20 janeiro 2017

COMO UM ANTIBIÓTICO DE LARGO ESPECTRO

Há quem se lembre dos tempos em que Paulo Portas era anti-europeu. Mas também haverá quem se lembre de outros tempos em que já foi pró-europeu. Pois agora parece que é a-europeu. A Europa está a seguir uma "receita para o desastre". «No shit, Sherlock!» Paulo Portas está para as opiniões assim como o recém-falecido Mário Soares esteve para a geografia. Deste último se dizia, por causa das suas inúmeras viagens, que, se Deus está em toda a parte, Soares também já lá tinha estado. Analogamente, de Paulo Portas também se pode reconhecer o quanto ele pode desempenhar como mais ninguém a função de pivot no meio de um leque de opiniões distintas, porque só ele para possuir a empatia de as compreender: já teve essas opiniões todas entre agora e o passado. Há quem o critique por este comportamento, quem não se afeiçoe à ideia de o ouvir falar agora em termos muito críticos do populismo, mas o percurso político de Paulo Portas desde o Independente até hoje, mostra-se tão abrangente nas convicções que (e já que o ouvimos falar acima de receitas) elas servem para todos os momentos e todas as doenças, é como se fossem um antibiótico de largo espectro.

JACQUES DORIOT e O COMITÉ DA LIBERTAÇÃO FRANCESA

A 6 de Janeiro de 1945 Jacques Doriot (acima) anuncia aos microfones de Radio-Patrie (sedeada na Alemanha) a fundação do Comité da Libertação francesa («Comité de la Libération française»). A inspiração com o que acontecera quatro anos e meio antes a partir de Londres é demasiadamente evidente para poder ser desmentida. Mas quem é Jacques Doriot, este Charles de Gaulle tardio que as vicissitudes de guerra transformaram num peão dos interesses alemães e que a História virá depois a condenar ao esquecimento? Jacques Doriot (1898-1945) começara por ser uma estrela em ascensão entre os quadros do Partido Comunista Francês (PCF): eleito deputado aos 25 anos por Saint-Denis (comuna operária dos arredores ao norte de Paris), Jacques Doriot veio também a ganhar as eleições municipais tornando-se o maire da localidade de 1930. Saint-Denis era simultaneamente um bastião comunista mas também um feudo pessoal de Jacques Doriot. Tanto assim que nas eleições gerais de 1932, onde se assistiu ao primeiro recuo significativo da votação nos comunistas (-3%), Doriot foi o único dos dez deputados comunistas a ser eleito logo à primeira volta, com mais de 50% dos votos no seu círculo eleitoral. Mas esse prestígio entre os militantes em França nada pôde fazer para contrariar as opções e directivas emanadas de Moscovo e do Comintern que privilegiavam outra grande estrela em ascensão, o seu grande rival, Maurice Thorez (1900-1964), que se tornara entretanto o secretário-geral dos comunistas em 1930.

A rivalidade pessoal entre os dois, disfarçada de uma discordância quanto à tactica política a adoptar (anacronicamente, foi a tese de Doriot, a da formação de uma união de todas as esquerdas, a que acabou por vingar), levou a que Jacques Doriot viesse a ser expulso do PCF. Em 1936 fundava o Partido Popular Francês (PPF), uma formação ideologicamente fascista a que ele adicionava toda a sua experiência política prévia, nomeadamente uma reputação invejável como orador de meetings políticos (veja-se o vídeo). Alguns dos quadros do novo PPF (de que Paul Marion é apenas o exemplo mais destacado - chegou a ministro do governo de Vichy) haviam feito viagens ideológicas muito semelhantes à do seu líder. É uma direita totalitária que não se distingue assim tanto da esquerda totalitária na sua iconografia (veja-se abaixo a invocação do 1º de Maio), nem na sua arrogância, ao consideraram-se a (nova) ideologia do futuro: sob a fotografia de Jacques Doriot que aparece acima, pergunta-se se ele será o homem do amanhã. Não foi, mas registe-se a petulância... Muito disto começa anos antes do começo da Segunda Guerra Mundial. Foi a ocupação alemã, a opção pelo colaboracionismo e o efeito abarbatador dos interesses alemães e do nazismo que reduziram toda aquela gente a um papel de figurantes e que os mandaram para o lado dos vencidos da guerra e dos esquecidos da História. Mas existe uma tal simplificação na forma como eles foram remetidos desde sempre e apenas ao papel de colaboracionistas, que sempre me perguntei se isso se deveria apenas à ignorância e/ou à negligência...

