20 novembro 2017

ESTARÁ A POLÍTICA ALEMÃ A MODERNIZAR-SE?

Como acontece, por exemplo, com a censura, de que a pior porque menos evidente, é aquela que nos impomos a nós mesmos, há muitos episódios que nunca questionamos devidamente porque os tomamos por implícitos, sem os questionar. Um desses episódios é que na Alemanha do após Guerra não há crises políticas. Em Itália, para usar a definição do sonho de António Gedeão, as crises são uma «constante da vida»; em França, acontecem de quando em vez, quando não aparecem homens que a encarnem - à França - devidamente; mas, numa Alemanha traumatizada por alguém que a encarnou provavelmente bem demais, depois daquilo não era para haver crises políticas. Só agora o fracasso das negociações conducentes à formação da coligação tripartida, coloridamente qualificada de Jamaika-Koalition (CDU/FDP/Verdes), vem acordar-nos para a evidencia que afinal até pode haver crises políticas na Alemanha, como se se tratasse de um país europeu normal. Aí está uma: No Frankfurter Allgemeine Zeitungse pergunta se vêm aí novas eleições. O SPD recusa mais uma vez refazer a coligação e pede-as. Parece-me dramatismo a mais, já que ainda só se passaram dois meses sobre as eleições anteriores. Se a Alemanha, agora convertida à modernidade política, quiser ser um país como os outros, tem que dar mais tempo ao tempo, que ainda muito recentemente os seus vizinhos holandeses estiveram quase sete meses (ou, mais precisamente, 208 dias) em negociações para a formação do seu governo. Nas partes mais modernas desta nossa Europa a várias velocidades parece ter deixado de haver premência na formação de um governo em efectividade de funções...

A BATALHA DE CAMBRAI

Centenário do início da Batalha de Cambrai. Trata-se de uma ofensiva desencadeada pelo 3º Exército Britânico sobre as posições defendidas pelo 2º Exército Alemão na região do Norte de França adjacente à cidade que irá dar o nome à batalha. Costuma dar-se realce a esta batalha por causa do que é considerado o primeiro emprego maciço de blindados por parte dos britânicos para apoiar a progressão da infantaria. Na verdade, o recurso a 476 carros de combate (designados por tanques), foi apenas uma expansão daquilo que já havia sido feito em operações anteriores. Tanto assim, que uma das divisões atacantes, a 51ª (Highland), se irá confrontar com uma divisão alemã (a 54ª) que já se especializara em tácticas anti-tanque, aprendidas depois das ofensivas francesas de Abril de 1917.
A maior novidade presente em Cambrai não foi o hardware mas o software. Por uma primeira vez, o bombardeamento que abriu a ofensiva às 06H00 de 20 de Novembro de 1917, empregando mais de 1.000 peças de artilharia, foi realizado recorrendo a novos métodos indirectos e passivos de referenciação dos alvos, evitando denunciar prematuramente a concentração do poder de fogo ao inimigo. Por outro lado, o avanço das tropas foi concebido como uma colaboração entre blindados e infantaria, num primeiro exemplo de colaboração entre aquelas duas armas - a dos blindados acabara praticamente de nascer. Os carros de combate lideraram a progressão da infantaria de 6 das 19 divisões do Exército de Sir Julian Byng.
Como um bom oficial de cavalaria tradicional (a que ainda pretendia ainda usar cavalos naquela guerra...), o plano de Byng contemplava ainda o emprego de 3 divisões de cavalaria mantidas em reserva para, depois de conseguida a ruptura da frente, avançarem sobre Cambrai, conquistando a cidade, rompendo a estrutura da defesa inimiga. Antes disso, o resultado do primeiro dia da ofensiva (há precisamente cem anos) revelou-se espectacular. Ao longo de uma extensão de oito quilómetros, as defesas alemãs colapsaram. Tanto o sucesso se apresentava que, no Reino Unido se mandaram tocar os sinos em celebração. Foi uma decisão prematura. Apesar dos resultados iniciais, os atacantes começaram a ter dificuldades crescentes em manter a dinâmica da ofensiva. Mais do que os homens era agora o material que dava de si. Alguns tanques foram atingidos pela artilharia alemã mas muitos mais, centenas, ficaram fora de combate por deficiências mecânicas ou então atolados numa das trincheiras inimigas.
Exaurida a cavalaria moderna, nunca se chegaram a criar as condições para que a cavalaria antiga pudesse exibir-se na frente de combate. Passado o impacto da ofensiva inicial, e como já se tornara tradicional na Frente Ocidental, os alemães concentraram meios (20 divisões) para passarem ao contra-ataque. Com a sua contra-ofensiva recuperaram grande parte do território perdido nos primeiros dias. Com esse território vieram algumas dezenas de tanques que os britânicos tiveram de deixar para trás e que os alemães depois puseram ao seu serviço. Como saldo da batalha, a configuração da frente no mapa abaixo mostra apenas alterações irrelevantes do ponto de vista táctico. Mas em Inglaterra, para efeitos de propaganda e porque alguém irrefletidamente mandara tocar os sinos a celebrá-la antes de tempo, a Batalha de Cambrai teve que se tornar numa vitória...

