03 dezembro 2016

A VERDADEIRA OPINIÃO POPULAR (2) - «Pertence a alguma Comissão de Moradores?»

Dois anos e meio depois do inquérito anterior, foi em Lisboa que o jornalista do Diário de Lisboa foi para a rua perguntar às pessoas se «pertenciam a alguma Comissão de Moradores?» Muita coisa mudara nesses dois anos e meio, nomeadamente em consequência do 25 de Abril de 1974. Mudara a atitude do entrevistador e também mudara o que havia a esperar dos entrevistados. Estava-se em pleno Verão Quente (trata-se da edição de 28 de Agosto de 1975). E o próprio texto introdutório ao inquérito deixará transparecer esse ambiente engajado de PREC:

Forma de organização popular destinada a resolver, a nível de bairro ou de rua, alguns problemas fundamentais dos habitantes, as «comissões de moradores» terão um papel insubstituível a desempenhar na fase de transição para o socialismo. O processo já está em marcha e contam-se à centenas as comissões já existentes. E o leitor? Pertence a alguma comissão de moradores? Já existe alguma na zona onde mora? O breve rastreio a que procedemos mostra-nos que ainda há quem desconheça esta forma de organização popular...

Manuel José da Silva, vendedor de jornais, 31 anos:
Não faço parte. Lá no meu bairro há uma comissão de moradores, da Rua de São Paulo. Penso que seja perfeita por causa de uma coisa: Hoje há muita falta de moradias e nestes bairros ainda se conseguem encontrar algumas. Fora de Lisboa saem caríssimas, porque ainda temos de pagar transportes e outras coisas mais.
Participou na eleição da comissão de moradores?
No dia em que chamaram, que remédio, porque eu necessito também de uma morada, porque eu estou num quarto, a pagar 900 escudos.
João Cidade Rebelo, ajudante de motorista, 31 anos:
Eu, por acaso, não pertenço. Estão a organizar uma comissão de moradores lá no bairro onde eu moro, em Xabregas. Vejo utilidade nisso, porque há muitos assuntos a tratar, como por exemplo, comissões de obras. Pertenço a um grupo desportivo. Estamos neste momento a arranjar uma sede, e já fomos subsidiados pela comissão administrativa da junta. Vamos fazer uma sedezinha, para ajudar as crianças, com um ginasiozinho lá dentro. A comissão de moradores deve ter plenos poderes para organizar tudo o que seja preciso nos bairros e nos fogos.
Vítor Manuel Rodrigues, vendedor, 36 anos:
Moro em Odivelas, mas não pertenço à comissão de moradores. Há lá comissão, só é pena, quando foi das eleições... Houve lá um plenário, com 60 e tal indivíduos... quer dizer, há pouca assistência. Numa população de 100 mil habitantes, é pena que a comissão não faça os possíveis para levar mais gente. O plenário que eu vi com mais assistência devia ter aí à volta de 150 habitantes. Quanto a mim. Acho que isso não é nada, nem se pode de maneira nenhuma eleger uma comissão de moradores assim. O mal é as tais cúpulas de partidos...
Acho que essas comissões são necessárias, e até digo mais: deviam ser constituídas só por moradores e não por proprietários de andares e prédios. Por exemplo, em Odivelas há indivíduos que são proprietários, e isso a nós não nos interessa.
(...), empregado da construção civil, 38 anos:
Moro na Damaia. Se há comissão de moradores, não conheço. Olhe, saio de manhã e venho à noite, pró meu trabalho, ganhar o meu, prós meus filhos.
Mas já ouviu falar numa comissão de moradores...
Não senhor.
Mas um grupo de pessoas que lá no bairro queira resolver os problemas principais...
Ninguém me tratou mal, também não tratei mal a ninguém. Saio de manhã e entro à noite...
 
Ou os jornalistas do Diário de Lisboa tiveram muito azar ou não se esforçaram o suficiente até encontrar alguém que pertencente a uma das centenas de comissões de moradores ou então era o engajamento do povo trabalhador na revolução que deixava mais a desejar do que aquilo que a propaganda deixava entender: nenhum dos entrevistados fazia parte de uma comissão de moradores, o mais próximo do empenho social era o cidadão que estava mais interessado no seu clubezinho, com a sedezinha e o ginasiozinho... Isso não era razão para que os baladeiros - abaixo é Luís Cìlia - cantassem aquilo que era mais sonho deles que realidade...

A VERDADEIRA OPINIÃO POPULAR (1) - «Atribui algum significado à realização de um Congresso da Oposição Democrática?»

A 16 de Dezembro de 1972, o Diário de Lisboa foi para as ruas de Aveiro questionar os aveirenses sobre o III Congresso da Oposição Democrática que iria ter lugar naquela cidade no próximo mês de Abril (de 1973). O texto abaixo é o conteúdo do artigo relatando o resultado das entrevistas.
 
Aveiro, cidade onde decorrerá o I (sic) Congresso da Oposição Democrática, está a viver o acontecimento de maneira especial. Não só porque os anteriores Congressos também decorreram em Aveiro, como, também, porque durante as reuniões preparatórias se deslocam aquela cidade muitas personalidades cuja presença tem sido naturalmente motivo de conversa. Daí a nossa pergunta feita a pessoas que encontrámos, ao acaso, na rua «Atribui algum significado à realização de um Congresso da Oposição Democrática?»
 
