fronteiras históricas com a Rússia, faltou-lhe, ao longo dos mais de três anos de conflito (Junho de 1941-Setembro de 1944), a solidez política para se expandir para muito mais além, receando a ampliação das inevitáveis retaliações soviéticas na eventualidade de uma vitória da URSS, como se veio a verificar.

A reputação militar finlandesa só se voltou a realçar em Junho de 1944, quando se mostraram novamente capazes de travar uma contra-ofensiva soviética, numa época onde a derrota alemã já era previsível (os aliados haviam acabado de desembarcar na Normandia). A posição política da Finlândia no grande conflito era, no mínimo bizarra: tratava-se de uma democracia, que era co-beligerante (mas não aliada) da Alemanha contra a URSS, que havia recebido uma declaração de guerra do Reino Unido, mas apenas em 6 de Dezembro de 1941, data em que as suas forças haviam transposto a antiga fronteira russo-finlandesa, e que não estava em guerra de todo com os Estados Unidos (embora estes tivessem rompido as relações diplomáticas)…
A combinação destes dois aspectos (político e militar) facilitou a assinatura de um Armistício em Moscovo em Setembro de 1944. O teatro de operações finlandês era completamente periférico em relação ao desenlace da Segunda Guerra Mundial e iria exigir aos soviéticos, novamente, imensos recursos militares. O que não impediu que as condições impostas pelo armistício fossem extremamente duras, idênticas às de 1940, mas ainda agravadas por indemnizações adicionais aos soviéticos. Numa das cláusulas, a Finlândia comprometia-se a expulsar as forças alemãs presentes no seu território, o que a levou à sua terceira guerra dentro da Segunda Guerra Mundial.

A Guerra da Lapónia, travada entre finlandeses e alemães, de Setembro de 1944 a Abril de 1945, foi uma guerra travada a meio gás onde os finlandeses procuraram incentivar os alemães a evacuar as regiões do norte da Finlândia que estes ocupavam, aparentemente para dificultarem o tráfego dos portos do Oceano Árctico por onde a União Soviética continuava a receber abastecimentos dos aliados (Murmansk), mas onde se encontravam as únicas minas de níquel que a Alemanha ainda controlava. Paradoxalmente, a maior parte da região disputada entre finlandeses e alemães veio a ser depois incorporada na União Soviética no fim da guerra.

Um dos efeitos das reparações devidas pela Finlândia à União Soviética (300 milhões de dólares) foi o de ter vocacionado uma parte substancial da sua indústria (sobretudo a pesada) para o mercado soviético, porque grande parte dessas reparações vieram a ser pagas em géneros. No pós-guerra, a economia finlandesa acabou por beneficiar com esse enorme mercado cativo, sedento da sofisticação ocidental. Mas durante a Guerra-Fria a expressão finlandização, tinha um conteúdo pejorativo, associado a uma democracia de estilo ocidental, com uma economia livre e com bons índices de bem-estar material, mas onde a liberdade estratégica do país fora sacrificada.

A queda da União Soviética (1991) foi também a queda de um certo modelo económico na Finlândia. A taxa de desemprego passou de 3,2% em 1990 para 16,6% em 1994. Em 1 de Janeiro de 1995 a Finlândia passou a fazer parte da União Europeia. Entretanto, houve que procurar novos mercados de exportação além de sofisticar a qualidade da produção, depois de décadas de habituação à clientela pouco exigente do mercado soviético. A transição foi custosa mas globalmente bem sucedida: a taxa de desemprego em 2006 cifrou-se nos 7,7%. O paradigma*** de uma marca da nova economia finlandesa é a Nokia, fabricante mundial de telemóveis.
Agora, que parece já ter sido ultrapassado o período de fraqueza russa, ficamos à espera de ouvir alguma declaração de Vladimir Putin ou de qualquer outro dirigente russo para voltar a ver a Finlândia no seu eterno jogo de equilibrar as amizades mais longínquas e as influências do seu vizinho gigante e continuar o seu eterno jogo de tentar passar entre os pingos da chuva… E para rematar um poste tão sério nada melhor que seleccionar, em vez de coisas mais solenes, aquele que considero um dos maiores monumentos da cultura finlandesa: o vídeo mais piroso de sempre: Armi e Danny! A não perder...

