26 fevereiro 2017

OS RITMOS DO CAPITÃO HADDOCK

É sempre agradável dar uma generosa passeata a pé mesmo se - ou especialmente quanto - se é acompanhado por alguém que tem um conceito de ritmo de caminhada que nos faz lembrar o Capitão Haddock.

«IT'S HER PARTY»

Assunção Cristas quis ir a Belém arrancar o seu cabeçalho e Marcelo Rebelo de Sousa teve de lhe fazer o gosto, mas desforrou-se muito à sua maneira, adicionando-lhe um rodapé. Como conclusão, o gesto da dirigente do CDS/PP ficou transformado no capricho de uma adolescente mimada, que me fez lembrar a letra de um sucesso musical de há muitos, muitos anos (1964), onde Lesley Gore cantava It's my party, and I'll cry if I want to (É a minha festa e choro se me apetecer).

Oh, It's my party, and I'll cry if I want to
Cry if I want to, cry if I want to
You would cry too if it happened to you

Nobody knows where my Johnny has gone
Judy left the same time
Why was he holding her hand
When he's supposed to be mine

It's my party, and I'll cry if I want to
Cry if I want to, cry if I want to
You would cry too if it happened to you

Playin' my records, keep dancin' all night
Leave me alone for a while
'Till Johnny's dancin' with me
I've got no reason to smile

It's my party, and I'll cry if I want to
Cry if I want to, cry if I want to
You would cry too if it happened to you

Judy and Johnny just walked through the door
Like a queen with her king
Oh what a birthday surprise
Judy's wearing his ring

It's my party, and I'll cry if I want to
Cry if I want to, cry if I want to
You would cry too if it happened to you
    

25 fevereiro 2017

MESMO NO ENFIAMENTO PARA A SANITA

Não me estou a referir a nenhuma notícia em concreto, mas há certas peças de informação que, quando aparecem disponibilizadas na comunicação social, fazem lembrar as coincidências da captação desta fotografia: o fotógrafo está no sítio certo no prédio da frente e de câmara assestada, só uma das janelas está aberta e é logo a do lado certo, a porta da casa de banho lá de dentro também está aberta e até a luz está acesa para que se veja quem se utiliza da sanita. Como a tampa da dita está levantada o utilizador deve ser masculino e deve ir urinar. E o mais espantoso é que, numa maioria das vezes, as pessoas nem pensam nos encadeados necessários para que a informação lhes chegue com aquele detalhe e aceitam-no por normal.

24 fevereiro 2017

O FRATRICÍDIO COMO PRÁTICA POLÍTICA

O assassinato do irmão do líder norte-coreano é mais do que uma notícia, é um daqueles verdadeiros retrocessos civilizacionais até aos séculos de barbárie em que o fratricídio como manobra política era prática corrente. Tratou-se de um reforço da imagem internacional da Coreia do Norte como um rogue state. Acima vêem-se as estátuas dos três filhos do imperador romano Constantino que dividiram o império entre si após a morte do pai em 337 d.C.: Constantino (II), Constâncio (II) e Constante. Começaram os três por eliminar os primos para depois se matarem entre si: Constante eliminou Constantino II em 340 para vir a ser eliminado por Constâncio II dez anos depois. Ao contrário destes casos e vivendo no exílio, o defunto Kim Jong-Nam parecia não constituir uma ameaça muito séria para o meio-irmão mais novo Kim Jong-Un que ocupa o poder em Pyongyang. Mas aqui aplicar-se-á provavelmente a jurisprudência do marxismo-leninismo, estabelecida desde o precedente de 1940, quando Estaline mandou assassinar Trotsky na cidade do México. (...) é uma evidência que as concepções de socialismo e de democracia que (Bernardino Soares) defende(mos) estão nos antípodas das deste (daquele) país (...) É sempre bom deixar isso esclarecido, para que não nos baralhemos com o que se escreve lá pelas páginas do Avante!.

