22 maio 2018

O EUROCORPS

22 de Maio de 1992. Na Cimeira franco-alemã de La Rochelle, os dois países decidiram expandir a sua cooperação militar até à formação de um Corpo de Exército, que veio a receber a denominação de Eurocorps. Eram outros tempos, em que Kohl e Mitterrand, enquanto não se cansavam de manifestar a sua mais profunda amizade recíproca, também não se deixavam ultrapassar em europeísmo pelo parceiro. Vinte e seis anos depois do anúncio da sua constituição, aquilo que seria para ser (obviamente) o embrião de um futuro exército europeu - enfatizando a expressão de Alexandre O'Neill - permanece assim uma coisa em forma de assim. A organização apenas subsistirá porque, embora não atrase nem adiante em relação ao quadro de segurança colectiva representado (ainda e sempre) pela NATO, politicamente é uma chatice para os dois patrocinadores reconhecerem que a iniciativa se revelou um fiasco.
Existe um Quartel-General, sedeado em Estrasburgo, e guarnecido por cerca de 1.100 efectivos. Mas as unidades combatentes, que poderão elevar os efectivos do corpo até aos 50 mil homens, em caso de activação do corpo, permanecem sob controlo das forças armadas nacionais (veja-se abaixo o mapa da direita). Aos dois países fundadores juntou-se depois a Espanha, a Bélgica e o Luxemburgo, mas as adesões ficaram-se por aí. Outros países associaram-se (abaixo, a verde intermédio): a Itália, a Grécia, a Roménia e a Turquia. Mais significativo e assinalados a verde claro, houve países que se associaram, mas que entretanto se dissociaram (a Áustria e a Finlândia) ou estão em vias de o fazer (a Polónia): estes últimos três países têm o traço comum - significativo! - de que todos eles tiveram uma história comum de interferências da Rússia nas suas autonomias. Para aquilo que iriam à procura, o Eurocorps não parece ser a resposta.

A IMPLOSÃO DO USS SCORPION

22 de Maio de 1968. Um submarino nuclear norte-americano, o USS Scorpion, desapareceu em pleno Atlântico Norte. Para além do facto de que os acidentes com submarinos se saldam frequentemente pela perda de toda a tripulação (99 homens neste caso), é também um facto característico seu as dificuldades posteriores em investigar e conseguir apurar as causas que os provocaram. Os destroços encontram-se no fundo do mar, muitas vezes a vários quilómetros de profundidade (3 km no caso do Scorpion). A acrescer ao ambiente lúgubre, desde o princípio desse ano de 1968, que aquele já era o quarto submarino a desaparecer dessa maneira inerentemente misteriosa: há uma última comunicação com a base e depois deixa de se saber do navio. Em Janeiro, fora o israelita INS Dakar e o francês Minerve que haviam desaparecido no Mediterrâneo com dois dias de intervalo, e em Março fora o K-129 soviético a desaparecer no Pacífico Central. O encadeado de acidentes provocou uma certa psicose do submarino a que lhe acontece algo de misterioso que alguns anos depois veio a ser aproveitado pelo argumento do filme 007 «The Spy Who Loved Me» (abaixo).

21 maio 2018

O FRACASSO DE UM DOS «NOSSOS GRANDES» FISCALISTAS

Para quem já se tenha esquecido, aqui há coisa de um ano, em Junho de 2017, Cristiano Ronaldo foi acusado de fraude pelo Fisco espanhol. E em resposta tivemos direito a uma explicação televisiva (na SIC Notícias) do advogado de Cristiano Ronaldo, o brilhante fiscalista António Lobo Xavier que explicou ao auditório que, pelo contrário, «O critério escolhido por Ronaldo (até) de(ra) mais dinheiro ao Fisco espanhol». Mas, como na Hacienda espanhola serão poucos os que seguem a Quadratura do Círculo, foi assisado que se esperasse pela continuação do caso, que teve um episódio significativo anteontem, episódio esse que passou praticamente desapercebido no meio da confusão gerada pelo caso da academia do Sporting. A redacção do título da notícia abaixo, ainda que benigna (é Cristiano Ronaldo que se dispõe a pagar, nem parece que esteja a ser coagido a isso... mas paga os 14 milhões todos e não bufa!), vem reforçar aquela impressão que há muita gente que, entre nós goza de uma excelente reputação pessoal e profissional, mas que tem manifestas dificuldades - porque uma não acompanha a outra - em projectá-las para lá de Badajoz...

