26 setembro 2017

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PORTO FERREIRA?... (3)

Jaime Gama de punho erguido e camisa de manga curta, proletário em pose revolucionária, ao lado de Mário Soares e de um António Barreto (ainda sem óculos!) que, não arregaçando o punho, exibe o autocolante de um na lapela que quase é maior que a lapela. Ainda não era sequer o peixe de águas profundas e como estavam longe os tempos do Observador...

O PRIMEIRO GRANDE DEBATE PRESIDENCIAL NA TELEVISÃO


26 de Setembro de 1960. Há cinquenta e sete anos nos Estados Unidos assiste-se pela primeira vez a um debate televisionado entre os dois candidatos à eleição presidencial que viria a ter lugar em Novembro daquele ano. Emitido a partir de Chicago, perante uma audiência que as notícias do dia seguinte estimavam em 80 milhões (abaixo), enfrentaram-se o vice-presidente republicano Richard M. Nixon e o senador democrata John F. Kennedy. O novo meio audiovisual alteraria a coreografia das aparições públicas dos candidatos para sempre. Diz-se de quem seguiu o debate, que entre quem o seguiu pela rádio, a maioria se inclinou a atribuir uma vantagem a Nixon, mas que entre os que o seguiram com imagem pela televisão (que fora a maioria), a percepção é que Kennedy saíra com vantagem. Entre outros pormenores que então pareciam irrelevantes, Richard Nixon recusara maquilhar-se, o que lhe dava uma imagem pálida e adoentada nos close-ups da imagem a preto e branco no ecrã.

ARMAS PROIBIDAS: O TESTE T de STUDENT

«Vamos por partes. Cinco senhorios é uma amostra pequena e, obviamente, não é para se construir uma tese científica à sua volta. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não é assim tão negligenciável. Por exemplo, imagine-se que, de facto, o racismo está morto e que a generalidade dos senhorios, digamos que 90%, não faz qualquer discriminação. Então a probabilidade de numa amostra de 5 não encontrar mais do que 2 que tratam os telefonemas de igual forma é de apenas 0,8%. Zero vírgula oito por cento. Não dá para construir uma tese científica, mas dá para tirar algumas conclusões, não?»
 
Luís Aguiar-Conraria é, além de um marginal, um fora da lei. Para já, não se entra em polémica com opinadores que escrevem para o mesmo jornal, como ele fez há coisa de umas quatro semanas com Helena Matos e Gabriel Mithá Ribeiro no Observador. Mas o grave mesmo é que, quando se desencadeia qualquer polémica em jornais, está implícito que nunca se podem usar armas proibidas, métodos estatísticos rebuscados, como foi o caso do seu recurso a testes t de Student como o que se pode ler na passagem acima. Não sei se Helena Matos ou Gabriel Mithá Ribeiro terão tido alguma cadeira formativa de Estatística, mas a polémica jornalística tem que ser chã e nela não se pode incluir argumentos que se revistam de hermetismo para o leitor médio. Teoricamente, o leitor médio costuma dominar a matéria com tanta profundidade quanto o polemista médio e isso costuma servir de argumento dissuasório para que não se venha armado para tais discussões. E o consenso tende a funcionar: João César das Neves até poderia explicar como se calcula a elasticidade procura/preço derivando a respectiva função (procura) mas aquele brilhante economista só se distingue publicamente pela sua incessante busca dos mistérios da fé. Neste caso concreto trata-se de estatística, apenas se pode recorrer à de trazer por casa, as médias e as percentagens, medidas de dispersão como a variância ou o desvio-padrão já estão muito para além do tolerável, o equivalente ao confronto físico, e então o recurso a distribuições é uma verdadeira navalha de ponta e mola.
 
Por outro lado, corroborando que a estatística jornalística é uma subespecialização da disciplina, não respeitando necessariamente as regras matemáticas desta, descobre-se mais recentemente no mesmo jornal que, um ponto percentual de diferença nas intenções de voto de uma sondagem conseguiu ser considerado um empate no Porto e, ao mesmo tempo, uma vantagem relevante em Lisboa. Nesta última subespecialidade, é Luís Aguiar-Conraria que tem imenso a aprender com Helena Matos.