23 fevereiro 2017

O QUE VALE É QUE SE ESTÁ SEMPRE A CONQUISTAR MOSSUL...


Esta notícia da Euronews podia passar por recentíssima mas, por acaso, tem mais de três meses e meio. A 1 de Novembro de 2016 era notícia que o exército iraquiano entrara em Mossul.

Esta outra notícia da Euronews é que também podia ser actual, mas não é: tem mais de mês e meio, porque foi a 30 de Dezembro que aquela estação noticiava que o tal exército que entrara em Mossul ia iniciar uma segunda fase da reconquista de Mossul.

E esta notícia, ainda e sempre da Euronews, é que é de facto de hoje, a que nos dá conta que os tais, aqueles que haviam entrado na cidade há uns quatro meses e iriam reconquistar a cidade por fases há dois, afinal só agora é que chegaram ao aeroporto de Mossul.

Tantas vezes conquistada e reconquistada, se fosse a sério, Mossul adquiriria ressonâncias de uma nova Estalinegrado... Que raio, ninguém escrutina a verdade do que dali é noticiado? É que tudo isto parece uma paródia, o aeroporto fica apenas a 3,5 km do centro da cidade... Volta Bagdad Bob, estás perdoado.

JOGOS DE SOMA NÃO NULA

Vê-se que o Expresso desenvolveu mais a notícia de cima do que a de baixo, mas desconfio que o saldo entre as antipatias geradas pela primeira seja substancialmente inferior ao de simpatias geradas pela segunda. Os preparatórios para as presidenciais francesas, além de sórdidos, estão a ser um jogo em que muitas vezes a soma não é zero. A contagem far-se-á nas urnas, mas cada vez mais parece que terão de ser todos contra Marine Le Pen, o que acaba por se tornar uma honra para a própria.

A ALEMANHA FALA!

O padrão parece estender-se desde a propaganda mais primária da Geringonça (à esquerda) até à opinião económica abalizada de Ricardo Paes Mamede (à direita): aquilo que é dito na Alemanha, por ser dito na Alemanha, revestir-se-á de um carácter incontestável. Desta vez refiro estes exemplos porque aquilo que está a ser citado se enquadra no discurso político governamental de cá. Da Geringonça é óbvio que não, mas, de Ricardo Paes Mamede, exigir-se-ia uma justificação mais desenvolvida para o acatamento da opinião do dito instituto - alemão - DIW, para além da chancela simples da sua nacionalidade. É assim um instituto tão reputado? Então realce-se academicamente o seu trabalho e não somente a sua nacionalidade. Senão, depois não se deve estranhar que, nesta guerra de opiniões, os assuntos sejam debatidos superficialmente porque, para os refutar, é simples e não há nada mais igual a um alemão do que ir arranjar outro alemão... como, por exemplo, o famosíssimo Herr Schäuble! Que diz coisas nos antípodas destas e esse, ainda por cima, é ministro. E com isso, todos fazemos uma triste figura de submissos!

O BOMBARDEAMENTO DE ELLWOOD

Hoje comemoram-se os 75 anos do bombardeamento das costas da Califórnia pelo submarino japonês I-17, episódio relativamente obscuro da Segunda Guerra Mundial que se veio a celebrizar anos depois, quando foi reproduzido em jeito de paródia no filme 1941 - Ano Louco em Hollywood (1979). Na realidade, foi já em 1942, a 23 de Fevereiro e pelo fim da tarde (19H00), que se deu o incidente que veio a ficar conhecido por bombardeamento de Ellwood e que inspirou uma correspondente no filme. O alvo dos tiros do canhão de 140 mm único do I-17, o submarino comandado pelo capitão Kozo Nishimo, foi uma refinaria e um depósito de combustíveis...
...e não propriamente um parque de diversões como acontece no filme mas, de acordo com os relatos, o resultado foi igualmente inócuo em perdas humanas e ridículo em materiais, senão menos, caso se valorize a espectacularidade da destruição da roda gigante no filme de Spielberg (abaixo). No real, durante uns bons vinte e tal minutos, os japoneses fizeram fogo à vontade - entre uma a duas dúzias de disparos - e no fim a única reacção (se assim a quisermos chamar) do dispositivo de defesa foi a promessa de um ajudante do xerife local que, pelo telefone, prometeu a um dos visados a chegada da aviação. Até hoje, só que hoje chamar-lhe-íamos, à promessa, um tweet de Trump.

