15 março 2007

A GUERRA DA COREIA (1950-1953)


É a guerra em que não podemos vencer, não podemos perder e não podemos desistir.*


Oficial norte-americano, ao retirar de Seul perante o avanço chinês (Dezembro de 1950)

Clicando em cima do mapa pode observar-se a evolução das frentes

Compete sobretudo aos vencedores evocar as guerras que venceram. Na da Coreia, não os houve e será talvez por isso que a Guerra da Coreia se tornou numa guerra esquecida, com excepção, naturalmente, dos próprios coreanos, considerados os dois milhões de mortos coreanos que o conflito causou. Mas, também na perspectiva coreana, tratou-se de uma guerra civil cujo desfecho ficou por resolver, duas características que conduzem a que, ainda hoje, haja assuntos nela que convêm não ser abordados.

Como se lê na citação, foi uma guerra completamente esquisita quando vista pelos padrões norte-americanos. As peculiaridades começaram, não pelo facto da Guerra ter começado de surpresa em Junho de 1950 (basta pensar em Pearl Harbor…), mas pelo erro de leitura política de presumir que a União Soviética nunca autorizaria uma acção violenta de um seu aliado (Coreia do Norte), para a alteração das fronteiras da Guerra-Fria.

A surpresa norte-americana continuou ao verificar o comportamento da delegação soviética quando o problema foi levado ao Conselho de Segurança da ONU. Os soviéticos andavam a boicotar o órgão por causa da presença nele da delegação de Taiwan em representação da China, em vez da representação da República Popular que ganhara a Guerra Civil em Outubro de 1949. Só que a ausência dos soviéticos (e do seu veto) permitiu a aprovação de uma resolução condenando a Coreia do Norte.

Ainda hoje se discute qual terá sido o significado da atitude dos soviéticos. Os textos comunistas actuais ainda empregam requintes de construção gramatical para descrever o início da guerra da Coreia**. De qualquer forma, tendo ela sido provocada por inépcia ou deliberadamente, a verdade é que a União Soviética e os seus aliados coreanos e chineses se apresentaram ao conflito como os marginais em relação a uma certa ordem legal internacional que era protagonizada pelos Estados Unidos.

Todas as operações principais da guerra tiveram lugar no seu primeiro ano. De Junho a Setembro de 1950 os Norte Coreanos estiveram em vantagem e quase a esmagar os Sul Coreanos agrupados num canto da península. Os Norte-Americanos desembarcaram junto a Seul (Setembro de 1950), anularam a ofensiva norte coreana e avançaram para o Norte praticamente até à fronteira chinesa (Setembro a Novembro de 1950), onde entraram em choque com os Chineses.

Foi a vez destes procederem ao seu contra ataque (Novembro de 1950 a Janeiro de 1951) que empurrou os norte-americanos para Sul até estes conseguirem sustê-lo um pouco ao Sul de Seul. Finalmente, numa última fase, mais morosa (de Janeiro a Julho de 1951), os norte-americanos foram reconquistando uma franja de território – incluindo a capital – até se atingir uma linha militar conveniente para os dois lados, próxima de onde fora a fronteira provisória do Paralelo 38, de antes da guerra. Clicando em cima do mapa inicial deste poste poder-se-á ver a evolução das posições dos beligerantes durante a guerra.

Sem grandes alterações territoriais a Guerra arrastou-se por mais dois anos até à assinatura de um Armistício em Julho de 1953. Como é frequentemente referido nas análises que se produzem sobre a situação coreana, tecnicamente, o assunto ainda não está encerrado. Mas os factores envolventes é que já estão muito modificados em relação aos que existiam há cinquenta anos atrás, a começar pelo facto de que o actual potencial estratégico sul coreano ser intrinsecamente muito superior ao da Coreia do Norte.

Mas há outros aspectos que tornam a Guerra da Coreia interessante como objecto de estudo. Foi a primeira guerra que se travou condicionada pelo problema do equilíbrio nuclear (a União Soviética havia detonado a sua primeira bomba atómica em 1949). Com a recusa feita pelo presidente Truman ao General MacArthur para o emprego de armas nucleares para aquisição de vantagens tácticas, prevaleceu a visão que o armamento nuclear não era mais uma arma, mas sim um outro tipo de arma.

A suceder a uma época em que ao imperialismo dominante era permitido manifestar o seu poder livremente, e incrementar a escalada de uma guerra para a qual fosse desafiado até à obtenção da vitória militar – como acontecera, por exemplo, com os britânicos frente aos bóeres, na África do Sul – seguia-se agora uma época de subtis equilíbrios, em que os conflitos se iriam tornar político-militares, onde era possível que os exércitos não pudessem utilizar todas as armas do seu arsenal, mas onde seriam indispensáveis outras armas, como as de persuasão…

*It´s the war we can´t win, we can´t loose, we can´t quit.

**Veio a guerra… – como se a guerra se tratasse de um fenómeno meteorológico.

1 comentário:

  1. A verdade é que a existência das duas Coreias ajuda a perceber muito do imperialismo norte americano, tal como o outrora "muro da vergonha".
    Enquanto muita boa (?) gente se entretem a criticar a política norte americana e a manifestar-se sem saber bem porquê, dever-se-iam lembrar que a Democracia tem um preço e não vale a pena querer culpar os ianques ou o "cowboy" pelos males que açolam o planeta.
    (obviamente que a recusa em assinar o procolo de Quioto é uma mancha).

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