25 setembro 2017

ALICE WEIDEL, JÖRG HAIDER, PIM FORTUYN. NÃO HÁ HOMOSSEXUAIS DE EXTREMA DIREITA

Este é um daqueles postes escritos com algum contragosto, com empenho em defesa da Verdade mas sem particular simpatia por aqueles de que sai em defesa. Mas a aversão por todos os agentes que se vêem por aí a manipular impõe-se a quaisquer outras prioridades. Afinal, é isso que deve distinguir os independentes dos militantes, que estes últimos têm que tomar sempre em conta as conveniências das organizações a que pertencem. Para o que interessa, a notícia de ontem foram as eleições alemãs e a entrada de rompante da AfD para o Bundestag. Nas sequência houve, como seria curiosidade natural, um escrutínio e um falatório acerca dos dirigentes daquela nova formação parlamentar alemã de extrema direita. Tive oportunidade de assistir a uma passagem na televisão da DW (Deutsche Welle) onde apresentaram uma meia dúzia deles, todos horrorosos, desde um antigo informador da Stasi até aos restantes que disseram coisas inacreditáveis de racistas. Enfim, transmitia-se a impressão que a objectividade não seria o forte da DW. E contudo, no meio desse retrato terrífico de quem encabeça a extrema direita alemã, escapou ao retrato da liderança, que é bicéfala (acima, Alexander Gauland à esquerda e Alice Weidel ao centro), os detalhes interessantes que envolverão a parte feminina dessa liderança, Alice Weidel, 38 anos, economista, lésbica e cuja parceira é de nacionalidade suíça mas de ascendência cingalesa - escurinha portanto - sendo estes dois últimos detalhes pouco consentâneos com a imagem canónica que a comunicação social quer que se faça de uma organização de extrema direita europeia. Desde os exemplos do holandês Pim Fortuyn (1948-2002) ao do austríaco Jörg Haider (1950-2008) parece haver uma tradição arreigada de que não se pode nem se deve dar relevo ao facto das organizações de extrema direita na Europa poderem ser dirigidas por homossexuais. E a curiosidade, que pode despertar os maiores encómios dos membros da comunidade caso se trate de outras formações políticas (1) ou (2), é tratada nesse caso com a maior discrição, como se os próprios factos pudessem fundir os fusíveis de uma narrativa que se quer coerente. Como é que a dirigente de uma organização que se assume xenófoba pode conviver em casa com alguém oriundo da Ásia meridional? E como é que essa mesma pessoa pode não querer para si o direito de se casar? Estas coisas de género podem ser subtis demais, mesmo - ou sobretudo - para os próprios homossexuais...

OS LOUROS DE CÉSAR (34)

Conhecida desde sempre pelas decorações em ladrilho da época (abaixo) e incorporada à história da subsistência do cristianismo inicial sob perseguições, a prática romana da execução dos prisioneiros por animais selvagens divulgou-se ainda mais com os filmes, grandes produções históricas, do após guerra (mais abaixo, Quo Vadis? de 1951). Neste caso, Goscinny, que já fizera uma incursão nestes espectáculos colectivos da Roma imperial numa aventura precedente intitulada Astérix Gladiador (um tema sempre ingrato de parodiar), vai usar uma abordagem diferente: repare-se que o grupo de felinos largados para a arena é variada, dois tigres, dois leões, um leopardo e uma pantera...

RAZÕES SISTÉMICAS PARA A FALTA DE COMPETITIVIDADE DA ECONOMIA PORTUGUESA

Enquanto os nossos javalis não se sabem comportar devidamente nos restaurantes, os javalis lá no estrangeiro têm tão boas maneiras que há, entre eles, aqueles que até sabem preparar gins (abaixo). Esta é mais uma das razões para o nosso atraso, a falta de formação dos nossos javalis, que sabem ir à praia, mas ainda não sabem ter maneiras à mesa.

