14 dezembro 2017

OS SAPATOS VOADORES: A CRISE QUE GEORGE W. BUSH MAIS DEPRESSA SUPEROU


14 de Dezembro de 2008. George W. Bush estava a pouco mais de um mês de terminar o seu segundo mandato presidencial e efectuava uma última viagem ao Iraque quando, por ocasião de uma conferência de imprensa na companhia do primeiro-ministro al-Maliki foi atacado por dois sapatos voadores arremessados por um jornalista local, num episódio tornado mundialmente famoso (acima). Terá sido uma das raras ocasiões em que vimos aquele presidente dos Estados Unidos a lidar descontraidamente com uma situação, ainda para mais inesperada. Não só mostrou destreza para sair totalmente ileso do incidente, como ainda lhe sobrou presença de espírito para uma laracha sobre o número do calçado. A única vítima a destacar do incidente, para além do assaltante (que apanhou uma sova), foi a secretária de imprensa da Casa Branca, Dana Perino que, na confusão que se seguiu, apanhou com um daqueles desajeitados microfones direcionais em cheio num olho, que andou pisado nos dias que se seguiram (abaixo). Quase caso para dizer que ela mereceria uma Purple Heart, a condecoração militar norte-americana para aqueles que foram feridos em combate.

13 dezembro 2017

OS HOMENS DAS CASTANHAS DE ANTANHO

Numa fria tarde de Outono que parece estar mesmo a pedi-las, ei-las três fotografias de carrinhos de castanhas, como elas eram assadas há uns cinquenta anos.
A primeira fotografia é de Arnaldo Madureira em 1960, a segunda de Armando Serôdio em 1966 e a terceira de autor e data desconhecidos, embora a matrícula do automóvel seja de 1962.

O ALARGAMENTO QUE (RE)COLOCOU A ALEMANHA NO CENTRO DA EUROPA

13 de Dezembro de 2002. Durante a Cimeira de Copenhaga, que reunia os quinze chefes de Estado e de governo da União, foi anunciado o futuro alargamento da organização de quinze para vinte e cinco estados membros (assinalados a amarelo no mapa acima). Essa expansão viria a concretizar-se em 1 de Maio de 2004 mas o que era possível discernir de imediato na intenção era uma ruptura completa com o processo de alargamento da União que, compassadamente, viera a decorrer até aí: aos seis membros originais, haviam-se vindo a juntar mais três em 1973, um outro em 1981, mais dois (incluindo Portugal) em 1986 e ainda outros três em 1995 (nove países em 22 anos). Há precisamente quinze anos, anunciava-se um pacote de 10-países-10 sem que se ouvisse por parte dos dirigentes europeus uma expressão de quaisquer preocupações quanto aos efeitos que essa decisão poderia provocar nos delicados equilíbrios internos da União Europeia, equilíbrios esses que haviam sido sempre cuidadosamente sopesados em todos os alargamentos precedentes. O único efeito que parecia evidente para quem conhecesse a História da Europa dos últimos 150 anos era o ingresso em bloco na União de toda a região que ficara designada na época áurea do expansionismo alemão por Mitteleuropa (abaixo). Com a nova configuração, a Alemanha, que nos quase cinquenta anos precedentes sempre fora o Leste da Europa Ocidental, passava a ser o Centro da Europa redesenhada. Não iria ser a última vez em que se constatava que, aquilo que a Alemanha queria e a que a França não se opunha, não seria necessariamente o melhor para a instituição União Europeia.

12 dezembro 2017

QUEM SE RI NO FIM...

Eu não gosto particularmente da expressão sobre quem se ri no fim (é quem ri melhor). Em rigor, a maioria das histórias nunca têm fim, a não ser que lhe ponhamos um. Mesmo não o tendo, neste caso apetece-me que exista esse fim nessa história do ecofin. Para se perguntar aos fotógrafos fashion e aos jornalistas de fofocas se eles já foram investigar se, para além daquele sorriso um pouco tonto, Centeno gosta de andar de mota ou se a sua mulher é também uma loura vistosa com predilecção por jantares românticos. É uma reportagem engraçada que está por fazer, especialmente para quem gosta de analisar as ascensões nos órgãos europeus de uma perspectiva egótica e para contrastar com a espantosa máquina mediática que rodeou Varoufakis, quando atravessou cadente e candente toda a crise das dívidas soberanas, mas que saiu dela incompatibilizado com todos, até com Tsipras.