Acho que é uma coisa boa, afirma Carlos Peixinho profissional de seguros. Penso que o Congresso pode ajudar a encontrar novas soluções para os problemas porque, quanto a mim, é preciso remodelar o modo de vida que a gente leva. É da discussão que nasce a luz e eu sempre acreditei nos resultados positivos da discussão.
Um Congresso desta natureza representa sempre uma melhoria para o País, responde Acácio dos Santos Pires, fiel de armazém.
Uma vez que se aproximam as eleições o Congresso justifica-se, segundo a dr.ª Maria Albuquerque, professora liceal. Todas as opiniões devem ser escutadas quando se trata de resolver os problemas que a todos interessam.
Eu estou muito fora da política, diz Maria Manuela Silva, dactilógrafa. Sinceramente não sei o que hei-de responder. Não sei porque não sei mas, de facto, não me interessa responder.
Não atribuo qualquer significado à realização do Congresso da Oposição Democrática, afirma António Manuel Algés, estudante do ensino técnico.
Desde que seja para o bem do País, acho bem, responde Manuel, empregado de estação de serviço.
Dou grande importância à realização de um Congresso da Oposição Democrática, até porque não é usual que a Oposição se possa reunir a nível nacional, é a opinião de Carlos Marques, profissional de futebol.
Acho tudo isto um pouco teatral, afirma Maria Helena Branco Lopes, decoradora. Este Congresso e os que os outros realizam. Sou apolítica. Há anos que me deixei disso. Cheguei à conclusão que nada está certo.
Não atribuo significado especial mas, se não for para mal, até acho bem. É a opinião do capitão Ferreira da Silva, armador de barcos.
O Congresso poderá ter um significado extraordinário, segundo o eng.º Carlos Henrique, industrial. Não estamos habituados a reuniões deste género que deviam ser organizadas com muito mais frequência.
Finalmente conversámos com um grupo de três jovens: Maria do Amparo Picado, empregada de escritório; Maria da Conceição Santos, empregada de escritório; e Virgínia Maria Santos, estudante liceal. Eis as opiniões que manifestaram:
M.A. – Acho que é bastante interessante.
M.C. – A malta jovem também participa? Acho que devíamos estar representados. A nossa opinião é muito importante.
V.M.S. – Mais que a dos mais velhos.
M.A. – Pena é que não ponham a idade de votar aos 18 anos. Assim aumentaria a participação dos jovens.
 
Entre truísmos, trivialidades, algum desinteresse confesso mas também algum entusiasmo, embora pouco substanciado, esta amostra sociológica do que pensaria o português típico do antes do 25 de Abril da disputa política, desmentem o retrato mítico que actualmente se pretende fazer da Oposição ao Estado Novo: tratava-se de uma elite restrita e distanciada do português comum.

A GRÉCIA CONTINUA A EXISTIR...

A Grécia continua a existir e continua em crise. E o descontentamento dos gregos também. Ontem foram publicados os resultados de uma sondagem que colocam a Nova Democracia 16% à frente do Syriza. Nove em dez gregos estão insatisfeitos com o desempenho do governo grego. Pelos vistos, continua tudo como dantes lá pela Grécia, o que terá mudado foi a cobertura que se dá aos problemas gregos aqui em Portugal. Quem for ler o histórico das notícias sobre a Grécia de um jornal da corda como o Observador apercebe-se como terá havido uma intenção deliberada de assustar os leitores com as consequências do caminho trilhado pelos gregos, mas só até há cerca um ano atrás. Nessa época, todas as vicissitudes do governo do Syriza, fossem elas internas ou europeias, mereciam destaque reforçado e um enfoque o mais pessimista possível. Significativamente, a 15 de Novembro de 2015, o governo do PSD/CDS preparava-se para ser chumbado aqui no parlamento português e ainda se publicava naquele jornal um artigo com um título como: «Grécia. Qual está a ser o preço da "aventura"?»... Depois, instalou-se por cá a geringonça e ter-se-á perdido a utilidade de invocar o (mau) exemplo grego. O mal já estaria feito e deixava de ter interesse falar mais do assunto. Progressivamente, a Grécia e as desventuras do governo do Syriza foram desaparecendo do radar de notoriedades do Observador. Tanto assim que, quando escrevo, o jornal ainda não noticiou sequer - nem tenho a certeza que o venha a fazer - esta última sondagem que dá o Syriza com metade das intenções de voto da Nova Democracia. Pelos vistos, agora já não valerá a pena. Emblemático daquilo que acabei de descrever: ao longo de 2015 José Manuel Fernandes dedicou doze das suas crónicas à situação na Grécia (abaixo); 2016 aproxima-se do fim e este ano o número de crónicas de José Manuel Fernandes tendo por tema a Grécia tende para zero. O que mudou na Grécia nestes dois anos? E o que mudou em Portugal?...