24 setembro 2017

A AGRESSÃO AO JORNALISTA NEGRO

24 de Setembro de 1957. Os acontecimentos que estão por detrás desta fotografia já foram por mim contados aqui no Herdeiro de Aécio (há nove anos, Obama acabara de ser eleito presidente). Por causa da inscrição (imposta) de nove jovens de ascendência negra no liceu de Little Rock, Arkansas, as tensões raciais estavam ao rubro na cidade. Havia polícia e soldados pelas ruas, tentando impor a calma com um empenho muito relativo. E é há precisamente 60 anos que foi tirada esta fotografia em que se vê um dos jornalistas destacados para cobrir os incidentes - um jornalista chamado L. Alex Wilson, negro, enfatize-se - a ser agredido a pontapé por um anónimo perante a passividade da multidão. A cena foi filmada, tornando ainda hoje as agressões patentemente injustificadas na sua crueldade. Era um caso clássico de agressão a um mensageiro, por causa do conteúdo das notícias. Aos agressores, a vitória no terreno custou-lhes a derrota, pois a fotografia apareceu no dia seguinte estampada na primeira página do New York Times (abaixo), foi um completo fracasso de Relações Públicas para a causa supremacista, forçando a administração Eisenhower a intervir localmente com forças militares de uma divisão de elite, abafando um caso que, afinal, era apenas de âmbito local.

«CRASH-COURSE» SOBRE AS MÚLTIPLAS EXPRESSÕES DA EXTREMA DIREITA ALEMÃ

Perante a mais do que previsível entrada em força da AfD no Bundestag (vejam-se as sondagens), e logo com um grupo parlamentar a ser formado por uns 60+ deputados, resta toda esta tarde para os indignados de logo à noite aprenderem ainda alguma coisa sobre as complexas convulsões históricas da extrema-direita alemã, antes de desatarem a crismar todos a eito de neonazis nas redes sociais. Não é só a economia, também há a cultura, estúpido!

SOBRE A CATALUNHA

A discussão sobre a Catalunha tem-se centrado - mal - nas opiniões sobre o futuro estatuto da região. Como aconteceu há três anos com a Escócia, isso será uma opinião e uma decisão que competirão a quem lá viva e a quem mantenha ligações com a região. O nosso palpite a respeito do que deva ser o futuro da Catalunha, por muito que gostemos de dar opiniões, é supérfluo e só serve para iludir o verdadeiro problema da situação actual, que é outro. O argumento fundamental em Madrid para se opor à realização do referendo é que ele é ilegal. E, enquanto se assistem às peripécias para impedir a sua realização e se radicalizam posições, anda tudo distraído sem se lembrar de levantar a questão razoável: o que é que se pode fazer para organizar um referendo legal? O problema é que suspeito que, para Madrid, não há referendos legais desde que a pergunta contemple a hipótese da Catalunha se torne independente. Ou seja, Democracia sim, mas isso é que não. Não fosse essa contradição oculta e força é constatar que o governo de Madrid já poderia ter facilmente desarmado a iniciativa de Barcelona, apresentando uma contraproposta de uma consulta popular em moldes mais conformes e moderados. Não tendo acontecido nada disso, perante este crescendo de força, não tenho dúvidas para onde pendem as minhas simpatias neste conflito, embora, repito, não tenha qualquer opinião sobre o que deva ser o destino futuro da Catalunha. Para decidir isso, que o façam os catalães. Mas, tendo os acontecimentos escalado até aqui, tem que haver referendo. É um exemplo que vem de outras países democráticos. Houve-o na Escócia, houve-o no Québec. É uma questão de princípio, é aquela coisa chamada Democracia, mas aplicada na prática. O que Madrid tem que deixar é que a vontade popular se exprima. O resto é só conversa.

23 setembro 2017

A INCÓGNITA DA RESPOSTA, A EXCITAÇÃO DA ESPERA

22 de Setembro de 1979. A edição desse dia do Diário de Lisboa trazia para destaque da sua primeira página uma proposta apresentada pelo PCP à sua organização satélite, o MDP, para que os dois se apresentassem conjuntamente ás próximas eleições legislativas, marcadas para princípios de Dezembro. Cinco anos depois do 25 de Abril, aquela que fora a formação de fachada dos comunistas durante o Estado Novo, o MDP/CDE, já se dera a mostrar em toda a sua submissão ao que fossem os interesses do PCP. Alguns militantes deste último (figuras de segunda linha como Vítor Dias), que haviam militado no, como controleiros do, MDP/CDE (numa espécie de comissão de serviço), já haviam regressado à sua base natural. Que o MDP/CDE não possuía autonomia política alguma tornara-se em 1979 num segredo de polichinelo. E, contudo, persistia-se como se percebe por esta manobra de promoção política a que o Diário de Lisboa (jornal da cor) se prestara. Na verdade, naquele amanhã que é proposto pelo título do jornal, de que hoje se completam precisamente 38 anos, não abundariam corações palpitantes, angustiados em adivinhar qual o sentido da resposta do MDP/CDE. Este(s) não tinha(m) opinião.