«MALANDRO QUE É MALANDRO NÃO ESTRILHA, MUDA DE ESQUINA»

O ditado popular é português, mas a prática, essa receio que ainda tem que ser aprendida com os exemplos flagrantes das malandragens alheias - como será o caso acima. A nossa malandragem doméstica, quando se considera acima do popular e por pior que seja aquilo que tenha feito, nunca se considera malandra, não tem nada que mudar de esquina...

A FRENTE OCIDENTAL A 21 de MAIO de 1918

Há precisamente cem anos era assim que se apresentavam os exércitos dos dois lados das trincheiras da Frente Ocidental. A concentração de unidades alemãs (a vermelho) na região da Flandres era ainda o resultado das Ofensivas da Primavera que, apesar das vitórias tácticas, não haviam conseguido alterar a situação estratégica em prol da Alemanha. Do lado oposto, predominava a cor azul das divisões francesas, quando em comparação com a recentemente reduzida secção de frente das abaladas divisões do império britânico (em cor de laranja). Quanto às recém chegadas divisões norte-americanas (em grená), elas ainda são demasiado poucas e encontram-se demasiado dispersas para criarem uma mancha colorida a esta escala. Mas o mapa pode ser observado em mais detalhe. Note-se o anacronismo de que o mapa conter as fronteiras internacionais de 1919.

20 maio 2018

O MOTOR A JACTO DE FRANK WHITTLE

15 de Maio de 1941. (...devia ter sido publicado há cinco dias  mas distraí-me...) Dava-se o primeiro voo experimental de um aparelho britânico propositadamente concebido para o motor a jacto, o Gloster E.28/39. Trinta anos depois disso, no Verão de 1971, a revista Tintin semanal publicava a história de BD abaixo, onde o herói era aquele que fora considerado o inventor de tal engenho: Frank Wittle (1907-1996). Quem a lesse deduziria que a descoberta do motor a reacção fora uma façanha britânica e que os aviões equipados com aquele motor revolucionário chegaram a ter um contributo significativo para a vitória aliada no final da Segunda Guerra Mundial...
...mas a história era uma e a História é outra. Antes dos Glosters britânicos, já o Heinkel He-178 alemão em 1939 e também o Caproni Campini italiano em 1940, ambos movidos por motores a reacção, haviam realizado voos pioneiros. E, quanto à importância dos Gloster Meteor como «adversários de eleição contra» as bombas voadoras V-1 (como se lê nesta última página acima), vale a pena ter presente que os Gloster foram responsáveis pelo abate de 14 daqueles engenhos, num total de 4.261 bombas voadoras V-1 abatidas de todas as formas (aviação, artilharia anti-aérea ou balões de intercepção) - ou seja, uma participação de 0,3%...

É VOCÊ...?


É você que sabe o que é um incunábulo?...