19 novembro 2017

FUGIU-LHES A BOCA PARA A VERDADE?...

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, viu-se obrigado a pedir desculpas formais à Turquia por causa de um incidente ocorrido durante exercícios militares que estavam a decorrer na Noruega. Nesses exercícios, as imagens do líder fundador da Turquia, Mustafa Kemal Ataturk, e do seu actual presidente, Recep Tayyip Erdoğan, constaram de uma apresentação como representando o inimigo. Em protesto, a Turquia decidiu retirar os seus 40 soldados que estavam a participar dos treinos no centro de guerra conjunta que a NATO possui em Stavanger. Foi dada a explicação que o responsável directo pelo lapso fora um civil norueguês subcontratado localmente e não qualquer funcionário da NATO. (Alguém que, por só ver televisão, não saberá que a Turquia ainda devia ser teoricamente dos bons...) E o secretário-geral da NATO (também norueguês) emitiu uma declaração pedindo desculpas pela ofensa causada, esclarecendo que o incidente foi o resultado de uma lapso individual e que não reflete os pontos de vista daquela Aliança Militar. Mas os militares turcos não terão regressado aos exercícios, com o presidente turco a comentar que um tal comportamento não podia ser facilmente perdoado. Não deixa de ser irónico ouvir essa opinião a alguém que, quanto a inimigos, ainda há três meses e a propósito da política interna alemã, qualificava Angela Merkel como sendo uma inimiga da Turquia.

A GUERRA TRAZIDA ATÉ ÀS PORTAS DOS LAURENTINOS

19 de Novembro de 1942. Se, entre os portugueses da metrópole se vivia a sua condição de neutrais compenetradamente, considerada a proximidade que os separava dos eventos da guerra, entre as comunidades portuguesas que viviam nas colónias, designadamente as das cinco colónias africanas*, o grande conflito mundial que então se travava era amenizado pelas circunstâncias do distanciamento. É perante esse panorama que se pode evocar a comoção que percorreu Lourenço Marques, a capital da colónia de Moçambique, há precisamente 75 anos. Daquele porto saíra o cargueiro norueguês Gunda, um navio construído em 1919 com 2.141 toneladas de deslocamento e com uma tripulação de 46. Transportava 3.134 toneladas de carvão sul-africano para o porto de Zanzibar. Não foi muito longe. Com algumas horas de navegação, no local assinalado no mapa abaixo com sinal azul, o Gunda foi interceptado pelo submarino U-181 da Kriegsmarine e afundado. Nuns mares povoados por tubarões, apenas 8 dos 46 tripulantes sobreviverão ao torpedeamento.
E contudo, o episódio teve lugar a umas escassas 40 milhas náuticas da que hoje é a paradisíaca praia do Bilene. Nos dias que se seguirão, até ao fim daquele mês, o U-181, que era comandado pelo (então) Capitão-Tenente Wolfgang Lüth (que virá a ser um dos maiores ases daquela arma), afundará ainda mais seis navios (quatro gregos, um americano e um britânico) patrulhando aquelas mesmas paragens que eram também as rotas de aproximação ao porto neutral de Lourenço Marques. O cumulo da intimidação acontecerá a 28 de Novembro de 1942, quando o cargueiro grego Evanthia, que vinha de Áden e se dirigia para Lourenço Marques, será afundado a tiros de canhão a umas escassas dez milhas náuticas da costa moçambicana, quase ao alcance de João Belo. Terá sido um dos períodos de maior tensão sofrido pela cidade, que terá sido sentida sobretudo pelos membros da comunidade de origem europeia, e tensão essa que, curiosamente nunca terá sido sofrida com a mesma intensidade durante a sua própria guerra colonial ou de libertação, a que foi travada entre 1964 e 1974.
* Refira-se a excepção importante das duas colónias portuguesas do Oriente, Macau e, especialmente, Timor, que estavam, cercadas no primeiro caso e mesmo ocupadas no segundo, pelo exército japonês.