«A PRIMEIRA REPORTAGEM RADIOFÓNICA»

Ainda a propósito do combate da «Longa Contagem» de há 90 anos e dos anos esplendorosos do boxe nos Estados Unidos, durante os Anos 20, aproveite-se para contar como aconteceu a primeira reportagem radiofónica, tendo precisamente como pretexto um desses combates do século, que o século, ingrato, rapidamente veio a esquecer...
Note-se esta aparição do futuro presidente Franklin D. Roosevelt na história. Ao vê-lo afastar-se caminhando normalmente o argumentista (Lux) está a ser rigoroso: a doença que o deixou paralisado da cintura para baixo só o veio a atacar no Verão de 1921, já depois do combate ter tido lugar. Em contrapartida, é provável que ele fosse mais conhecido por ter sido o candidato à vice-presidência que perdera as eleições do ano anterior do que por ter sido um antigo sub-secretário da Marinha.
E um pequeno vídeo com algumas imagens de mais este outro combate do século opondo Dempsey e Carpentier em 2 de Julho de 1921. Note-se que tanto os comentários como o som ambiente do filme são apócrifos, a combinação da imagem com o som só se tornará comum no final daquela década.

22 setembro 2017

«SOU ESPIÃO»

É difícil explicar aos mais novos a revolução que o acesso aos meios audiovisuais tomou nos últimos anos. Aquilo que há precisamente 50 anos - 22 de Setembro de 1967, também uma sexta-feira - seria um dos pilares da programação televisiva desse serão - um episódio da série televisiva «Sou Espião» (I Spy) com Robert Culp e Bill Cosby - está hoje perfeitamente disponível para ser visto quando nos apetecer no You Tube. O que também já se tornou patente é que o acesso a muito mais informação não nos tornou correspondentemente muito mais sábios e informados...

MILAGRES DO "JORNALISMO" (INGLÊS!) (Com Adenda)

Eu nem consigo imaginar aquilo que terá custado ao The Economist ter escolhido esta capa para a edição desta semana. Considerando aquilo que de tão mal diziam de Corbyn lá pela revista ainda há um ano (como isto ou isto) a escolha fica como uma admissão. Ou então fica registado como um milagre político. Agora só fica a faltar outro, mas cá em Portugal, quando o Observador publicar uma notícia em destaque onde não diga mal de Costa... ADENDA: Afinal a edição posta à venda em Portugal tem uma outra capa, completamente diferente (abaixo) - isto quase parece um golpe à José Manuel Fernandes...

AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS...

...neste caso, será mais os ministros e os défices registados. Mantenho a tradição de aqui os registar de dois em dois anos e, sobretudo, registá-los a meio do ano, para que se tenha uma melhor perspectiva do que foram as heranças directamente legadas por Teixeira dos Santos... e por Vítor Gaspar. E eu que não dava nada por Mário Centeno... Neste blogue erra-se.

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PORTO FERREIRA?... (2)

Foi você que escreveu um Guião da Reforma do Estado? Regressado assim tão clássico, até parece que não...

O COMBATE DA «LONGA CONTAGEM»

22 de Setembro de 1927. Há precisamente noventa anos tinha lugar em Chicago um combate de boxe em que se disputava o título mundial. 105.000 pessoas assistiram ao combate e vários milhões tê-lo-ão seguido em transmissão radiofónica, quando a rádio era então uma novidade (a BBC britânica aparecera naquele ano, a Emissora Nacional portuguesa só virá a ser criada em 1935). No ringue defrontaram-se Gene Tunney e Jack Dempsey que embolsaram prémios de participação superiores a um milhão de dólares - somas colossais naquela época. E o combate ficou recordado pelo incidente ao sétimo assalto, quando Tunney, que fora derrubado por Dempsey, pôde beneficiar de uma contagem de protecção que, por uma questão de rigor técnico, se prolongou por mais tempo do que os dez segundos convencionados (abaixo). A questão tornou-se tanto mais relevante quando foi o próprio Gene Tunney que veio a ser considerado o vencedor do combate pelo júri. Dempsey contestou, como se pode ler acima no cabeçalho do New York Times do dia seguinte, mas sem qualquer efeito. Sobretudo, o que demonstra a irrelevância de todo este episódio para as memórias dos europeus, é o fosso cultural que então existia entre o Velho e o Novo Mundo naquele período de entre Guerras (1918-39), antes de os Estados Unidos virem para a Europa impor os seus padrões culturais, conjuntamente com os cheques do Plano Marshall.