22 fevereiro 2017

«IT COULD BE A YUGE PROBLEM»

Depois do anúncio da descoberta de um sistema de sete exoplanetas em redor da estrela Trappist 1, e por causa da possibilidade de que algum dos planetas ora descoberto possa ser habitado, foi de uma outra estrela que eu me lembrei, uma que tem iluminado os nossos dias informativos e que por momentos passou em recato, até regressar brevemente ao estrelato que é seu, por direito... A sério: os americanos (no caso a NASA) têm tanta tendência para se apropriarem de tudo em que se metem que nem destaque foi dado ao facto de que a equipa responsável pela descoberta ser belga, um projecto da Universidade de Liége.

A PROPORCIONALIDADE DAS CRÍTICAS

Já houve tempo em que atribui a culpa à comunicação social, mas já me apercebi que é o próprio estilo como são redigidos os relatórios anuais da Amnistia Internacional a causa principal para que aconteça o disparate noticioso que se pode apreciar acima. O antigo Portugal do Minho a Timor é, todo ele, passível de algum género de censura por parte dos activistas da organização. Para o conjunto, porém, não parece haver uma escala aferida e comparativa do que deve censurar mais em cada país e, por norma, todos os países são igualmente censuráveis e com a mesma veemência. O resultado é que se gera uma diluição dos actos mais condenáveis, e cria-se a aparência que tudo se equivale, aproximadamente. Desde uma ditadura que encosta os seus opositores políticos à parede e os fuzila, até a uma democracia onde há uns polícias renegados que arreiam (e não podiam...) nos detidos. É tudo muito grave, e sendo assim tudo tão grave, o que de facto o é, deixa de o ser. Tanto mais que as ditaduras, tanto mais férreas sejam, tanto mais se costumam estar a marimbar para o que os membros da Amnistia digam ou façam.

21 fevereiro 2017

OS CONDENÁVEIS E OS INCONDENÁVEIS

Por abaixo ter falado de Richard Nixon e de efemérides, vale a pena falar de uma outra que lhe está também associada, embora bastante mais desagradável: a 21 de Fevereiro de 1975 e no seguimento de um dos julgamentos associados às revelações do Escândalo Watergate, o antigo Procurador-Geral dos Estados Unidos, John Mitchell, o Chefe de Gabinete do Presidente, Bob Haldeman, e um dos Conselheiros presidenciais, John Ehrlichman, eram condenados a (pelo menos) dois anos e meio de prisão (até um máximo de oito anos, notícia acima). Só que, para a severidade da sentença, terá contribuído indiscutivelmente a resignação do próprio Richard Nixon, que havia tido lugar seis meses antes. A Justiça pretende ter a reputação de independente, mas a constatação é que são raríssimos os episódios de sancionar quem esteja próximo do Poder. Pensando numa sentença de absolvição de um caso bem recente, será que alguém alguma vez imaginou a possibilidade real de que a irmã do rei de Espanha fosse condenada a cumprir pena numa penitenciária espanhola?...

VISITAS PRESIDENCIAIS

Neste mesmo dia 21 de Fevereiro mas de há 45 anos, o presidente norte-americano Richard Nixon dava início a uma surpreendente, mas também controversa, visita a Pequim e à República Popular da China. Sinal dos tempos, mas também da evolução da geopolítica, uma visita do seu longínquo sucessor Donald Trump vê-se agora envolvida também em controvérsia. Não que isso seja novo, já que quase todos os presidentes dos Estados Unidos, incluindo também o próprio Nixon, tiveram a sua quota-parte de controvérsias quando de algumas deslocações ao exterior. Mas o que é perfeitamente inusitado é o destino desta futura, mas já controversa, visita de Donald Trump: Londres, capital do mais indefectível aliado europeu dos Estados Unidos e onde, aliás, ontem houve um animado debate parlamentar, precisamente a respeito do assunto (abaixo). De uma outra forma, quem sabe se a visita de Donald Trump ao Reino Unido não estará destinada a tornar-se também histórica?...