A INDEPENDÊNCIA DE TIMOR E ONDE É QUE HAVIA ESTADO MÁRIO SOARES ANTES DO 25 de ABRIL

Mário Soares, Portugal Amordaçado, 1972, p.457 (edição portuguesa de 1974)

20 de Maio de 2002. Há precisamente 16 anos e 30 anos depois da apreciação supra de Mário Soares, as circunstâncias dificílimas, únicas de sofridas, que haviam conduzido a nova nação de Timor à primeira independência formal do século XXI, mostram quanto Soares, quando falara do dossier colonial português, se pronunciara sobre aquilo do qual não fazia a mínima ideia. Mas esse será sempre o seu estilo: inspirando-se no que acontecera com as possessões portuguesas na Índia em 1961, Mário Soares tirava umas pelas outras e prognosticava também ali a anexação da colónia portuguesa de Timor Oriental pelo grande vizinho... Ficara escrito, mas, para o engrandecer, faltou ouvi-lo depois - e teve 30 anos para isso! - confessar que se enganara redondamente. Há grandes figuras da nossa História que nos aparecem atranvacadas de pequenezas destas nas suas grandezas.

19 maio 2018

A CALÚNIA

A notícia propagada pela comunicação social que Marcelo Rebelo de Sousa se escusa a estar presente na final da Taça de Portugal porque «não se quer sentar ao lado do presidente do Sporting» é uma calúnia. As imagens e o seu passado comprovam-no: Marcelo já se sentou ao lado de muito boa gente pouco recomendável...

A LEGIÃO SALTA EM KOLWEZI

19 de Maio de 1978. Kolwezi era uma cidade mineira africana na região do Catanga, naquele que era, à época, o Zaire e que hoje é conhecido por República Democrática do Congo. Havia no Catanga um movimento secessionista, denominado FLNC cuja organização militar, partida da vizinha Angola e apoiada pelos angolanos e cubanos e enquadrada por estes últimos, havia desencadeado uma ofensiva sobre aquela região, derrotando o exército zairense e apoderando-se da cidade. Mesmo depois da independência da Bélgica, e por causa da proximidade e importância das minas catanguesas, em Kolwezi mantivera-se uma importante comunidade de expatriados europeus que agora estavam nas mãos desses rebeldes catangueses da FLNC. E a produção das minas fora afectada.
Terá sido por isso que os pedidos de auxílio do presidente zairense Mobutu, feitos tanto nos Estados Unidos como na Europa, tiveram uma ressonância inabitual, numa época em que os primeiros viviam a ressaca da guerra do Vietname e os europeus ocidentais as ressacas das descolonizações. A Bélgica, ex-potência colonial e a França terão topado a parada e disponibilizaram-se a realizar uma operação aerotransportada para a recuperação do controle de Kolwezi. Contudo, uma e outra entraram rapidamente em choque quanto ao âmbito de que se revestiria essa operação, com os belgas a quererem restringir-se à libertação dos reféns e os franceses a quererem ir mais longe e a estabelecer uma espécie de regresso ostensivo - embora em moldes diferentes - à Africa Negra, de onde haviam saído 18 anos antes.
Prevaleceram os franceses, que se anteciparam e assumiram as rédeas da operação, baptizando-a de «Bonite». O papel principal foi entregue ao 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas (REP) da Legião Estrangeira. A escolha da unidade não fora acidental, se nos lembrarmos do que acontecera na Argélia e do envolvimento do 1º REP no putsch dos generais em 1961. Tratava-se de um esforço deliberado de promover a reconciliação da França com as suas unidades de elite da Legião Estrangeira, desde sempre celebrizada pela sua participação nas campanhas tropicais e coloniais, mas cujo comportamento na fase final da guerra da Argélia conduzira a um ostracismo. Do ponto de vista militar, não se pode dizer que o desfecho da batalha tenha sido cerrado: os franceses registaram 5 mortos entre os 700 combatentes empenhados e os belgas apenas 1 morto entre os seus 1.180 homens. Do lado dos rebeldes do FLNC, estima-se que terá havido 250 mortos. Fizeram-se uns 150 prisioneiros.
Entre os civis terão sido 870 os mortos, dos quais 20% europeus, e muitos deles executados. Quando do contra-ataque de há 40 anos, os franco-belgas terão beneficiado da desorganização das tropas da FLNC, que entretanto haviam perdido a sua coesão e dinâmica ofensiva, dedicando-se à pilhagem*. Se os números acima demonstram que houve até mais belgas do que franceses envolvidos na operação militar, quanto à operação mediática o resultado foi absolutamente inverso: a festa foi aliás quase completamente francesa. A curto prazo a revista Paris Match enalteceu (e explicou) a façanha, a médio prazo, ela foi contada em livro e depois em filme (La légion saute sur kolwezi). Tratara-se da primeira operação aerotransportada francesa depois da Crise (e fiasco) do Suez em 1956 e desta vez fora uma bem sucedida projecção do poder militar francês a 7.000 km de Paris.
No final, 2.800 reféns, a esmagadora maioria deles europeus, foram libertados. Sempre um homem para as situações, o presidente Mobutu não deixou de se associar ao sucesso, fardado a preceito, como um general vencedor (penúltima foto). Mas, outro presidente, Giscard d'Estaing de França, fora um vencedor mais substantivo: criara-se um novo paradigma da presença militar francesa na África Negra, havia um retorno ostensivo do seu país à região, camuflado agora de cooperação musculada com as forças armadas locais (última foto). Um certo sentido de desforra para os nostálgicos das guerras colonias. O princípio ali estabelecido ainda vigora, como se constata pelos exemplos - que envolvem também a presença militar portuguesa - do Mali ou da República Centro-Africana.
* 60 anos antes e muito longe dali, havia acontecido o mesmo às tropas alemãs quando das Ofensivas da Primavera de 1918 na Flandres. Quando os esfomeados soldados alemães capturavam os depósitos de intendência situados na retaguarda das linhas aliadas, a dinâmica da ofensiva alemã desaparecia por completo até aos atacantes se saciarem. E depois era difícil continuar por causa da digestão...