02 dezembro 2016

LISBOA, AVENIDA DA LIBERDADE, NOVEMBRO DE 1942

Os livros de História assinalam que no mês de Novembro de 1942 os exércitos soviéticos executaram com sucesso a Operação Úrano, de que resultou o cerco das unidades do exército alemão que estavam engajadas na conquista de Estalinegrado. Mais perto de nós mas também ainda no quadro da Segunda Guerra Mundial, os mesmos exércitos alemães, executando por sua vez a Operação Anton, haviam ocupado militarmente a parcela da França que ainda se mantivera até aí autonomamente administrada pelo regime de Vichy. É com a consciência deste contrastes das sortes da guerra que se adiciona mais este contraste, o propiciado por esta fotografia, que apetece qualificar de bucólica (um bucolismo urbano), de uma Lisboa que, a uma primeira vista, se apresenta distante das convulsões que dilaceram a Europa. O distanciamento talvez, as consequências nem tanto. Estamos a ver uma das artérias mais concorridas da capital e não se vê um único automóvel em circulação - consequência mais do que provável do racionamento de combustível. E, quem for mesmo curioso, há de reparar que o filme em exibição no cinema Tivoli se intitula O Ídolo, com Gary Cooper, a história de Lou Gehrig, astro do beisebol, modalidade que por cá não tinha (nem nunca virá a ter) popularidade alguma. Portugal vivia sob uma prudente neutralidade. Aquilo que acabara de acontecer à França de Vichy era mais um reforço no sentido da precaução. Mas uma vistoria pelos filmes em cartaz em Lisboa (hoje isso seria qualificado como uma avaliação do soft power relativo das potências) desvendaria facilmente a que esfera de influência o país se submetia.

ESCREVEM LEVE, LEVEMENTE...

Os livros deste género parecem ter sido todos escritos com uma contundência equivalente àquela como a neve veio perturbar o que parecem ser os pensamentos ensimesmados de Augusto Gil. Este de João Gobern tem 228 páginas e não se aventura em raciocínios complicados - é um daqueles livros que, verdadeiramente, se pode ler num punhado de horas. Refere-se a dezenas de figuras da televisão sem que diga mal de algum deles - o que pode ser considerado uma proeza nos dias que correm. E finalmente pretende ter feito a narrativa do que foram quase 35 anos de emissões da RTP (1957-1991) socorrendo-se só da memória - já que no fim não apresenta nem bibliografia nem índice remissivo (o que me faz lembrar aqueles best-sellers de Paula Bobone...).

Contudo, tendo-o lido levemente, assim como imagino que tenha sido escrito, não pude deixar de me questionar sobre o rigor de uma ou outra passagem do livro. Ainda recentemente, quiçá com outra exigência por o autor ser um académico e por ser brasileiro, vi uma biografia sobre Marcelo Caetano ser destroçada pela falta de rigor. Ora, até para não mudar de assunto, falemos então da entrada que João Gobern dedica no seu livro ao antigo presidente do Conselho (p.206): «A 19 de Fevereiro de 1969, estreavam-se as Conversas em Família,...» Ora acontece que, como se comprova em Salazar, Caetano e a Televisão Portuguesa de Francisco Rui Cádima a primeira Conversa em Família na RTP teve lugar a 8 de Janeiro de 1969; e antes da data mencionada por Gobern já havia tido lugar uma segunda conversa, em 10 de Fevereiro (pp. 212 e ss.). E para que a asneira seja completa, a 19 de Fevereiro não houve conversa alguma...

Confesso que o que mais me intriga não é João Gobern ter falhado as datas certas; é saber onde é que ele foi desencantar aquela data errada. Podia ao menos ter consultado os jornais da época: a edição do Diário de Lisboa de 8 de Janeiro de 1969 anunciava a ida de Marcelo Caetano à televisão nessa noite (às 22H00) logo em primeira página! Felizmente para ele o livro é parco em factos verificáveis. Associo João Gobern aos meandros das corporação dos comentadores futebolísticos, que, reconheça-se, é um dos grandes empregadores da comunicação social, mas onde o grau de exigência gera esta cultura de negligência medíocre - aliás, costumam ser as excepções com mais qualidade a ser as mais marginalizadas. Se em campo (jogadores) e a pisar a relva (treinadores), Portugal até é campeão europeu da modalidade e pode orgulhar-se disso, à volta do campo o problema dos que por lá pululam (entre dirigentes e jornalistas/comentadores) é tanto de quantidade (que ele há muitos) quanto de qualidade (são muitos e normalmente muito maus).

01 dezembro 2016

SOVIETO-KITSCH

No final deste mês de Dezembro de 2016 comemorar-se-ão as Bodas de Prata do desaparecimento da União Soviética. Mas há tendência para esquecer como a União Soviética ao tempo em que desapareceu já era muito diferente da canónica, daquela superpotência que por décadas dera gosto a Álvaro Cunhal apresentar em Portugal como O Sol na Terra. A União Soviética que resultara das iniciativas permitidas pela Perestroika tornara-se um embaraço, com as massas proletárias a darem expressão a um gosto kitsch que, imagine-se, até parecia copiado das suas congéneres ocidentais! Quase 75 anos de dogma da superioridade do socialismo esvaziavam-se perante esta oportunidade da expressão do gosto popular!... O Igor e a Natasha (no disco acima) eram uma dupla artística desses novos tempos, formada por Igor Nikolaev e Natasha Koroleva, cantava Del'fin i rusalka, uma canção de construção simples onde até a própria barreira linguística não nos impede de perceber o quanto as múltiplas invocações marítimas são por demais idealizadas e estilizadas. Mais do que os proletários, os foleiros de todo o Mundo é que pareciam estar unidos e sem necessidade de exortações para o fazerem...