19 janeiro 2017

O NOVO «GÉMEO» MORTÁGUA

Para quem andar atento aos problemas políticos da Saúde, já se deve ter apercebido da emergência do deputado Moisés Ferreira do Bloco de Esquerda, em vias de se tornar um enfant terrible sobre o assunto e que está em vias de se transformar numa espécie de gémeo Mortágua para os assuntos da Saúde. Já fazia falta. Assim como o grupo parlamentar do Bloco se sentiu órfão da argúcia para as finanças quando do abandono do parlamento em Outubro de 2012 por Francisco Louçã (forçando a entrada à martelada de Mariana Mortágua, vinda lá do enésimo lugar de candidata a deputada), o abandono de João Semedo também se tem vindo a fazer sentir. Não deixa de ser irónico, para quem ainda se lembra das intervenções de Semedo, ouvir este seu sucessor começar por manifestar as suas preocupações tendo agora como pretexto o Hospital Amadora-Sintra (vídeo abaixo), quando aquele mesmo Hospital era o alvo predilecto dos ataques de João Semedo quando ali vigorava uma parceria-público-privada (PPP). Os mesmos problemas do mesmo hospital, que antes eram inadmissíveis, passaram agora a ter justificação. Consistência é coisa que não abunda por aquela bancada, substituída por uma coerência maniqueísta - público bom/ privado mau - sejam quais forem os factos. Mas aquilo que mais me intriga nem sequer é isso: é a promoção inusitada que conseguiu levar Moisés Ferreira, até agora um desconhecido, a ter acesso destacado às páginas (electrónicas) do Observador, em réplica a um artigo do sempre selecto José Manuel Fernandes, que lhe conferiu até a honra de o distinguir com uma tréplica. E imagine-se: o texto de Moisés Ferreira é tão pobre em argumentos outros que não os ideológicos, que José Manuel Fernandes até tem razão!...

«FROM GREECE WITH LOVE»

Há notícias que, principalmente por as lermos no Observador, parecem ter sido escritas inspiradas em alguém dos quadros do mesmo jornal. Neste caso, este pequeno sucesso acima da Grécia de Tsipras mereceria uma dedicatória explícita a José Manuel Fernandes que, recorde-se abaixo, passou todo o ano de 2015 particularmente preocupado com o que poderia vir a acontecer àquele país. Querem lá ver que os governos de esquerda também conseguem alcançar resultados positivos em execuções orçamentais? É assim que a gente os topa, aos jornalistas independentes...

18 janeiro 2017

DEMÉTRIO, O IMPOSTOR

Por muito que esteja a ser desagradável a muita gente a futura ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a verdade é que há que reconhecer que a sua posse se fundamenta na legitimidade. O que já não se pode dizer de outros episódios da História Universal que assentaram em verdadeiras fraudes, nomeadamente um que aqui se contará, ocorrido nos princípios do século XVII na Rússia que hoje é de Putin. Regresse-se até Março de 1584, quando morreu Ivan-o-Terrível, o famoso Tsar louco. Depois de ter morto o mais velho, Ivan deixava dois herdeiros: Feodor (versão russa do nome Teodoro) de 26 anos e Dimitri (Demétrio) com apenas 18 meses. O primeiro era uma fraca figura, que, quando da subida ao trono, foi rapidamente dominada pelo cunhado Boris Godunov, o irmão da tsarina. Como o casal não produziu nenhum herdeiro, Dimitri, apesar de criança, permaneceu um importante factor político por causa da questão da sucessão. Até que em 1591, quando Dimitri tinha 8 anos, ele morreu, presumivelmente vítima de um acidente. Claro que se desconfiou de Boris Godunov, pois assim seria sem problemas que ele herdaria o trono em caso de morte do cunhado, o que veio precisamente a acontecer em 1598. O Tsar Boris acabou por ter um reinado muito complicado. Entre 1601 e 1603 um encadeamento de más colheitas e a consequente fome provocou uma revolta generalizada na Rússia. A encabeçar os descontentes, mas também com apoio dos vizinhos polacos, apareceu uma figura que se reclamava ser Dimitri, o filho de Ivan-o-Terrível que afinal não morrera no tal acidente em 1591 e permanecera escondido depois disso. Em vários aspectos, o fenómeno assemelha-se ao sebastianismo que, em período contemporâneo, grassou por Portugal. Só que na Rússia foi muito mais bem sucedido: aproveitando a morte do Tsar Boris e a fase de consolidação do poder do seu filho e herdeiro Feodor II, o falso Dimitri (que, na verdade, se chamava Gregório Otrepiev) conseguiu conquistar Moscovo, depor (e executar) Feodor e tornar-se o Tsar com o nome de Demétrio. A mãe (do verdadeiro Dimitri) reconheceu-o. Foi coroado. Adquiriu legitimidade política: o sonho de qualquer escroque - imagine-se Vale e Azevedo a tomar posse como presidente da República! O seu poder veio a revelar-se, porém, tão frágil quanto aquele que ele acabara de derrubar. O reinado do falso Demétrio durou menos de um ano - de Junho de 1605 a Maio de 1606. A pedra de toque foi a questão polaca e a questão religiosa (que eram sinónimas porque os polacos eram católicos e os russos ortodoxos). Ao casar com uma polaca que não abjurou da sua religião conforme eram as tradições dos czares, Demétrio, o Impostor precipitou uma revolta encabeçada pelos boiardos (nobres), que o mataram numa peripécia reminiscente à desdita de Miguel de Vasconcelos. Mas esse não foi o fim da história porque, confiantes no sucesso da personificação do filho do Terrível, mais dois outros Dimitris falsos apareceram, de forma (naturalmente) encadeada: um entre 1607 e 1610 e outro entre 1611 e 1612. Acabavam sempre mortos mas a personagem parecia ter várias vidas como se se movimentasse por um jogo de computador moderno. Comparado com tudo isto, Donald Trump, até passa pela respeitabilidade de ser quem ele afirma que é... pelo menos até ver.