18 maio 2018

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: SERÃO MUITO MAIS AS VOZES QUE AS NOZES

É consultando o menu de notícias colocadas à nossa disposição pelo Google Notícias, que se fica com a sensação que a Inteligência Artificial que no-las selecciona ainda tem muito trabalho pela frente até merecer esse epíteto de «inteligência». É que nada no meu histórico de navegação mostrará fundamento para que eu me possa interessar por quem vá acompanhar Meghan Markle ao altar. Nem pelas delicadezas momentâneas da vida de Jessica Athayde, que essa nem sei de quem se trata, imaginem só a empatia que eu possa sentir pela sua cadela... Em contrapartida, e por causa desse mesmo histórico de navegação, eu teria gostado de ter sabido da morte do historiador Richard Pipes, ontem noticiado, embora não na imprensa portuguesa. Mas este último aspecto já tem mais a ver com causas naturais... Três dias antes e para aferência, em quase todos os grandes jornais cá do sítio se escreveu um longo artigo a propósito da morte do jornalista e escritor Tom Wolfe (1), (2), (3), (4). Sobre Richard Pipes, ninguém saberá de quem se trata, vai ser preciso esperar por uma publicação estrangeira que lhe escreva o obituário (como o NYTimes): é tão previsível e formatada a ignorância dos jornais portugueses...

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

17 maio 2018

A COBARDE DEMISSÃO DOS PARTIDOS POLÍTICOS PERANTE OS ESCÂNDALOS DO FUTEBOL

– Aconteceu um incidente curioso com o ladrar do cão – comentou Sherlock Holmes.
Mas o cão não ladrou! exclamou o Dr. Watson.
– Esse é o incidente curioso!