OS BOMBISTAS E OS OUTROS

«Numa noite de pavor, a explosão de duas bombas provocou em Dublin a morte de duas pessoas, ficando feridas cerca de duzentas. Os atentados ocorreram no centro da cidade quando o Dail (o parlamento) se preparava para votar as propostas governamentais visando o Exército Republicano Irlandês (IRA). As notícias do derramamento de sangue, do pânico e terror, modificaram a atitude do principal partido da oposição que deixou de contrariar a legislação proposta pelo Governo de Jack Lynch. O resultado da votação na Câmara de 144 lugares foi de 70 votos a favor e de 23 contra. A nova legislação determina que um suspeito de pertencer a organizações clandestinas tenha de provar em tribunal que as suspeitas são infundadas, em vez de ser o Ministério Público obrigado a provar a culpabilidade dos réus. Entretanto, tanto o IRA Provisório como o Sinn Fein afirmaram que nada tinham a ver com os atentados, atribuindo-os a agentes secretos ingleses

Foi há precisamente 44 anos. Por aquela vez, aqueles que eram tradicionalmente descritos como os terroristas - o IRA e o Sinn Féin - estavam a dizer a verdade. A razão para que os serviços secretos britânicos estivessem por detrás da colocação daquelas bombas estava à vista de todos. Tanto assim que até uma pequena peça jornalística como a que acima se transcreve a explícita: condicionar o voto dos TDs do parlamento irlandês na aprovação de legislação que tornaria mais difícil a vida aos seus adversários. Estes foram, aliás, prestabilíssimos a auxiliar as investigações da polícia irlandesa para descobrir quem perpetrara os atentados. Em escassas semanas descobriu-se que os operacionais que haviam colocado os engenhos (automóveis armadilhados) eram militantes da UVF (organização lealista do Ulster). Por detrás deles adivinhava-se a assessoria dos serviços secretos britânicos, muito mais difícil de provar que são assim as operações clandestinas bem montadas... Além do impacto político e noticioso primário, Londres passara um recado discreto a Dublin: o IRA não podia operar na, e a partir da, Irlanda (do Sul) com a liberdade que o governo irlandês lhe havia concedido até aí. Senão a tensão alastrar-se-ia... Os profissionais tomaram nota daquele recado. As actividades do IRA perderam a indulgência (ostensiva) de Dublin. A opinião pública irlandesa, contudo,teve que esperar 32 anos, até à publicação do Relatório Barron em Novembro de 2004, para que houvesse um reconhecimento oficial da parte irlandesa quanto ao jogo sujo que os britânicos haviam praticado. Nessa época (2004) a noite de pavor em Dublin já era uma recordação antiga e o Sinn Féin uma respeitável formação política legal em qualquer das duas irlandas.

30 novembro 2016

A FALTA DA OPINIÃO DO NOSSO ESPECIALISTA EM GREVES DE PILOTOS

Conforme notícia esta quarta-feira o insuspeito Observador a greve dos pilotos da Lufthansa arrasta-se. É uma situação recorrente: já há um ano tinha havido outra greve, e as notícias respeitantes ao braço de ferro entre os sindicatos e a administração da transportadora aérea alemã já se contradizem entre a duração do conflito (dois anos, dois anos e meio?) e o número de greves já realizadas (15? 18?) e por quem (pilotos? pessoal de cabine?). O que me parece evidente é que, não se desse o caso da companhia ser alemã, e ouviríamos imensas vozes a clamar que tantas greves eram um escândalo. Não há disso nos países desenvolvidos. Para essas vozes a greve, qualquer greve, costuma ser um escândalo. Só depois é que há espaço para explicar porquê. E é por isso que é nestas alturas que se torna importante que órgãos de comunicação social responsáveis (como o Observador e outros) ouçam os especialistas nestes assuntos de greves inoportunas como será o caso, por exemplo, do ex-ministro Pires de Lima - conhecido por ter opiniões muito firmes quando de uma greve idêntica ocorrida na TAP (veja-se abaixo). Ir ouvi-lo, mesmo que o especialista não queira, neste caso, dizer nada. Muitas vezes é tão notícia o que o especialista quer dizer como aquilo que ele não quer dizer. Inquira-se e sobretudo publicite-se o resultado da inquirição. Para que não fiquemos com a impressão que a comunicação social é subserviente não apenas ao conteúdo mas também à oportunidade das notícias. Sei lá: mostrarem ter por objectivo informar o leitor...