(Nota: Bom texto evocativo da efeméride de José Carlos Lourinho.) Sobre o resto, reconheça-se que se parecem viver dias históricos, onde se testam os limites da aceitação da Realpolitik pelas opiniões publicadas e públicas. Dos tempos do apogeu do cavaquismo (há uns 25 anos!) lembro-me de uma piada, em que se previa que, fosse Cavaco Silva engolido inteiro por um crocodilo, no Congresso do PSD que se seguisse, o crocodilo era eleito presidente do partido. Também neste caso, o Reino Unido - com acontece connosco, de resto - obriga-se a cortejar o presidente dos Estados Unidos, seja ele quem for e o que for. Agora ajudaria que os eleitores norte-americanos não dificultassem a tarefa, elegendo uma galinha ou um cavalo para ocupar o cargo...

TURISMO, TERRORISMO E OUTRAS ACTIVIDADES ACABADAS EM ISMO

É perfeitamente pertinente especular se muito do que passa por serem sucessos da nossa economia depende afinal numa boa parte de circunstâncias que são alheias ao nosso controlo.
É o contraste absoluto com aqueles governantes que se fazem à fotografia tentando capitalizar como seu um sucesso que a continuação dos factos vem a demonstrar nada ter a ver com a sua acção.
Ainda para mais quando, para além de não terem contribuído em nada para os resultados, o seu diagnóstico da situação se vem a mostrar redondamente errado.
Como político, considero Paulo Portas um bom político embora antipatize visceralmente com a imagem pública que projecta. Como governante, e como se constata acima, é um fiasco.

20 fevereiro 2017

A «OBJECTIVIDADE» DO OBSERVADOR

É preciso ter a objectividade do Observador para conseguir criticar o governo em dias encadeados por algo e também pelo seu contrário: acima, é criticado por se ter mostrado excessivamente optimista nas expectativas quanto ao crescimento económico em 2016 (e eu aí comungo da crítica, não embarco na técnica das expectativas deslizantes ao longo do ano...); em baixo, é criticado por se ter mostrado demasiado pessimista e por nem ter previsto a redução que se registaria no défice orçamental do mesmo ano (esta crítica já eu tenho uma certa dificuldade em compreender - assinada ainda por cima por Helena Garrido, fica-se com aquela certeza que nem no mais óbvio a senhora estará com disposição de dar créditos ao governo).

THE WORLD ACCORDING TO TRUMP (O estranho mundo de Trump)


Serão os tiros do vídeo abaixo exemplos dos atentados na Suécia a que o presidente Trump se estaria a referir no vídeo acima?...

É que, se for assim, os donuts são as vítimas...