18 novembro 2017

UMA PEQUENA HOMENAGEM ÀQUELES DOCUMENTÁRIOS DA NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY





O SUICIDIO COLECTIVO DOS SEGUIDORES DE UMA SEITA RELIGIOSA

Durante os anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial assistiu-se nos Estados Unidos a uma multiplicação de cultos de vaga inspiração cristã devotados à figura de um profeta messiânico, quase todos em busca de uma espécie de reencenação da vida de Cristo transposta para o século XX. Encarados quase todos com a condescendência da liberdade religiosa em que está matricialmente assente a fundação dos Estados Unidos, esses perspectiva tolerante foi profundamente abalada há 39 anos, com o episódio do suicídio induzido entre um pouco mais de 900 seguidores de uma dessas religiões, que se denominava Templo do Povo. Apesar de ter envolvido uma esmagadora maioria de cidadãos norte-americanos, o suicídio, que teve lugar em 18 de Novembro de 1978, aconteceu na Guiana, país da América do Sul que o guru da religião, um homem de 47 anos chamado Jim Jones, seleccionara para fundação de uma comunidade idealizada dos seus seguidores. Quanto à magnitude e à gravidade dos acontecimentos, ela só se compreenderá se concebermos o Templo do Povo de Jim Jones como uma organização que era absolutamente devotada ao seu fundador, fundador esse que, entretanto, terá desenvolvido uma qualquer doença mental. As imagens que correram mundo (acima e abaixo) são confrangedoras pela exibição do desperdício de vidas humanas. Esta morte de quase um milhar de pessoas, que se descobriu ter sido promovida por uma pequena dúzia, tornou-se, desde aí, um poderoso argumento do Estado para que a relação dos cidadãos com o Altíssimo pudesse não ser, em certos casos, apenas um assunto pessoal...

17 novembro 2017

OS GOLPES DE ESTADO MILITARES À AFRICANA JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Este Século XXI produziu muitas transformações nos usos e costumes. E uma dessas transformações é que os golpes de estado em África já não se revestem daquela simplicidade de há uns quarenta ou cinquenta anos. Desde quando é que o presidente acabado de depor - que tantas vezes era um ditador encartado como acontece no caso acima com Robert Mugabe do Zimbabué - tinha o topete de achar que não colabora?... O que os vencidos canónicos de outrora tinham garantido era um pelotão de fuzilamento, com ou sem um simulacro de julgamento sumário. Mesmo os julgamentos ordinários, menos apressados, costumavam caracterizar-se por não se distinguirem dos sumários no teor das sentenças. O verdadeiro bónus para o vencido de um desse golpes de estado era a permissão concedida pelos vencedores para a sua partida para um exílio muitas vezes dourado onde, ainda assim, os mais venais poderiam usufruir de um confortável pé de meia entretanto posto a bom recato na Suíça. O que mudou no entretanto que leva os militares zimbabueanos a manifestarem esta paciência de Job com os caprichos de Mugabe? A moda das relações internacionais, que entretanto deixou de achar bem a interferência dos militares nos processos políticos como acontecia durante o período da Guerra-Fria. Descarte-se a opinião pública, que neste caso não se imagina a sair em defesa de um ditador que ocupa o poder há 37 anos. E descartem-se as dificuldades operacionais para eliminar fisicamente Mugabe, que o mais fácil seria arranjar-lhe uma oportuna crise cardíaca ou então uma queda fatal nas escadas, coisa natural num velho de 93 anos (a idade de Mugabe).