IRONIA ÀS DUAS TABELAS

Frases destas, mesmo sabendo-se preparadas de antemão e por profissionais, não as tínhamos na política com Pedro Passos Coelho e muito menos com José Sócrates. São frases muito bem dispostas, de uma ironia inteligente a roçar o sarcasmo que tanto martela o partido à sua direita quanto, por acaso, prega uma valente cotovelada nos do seu lado esquerdo. É uma pena que a esmagadora maioria da opinião publicada - para não falar d@s tenores das redes sociais - não saiba apreciar o que é bom.

17 janeiro 2017

«WARDROBE MALFUNCTION»

A cerimónia já tem uns meses, decorreu em Setembro passado e o pretexto foi o Festival de Veneza (na sua 73ª edição). As duas senhoras e o senhor não constam nem da lista dos concorrentes e muito menos da dos premiados, mas, indiscutivelmente, terão causado imensa sensação. O que me parece uma hipocrisia a dar para o cómico, é o gesto de se designar mediaticamente aquilo (que acima se pode apreciar) por wardrobe malfunction - como se o wardrobe em questão não parecesse ter sido concebido propositadamente para funcionar mal... Para os mais interessados as senhoras chamam-se Giulia Salemi (a de laranja) e Dayane Mello (a de rosa). Quanto ao senhor não faço a mínima ideia como se chama, mas desconfio que isso pouco interessará; aliás, alguém reparou que ele calça sapatos sem meias?...

O AXIOMA MAIOR DO JORNALISMO «DESPORTIVO» PORTUGUÊS

Na Lógica, um Axioma é uma preposição tida por uma obviedade tal que é aceite como Verdade, dispensando qualquer demonstração ulterior. Um exemplo que podemos e queremos invocar para este texto, é aquele que subsiste no estilo mais popular do jornalismo «desportivo» em Portugal: estabelece o tal axioma que o Benfica nunca sofre golos regulares quando joga no estádio da Luz. E quando sofre três golos numa partida, como aconteceu no jogo deste fim de semana contra o Boavista, não é o ridículo que impede o axioma de subsistir - veja-se acima um programa da TVI24 em que os três golos boavisteiros são analisados por especialistas que concluem o que é previsível de acordo com o axioma acima. Recorde-se que o jogo terminou empatado 3-3 mas, para os mesmos especialistas, não parece haver qualquer razão para questionar a legalidade de qualquer dos 3 golos do Benfica. O futebol (este futebol), a mim não me entretém, mas diverte-me imenso.