O KWANGMYŎNGSŎNG-3 Unidade 2


12 de Dezembro de 2012. Foi há precisamente cinco anos que, depois de várias vicissitudes, se reconhecia que os norte-coreanos haviam conseguido colocar pela primeira vez um satélite em órbita. Era o décimo país do mundo a conseguir fazê-lo recorrendo apenas a tecnologia própria. O nome, que se pode apreciar no título é um pouco difícil de pronunciar. Depois disso, a Coreia do Norte lançou já um outro satélite, em 7 de Fevereiro de 2016. Além de ter realizado uma meia dúzia de testes de um IRBM, que só têm interesse mediático na condição de o seu alcance estimado o fizer poder atingir os Estados Unidos... Mas o mais deplorável será a fanfarronice irresponsável como Donald Trump está a lidar com estas proezas: se em finais de Junho deste ano a farronca consistia em dizer que «a era da paciência (com a Coreia do Norte) tinha acabado», em princípios de Novembro e porque a paciência acabada parecia reciclar-se continuamente, a farronca transformara-se em «a paciência estratégica (com a mesma Coreia do Norte) tinha acabado». Ou seja, em quatro meses e a pretexto da Coreia do Norte, Donald Trump parece ter aprendido a existência da palavra estratégica...

PELOS OITENTA ANOS DE UMAS ELEIÇÕES «AMPLAMENTE DEMOCRÁTICAS»

12 de Dezembro de 1937. Realizaram-se as primeiras eleições legislativas na União Soviética depois da aprovação da Constituição de 1936. No artigo 126 daquela podia ler-se que "o partido comunista é a vanguarda dos trabalhadores na sua luta para desenvolver e consolidar o sistema socialista e que representa o núcleo dirigente para todas as organizações dos trabalhadores, sejam públicas ou estatais". Realizadas através do processo em que o eleitor tem de escolher de entre um candidato único, agora adivinhem lá quem ganhou?...

11 dezembro 2017

A PRIMEIRA EXIBIÇÃO PÚBLICA DO «CONCORDE»


11 de Dezembro de 1967. Depois da entrada em Jerusalém de que se tratou no poste anterior, 50 anos depois tivemos outra grande operação de show off, a primeira apresentação pública em Toulouse do Concorde, o futuro avião supersónico de transporte de passageiros, resultado de uma parceria anglo-francesa (que os segundos não tardariam a abarbatar quase toda para eles). Pelo que se vê no vídeo, a noite anterior deve ter sido fria, a deduzir pelo ar enregelado dos gendarmes que guardaram a aeronave. Apesar de uma distribuição equitativa entre tricolores e Union Jacks por todo o décor, torna-se óbvio que os franceses são os anfitriões da cerimónia e que os britânicos são apenas os compères. Cerimónia essa que se limita à retirada do protótipo do Concorde de um hangar para o vir exibir cá fora. Onde se nota que o sistema de movimentação do cone do nariz do avião (que se tornará uma das mais conhecidas caraterísticas do aparelho) parece ter sido camuflado. Contudo, aquilo que verdadeiramente interessaria, naquela e em qualquer aeronave, o seu primeiro voo, estaria prometido para ter lugar só dali a dois meses. Na realidade, virão a decorrer quinze meses até que isso aconteça, em Março de 1969 (abaixo). A operação de há 50 anos, perceber-se-á depois, fora um grande NADA.