«I AM NOT A CROOK»


17 de Novembro de 1973. Em Orlando, Florida, na presença de uma plateia de 400 quadros da Associated Press, mas dirigindo-se ao auditório televisivo de muitos milhões, o presidente Richard Nixon assume um discurso estranhamente auto-confessional que, de tão deslocado, acaba apenas por aumentar as suspeitas que incidem sobre si: «...Quero dizer isto à audiência televisiva. Cometi os meus erros, mas em todos os meus anos na vida pública nunca beneficiei dos meus cargos, mereci o que ganhei, até ao último tostão. E em todos os meus anos na vida pública nunca coloquei entraves à justiça. E penso, também, que posso dizer que nos meus anos de vida pública sempre acolhi bem este género de escrutínio, porque as pessoas têm de saber se o seu presidente é ou não é um escroque. Bom, eu não sou um escroque! Tudo o que tenho ganhei-o com o suor do meu rosto.» Dali por nove meses, perante indícios cada vez mais comprometedores da sua interferência pessoal no curso das investigações sobre o Escândalo Watergate, Richard Nixon ver-se-ia obrigado a demitir da presidência dos Estados Unidos.

16 novembro 2017

O CENTENÁRIO DO REGRESSO DE GEORGES CLEMENCEAU AO PODER

16 de Novembro de 1917. Em mais de três anos de guerra, a França já tivera cinco governos. O mais recente, chefiado por Paul Painlevé, durara apenas dois meses. foi nessas circunstâncias complicadas que o presidente da República Raymond Poincaré terá feito a aposta mais arriscada da sua carreira política: convidou o seu inimigo de estimação Georges Clémenceau para formar governo. Num momento de usura moral, em que uma parte da classe política francesa ousava dizer em voz alta que já não se podia contar com a Rússia e que a América chegava demasiado tarde, aquele que era alcunhado na política francesa como o Tigre e que contava então já 76 anos, parecia encarnar a última possibilidade de um sobressalto de energia da França, cimentado no facto dele capitalizar como mais nenhum outro político francês o ideal da desforra contra a Alemanha. Tido como um parlamentar temível, o discurso da posse do seu governo diante da Câmara de Deputados configura um estilo hoje datado, mas que se reconhece ao mesmo tempo pujante e gracioso, apesar dos cem anos em cima. Eis o início:
 
«Meus senhores, nós aceitámos formar governo para conduzir a guerra com um redobrar de esforços tendo em vista a melhoria do rendimento de todas as nossas energias.
Apresentamo-nos diante de vós com o pensamento focado numa guerra integral. Queremos que a confiança que vos pedimos em testemunho seja um acto de confiança em vós próprios, um apelo às virtudes históricas que nos fizeram franceses. Nunca a França sentiu assim tão nitidamente a necessidade de viver e de crescer no ideal de uma força posta ao serviço da consciência humana, na resolução de atribuir cada vez mais direitos aos cidadãos assim como aos povos capazes de se libertarem. Vencer para sermos justos, eis a palavra de ordem de todos os nossos governos depois do princípio da guerra. Este programa a céu aberto, mantê-lo-emos.
Temos grandes soldados de uma grande História, sob chefes que foram experimentados pelos desafios, animados por uma devoção suprema que fez o renome dos seus antepassados. Por eles, por todos nós, a pátria imortal dos homens, dona do orgulho das vitórias, prosseguirá com as mais nobres ambições da paz o que é o curso do seu destino.
Estes franceses que fomos obrigados a lançar na batalha têm direitos sobre nós. Eles querem que nenhum dos nossos pensamentos se esqueça deles, que nenhum dos nossos gestos os não tome em consideração. Devemos-lhes tudo, sem reserva alguma. Tudo pela França que sangra na sua glória. Tudo pela apoteose do direito triunfante. (...)»
 