UMA ANALOGIA SOBRE A BELEZA JUDAICA (do tempo em que não era politicamente incorrecto referi-la assim)

Maigret, que olhou maquinalmente para os tornozelos de Anna Gorskine, reparou que ela sofria, como a mãe receara, de hidropisia. 
Os seus cabelos ralos, que deixavam ver o couro cabeludo, estavam desgrenhados. O seu vestido preto estava sujo.
Para rematar, uma penugem mais do que evidente sombreava o seu lábio superior.
Mas, mesmo assim, era bonita, de uma beleza vulgar, animal. Com as pupilas cravadas no comissário, a boca mostrando desdém, o corpo vagamente encolhido, ou talvez enroscado pelo instinto do perigo, perguntou implicativa:
« Se sabe isso tudo, para que serve fazer-me essas perguntas?...»

Esta passagem é de Pietr-o-Letão, um dos primeiros romances de Georges Simenon, escrito por volta de 1930. Anna Gorskine é uma das personagens secundárias desse livro, uma jovem judia de Vilnius (então polaca, hoje lituana) que tinha vindo estudar para Paris e que entretanto se perdera. A cena decorre numa cela, a simpatia de Maigret por Anna Gorskine é evidente para o leitor, embora o trecho acima se venha a concluir com um episódio de uma exuberante histeria nervosa curado com o conteúdo de uma bilha de água que Maigret lhe atira à cara. Em compensação, à saída e discretamente, Maigret deixa a indicação para que as suas refeições viessem do restaurante da frente, uma mordomia rara para um detido...
Sabe-se muito mais de Anna Gorskine do que de Monica Lewinsky. É curioso como algumas páginas de um romance podem ser mais reveladoras de uma personalidade do que centenas delas de meses de acompanhamento de um escândalo. A bem dizer e para subsistir, o escândalo de Bill Clinton com a estagiária, nem precisava de personagens, apenas de uma história e das fotografias dos protagonistas, que o resto adivinhava-se. O padrão de beleza da estagiária não era o convencional, de WASP. Mas o que justifica esta minha associação é a descrição física acima de Anna Gorskine, mais pincelada que desenhada, mais sugerida que relatada por Simenon, e de como ela se assemelha a Monica, sobretudo quando os anos passam e pesam (abaixo). Vale a pena acrescentar que o escritor belga sabia desenhar os seus tipos físicos: os antepassados de Monica são também judeus e também originários daquelas mesmas paragens centro e leste europeias.

29 novembro 2016

«O CAFÉ» (1973)


«O Café» (1973) é uma canção da autoria de Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos, mas onde se desconfia ter havido toque de orquestração de José Calvário. É esta última que acaba por conferir à canção uma sonoridade de época. É a sonoridade típica dos primeiros anos da década de 1970, transmitindo um dinamismo optimista (a economia crescia então a um ritmo de 10% ao ano), uma sensação que era para ser neutralizada se atentássemos ao conteúdo da letra, na sua mordacidade e na descrição dos vários tipos sociais, muito semelhante no formato, aliás, à muito mais conhecida Tourada dos mesmos dois autores, que viria a ganhar o Festival da Canção da RTP desse mesmo ano de 1973. Há quem diga que a inspiração de Ary dos Santos terá sido a frequência de então da pastelaria Vavá. Talvez. De qualquer modo, não são apenas as descrições dos tipos sociais que estão datadas, alguns dos coloquialismos de que o letrista se socorre hoje praticamente desapareceram (penante, fava-rica, pescado do alto). Mas a canção possui a virtude de, na sua ligeireza despretensiosa, mostrar como em 1973 não se fazia a mínima ideia daquilo que estava para acontecer, quer nas economias do Mundo Ocidental, com a recessão do choque petrolífero, quer na política em Portugal, com as transformações radicais do 25 de Abril. Chamar a esta uma música de intervenção, como por aí vi escrito, nem chega a ser um disparate. As presciências só vieram depois, e têm-se tornado cada vez mais prescientes há medida que os anos passam.

Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente.

E SE, A MEIO DE UMA VIAGEM, O PRESIDENTE DESAPARECESSE SEM QUE SE DESSE POR ISSO?