A RECONQUISTA DE JERUSALÉM

11 de Dezembro de 1917. Os otomanos haviam evacuado a cidade nos dias precedentes mas este foi o dia consagrado para assinalar a entrada dos Aliados em Jerusalém. A fotografia acima é o resultado da coreografia concebida pelos britânicos para a ocasião: no momento, pouco passará do meio-dia e o general Edmund Allenby (1861-1936), entra a pé pelo portão de Jaffa por deferência para com a santidade do local. Está acompanhado de um leque reduzido e escolhido do seu staff, onde se contam também os oficiais de ligação dos aliados francês, italiano e norte-americano, conforme se pode observar, aliás, no vídeo abaixo (os britânicos não se terão poupado a meios para cobrir a cerimónia). Seguiu-se um desfile participado por unidades constituídas na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, Austrália, Nova Zelândia, Índia, França e Itália. Mais do que a conclusão de uma operação militar, tratou-se de uma épica operação de relações públicas da Grã Bretanha, 730 anos depois da expulsão dos cruzados da cidade santa por Saladino. Em 1917 Jerusalém era uma cidade de 70.000 habitantes com uma maioria judaica um pouco inferior a ⅔ da população (45.000 judeus, 15.000 cristãos e 10.000 muçulmanos). Curiosamente, apesar de nestes 100 anos a população de Jerusalém se ter multiplicado por 12 e de também se ter tornado a capital de Israel, a proporção de judeus que a habitam continua a ser sensivelmente a mesma...

10 dezembro 2017

DISSERTAÇÃO ESPECULATIVA SOBRE ENSAIOS MUSICAIS DOMÉSTICOS

Sobre a conjugação destas duas fotografias submetidas a um mesmo tema (ensaios musicais em casa), o que me ocorre dizer é que, se por um lado ele há instrumentos que contribuirão mais do que outros para o agudizar das relações com a vizinhança (acima), ele há instrumentos que não imaginamos a ser ensaiados em certas circunstâncias (abaixo). Por exemplo, não imaginaremos o trombone de cima a ser ensaiado na casa de banho abaixo - é uma questão de falta de espaço, é uma questão de acústica, será quiçá até uma questão de soprar por dois lados ao mesmo tempo...

A ABDICAÇÃO DE EDUARDO VIII

10 de Dezembro de 1936. O rei Eduardo VIII assina o seu instrumento de abdicação, pondo fim a um reinado que não chegará a completar um ano (desde 20 de Janeiro de 1936) e sobretudo terminando uma crise política que apaixonou a opinião pública de então, porque o motivo aparente que a provocava seria de cariz sentimental. O rei, apesar dos seus 42 anos, permanecia solteiro e queria casar com a mulher com quem vivia: uma norte-americana de 40 anos, divorciada de um primeiro casamento, mas ainda casada com um segundo marido, do qual aguardava o divórcio. Não tinha filhos, não era bonita nem graciosa, nem se preocupava em transmitir de si uma imagem de cultivada ou benemérita. Um verdadeiro desastre em termos de relações públicas, mas esse parece ter sido o menor dos problemas para os poderes por detrás do trono da época. O que os oitenta e um anos entretanto transcorridos dão a perceber é que o pretexto para a crise pode ter sido Wallis Simpson, a noiva, mas as raízes do problema seriam, muito provavelmente, Eduardo VIII, o monarca. Em geral, os poderes por detrás do trono são conservadores, preferem sempre preservar a ordem constitucional. São inimagináveis as habilidades a que se dedicam para preservar a imagem dos protagonistas desde que eles se comportem de acordo com as expectativas e cumpram o seu papel, por escassas que sejam as suas qualificações e habilidade para o desempenho dos cargos que ocupem: por exemplo, há 30 anos, a revista TIME transformava uma viúva, dona de casa de 53 anos com cinco filhos e sem quaisquer ambições políticas e intelectuais prévias, na Mulher do Ano 1986! Eduardo VIII, porém, mais do que limitado, ter-se-á mostrado imprevisível, mais do que nos seus comportamentos, também nas suas simpatias políticas. E aí estará a beleza da manobra que lhe foi montada: tratava-se de denegrir o rei mas apenas indirectamente, para que as críticas recaíssem sobre o protagonista e não sobre a instituição. E essas críticas não deviam ser levadas a grandes extremos, para que não se gerasse uma onda de simpatia pelo monarca. A esse respeito e como sintetizou Winston Churchill (que até apoiou o monarca nesta): «a aristocracia até aceitava que ela fosse divorciada, não aceitava é que fosse americana, enquanto o povo aceitava que ela fosse americana, não tolerava é que ele fosse divorciada». A verdade é que hoje se percebe que, os poderes por detrás do trono não estavam à procura de uma solução de compromisso para o problema. Fosse Eduardo VIII mais fiável, talvez. Mas assim, ele foi verdadeiramente encostado à parede: nem a sua proposta de um casamento morganático foi considerada (ele continuaria a ser o rei, mas Wallis não se tornaria rainha; possuiria um título menor e os filhos que pudessem ter não herdariam o trono*). As hipóteses que lhe colocaram foram: ou desistia do casamento, ou casava e o governo demitia-se, criando uma crise política ou então abdicava. Embora a metáfora não pareça adequada a episódios envolvendo a aristocracia britânica, parecia a escolha de cartas da vermelhinha... Quando o escutamos no dia seguinte a proferir o seu discurso de abdicação aos microfones da BBC, apesar da falta de empatia gerada por aquele sotaque afectado, é impossível não ter pena do homem.