Nascido de uma fuga para a frente do que parecia um impasse político severo, este governo de Georges Clémenceau, que foi dos seis durante a Grande Guerra, aquele que foi indigitado com uma maioria mais frágil (que os houvera com um apoio unânime da Câmara), irá cumprir a sua missão de sobreviver pelo próximo ano, até ao Armistício de 11 de Novembro de 1918, conferindo a George Clémenceau o estatuto de Pai da Vitória.

PARA OS ENTUSIASTAS DAS VIRTUALIDADES INESCAPÁVEIS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL...

...o que eu lhes desejo é defrontarem-se com uma encrenca por causa de uma encomenda perdida da Amazon, encrenca essa proporcionada pela qualidade de serviço de um transportador como a SEUR espanhola. Aliás, mantenho que a associação de palavras contida na expressão qualidade espanhola faz tanto sentido quanto as expressões humor alemão ou modéstia francesa. Por causa da SEUR, o número de vezes que já me frustrei a embater contra demonstrações de obtusidade da tal de coisa artificial, já me levou a ter saudades daqueles call-centers que adivinhávamos instalados em Bangalore ou afins. Havia os tradicionais problemas de entendimento por causa dos sotaques dos interlocutores e raramente o problema era resolvido, mas era uma ineficácia embrulhada numa capa aparente de se ser prestável. Fiasco por fiasco, preferia aquela estupidez natural a esta inteligência artificial que, de inteligente só tem a alcunha... e o entusiasmo dos crentes.

15 novembro 2017

ISABEL DOS SANTOS: O FIM DE UM MITO?

Mas, afinal, Isabel dos Santos não vale todos aqueles bilhões que faziam dela uma das dez maiores fortunas de África? E uma das dez mais poderosas mulheres do Mundo? Quer dizer que foi só preciso o pai abandonar o cargo de presidente, para que o seu sucessor - e não esqueçamos que Angola é só uma potência regional... - pudesse, num par de meses, esvaziar Isabel dos Santos de toda aquela aparência de poder? É curioso constatar, com este exemplo cristalino, que, em querendo, a correlação de forças entre o poder político e o poder económico pode ser afinal linear. É uma questão de, como dizia Fernando Ulrich, eles também aguentarem...

PORQUE SERÁ QUE AS PESSOAS NÃO QUEREM SABER PORQUE SABEM AQUILO QUE NÃO TEM QUALQUER INTERESSE SABER?

Há perguntas que me parecem imperativas e injustificadamente ausentes: Quem é Kim Kardashian? E o que é que Madonna tem feito? E qual o interesse em alimentar estas patetices?

JOÃO O PÓSTUMO

15 de Novembro de 1316. Em França nascia e começava imediatamente a reinar o filho póstumo de Luís X o Teimoso (1289-1316) e de Clemência da Hungria (1293-1328). Sem que existissem as modernas ecografias, e com a morte inesperada de Luís X apenas com 26 anos no mês de Junho, todo o reino ficara suspenso por cinco meses para saber qual seria o sexo do bebé da rainha. Entretanto, o irmão mais velho do rei, Filipe o Comprido (1293-1322), assumira a regência do reino. E é com este enquadramento que se chega a este dia de há 701 anos, em que se fica a saber que a França tem um novo rei (se fosse uma menina, a questão política seria mais complicada pois havia um partido na corte disposto a invocar a lei sálica, que excluiria as mulheres da sucessão ao trono). Deram ao bebé o nome de João e assim seria o primeiro rei com esse nome a reinar em França. Mas, nesses tempos medievais, onde se registavam elevadíssimas taxas de mortalidade perinatal, João I o Póstumo (1316-1316) não estava destinado a notabilizar-se nos livros da História: morreu com cinco dias de vida, a 20 de Novembro e foi o tio a herdar o trono como Filipe V de França. Nos milhares de relatos dos feitos de um reinado que haja por esse mundo fora, dificilmente haverá outro que se possa reduzir o comportamento do monarca às funções mais elementares como as do reinado de cinco dias de João I de França: mamou, chorou e sujou algumas fraldas...