* Dieta é uma das designações de uma assembleia deliberativa.
**Foi o terceiro país a fazê-lo, depois da Nova Zelândia e da Austrália. Seguir-se-iam a Noruega (1913) e a Dinamarca (1915).
*** Que bela ocasião para empregar a palavra da moda!

Nota: Os três mapas da Finlândia retratam a sua configuração sob domínio russo (1809-1917), entre guerras (1920-1940) e actual. O acesso ao Árctico ganho em 1920, veio a perder-se em 1940, conjuntamente com as regiões da Carélia, no Sul.

22 agosto 2007

A OUTRA FACE DA MOEDA

Parece ser coisa que já se tornou canónica e clássica em Portugal que, quando há casos de denúncias de corrupção, o interesse se acabe por focar, quase exclusivamente, na figura daquele que foi corrompido. Depois da notícia da denúncia por parte do Tribunal Constitucional da descoberta do pagamento por parte da Somague de despesas do PSD em 2002, os holofotes da comunicação social concentraram-se no partido, esquecendo a construtora.
Ora isto parece a reedição da cobertura do caso do aeroporto de Macau, que envolveu o então governador Carlos Melancia (acima). Recordando que o corrompido foi ilibado e a empresa corruptora foi condenada em julgamentos separados, numa das demonstrações mais mediáticas como a justiça portuguesa é humana (escusava é de ter sido tão contraditoriamente humana…), alguém ainda se lembra do nome da empresa que pagou a Melancia?
Também agora parece haver uma vaga de concordância em como a Somague, e quem a dirige, Diogo Vaz Guedes (acima - ele até gosta de aparecer na televisão em eventos como o Compromisso Portugal...) não devem ser importunados a este respeito. O que me parece bizarro, além dum muito mau trabalho de jornalismo. Ou será que se considera que há um alargado consenso social que isto de oferecer-se para pagar as facturas de 230 mil euros de terceiros não tem nada de mais?...
Em tempo: Agora o que só faltava mesmo era José Luís Arnaut aparecer a assumir as responsabilidades na generalidade (responsabilidade objectiva) enquanto as descarta na especialidade (era prática (…) proceder à delegação em um ou mais secretários-gerais adjuntos de tarefas de natureza administrativa e financeira). Uma confissão à Bill Clinton que, quanto à marijuana, também a experimentou por uma vez ou duas, só que não inalava o fumo…

OUTRAS MANIFESTAÇÕES POR CAUSAS FRACTURANTES (onde não foi preciso estragar nada)

Na cerimónia protocolar de consagração dos vencedores da final da corrida de 200 metros em Atletismo dos Jogos Olímpicos de 1968, disputados na cidade do México, os dois atletas norte-americanos presentes no pódio, o vencedor Tommie Smith (19,83*) e o vencedor da medalha de bronze John Carlos (20,10), reagiram da forma que se vê mais abaixo quando as bandeiras foram içadas e o hino do seu país (Star Spangled Banner) foi tocado.
O gesto foi de uma eficácia tremenda, porque transmitido pela televisão em directo para quase todo o mundo próspero que seguia os jogos, e um enorme embaraço mundial para os Estados Unidos, porque o conteúdo de protesto racial no gesto dos dois atletas era inequívoco para qualquer telespectador. Usando as próprias palavras de Smith, se ganhar sou um americano, não um americano negro, mas se algo corresse mal, então diriam que sou um preto…**
A importância do impacto do gesto (os dois atletas foram banidos dos Jogos, de regresso aos Estados Unidos foram votados ao ostracismo e receberam ameaças de morte dos radicais do Ku-Klux-Klan), forçou os defensores da causa a reconstituírem-na com requintes míticos que nunca existiram. Assim Smith levantara a punho direito com a luva simbolizando o Poder Negro enquanto Carlos levantou o esquerdo em representação da Unidade Negra

A verdade é bem mais prosaica: só havia um par de luvas…

* O atleta estabeleceu um novo recorde mundial da distância nessa final: 19,83 segundos.
** Em português, ao contrário da língua original, a expressão preto (black) é mais depreciativa do que a expressão negro. As palavras originais são: If I win I am an American, not a black American. But if I did something bad then they would say 'a Negro'. We are black and we are proud of being black. Black America will understand what we did tonight.

