17 agosto 2006

2010

Um dos aspectos que considero mais significativos nos argumentos da saga dos filmes 2001 e 2010 de Arthur C. Clarke foi a forma imaginativa como o autor justificou, à posteriori (em 2010), as alterações de comportamento do computador HAL. É que o computador sabia da existência do monólito na órbita de Júpiter mas a tripulação não e tinham-lhe sido dadas instruções para esconder o facto da tripulação.

HAL, pela sua concepção inquisitiva, não estava logicamente preparado para mentir, nem que fosse por omissão, e desenvolveu uma paranóia por causa dessa enorme incongruência de esconder a verdade enquanto a sua programação havia sido para a descobrir. A psicose veio a concretizar-se na liquidação da tripulação que estava em hibernação e nas agressões aos tripulantes Bowman e Poole.

A relação que a nossa sociedade tem com o doping desportivo faz lembrar os dilemas de HAL. Pela forma como premeia – das mais diversas formas - as vitórias no momento presente, como transforma os acontecimentos desportivos num espectáculo, enquanto procura dissuadir, por outro lado, o consumo de substâncias proibidas, invocando uma hipotética verdade desportiva e a possibilidade de lesões futuras para os atletas que a elas recorrem…

Sendo o cérebro humano muito mais imaginativo do que o do HAL, fica aberta a eterna disputa entre policias e ladrões. O ladrão mais recentemente descoberto foi o norte-americano Landis, vencedor da Volta à França em bicicleta. Os próximos ladrões (e ladras) a serem expostos poderão pertencer à equipa russa de atletismo, que se fartou de ganhar medalhas nos recentes Campeonatos Europeus.

O que é mais triste é que, aparentemente, o número de casos descobertos parece resultar apenas do empenho com que se vai à procura deles, como se soubesse de antemão onde eles existem. Do tipo, eu sei que o faz só tenho é que descobrir como o faz. No caso do ciclista norte-americano até parece que ele estará a pagar agora as penas do seu compatriota Armstrong que venceu a prova 7 vezes sem nunca ter sido apanhado…

Sim, porque os franceses desconfiam (e com fundamento) de Armstrong, mas não do seu compatriota Hinault ou do espanhol Induráin, que venceram a prova por 5 vezes. E nem o facto de Anquetil, também francês e também vencedor por 5 vezes do Tour, ter confessado que se dopava e que isso era prática comum, mudou a percepção da opinião pública. Pelo contrário, foi Anquetil que foi votado ao ostracismo pela sua sinceridade.

Num dos episódios da série Dr. House, um dos seus pacientes é um ciclista profissional (seria Armstrong?) que parece perceber muito mais de medicação do que propriamente de bicicletas. Terá sido a esta espécie de Escola de ciclistas norte-americanos espertalhões, que andam sempre um passo à frente dos laboratórios de detecção de substâncias proibidas, que os franceses pretenderam dar uma lição?

Se foi, terá sido muito bem feito. Porque o ciclismo e o atletismo aqui mencionados são das modalidades onde, apesar da hipocrisia, se é comparativamente muito menos hipócrita do que no desporto em geral. Um exemplo? Alguém se pergunta como se conseguem atingir tais níveis desportivos entre os jogadores profissionais de basquetebol da NBA? Alguém prestou atenção a número de jogos que eles fazem por época? E ao ritmo de jogos semanais?

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