14 novembro 2017

NOVOS «PAPERS», MAS DESTA VEZ SEM PROMESSAS DE GRANDES REVELAÇÕES DO «EXPRESSO»...

Embora estejam a passar muito mais desapercebidos do que os seus antecessores do Panamá, tornou-se notícia uma outra gigantesca fuga de informações financeiras, expondo mais outros milhares de utilizadores das redes mundiais de offshores. Chamaram a estes os Paradise Papers. A fonte da fuga é a mesma da dos Panama Papers: o jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Comparando esta com a precedente, o número de documentos desta fuga é superior (13,4 versus 11,5 milhões de documentos) embora o conteúdo informativo dos mesmos seja apenas um pouco mais de metade da anterior (1,4 versus 2,6 Terabytes de informação).
Mas, o que nos interessará à escala doméstica, é que não terão aparecido interesses portugueses entre as primeiras revelações, o que dispensará o Expresso de grandes promessas como aconteceu no ano passado (abaixo) e adivinha-se o suspiro de alívio de Pedro Santos Guerreiro, director do jornal, que por esta vez estará dispensado de fazer novamente figura de parvo tentando convencer-nos (sem grande sucesso) que, no capítulo das revelações, a montanha não havia parido um rato. Talvez por causa das baixas expectativas ainda acabe por pingar qualquer coisa em termos informativos...

O «MEU» PRIMEIRO «CASAMENTO DO SÉCULO»

14 de Novembro de 1973. Com uma impressionante cobertura mediática para a época - a BBC cobriu a cerimónia em directo para uma audiência potencial estimada em 500 milhões de telespectadores - casava-se a princesa Ana, a única filha da rainha Isabel II. As imagens da televisão, por uma primeira vez a cores, eram apenas o corolário de uma das mais gigantescas operações mediáticas até então, no que era uma concessão ao voyeurismo. A noiva não estava na linha directa de sucessão ao trono e já passara o tempo em que os casamentos de princesas serviam para forjar alianças entre potências e dinastias. Não era esse o caso já que o noivo era até um plebeu. Só o tremendo aparato montado pela comunicação social à sua volta é que justificaria o epíteto de «casamento do século». E eu tenho saudades desse tempo em que tinha a ingenuidade de acreditar no epíteto, sem sequer ter a percepção que aquele século caminhava para já o seu último quarto e que em matéria de casamentos daquele estilo, já houvera muita coisa nos 73 anos precedentes...

13 novembro 2017

A MINHA BIBLIOTECA

O momento em que se reforça a nossa crença no interesse das redes socias é quando se descobre que alguém já classificou de forma inspirada as categorias dos livros de uma biblioteca pessoal.

a) Lidos
b) À espera de serem lidos.
c) Meio lidos. No limbo de dar o assunto por encerrado.
d) Que se finge que foram lidos.
e) Aguardam por um período em que haja oportunidade...
f) ...provavelmente no dia de São Nunca à tarde.
g) Apenas para fazerem figura na estante.
h) Lidos, mas não me lembro nada deles.
i) Lidos, e infelizmente até me lembro deles.
j) Quem é que teve o descaramento de publicar esta merda?

«BADAMERDA» PARA ESSES «MISTÉRIOS»