A pergunta pode parecer impertinente, com uma sugestão de troça, mas foi precisamente isso que há 96 anos aconteceu com o Presidente de França, Paul Deschanel (1855-1922). Ele havia apanhado um comboio para se deslocar ao Loire durante a noite de 23 para 24 de Maio de 1920, quando terá caído da composição quando ela felizmente se deslocava a pouca velocidade por causa dos trabalhos na via. Foi até um trabalhador encarregado de vigiar a obra a encontrá-lo, de camisa de noite, descalço e com a cara ensanguentada, reclamando ser o presidente da República! Outros tempos, outros costumes, a figura do presidente ainda não era conhecida do grande público (tomara posse há apenas três meses) e o empregado dos caminhos de ferro (cheminot) acompanhou-o desconfiado até à casa do encarregado da passagem de nível mais próxima onde, por volta da meia noite, foi tratado e albergado pela mulher deste. Mas foi só pelas 5 da manhã que o Prefeito da vila mais próxima (Montargis) foi alertado para o incidente. A descoberta do paradeiro do Presidente acabou quase por coincidir com a descoberta do seu desaparecimento quando o comboio chegou ao destino, pelas 7 horas da manhã.
O que acontecera a Paul Deschanel era impossível de abafar e a explicação oficial para descrever o que lhe acontecera também roçava o inverosímil: o Presidente tomara uns comprimidos para dormir que o haviam entontecido e que, quando procurara abrir uma janela para apanhar ar fresco, o haviam feito cair do comboio. Era o melhor que se podia arranjar para preservar a reputação presidencial... mas era claramente insuficiente. Os comboios não costumam ir largando passageiros pelos taludes da forma tão acidental como a da explicação. E o que já era complicado de explicar com um passageiro normal tornava-se mais difícil quando se tratava de um Presidente da República, por muito ensonado que estivesse. Os circuitos formais de formação da opinião pública podiam ser controlados (veja-se, a propósito, o tom positivo, quase casual, dado pelos cabeçalhos do Le Petit Journal do dia seguinte), mas os circuitos informais não: houve cançonetas, anedotas, caricaturas. Sussurravam-se histórias mirabolantes sobre a saúde mental do presidente. Em Setembro de 1920, sete meses depois de tomar posse, Paul Deschanel demitiu-se, pondo termo a uma situação insuportável.
Uma dúzia de anos depois, o escritor belga Georges Simenon incorporou o episódio num dos seus romances policiais protagonizados pelo Comissário Maigret: Le Fou de Bergerac. Naquele que eu considero um dos mais absurdos plot holes da sua obra, Simenon põe o seu Comissário, com uma reputação construída de fleuma e circunspecção, a saltar inexplicavelmente de um comboio atrás de um passageiro sem razão aparente. Até aí ele apenas lhe fizera uma companhia desassossegada num dos beliches da segunda classe...

28 novembro 2016

NINGUÉM ESCAPA AO CHUCK NORRIS!


AINDA AS REGRAS DE PONTUAÇÃO DO TÉNIS

Aqui há coisa de um par de semanas deixei aqui um texto comparando o sistema eleitoral associado à eleição do presidente dos Estados Unidos às regras do sistema de pontuação de jogos como o ténis ou o voleibol. Foi uma associação feita de forma ligeira, não era assunto que pudesse interessar o qualificado naipe de politólogos - e ofícios correlacionados - que existem cá na praça. Contudo, nem de propósito, a The Economist veio agora recuperar o assunto da pontuação do ténis (acima) - mas sem sombra de se vislumbrar em qualquer parágrafo do artigo uma referência que seja ao nome de Donald Trump. Pena. A conclusão é, apesar disso e só por si, extremamente interessante: se o alterarem, ao sistema de pontuação em vigor, perder-se-á muito da emoção do jogo. E talvez seja esse o segredo do que se procura nas eleições presidenciais norte-americanas: emoção até ao fim. Não são os americanos que, no basquetebol, realizam finais com 5, 6 e 7 jogos (em vez de um)? Não são os americanos que, a meio de uma corrida de automóveis mandam entrar rotineiramente o pace-car para reduzir o avanço dos carros mais rápidos? Também as eleições por lá podem não nos parecer justas, agora aborrecidas é que nunca!

27 novembro 2016

COMO É QUE SE FAZ?...

...ignora-se olimpicamente tudo o que foi prognosticado na própria semana anterior. Haverá quem escrutine o que se diz? E é importante que o que se diz seja fiável? Há cerca de dez anos este mesmo fenómeno de falhar as previsões era considerado uma idiossincrasia de Marcelo Rebelo de Sousa, o objecto de troça dos Gato Fedorento, e vejam: onde é que ele está agora? Ele, Marcelo, claro. Ricardo Araújo Pereira continua nos mesmos sítios de sempre, porque prossegue outra carreira.

«THE SURPRISINGLY EASY WAY TO GET RID OF DONALD TRUMP»


Excepcionalmente por esta vez, este poste circunscreve-se àqueles que compreendam o inglês com fluência. O senhor do vídeo acima chama-se Keith Olbermann, é um comentador televisivo norte-americano e está a explicar como é fácil gerar uma conspiração que venha a substituir o presidente Donald Trump pelo seu vice-presidente Mike Pence. Mas também como é fácil ao presidente deposto gerar uma outra conspiração para regressar ao poder, depondo o vice-presidente recém-empossado. E a coisa não acaba aí... Para quem pense o quanto Olbermann está a ser imaginativo, permitam-me evocar o enredo de Crimson Tide, um filme de guerra de 1995, protagonizado por Gene Hackman e Denzel Washington (abaixo) e cujo enredo segue canonicamente as vicissitudes da descrição acima. Quem se lembrar do filme, recordar-se-á que a acção decorre num submarino nuclear equipado de misseis balísticos com ogivas atómicas e a divergência prende-se com a atitude a tomar com uma ordem de lançamento desses mísseis que acabou interrompida. Comandante (Hackman) e imediato (Washington) disputam o controle do navio a golpes de força. Neste novo enredo pós-moderno de Olbermann, a bagunça seria já na própria Casa Branca, o sítio de origem das ordens para empregar os tais mísseis... e todo o restante armamento nuclear dos Estados Unidos. Verdade que a delicadeza do tema e da função nunca impediu que na filmografia norte-americana houvesse centenas de enredos envolvendo a Casa Branca, já assisti, com Harrison Ford, a cenas de pancadaria na sala oval como se ela mais não fosse do que um saloon de formato esquisito, mas reconheça-se que a sua ocupação a sério por Donald Trump abriu um novo espaço à imaginação dos argumentistas.