* É o que hoje acontece com o segundo casamento do seu sobrinho-neto Carlos, herdeiro do trono.

09 dezembro 2017

HÁ CINQUENTA ANOS: JIM MORRISON VAI «DENTRO»


9 de Dezembro de 1967. Jim Morrison (1943-1971), o vocalista dos The Doors foi detido em plena actuação no palco, na cidade de New Haven, no estado americano do Connecticut. Ainda hoje não se conseguem estabelecer com precisão os acontecimentos que terão antecedido a detenção, mas aquilo que é conhecido está muito longe de exonerar Morrison da escalada de provocações e retaliações que conduzirão àquele clímax. Não havendo ainda os telemóveis da actualidade, sempre à disposição para nos mostrarem os momentos insólitos, já havia então as câmaras de 8 mm guardadas para grandes momentos canónicos, que terão preservado as imagens (mas não o som) quando esses momentos se transformaram de uma coisa noutra, como foi este caso da detenção de Jim Morrison em palco (acima) ou então o muito mais famoso assassinato de John Kennedy em Dallas em Novembro de 1963. Pela reacção das imagens, adivinha-se que Morrison (que acabara de festejar 24 anos no dia anterior) não estaria à espera da atitude policial. 
Numa qualquer outra sociedade ocidental democrática, mesmo há cinquenta anos, a atitude policial teria sido condenada agressivamente pela assistência e considerada um desastre para a polícia em termos de relações públicas, contemplando a notoriedade dos The Doors e o seu «Light My Fire» naquela época. E, mesmo nas não democráticas, será que em Portugal e naqueles mesmos anos, a PSP ou a PIDE se atreveriam a ir prender Zeca Afonso em plena actuação no palco?... Claro que tudo dependeria do que tivesse sido feito mas, mesmo assim, só depois de pensar duas vezes. E contudo, nos Estados Unidos da época e ainda hoje, a polícia parece ser concebida como um corpo segregado da sociedade, como que encarregue de a reprimir em vez de a defender, imune às sensibilidades do resto da sociedade. E daí nascerá a necessidade de uma produção desmesurada de séries policiais para televisão, como que para humanizar uma polícia que não é percebida como tal no dia a dia...

O APRIMORAMENTO DA EXPLICAÇÃO

Entre a legenda da esquerda e a da direita ainda houve espaço para uma rectificação adicional, não se desse o caso do eventual leitor chegar a confundir um pinguim postado na paisagem com um tocador de gaita de foles fardado a rigor. O precioso autor cometerá uma evocação, ainda que involuntária, de um dos episódios iniciais dos Monty Python, «Como identificar diferentes tipos de árvores de uma distância apreciável» (How To Recognize Different Types Of Tree From Quite A Long Way Away)

08 dezembro 2017

QUANDO AS INSTITUIÇÕES, SENDO DUAS COISAS, SÃO MUITO MAIS UMA QUE OUTRA

Assim como as venerandas organizações comunistas, considerando-se marxistas-leninistas, sempre foram na prática muito mais leninistas que marxistas, também o letreiro deste colégio de arquitectura e planeamento exibe à saciedade porque é que a instituição será muito mais dedicada à arquitectura do que ao planeamento...