Arthur Conan Doyle (O Cão dos Baskervilles)
A idade ensinou-me a prestar tanta ou mais atenção às omissões do que apenas àquilo que nos querem fazer ver. A omissões significativas passei-as a designar por episódios de Barkervilles, em homenagem à passagem acima do livro de Arthur Conan Doyle em Sherlock Holmes se pergunta porque é que o cão não ladrou... e devia ter ladrado. E é perante este cabeçalho do Público, em que Bruno de Carvalho se atira às duas primeiras figuras do Estado que nos apercebemos mais nitidamente do ribombante silêncio de todos os agentes políticos a respeito deste último grande escândalo do futebol envolvendo o Sporting. O fenómeno é ainda mais caricato no caso daquelas formações políticas, como serão os casos do Bloco de Esquerda e do CDS, que baseiam a sua comunicação numa incessante barragem de opiniões protagonizadas pelas respectivas líderes, que se pronunciam acerca de tudo. Como certo dia disse Jô Soares num dos seus programas: tudo, do cocó à bomba atómica. Por exemplo, google-se "Assunção Cristas defende" e descobrir-se-á que ela defende: o relacionamento entre Portugal e Angola, que o quadro comunitário de apoio deve ser tratado no Parlamento, que o Parlamento não tem mandato para legislar sobre a eutanásia ou a reconstrução das habitações de férias (de Pedrógão Grande). E Catarina Martins não lhe fica atrás. Google-se a mesma expressão com o seu nome e fica-se a saber que ela defende o investimento na reorganização do território, um fundo de solidariedade para vítimas da legionella, alterações à lei do preço fixo do livro, ou ainda a escolha entre a dignidade e horários de meio dia para os trabalhadores. Frementes entre tantas outros assuntos, nem a uma, nem a outra, nem aos seus partidos, nem a qualquer dos outros partidos com assento parlamentar (PSD, PS, PCP e PAN), se ouviu comentário que se ouvisse condenando os acontecimentos de Alcochete. O facto não é importante porque, reconheça-se, apesar das aparências decorrentes da cobertura desmesurada que lhe é concedida pela comunicação social, o futebol não tem importância nenhuma. É um negócio do entretenimento. Mas é eloquente da cobardia demonstrada pelo poder político perante uma nova forma de marginalidade que, ao contrário da tradicional, é iluminada pelos holofotes da comunicação social.

MAZAMET, A CIDADE PETRIFICADA

17 de Maio de 1973. Há 45 anos teve lugar na cidade francesa de Mazamet uma acção espectacular de sensibilização em prol da prevenção rodoviária. A cidade contava então com 16.610 habitantes, que corresponderiam, grosso modo, ao número de mortos registados nas estradas de França no ano anterior: 16.545. Ao som de uma sirene e sob o título de Mazamet, Cidade Morta, organizou-se um evento em que os cidadãos foram convidados a sair à rua e a fingirem-se de mortos durante um quarto de hora enquanto equipas de fotográficas e cinematográficas exibiam o impacto condensado numa cidade das perdas humanas devidas a acidentes de trânsito. Como se percebe pelas fotos, a iniciativa foi acolhida com entusiasmo pela população daquela pequena cidade occitana, houve mesmo quem se deixasse "atropelar" ou feito outras alusões explícitas aos acidentes rodoviários. A imaginativa ideia terá tido um grande impacto: uma reportagem sobre a cidade desaparecida do mapa for transmitida pela televisão francesa, acompanhando legislação sobre a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e sobre novos limites de velocidade. A curto prazo, o impacto do documentário terá sido grande. Outra coisa se poderá concluir no médio e longo prazo: o número de mortos nas estradas decresceu em mais de 75% nestes 45 anos (3.700 mortos em 2017), mas esse resultado dever-se-á tanto ao comportamento dos condutores, quanto a melhores métodos de construção das vias (evitando cruzamentos e outros pontos nevrálgicos, por exemplo), como também ao melhoramento dos sistemas de protecção passiva das viaturas (airbags, abs, etc.).

Curiosamente, e regressando às imagens de Mazamet, cá em Portugal e por essa mesma altura, a revista Tintin andava a publicar semanalmente as pranchas de uma história intitulada A Cidade Petrificada, uma aventura em que uma cidade inteira era atacada com um mega aparelho de ultra-sons, deixando todos os seus habitantes inanimados e prostrados pelas ruas, com a mesma aparência da encenação de Mazamet.