19 fevereiro 2017

O PRIMEIRO ATAQUE AÉREO À AUSTRÁLIA

Há precisamente 75 anos, a Austrália sofreu o primeiro ataque registado da sua História. Foi um raid aéreo ao porto de Darwin perpetrado precisamente pelas mesmas esquadrilhas da força aeronaval que, dois meses e meio antes, atacara Pearl Harbor. O comandante das 188 aeronaves era o mesmo Mitsuo Fuchida que se cobrira de glória naquela outra ocasião. No caso e em complemento, os cerca de 60 navios que estavam fundeados no porto australiano vieram a ser atacados também por esquadrilhas de bombardeiros (54) que haviam descolado de bases aéreas de ilhas da Indonésia que entretanto haviam sido conquistadas pelos japoneses.
Darwin era então uma pequena cidade de 5.800 habitantes (em tempo de paz) situada no extremo Norte da Austrália e que era a capital do mais remoto e despovoado dos seus Territórios, o do Norte. Só a expansão militar dos japoneses por toda a Ásia e Pacífico é que lhe conferira subitamente aquela importância estratégica desmedida como potencial porta de entrada para o continente australiano. Aos 242 aviões que os japoneses puseram no ar a RAAF apenas podia opor uma trintena deles. O desfecho do raid era antecipável: toda a aviação foi destruída, 11 navios foram afundados, 25 ficaram danificados, contaram-se 236 mortos e 300 a 400 feridos.
Como em Pearl Harbor, as perdas entre os atacantes foram ínfimas: 4 aparelhos abatidos, 2 mortos. O que distingue o episódio do de Dezembro de 1941 nas ilhas Hawaii foi a sua (não) utilização como elemento de propaganda para mobilizar os australianos. Na Austrália o episódio foi tratado com muito mais discrição, porventura pelo receio que acendesse no público o receio de uma invasão. Este ataque aéreo de 19 de Fevereiro de 1942 foi, aliás, o primeiro de uma longa sucessão deles que, entre Fevereiro de 1942 e Novembro de 1943 tiveram lugar ao longo das costas despovoadas do Noroeste da Austrália. Hoje, quase ninguém sabe que eles tiveram lugar.

O DONALD E O DOPEY

Corrida para Oklahoma (Ruée sur l'Oklahoma, no original) é uma história de BD protagonizada por Lucky Luke (desenhada por Morris, concebida por Goscinny). Data de 1958 mas uma das passagens da história (passagem que compactei abaixo) é prescientemente moderna. É que houve necessidade de organizar eleições para o governo da cidade. Surgiram múltiplas candidaturas, incluindo a do idiota local, Dopey. E os eleitores candidatos, pelo despeito de quererem votar uns nos outros, acabaram por votar - e eleger - Dopey. E depois os eleitores desataram a protestar, enquanto Lucky Luke (que é sempre o paradigma da seriedade) os confrontava com as responsabilidades daquilo que haviam feito. O único aspecto que escapará à analogia é que não sei se o conjunto da sociedade norte-americana já atingiu o patamar de indignação que se vê no penúltimo quadro da história abaixo: é que Donald Trump tem presentemente (e ainda) uma taxa de aprovação rondando os 40%!

POR SER RARÍSSIMO, É QUE VALE A PENA DESTACAR RECONHECIMENTOS DESTES...

O reconhecimento do engano é tanto mais de saudar quanto Paulo Ferreira é um jornalista com um passado onde demonstrou ter mais argúcia botânica do que lógica aritmética, recorde-se este seu artigo no Observador que foi publicado logo a seguir às eleições de Outubro de 2015, ainda a Geringonça era um projecto relutantemente encarado por quase todos nós (eu incluído). E há também o reconhecimento implícito do meu amigo Alfredo Costa que, apesar de não ser pessoa que dê na televisão mas porque havia uma espécie de despique em jogo, é pessoalmente mais importante para mim do que o do Paulo Ferreira... Claro que, neste último caso, vamos seguir para Bingo...

18 fevereiro 2017

A REVOLUÇÃO RUSSA, COMO ELA DEVIA SER CONTADA NA OPINIÃO DE RAQUEL VARELA

De um eloquente texto escrito por Raquel Varela e publicado recentemente no blogue brasileiro Esquerdaonline (de que recomendo a leitura, nem que seja por profilaxia do disparate), recuperei este parágrafo abaixo:
 
"O grande revisionismo deste centenário (fala-se da segunda Revolução Russa de 1917) tem algo de estalinista, curiosamente. Ele faz-se publicando biografias de Estaline, livros, “esquecendo” os dois dirigentes máximos da revolução, Lenine e Trotsky. E todos os outros. Apagando-os da fotografia. E lá para o fim da biografia do Estaline colocar algo como «se tivesse sido Lenine ou Trotsky tinha sido igual». Na profissão de historiador chama-se a isto um «contractual», o «se». Na falta de factos inventa-se um «se»."
 