A BANDEIRA DE UM CONTINENTE QUE CONTINUAMOS A ENCARAR COMO PROVINCIANOS


8 de Dezembro de 1955. Há precisamente 62 anos o Conselho da Europa escolheu a bandeira supra para representar o continente. Durante as suas primeiras décadas ela não terá passado de uma curiosidade até que em 1986 - já Portugal aderira à CEE - a então Comunidade Económica Europeia a adoptou como bandeira própria e a partir daí passou a projectar todo um outro significado político. Com aquele gesto, a bandeira azul das doze estrelas transformou-se também na nossa segunda bandeira, uma referência que é mais conhecida do que compreendida e isso acontece até mesmo com os maiores vultos do jornalismo nacional: abaixo, em 2009, ou seja 23 anos depois da sua adopção, assista-se a este momento peregrino de Ricardo Costa na SIC, a cometer a gaffe monumental de considerar que uma dessas bandeiras - por sinal, disposta numas instalações do PSD - está desactualizada por presumir que o número de estrelas corresponderia ao dos estados membros da (já então) União Europeia... Ora, não se compadecendo com a tudologia assertiva, a Verdade é que a bandeira sempre teve doze estrelas...

Mas este texto, para além de evocar o aniversário da criação da bandeira da Europa, não é para se destinar a desfazer ignorâncias arrogantes como as de Ricardo Costa, nem para criticar como se contemporiza com essas ignorâncias. Embora tenha a ver com uma outra atitude colectiva que nos é própria e com o que a SIC Notícias transmitiu ontem à noite: A Quadratura do Círculo. A parte nobre do programa foi dedicada a comentários à nomeação de Mário Centeno para chairman do Eurogrupo. Na verdade, a União Europeia enquanto estrutura política tem problemas bem mais graves com que se entreter, sejam as negociações do Brexit, sejam as inesperadas dificuldades que se estão a encontrar entre o seu membro mais poderoso, a Alemanha, para constituir governo. Realce-se que José Pacheco Pereira chamou a atenção para esse aspecto provinciano de discutir as questões europeias, mas qual quê! Logo houve quem o assumisse e com muita honra! (Jorge Coelho - aos 29:40). Enfim, se descrevermos uma conversa de largo do coreto em Beja ou em Bragança, em que o tópico dela seja a condição de alentejano ou transmontano do novo membro do governo "lá em Lisboa", aí talvez Jorge Coelho (e outros) já consigam perceber o limitado dessa forma de comentar a política. Mas assim, envolvendo Lisboa e Bruxelas, já não consegue(m) esse exercício imenso do raciocínio mental que é a extrapolação...

07 dezembro 2017

UM «REBRANDING» DO BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME

Que é que me dizem se, em vez de ser o Marcelo a fazer ainda mais coisas, por ocasião da próxima campanha de angariação do Banco Alimentar contra a Fome, dessa vez seja Carolina Patrocínio que, com umas fotografias ao seu jeito, se associe a Isabel Jonet para conferir uma imagem mais moderna à instituição?... De facto, não há como a silhueta das costelas de Carolina Patrocínio para corporizar a fome que se pretende combater com aquelas campanhas de angariação de géneros alimentícios.

A PEGADA HIDROLÓGICA DO HIPOPÓTAMO

Se a expressão pegada ecológica se tem vindo a consagrar no vocabulário actual, então faz sentido potenciar o conceito subjacente a essa expressão e empregá-la adaptada para a fotografia acima, onde o hipopótamo deixa a sua pegada hidrológica visivelmente estampada no fluxo da água que escorre pelas paredes da represa onde se banha.

OPERAÇÃO: CASCAS DE NOZES

7 de Dezembro de 1942. Há setenta e cinco anos tinha início a Operação Frankton, uma audaciosa iniciativa de um punhado de fuzileiros britânicos para sabotar os navios cargueiros acostados no porto de Bordéus. Como Bordéus se localiza bem a montante do estuário da Gironda, no rio Garona, a última fase da aproximação teria que se fazer discretamente, com a...
...equipa de sabotadores a viajar em canoas a remos por uma distância apreciável (cerca de 100 km). A viagem tomou-lhes quatro dias, o treino intenso a que os membros do "comando" de elite haviam sido submetidos fora para lhes dar resistência como remadores, mas esse será o aspecto que menos interessará ao desenhador da história da operação que apareceu publicada...
...em Outubro de 1968 no jornal Tintin. A fase de maior emoção residirá no período de aplicação das minas culminando com as explosões dos navios minados. O resto da história, a que a prancha da BD reserva um palavrosíssimo último quadrado, teve, contudo, um desfecho bem menos empolgante: dos dez membros do "comando" que participaram na operação, somente dois sobreviveram.