JOSÉ SÓCRATES NÃO É UM CRISTÃO-NOVO...

Sérgio Sousa Pinto é um exemplo do que é um bom político português: além da ambição, é alguém que pensa sozinho, tem ideias originais e tem aquela habilidade indispensável a um político para se pôr a jeito, já que a ascensão até ao lugar que ambiciona dependerá muito mais das circunstâncias do que dos seus (indiscutíveis) méritos. Terá sido, aliás, por isso que Sérgio Sousa Pinto se pôs a dar esta entrevista de hoje à Rádio Renascença e ao Público, em antecipação ao próximo congresso do PS, para fazer-se oportunamente lembrado e para ali ser acolhido com uma chusma de microfones que lhe vão perguntar as perguntas estupidamente previsíveis (e irrelevantes) do costume, às quais ele vai responder desdenhosamente (acima, a mesma cena no congresso anterior). Não parece, mas ele precisa que os microfones lá apareçam. O conteúdo da entrevista vai também no mesmo sentido: é um acerto de contas com quem neste momento controla o PS para se demarcar como alternativa futura, embora haja aspectos em que me parece que a sua atenção com as rivalidades internas do partido, o faça esquecer o que acontece com o resto da sociedade. É o caso da metáfora que David Dinis recuperou para título da entrevista no seu jornal (acima). Sendo imaginativo, parece-me mais do que excessivo comparar José Sócrates a um cristão-novo que tivesse sido vítima da inquisição.

16 maio 2018

E QUANDO NENHUM DOS LADOS TEM RAZÃO?


Gosto bastante desta cena de Analyse That (2002), pelo seu equilíbrio. Embora se reconheça a atitude destemperada da personagem de Robert de Niro, um antigo gangster a tentar adaptar-se a uma vida honesta, no caso vendendo (pessimamente) automóveis, é difícil não antipatizar simultaneamente com o pedantismo do casal de clientes. Assim não se vendem automóveis mas, se tal fosse possível, os vendedores prefeririam não ter de os vender a clientes como aqueles, que abusam do seu estatuto.

«- Olhem para o tamanho desta mala. Cabem três cadáveres lá dentro!
- ...?
- Estava a brincar. Estava a aligeirar a situação.
- Ok. Obrigado. Ficámos a saber.
- Qual é o seu carro actualmente?
- Agora é um Lexus 430 LS.
- É como um... Toyota.
- É um Lexus...
- 'tá bem, Toyota, Lexus, japoneses, não é verdade? Não nos esqueçamos de Pearl Harbor... De toda a maneira, vamos ao que interessa: querem comprar este carro ou não?
- Não sei. Vamos ter que pensar no assunto.
- O que é que há para pensar no assunto? Disseram-me que tinham gostado dele, fizeram-me para aí umas dez mil perguntas e eu respondi a todas elas, conduziram-no, gostam dele, o que precisam de saber mais?
- Sabe, é uma data de dinheiro e precisamos de tempo para avaliar...
- Avaliar? Então avaliem lá isto: estiveram a chatear-me os cornos durante uma hora, a fazer-me perguntas sobre cada um dos acessórios do carro, «e então a luzinha, e mais isto, e aquilo?»...
- Não pode falar assim aos clientes.
- Vocês não são clientes, se quer que lhe diga. Querem comprar o carro ou não?
- A si não. Quero ver o gerente.
- Quer ver o gerente? Eu mostro-lhe o gerente. (Segura nos genitais) Aqui está o gerente. Aqui está o homem com querem falar. O que é que eu faço? - põe-nos na rua! - Ouviram-no? Ele acabou de dizer para os pôr na rua. Ele é que é o boss - Eles que arranjem um Honda

Paradoxalmente, nesta altura da cena e perante tanta xenofobia automobilística, percebe-se que o automóvel que de Niro tinha estado a tentar vender é um Audi, marca de origem alemã.