21 setembro 2017

OLHA, PORTUGAL AFINAL JÁ NÃO É «O MILAGRE ECONÓMICO DA PENÍNSULA IBÉRICA»...

Tenha pena que as várias notícias negativas que o Observador tem vindo a publicar nos últimos dias sobre as péssimas perspectivas que se deparam à economia portuguesa (todas do mesmo autor) não estejam a ser devidamente escrutinadas. No caso da notícia negativa de hoje (acima), que nos alerta, às costas da opinião de um economista do Comerzbank, para que os problemas de Portugal apenas pioraram, dá-se a coincidência de que (mais uma vez) o mesmo autor, o jornalista (Edgar Caetano) que a escreve e o economista alemão (Ralph Solveen) que é citado serem precisamente os mesmos que há 32 meses descreviam a economia portuguesa como sendo o milagre económico da Península Ibérica... É uma coincidência do caraças! Ou então não é... Não sei se ainda se recordam de como se vivia há trinta e dois meses quando do milagre: era aquele período em que o deputado governamental Luís Montenegro desenterrara uma memorável fórmula «A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor», que foi fortemente satirizada depois. Vista a evolução da opinião da dupla (jornalista e economista) fica a descoberta de como os os milagres económicos (ao contrário dos de Jesus Cristo) afinal podem ser reversíveis, bastará que os governos de direita deixem de estar no poder. E há finalmente a constatação de que isto não é jornalismo, nem económico, nem de qualquer outra espécie. É opinião política, pura e dura, e que não teria qualquer problema em aparecer publicada se não aparecesse camuflada de outra coisa diferente.

CATALUNHA: A CUIDADA COREOGRAFIA DA FORÇA PASSIVA

Se as notícias de ontem de Barcelona haviam sido as detenções dos responsáveis do governo regional efectuadas pela Guardia Civil, as notícias de hoje são a resolução do sequestro a que alguns agentes dessa mesma Guardia Civil foram submetidos pelos manifestantes independentistas catalães. Resolução essa que, como os jornais locais se apressarem a noticiar, só se tornou possível pela intervenção da polícia regional catalã, os Mossos d'Esquadra. À vista de todos, mas sem ser devidamente explicada, decorre uma curiosa coreografia de força passiva, nomeadamente do lado catalão. Se o poder central acionou a Guardia Civil como executante da autoridade do Estado no seu propósito de impedir a realização do referendo na Catalunha, o poder regional, neste caso protagonizado pelos Mossos d'Esquadra, parece ter deixado os agentes da primeira sozinhos, a resolver o problema do seu sequestro às mãos da multidão que os cercava - as viaturas em que os agentes da Guardia se haviam feito deslocar ficaram no estado que a fotografia acima mostra... E essa espera terá demorado até ao limiar da decência: cerca de uma quinzena de agentes da Guardia Civil acabaram por ficar retidos durante quase 24 horas no edifício onde tinham realizado as buscas. E isso torna-se, mesmo que o seja apenas pela passividade e que possa ser explicado pelas mais razoáveis razões de carácter técnico, também uma demonstração de força.

OS LOUROS DE CÉSAR (33)

Os diálogos travados entre Astérix e Obélix dá deles a imagem de quem está dentro de uma redoma que os impermeabiliza do que se prepararia para acontecer consigo. Esse alheamento provoca os seus próprios momentos cómicos de equívocos, como a sugestão do carcereiro pela mostarda.

20 setembro 2017

VAMOS AGORA IMAGINAR...

...que tinha sido nos Estados Unidos de Donald Trump e não na Espanha de Mariano Rajoy que se havia mandado prender alguns membros de um dos executivos estaduais... As reacções ultrajadas seriam inimagináveis especialmente por se tratar de Donald Trump. Porque, com a cobertura de uma decisão judicial (como reclama Mariano Rajoy) ou sem ela, foi mais ou menos isso que acabou de acontecer em Espanha.