03 fevereiro 2007

O MENINO E O GORDO

Menino (Little Boy) e Gordo (Fat Man) foram os nomes de código que os norte-americanos deram aos seus dois engenhos nucleares que foram depois lançados sobre, respectivamente, Hiroxima e Nagasáqui em 6 e 9 de Agosto de 1945. Como acontece com muitos outros assuntos que se passaram a associar automaticamente (ex. Viriato e Sertório), também aqui, o conhecimento da história pormenorizada de cada um deles, leva a compreender o que os distingue, que normalmente é desconhecido.
Para isso, torna-se necessária uma rudimentar explicação técnica. Contrariamente ao que se costuma pensar, e como as suas fotografias acima inseridas deixam suspeitar, os dois engenhos nucleares usados contra o Japão são como os amores de Marco Paulo: em nada são iguais. O material empregue para provocar a explosão em Little Boy (a bomba de Hiroxima) foi Urânio 235, enquanto que em Fat Man se recorreu a Plutónio 239 como também os processos pelos quais se obtêm as detonações são diferentes.

Como acontece frequentemente quando as equipas de investigação não têm falta de recursos, também os cientistas do Projecto Manhattan, que estavam encarregados durante a Segunda Guerra Mundial de produzirem a arma nuclear chegaram a duas soluções viáveis e concorrentes*. A solução empregue em Little Boy era tecnicamente muito mais simples do que a sua congénere que recorria ao Plutónio 239, e era mais fiável, embora o rendimento e a potência do engenho fossem menores.

É esta mesma concepção que continua a ser, com adaptações resultantes da evolução técnica, a ser a preferida pelos países candidatos ao estatuto de potência nuclear, como acontece hoje com a Coreia do Norte e o Irão. A configuração da arma atómica nesta versão é tão fácil de conceber e montar que houve quem, depois de 1945, já a tivesse recriado a partir da leitura de documentação que estava disponível – e entretanto foi retirada… – na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em Washington…

O grande problema desta concepção são as dificuldades que se colocam à obtenção do seu combustível, o chamado Urânio enriquecido, onde a proporção de Urânio 235, que corresponde apenas a 0,7% do Urânio natural, é aumentado artificialmente, em processos industriais muito morosos. Contrariamente ao que se escrevia nos antigos romances de espionagem, o grande problema actual do Irão para se tornar nuclear não serão os planos da bomba (esses, porvavelmente já os terá há muito…), mas a obtenção do combustível que a faça funcionar!
Regressando a 1945, a concepção de bomba de Plutónio 239 era muito mais arrojada e pressupunha uma sincronização rigorosa, difícil de garantir com a tecnologia da época. Foi preciso ensaiá-la em 16 de Julho de 1945, em Alamogordo, no deserto do Novo México. Preparada de antemão a explicação para a enorme explosão que se iria sentir a centenas de quilómetros dali (detonação acidental de um paiol militar…), o teste foi um sucesso, tendo o poder da explosão sido equiparado a 19 mil toneladas de TNT.
A Little Boy foi lançada a 6 de Agosto sobre Hiroxima a partir de um bombardeiro B-29, baptizado de Enola Gay, baseado nas ilhas Marianas. Recorde-se que se tratava da estreia da concepção da bomba baseada no Urânio 235. Se falhasse, ainda havia Fat Man, cuja concepção havia já sido testada em Alamogordo. Mas não falhou. A potência da explosão foi estimada entre o equivalente de 12 a 16 mil toneladas de TNT, matando automaticamente cerca de 90.000 pessoas e destruindo 75% da cidade.
O lançamento de Fat Man foi envolto em peripécias. O B-29 seleccionado, chamado Bockscar, não era o aparelho original da tripulação que o conduzia, a cidade alvo a que se destinava originalmente a bomba (Kokura) estava coberta de nuvens, houve que optar pelo alvo alternativo (Nagasáqui), onde o tempo estava também nublado, houve alguma hesitação na decisão a tomar até aparecer uma aberta e a bomba ter sido lançada, embora a um quilómetro de distância do local previsto.

Embora a bomba fosse 50% mais potente do que a que fora largada sobre Hiroxima (20 a 22 mil toneladas de TNT), a devastação que provocou foi ligeiramente inferior (…mesmo assim estima-se que houve 70.000 mortos imediatos e que 40% da cidade foi destruída), devido ao erro de lançamento e às características geográficas da própria cidade, onde as suas colinas amorteceram parte do efeito de choque da explosão. O avião acabou por não regressar à base e aterrar de emergência numa base americana em Okinawa.

Ainda hoje há alguma controvérsia quanto às razões para isso. A versão benigna diz-nos que o avião havia gasto combustível em excesso nas suas buscas do alvo e que aterrou com os depósitos secos. A maligna sussurra-nos que os protocolos estavam mal estimados quanto às distâncias de segurança devido à incerteza da potência da explosão e que o avião teria ficado em muito mau estado devido à tareia que tinha apanhado com o impacto da explosão da própria bomba que havia lançado.

E, sobre a história de bombas nucleares, tenho, a respeito do emprego da terceira em condições reais, a mesma atitude que os corajosos gauleses da aldeia de Astérix mostravam a respeito da hipótese que o céu lhes caísse em cima da cabeça: espero que amanhã não seja a véspera desse dia...

* Por exemplo, nos anos 60, franceses e alemães criaram sistemas de transmissão de televisão a cores que corrigiam os defeitos do norte-americano (NTSC) perfeitamente concorrenciais: SECAM e PAL.

1 comentário:

  1. E repito: espero que amanhã não seja a véspera desse dia. Excelente texto, mais uma vez, informativo e actual (sempre).

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