13 de Novembro de 1975. Não é o sequestro dos deputados da Assembleia Constituinte que aqui se quer recordar, mas a sua libertação ocorrida precisamente há 42 anos. Estava lá a televisão a cobrir o acontecimento, que nos deixa ver uma fila indiana de deputados humilhados caminhando por um corredor deixado aberto pelos trabalhadores da construção civil (aqui, a partir dos 2:35), como se fosse uma reedição revolucionária das forcas caudinas. A excepção foram os deputados comunistas que se deixaram ficar para o fim. No frame de cima, retirado da reportagem televisiva, vê-se o deputado comunista Dias Lourenço saudando veementemente de punho erguido os sequestradores, precedendo os seus camaradas que exibem uma exuberância solidária semelhante. Se em política o que parece é, a cumplicidade do comunistas com os acontecimentos foi a que foi, ficou a parecer que os parlamentares comunistas só tinham ficado circunstancialmente do lado errado das trincheiras: não estavam eles a celebrar como vitória sua a cena da subjugação dos deputados? Tanto mais que os testemunhos de alguns dos outros sequestrados afirmavam que, à boa maneira de Orwell, o sequestro dos deputados comunistas fora mais igual que o dos deputados das outras bancadas à sua direita, sustentado com uns frangos assados e umas batatas fritas a amenizar o jejum geral por 16 horas que fora imposto ao resto do hemiciclo. Foi essa a percepção da época, uma época em que não se dava o devido valor à gravidade destes acontecimentos, conforme se pode comprovar pela conferência de imprensa que o mesmo sindicato dos trabalhadores da construção civil (que promovera o sequestro) deu, no dia seguinte aos acontecimentos. Nem eles falaram do sequestro, nem, diante das câmaras da televisão, nenhum jornalista terá tido a ousadia de levantar o assunto! E, claro, ainda não havia um Correio da Manhã para anunciar que a mulher do deputado do CDS Oliveira Dias morrera nesse dia 13 de Novembro, aos 46 anos e de doença cardíaca, presumivelmente de atribuir ao que acontecera ao marido...
Terá sido o distanciamento temporal a restituir ao episódio do sequestro dos deputados constituintes a gravidade do que se passara. Quanto mais o tempo passava e os costumes evoluíam, diminuía a condescendência e mais inaceitável se tornava aquilo que sucedera. E o posicionamento equívoco do PCP em todo o episódio mais desconfortável se apresentava. Foi só a partir do Século XXI que eu dei pelos comunistas a quererem sair de fininho de todo o assunto. E a técnica (clássica!) para refazer o que aconteceu é a de criar hipotéticos segredos por revelar, uma história que não está ainda toda contada, um mistério!... Mistério que não parece ser para esclarecer: ainda num recente regresso ao assunto feito pela TVI tanto o ortodoxo Jerónimo de Sousa quanto o heterodoxo Vital Moreira (acima) se conjugaram objectiva e subjectivamente na recusa em prestarem qualquer depoimento. Hoje completam-se 42 anos sobre a data dos acontecimentos e ainda há quem continue a insistir que o papel do PCP no cerco (à Constituinte) está envolto em polémica... Haja quem acredite nesses expedientes argumentativos. Parafraseando Pinheiro de Azevedo: «Badamerda para a (conversa da) polémica

IMPRESSÃO, NASCER DO SOL

13 de Novembro de 1872. Pretende uma tese, robusta na argumentação, que este quadro pioneiro do impressionismo de Claude Monet foi pintado há precisamente 145 anos, às 7H35 da manhã (abaixo). A cena representa o amanhecer no porto francês de Le Havre, ainda coberto das brumas matinais comuns nos portos da Normandia, um ou dois botes mais nítidos em destaque e um fundo onde se divisam os vultos de um estaleiro, grandes barcos de velas e chaminés. O único foco de cor na tela é um Sol alaranjado e longínquo. O quadro está hoje exposto em Paris, no Museu Marmottan.

12 novembro 2017

PORQUE O OPTIMISMO, QUANDO EM EXCESSO, TAMBÉM CHATEIA...


PELO NONAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA EXPULSÃO DE TROTSKY DO PARTIDO COMUNISTA

É curioso (ou talvez não...) como, sendo considerados os grandes rivais pela herança de Lenine como líderes do Partido Comunista Soviético, não tenham sobrevivido quaisquer fotografias de época em que figurem conjuntamente Estaline e Trotsky. O melhor que se poder arranjar é este frame, extraído de um filme mudo feito por ocasião do funeral de Félix Dzerzhinsky que teve lugar em 30 de Julho de 1926 em Moscovo (abaixo). Nesse frame, aparecem os dois rivais segurando o caixão do defunto, cada um de seu lado, conjuntamente com outros velhos bolcheviques como Kalinine (á frente do caixão), Kamenev (atrás de Trostsky) e Bukharine (atrás de Estaline). Daí por dezasseis meses com a expulsão de Trotsky neste dia 12 de Novembro de 1927, começaria uma saga a que, para além de Estaline, dos mencionados só Kalinine iria sobreviver para contar.