SOBERANIA NACIONAL, DEMOCRACIA E INTEGRAÇÃO ECONÓMICA MUNDIAL

A formulação do problema é conhecido, parece simples e tem sido apresentado teoricamente das mais diversas formas. Há um conflito inerente entre a coexistência e a manutenção a) do figurino actual dos estados-nação, b) dos regimes democráticos (quando existem...) nesses estados e c) da sustentabilidade de um modelo económico globalizado, de circulação livre de capitais, pessoas e bens. Esta é a doutrina, mas como há uma dificuldade intrínseca em compreendê-la e discuti-la nesse estado mais rebuscado, é mais frequente que as conversas versem as suas expressões mais prosaicas e concretas. Por exemplo, o problema dos refugiados e da imigração para os países ricos; o problema dos resultados eleitorais se tornarem cada vez mais inesperados e/ou das grandes decisões políticas não serem validadas por consultas populares; ou ainda, o problema das intromissões políticas na soberania de estados (como o nosso), que não se tinham na conta de tão frágeis.

Sendo a formulação uma síntese, ela não explicará cabalmente as subtilezas dos desafios do mundo moderno, mas é um daqueles modelos político-económicos que, numa determinada conjuntura histórica, ajudará as pessoas a perceber aquilo que de importante está em jogo e, por consequência, a poder optar politicamente¹ com melhor conhecimento de causa. Porque, se os economistas estiverem certos e não podendo coexistir simultaneamente os estados-nação como os conhecemos, os regimes democráticos e a globalização, a grande - e verdadeira - opção para o futuro próximo é a de escolher de qual (ou quais) deles prescindiremos. Por mim, acima de tudo, prefiro preservar a democracia, que sempre nos permitirá colectivamente rectificar a evolução que quem nos dirige quiser dar à evolução da sociedade e, já agora, também o figurino dos estados nação, porque a sua existência resulta mais de uma vontade colectiva do que da nossa vontade individual - por exemplo, eu não me reconheço em Cristiano Ronaldo mas constato que ele é um símbolo nacional. E assim sendo, e como num jogo de cadeiras em que a música pára, a prescindir, prescinda-se da globalização. É uma opção que não é de esquerda nem de direita, responde ao problema tal qual foi formulado.

O problema dessa minha opção é o espectro da recessão económica, que os que a evocam associam a períodos sombrios de retracção da História Universal como se supõe tenha sido a longa transição da Antiguidade para os tempos medievais. As outras duas opções terão outros inconvenientes, mas não falemos aqui deles. Porém, quanto ao consequente da opção tomada e politicamente, creio que a prosperidade económica não pode ser um objectivo em si se não se atender à sua redistribuição. Foi o excesso de atenção dada a esta última (repartição) que veio a provocar o afundamento do comunismo por não haver produção. Mas será o excesso oposto - que é o que agora se verifica, mais acentuado que nunca - a prosperidade sem repartição (abaixo), uma das causas mais prováveis que poderá provocar a implosão daquele que foi o seu grande modelo rival do século XX. Só que o capitalismo só foi preferível ao comunismo por se ter mantido democrático - se o Ocidente prescindir da democracia, corre o risco de caminhar para uma sociedade como a da China.
¹ O modelo que dividia a economia em sectores (primário, secundário, terciário) é hoje arcaico, com uma agricultura a produzir industrialmente, a indústria que dependa da inclusão de mão-de-obra a ser transferida para o exterior e a esmagadora maioria da mão de obra a não ter qualquer mão na obra, a pertencer ao sector terciário dos serviços.

«WHATABOUTISMO»

Por esta minha experiência, enganam-se os que asseguram que nada se aprende frequentando as redes sociais. A morte recente de Fidel Castro foi causa para que eu aprendesse que existe uma designação para uma técnica argumentativa dos simpatizantes da esquerda não democrática com que há muito e por muitas vezes me confrontei. A habilidade designa-se (em inglês) por whataboutism que eu tomei a liberdade de aportuguesar para whataboutismo. Evidentemente é uma falácia, mas funciona assim: quando se endereçam críticas a quaisquer aspectos críticos do comunismo (e Fidel Castro tornou-se um desses aspectos...) não se faz qualquer esforço em refutar essas críticas, e passa-se directamente para a contracrítica realçando um aspecto considerado negativo das sociedades ocidentais. Daí a designação: ...e então...? É assim que é perfeitamente normal discutirmos com uma dessas pessoas o percurso controverso de Pinochet sem que, por uma vez que seja, haja uma menção a Fidel, mas é impossível que aconteça o contrário: se o tema for a controvérsia à volta de Fidel, há a certeza que aparecerá uma invocação a Pinochet (ou então a Salazar, ou a Franco, ou...). Com comunistas, é possível criticar infindavelmente Pinochet sem falar de Fidel, mas é impossível criticar Fidel sem que Pinochet seja rapidamente convocado para a conversa. É também possível falar com eles dos campos de concentração alemães por horas a fio sem que se fale do Gulag, mas não há conversa a respeito do Gulag que se sustente por mais de um minuto sem que eles não venham logo falar de Auschwitz. E até depois da Queda do Muro, os fiéis dos fiéis, não resistem a meter sempre a colherada do 11 de Setembro chileno a despropósito, quando de qualquer evocação ao norte-americano. O antídoto ao whataboutismo é simples: ignorar a tentativa de desvio da conversa, voltar ao tema central como se não tivesse existido o último trecho da conversa. A minha experiência diz-me que, numa esmagadora maioria das vezes, esse tipo de reacção precipita o fim da conversa. Mas também é um momento esclarecedor: a conversa só parecia razoável e racional, na sua flexibilidade intrínseca. Conversar com um comunista destes assuntos, costuma equivaler-se à tida com uma testemunha de jeová de outros assuntos, como o da salvação eterna... Sobretudo, e a propósito das variadíssimas análises que tenho lido à vida e obra de Fidel Castro, é sempre reconfortante descobrir-se que a linha de argumentação se trata de um fenómeno cientificamente estudado.