06 dezembro 2017

...ATÉ O WALLY JÁ NÃO É O QUE ERA

Depois de ter opinado sobre uma biografia de Washington e voltando à actualidade e pensando naquele que é o seu 45º sucessor no cargo de presidente dos Estados Unidos, apetece comentar o quanto tudo está em transformação, que até o pacatíssimo Wally, que o que mais desejava era passar desapercebido para nos pormos à sua procura, já nem esse é o que era...

WASHINGTON Uma Biografia

Quando não se é norte-americano, a biografia do primeiro presidente dos Estados Unidos não é uma prioridade das leituras. Manda o rigor histórico reconhecer que o que aconteceu nos Estados Unidos daquela época é de um interesse periférico. O país estaria fadado para um futuro brilhante, até mesmo para a hegemonia mundial, mas a realidade é que as estimativas demográficas apontam para que em 1775, no ano anterior à sua declaração de independência, as treze colónias contassem com um total de 2,5 milhões de habitantes (dos quais 20% eram escravos). Ora isso era a população de Portugal europeu por essa mesma época - e Portugal tinha colónias, como o Brasil. Contudo, mesmo que a importância do país de que Washington foi co-fundador e primeiro dirigente fosse muito inferior à que se subentende pela actualidade, a sua personalidade, tal qual é revelada por este compacto volume (817 páginas + anexos), vem a revelar-se extremamente interessante. Devem-se-lhe algumas das idiossincrasias da política norte-americana, herdadas da forma como Washington desempenhou os seus dois primeiros mandatos como presidente entre 1789 e 1797. De facto, tende a esquecer-se que a figura presidencial só apareceu bem tarde na ordem constitucional dos jovens Estados Unidos da América: a declaração de independência data de 1776, o seu reconhecimento pelo Reino Unido só correu sete anos depois, em 1783, e a necessidade de maior coesão entre as antigas colónias com a criação de organismos verdadeiramente federais só produziu os seus frutos ainda mais quatro anos passados, em 1787. Observado desta perspectiva da vida de George Washington, percebe-se que a estruturação da administração federal dos Estados Unidos foi um processo muito mais tacteante e titubeante do que aquilo que a propaganda moderna nos quer dar a entender. É por isso que a personalidade de Washington - e com isso, esta biografia - se tornam tão interessantes, pois muito do que se tornou tradição se deverá aos costumes então estabelecidos. Exemplo, o facto de o presidente poder permutar caso a caso e na ocasião que entender os membros da sua administração e não o fazer em bloco e na mesma altura como acontece com os governos na Europa. O autor tem - e não procura esconder - um fraquinho pelo biografado (e outro por Alexander Hamilton), mas, a não ser a respeito da questão da escravatura (em que se excede a desculpabilizar Washington), as simpatias não me parecem perturbar aquilo que se pode aprender da leitura.

A EXPLOSÃO DE HALIFAX


6 de Dezembro de 1917. A colisão acidental de dois navios cargueiros no porto canadiano de Halifax provocou o incêndio num deles, o francês Mont-Blanc, que transportava uma perigosíssima carga de explosivos para as munições do exército francês então engajado em plena Primeira Guerra Mundial. Do embate resultou um incêndio, este propagou-se à carga e pouco depois das 09H00 da manhã de há 100 anos (o acidente tivera lugar meros 20 minutos antes) teve lugar a maior explosão não nuclear registada de toda a nossa História, que terá tido uma potência estimada de 2.900 toneladas de TNT (o que equivalerá a cerca de 20 a 25% da potência da bomba depois lançada sobre Hiroxima).
A explosão arrasou instantaneamente 800 hectares da área portuária da cidade (que contaria na época, dinamizada pelo intenso tráfego marítimo com a Europa, uns 65.000 habitantes). A contagem dos mortos nunca pôde ser apurada com precisão. Terá havido cerca de 1.600 mortos e 9.000 feridos como consequência imediata da explosão. A gravidade dos ferimentos terá feito subir o número de mortos até aos 1.950 nos dias seguintes, mas os 2.000 mortos hoje considerados resultam de uma estimativa, já que até ao Verão de 1919, dali por ano e meio, se encontrarão cadáveres soterrados de vítimas da explosão. Ironicamente, da tripulação do Mont-Blanc, sobreviveram todos menos um...