21 agosto 2007

DA BOLA DE BERLIM À MAÇAROCA DE MILHO

Tendo-se tornado moda, chega a tornar-se engraçada a veemência que se coloca na condenação das actividades da ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), com os seus elementos a serem descritos como os maus que tiram o pão da boca aos honestos comerciantes nas reportagens de jornal, são equiparados ao regime da Coreia do Norte em blogues ou, sensação desta temporada de Verão 2007, são ridicularizados por andarem a apreender as bolas de berlim aos vendedores de praia, por causa das condições de falta de higiene.
O que eu não consegui ler, mau grado toda esta hostilidade, foi qualquer referência a relatos de interpretações abusivas da lei ou de exercício despropositado de poder por parte dos elementos da ASAE, o que me leva a suspeitar que eles, substantivamente, se limitam a fiscalizar e a implementar a legislação que está em vigor, para cuja aprovação contribuíram tanto como qualquer outro cidadão, através dos seus votos nas eleições que vieram a servir, através da eleição dos deputados, para a composição da Assembleia da República.

Gozar com as bolas de berlim e denunciar mais tudo o resto parece ser assim um caso clássico de apontar para a Lua e ficar a olhar para o dedo, em que mais ridículo fica quem goza do que aquele que é gozado. Creio que não pode ser culpa da ASAE que não estejamos habituados a ter organismos públicos eficientes que tenham por missão fiscalizar e, imagine-se lá, sejam eficientes: fiscalizam! E também não é responsabilidade da ASAE que o conjunto legislativo que eles estão encarregados de fazer cumprir contenha tantos detalhes absurdos…
E é sobre essas questões de pormenor da legislação que, infelizmente, partidos políticos e deputados também não têm o hábito de ser interpelados pelas suas responsabilidades. Alguém se lembrou de endossar os protestos e de pedir os esclarecimentos aos grupos parlamentares do PS e do PSD sobre a proibição das bolas de berlim na praia? É que a aprovação das regras de higiene ao abrigo das quais a ASAE actuou contra os vendedores deve ter sido da responsabilidade de um senão mesmo daqueles dois grupos parlamentares…

Parece que em Portugal (e nos países do Sul da Europa, em geral) está convencionado de há muito que existe uma legislação escrita que normalmente não vale quase nada e há uma outra prática, oral, essa para cumprir. Esse modelo dualista só se torna incomodativamente patente nas suas contradições quando se tenta implementar na prática a legislação teórica, veja-se o caso recente do escândalo das multas dos radares para controlo da velocidade do trânsito em Lisboa, que estão aferidos para limites de velocidade estabelecidos na longínqua década de 1950, mas ainda em vigor*…
Importa também recordar que algumas dos aspectos mais absurdos das normas fiscalizadas pela ASAE resultam da transposição para a legislação portuguesa de normas comunitárias e que a adesão à Europa também traz consigo estas contradições entre a nossa maneira de ser e a de outros, que costumam levar a sério aquilo que se lavra por escrito. É importante que os discursos ocos do grande ideal europeu sejam confrontados pelas pessoas comuns com as situações concretas da proibição do uso das colheres de pau na cozinha, da confecção de joaquinzinhos ou de iscas com elas segundo a receita…

Em conclusão, embora possa sentir-me muito minoritário ao afirmá-lo, eu gosto que exista um órgão de fiscalização que… fiscalize – independentemente do aproveitamento mediático de quem está à sua frente possa fazer… E acessoriamente, até gosto que esses gestos sirvam de instrumento de denúncia deste estilo nacional em que a legislação é levada excessivamente em tom de brincadeira. É que, se todos levarmos, como parece que levamos, o respeito pela lei em jeito de brincadeira, não podemos estranhar que alguns acreditem que o seu desrespeito (abaixo) também possa ser levado do mesmo modo…

* Que nenhum partido teve, até agora, a coragem política de alterar para valores reais, as velocidades praticadas pela esmagadora maioria dos automobilistas…