26 novembro 2016

O CENTENÁRIO DO TORPEDEAMENTO DO SUFFREN

Há precisamente cem anos, a 26 de Novembro de 1916, o couraçado francês Suffren e o submarino alemão U-52 cruzaram-se ao largo da costa portuguesa . O primeiro dirigia-se para Norte, para o porto francês de Lorient, depois de ter estado dois anos envolvido em operações contra os turcos nos Dardanelos. O submarino alemão vinha para Sul, discretamente (como é característico, aliás, daqueles navios), juntar-se à flotilha que os alemães estavam a constituir no Mediterrâneo, no porto de Cattaro (actualmente Kotor, Montenegro), em apoio às operações navais do seu aliado Austro-Húngaro. O encontro foi acidental, desenrolou-se rapidamente e teve um desfecho trágico.
Embora muito menor, foi o submarino de 700 toneladas e 36 tripulantes que disparou os primeiros torpedos quando ambos os navios se encontravam a cerca de 90 km das costas portuguesas, quase à Latitude de Peniche, (acima). Um dos torpedos acertou precisamente num dos paióis de munições do couraçado de quase 13.000 toneladas, causando uma explosão enorme e o afundamento do navio em menos de um minuto. O submarino alega ter procedido a buscas mas não encontrou nem um dos 648 tripulantes que faziam parte da guarnição do Suffren. Ao contrário do comandante que não sabia se devia ou não afundar o Serpa Pinto, o Capitão-Tenente Hans Walther terminou a guerra como um dos ases dos submarinos.

25 novembro 2016

A TRADIÇÃO DO 25 DE NOVEMBRO

A data tornou-se, à sua maneira, tradicional. Há o lado dos vencedores que a comemoram, mais a respectiva iconografia, Ramalho Eanes e Jaime Neves - acima uma das fotografias mais usadas para as evocações. Do lado dos vencidos há os envergonhados que, pura e simplesmente, não falam da data, e há também os desavergonhados, que falam, mas como se estivessem estado do outro lado, confiando na amnésia alheia. Mas a amnésia não parece ser fenómeno exclusivo desse lado, que fotografias do PREC há muitas mais, e muitas delas equívocas, como esta que me decidi a publicar abaixo, de um mesmo Jaime Neves com um bigode e uma pera exuberantes e de aspecto muito mais revolucionário, a ser graduado como coronel, por ocasião da sua nomeação para comandar o Regimento de Comandos (Maio de 1975). Colocando os novos galões estão (à direita) o general (graduado) Carlos Fabião (então Chefe de Estado-Maior do Exército) e o general (graduado) Otelo Saraiva de Carvalho (Comandante do Copcon), que viriam a ser dois dos maiores derrotados dos acontecimentos de 25 de Novembro.

SOBRE A «ASTROLOGIA» POLÍTICA

O último caso tem escassos dias: as sondagens das eleições primárias do centro-direita francês davam Juppé e Sarkozy como favoritos para a disputa eleitoral, quando o vencedor veio a ser, folgadamente, François Fillon. Caso mais do que justificado para Ordralfabétix ameaçar arriar com um enorme robalo nas trombas das empresas de sondagens francesas, cuja corporação mundial tem tido, aliás, um ano para esquecer pela exuberância dos erros: ele foi a galga do Brexit em Junho, complementada com a vitória de Donald Trump já nos princípios do corrente mês. Como disciplina científica, a reputação das empresas de sondagens afundou-se até a um nível equivalente ao dos consultórios da Maya ou do professor Karamba. Fosse a preocupação principal a credibilidade da indústria e esta seria uma excelente ocasião para que ela fizesse uma reavaliação de processos e um período de nojo. Porém, sintoma de que a preocupação fundamental da publicitação de sondagens não será a informação dos leitores, antes a formação da opinião dos eleitores, hoje somos brindados com uma nova sondagem (veja-se abaixo). Pode ser aquilo que eles lá dizem, mas também pode ser que a ascensão do PS se deva ao facto de António Costa ser um nativo do signo câncer, com ascendente num outro signo qualquer...