Na verdade, o contractual tanto se aplicará à tese que Raquel Varela censura como àquela que ela defende: pura e simplesmente nada de taxativo se poderá dizer como teria sido a URSS de Trotsky. E, objectivamente, foi Lenine e não Estaline a mandar assassinar a família de Nicolau II. Eu até posso perceber a racionalidade política de executar o monarca, mas... o resto da família? Discuta-se porém da opinião de Raquel Varela algo que possa ser objectivamente mensurável como será a questão das biografias de Estaline e do esquecimento das dos outros. Consultem-se as páginas da Amazon, a maior livraria on-line, e contem-se as edições recentes em inglês de biografias das grandes figuras comunistas da Revolução de 1917: desde 2010 sobre Estaline publicaram-se 5 biografias: Robert Service (2010), Simon Sebag Montefiore (2014), Oleg Khlevniuk (2015), Robert Payne (2015), Stephen Kotkin (2015); sobre Lenine foram 4: Robert Service (2010), Robert Payne (2015), Catherine Merridale (2016) Victor Sebestyen (2017); e sobre Trotsky outras 4: Robert Service (2010), Isaac Deutscher (2015), Robert Payne (2015), Victor Serge (2016). Sobre Lenine prepara-se a edição para Julho próximo de uns comentários de Slavoj Žižek, um filósofo esloveno marxista muito na moda, mas já nem será isso que mais interessa, o panorama editorial acima desmente completamente a descrição de Raquel Varela de uma cabala que destaca Estaline em detrimento dos muito mais genuínos revolucionários Lenine e Trotsky. O que ela escreveu é mentira, e isso já por si é merecedor do nosso escárnio. Mas também é um disparate, atente-se a algumas outras passagens do texto:

"...hoje as evidências históricas são incontornáveis. Demonstram, ao contrário da tese mediatizada, que há um corte radical entre a política bolchevique (1917-1927) e a política Estalinista (1927-1989)..." "Explico-me. (...) O Socialismo é abundância, a URSS era restrição, escassez." "Celebrar os 100 anos da revolução (...) com a figura tétrica de Estaline dá jeito a quem quer manter a apoplexia intelectual de que não há alternativa aos regimes actuais..."
 
Claro que há e haverá cada vez mais alternativas aos regimes actuais. Mas o que essas alternativas não serão, estou convicto, é recuperações de ideias velhas de cem anos como Raquel Varela parece desejar pelo que escreve. Como, adiante-se, há cem anos as alternativas não seriam recuperações das ideias velhas de 125 anos antes, que seria a referência da Revolução francesa de 1789. O destaque dado a Estaline no encadeamento da Revolução russa acaba por ser o equivalente ao que tem de ser dado a Napoleão no encadeamento da Revolução francesa. Isso goste-se ou não das duas figuras: foram eles os protagonistas da História. Onde não há cegueira combinada com obtusidade ideológica não há historiadoras a reclamar pelo destaque que é dado a Napoleão e pelo injusto lugar modesto na História que é conferido a Danton, Marat e Robespierre... - por muito puros que houvessem sido os ideais destes últimos três.

O PRESIDENTE É MENTIROSO


É muito difícil levar a sério alguém que comete uma galga («...creio que foi a maior vantagem no colégio eleitoral desde Ronald Reagan...»), para depois tentar evadir-se perante a demonstração de que era mentira («...eu estou a referir-me a (presidentes) republicanos...»), até à tentativa desesperada final de desresponsabilização («...deram-me essa informação, não sei, deram-se essa informação...») quanto ficou patente que a galga era loa tanto para democratas como para republicanos. Eu creio que ajudava à seriedade da coisa que se abandonassem os hábitos de designar tais expedientes por inverdades, factos alternativos e eufemismos quejandos. Os números estão errados, os factos são falsos e o presidente é mentiroso.