A PARADA DA VITÓRIA DA GUERRA CIVIL FINLANDESA

16 de Maio de 1918. Encabeçada pelo general Carl Mannerheim tem lugar nas ruas de Helsínquia a parada da Vitória dos brancos na guerra civil finlandesa que eles haviam travado contra os vermelhos.

15 maio 2018

HUMOR INTELIGENTE

Para que tenha piada, o humor precisa de se revestir de uma certa sofisticação, senão perde a piada toda. Nesta Lição de Chinês impressa numa t-shirt, qual foi o intuito de adicionar um "manual de instruções"? Compadecer-nos dos mais obtusos?...

A AUTO EXTINÇÃO DA III INTERNACIONAL

15 de Maio de 1943. Com a Segunda Guerra Mundial ao rubro, a III Internacional (conhecida por Komintern) anuncia em Moscovo - where else?... - a sua auto dissolução. Segundo se podia ler no documento que a anunciava: «O papel histórico da internacional comunista, organizada em 1919 como resultado do colapso político da maioria esmagadora dos antigos partidos operários de antes da Grande Guerra, consistiu em preservar os ensinamentos do Marxismo da vulgarização e distorção que fosse cometida por elementos oportunistas dentro do movimento trabalhador. (...) Mas muito antes da guerra (nota: a Segunda Guerra), tornou-se crescentemente mais claro que, à medida que a situação interna e internacional de cada país se tornava mais complicada, a solução dos problemas do movimento trabalhador de cada país individualizado, recorrendo a um Centro internacional se iria deparar com dificuldades cada vez mais acrescidas.» Se invocar assim as especificidades nacionais e a inabilidade de uma organização multinacional para lidar com elas serviu de explicação para a dissolução da III Internacional em 1943, aceite-se que essa mesma explicação poderia ter servido para o mesmo propósito em 1933 ou em 1923. Era inverosímil. A explicação hoje admitida para este gesto de dissolver uma organização que projectava o poder da União Soviética para lá das suas fronteiras, terá sido a intenção de Estaline de aplacar circunstancialmente as desconfianças dos seus aliados anglo-saxónicos quanto às intenções imperialistas soviéticas. Tanto assim que, não as tendo aplacado, dali por apenas quatro anos, em 1947, ressuscitou uma outra organização considerada herdeira da III Internacional na sua função de fazer as organizações comunistas de todo o mundo marchar ao ritmo. Há 75 anos dissolvera-se o Komintern, mas viria a ser substituído pelo Kominform.

14 maio 2018

O «RECREIO» ITALIANO

Outrora e num país normal, ultrapassar os dois meses à espera da constituição de um governo era sinal de alarme. Actualmente, e para mais considerando que se trata de um país com a reputação da Itália, esses dois meses podem ser uma banalidade. Mas os italianos guardam o segredo de uma certa forma de estar que é mais bombástica do que as das outras nacionalidades. Não é só o que os populistas italianos possam dizer em período de campanha eleitoral, é o que eles fazem depois de vencerem as eleições. Aquilo que na política tradicional se designa por assumir as suas responsabilidades parece ser algo que lhes passa completamente ao lado. Tanto assim que a resolução do problema da formação do próximo governo italiano parece ter caído, inteirinha, no colo do presidente da República Sergio Matarella, uma figura constitucionalmente fraca em Itália, mas que se agiganta em casos de vácuo do poder como o que parece estar a acontecer. Depois de anos a fio observando a multiplicação do fenómeno do voto de protesto, de que o exemplo culminante terá sido o Brexit do Reino Unido e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, é caso para perguntar se não se caminhará para o refluxo, quando da constatação que muitas destas formações protestantes, descontado o estilo, também não parecem possuir quaisquer soluções para os impasses estruturais das sociedades modernas. O M5S italiano e os seus aliados estão a mostrar-se um exemplo acabado disso.