26 abril 2006

CONTORCIONISMO – 2

Confesso que estava curioso sobre a forma como reagiriam os putos atrevidos e tontinhos do ultraliberalismo económico ao discurso de 25 de Abril de Cavaco Silva. Sobretudo os que escrevem em órgãos institucionais. Secretamente, convenci-me que hoje, a premência de escrever sobre o aumento do preço do petróleo ou sobre o estado das nossas contas públicas seria enorme. E enganei-me.

No dia em que abandonar a direcção do Diário Económico, Martim Avillez Figueiredo pode lançar um jornal humorístico. Ele tem coragem e tem graça – provavelmente a graça é involuntária, mas pode fundar um clube de directores de jornais com as mesmas características com o arquitecto Saraiva do Expresso.

O artigo arranca assim: “Cavaco Silva foi ontem ao Parlamento fingir um discurso à esquerda. Assim mesmo: fingir.” Quem quiser pode ler o resto do artigo aqui. Ou seja, ninguém percebeu nada, o Jerónimo e o Louçã que no post anterior estavam todos chateados afinal não tinham razão nenhuma, o Martim é que a topou toda.

Depois, o Martim escalpeliza o sentido correcto das intenções do discurso do presidente, tal qual faziam os kremlinogistas* de outrora, de forma a virmos a descobrir em Cavaco Silva, afinal, um adepto fervoroso, mas encapotado, da escola económica de Chicago. Um verdadeiro liberal de convicções arreigadas, portanto. É que assim, o Martim apoia evidentemente o presidente!

Tivessem Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa mais imaginação e sentido de humor e também eles se tinha lembrado que o discurso presidencial, quando encarado de uma maneira mais peculiar até tinha uma vertente liberal extremada. E estava tudo resolvido. Nem tinha havido necessidade do post anterior.

Como já aqui referi uma vez, a propósito até do mesmo Martim, o problema nem está na existência destes fenómenos. O problema consiste em levarem-nos a sério…

*Jornalistas ocidentais especializados, colocados em Moscovo, que esmiuçavam os discursos de encerramento de seis horas e meia de duração dos congressos do PCUS a verificar se tinha sido dito algo de verdadeiramente interessante. Um líder podia ser considerado mais (ou menos) progressista porque tinha citado por 36 vezes o nome de Lenin e o seu antecessor só o havia feito 24 vezes.

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