OS QUARENTA ANOS DO APOGEU DO TERRORISMO SELECTIVO

No período de quarenta anos que se estendeu de 1881 a 1920, contaram-se treze chefes de Estado que morreram assassinados, numa regularidade média trienal. Conjuntamente com os Estados Unidos, Portugal tem a duvidosa honra de figurar nessa lista com dois nomes. Por ordem cronológica foram:

a) Alexandre II (1818-1881), Tsar da Rússia, Março de 1881
b) James Garfield (1831-1881), Presidente dos Estados Unidos, Setembro de 1881
c) Sadi Carnot (1837-1894), Presidente de França, Junho de 1894
d) Nasser Al-Din (1831-1896), Xá da Pérsia, Maio de 1896
e) José Maria Reina Barrios (1848-1898), Presidente da Guatemala, Fevereiro de 1898
f) Ulises Heureaux (1845-1899), Presidente da República Dominicana, Julho de 1899
g) Humberto I (1844-1900), Rei de Itália, Julho de 1900
h) William McKinley (1843-1901), Presidente dos Estados Unidos, Setembro de 1901
i) Alexandre I (1876-1903), Rei da Sérvia, Junho de 1903
j) Carlos I (1863-1908), Rei de Portugal, Fevereiro de 1908 (na imagem)
k) Jorge I (1845-1913), Rei da Grécia, Março de 1913
l) Sidónio Pais (1872-1918), Presidente de Portugal, Dezembro de 1918
m) Venustiano Carranza (1859-1920), Presidente do México, Maio de 1920

16 janeiro 2017

QUANDO LEITORES E JORNALISTAS ERAM IGUALMENTE INGÉNUOS

24 de Setembro de 1988. Um jornal canadiano exulta com a medalha de ouro de Ben Johnson na corrida de 100 metros dos Jogos Olímpicos de Seul. Três dias depois rebentava o escândalo do seu doping com esteróides anabolizantes. O título do jornal é falso mas é puro. Nesses outros tempos havia uma outra relação de confiança entre leitores e jornalistas: os primeiros confiavam que os segundos, quando falhavam, o faziam sem conhecimento de alguns factos porque, se o soubessem, tê-lo-iam denunciado; os profissionais haviam sido apanhados de surpresa tanto quanto eles. Agora já não é bem assim...há mentiras que se sabem plantadas com a conivência de quem assina.

«VOCÊ COMPRARIA UM CARRO USADO A UM JORNALISTA?»

Sabe-se quanto os critérios editoriais que presidem à concepção das capas dos jornais desportivos em Portugal são bizarramente locais. Tanto, que esses critérios conseguem até surpreender os colegas de profissão, como aconteceu há pouco mais de um mês, quando na BBC se estranhou a arrumação que A Bola dera na sua capa aos jogos europeus disputados pelas equipas portuguesas na véspera: uma tareia de 5-0 dada pelo Porto aos campeões ingleses fora remetida para as bordas, enquanto o destaque ia, saboroso, para o fracasso do Sporting na mesma competição. Há que saber o que contenta um leitor típico daquele jornal! Ontem, não só A Bola, mas também as edições da manhã dos três canais informativos coincidiam no alinhamento/destaque que se pode ver abaixo. Tendo tanto Benfica quanto Sporting empatado os seus jogos, a precedência ia estranhamente para o do Sporting e não para o Benfica, campeão, líder da classificação e a quem o semidesaire se afiguraria mais gravoso porque disputara o jogo em casa. Quiçá o critério para tal arrumação da importância dos respectivos jogos reflectisse a máxima de que «pimenta, desde que seja no cu dos outros, é refresco». Uma coisa me parece inequívoca: tivesse o Benfica ganho o jogo como lhe competia, qualquer que fosse o desfecho do jogo do Sporting em Chaves, o alinhamento/destaque teria sido o inverso. Neste momento, com A Bola e os seus rivais a praticar jornalismo deste jaez, os jornais dos clubes são um desperdício de papel. Quanto aos alinhamentos daqueles jornais de hora a hora da SIC Notícias, da RTP3 ou da TVI 24, pena que não sirvam para forrar a caixa do gato...

JANIS JOPLIN (mosaico de fotografias)

Fotografia superior de Art Kane. Fotografias inferiores de (da esquerda para a direita) Ricky Ferreira, Richard Avedon e Linda McCartney.

15 janeiro 2017

ELBPHILHARMONIE

Acabada de inaugurar a 11 de Janeiro de 2017 em Hamburgo, nas margens do Elba, a Elbphilarmonie é a mais recente e uma das mais imponentes salas de concertos da Alemanha. Segundo o que se pode ler na própria página em inglês da wikipedia que lhe é dedicada, a conclusão do projecto demorou o triplo do tempo que fora inicialmente previsto (nove em vez de três anos) e a sua execução saldou-se por custos que excedem o triplo do orçamento inicial (789 vs. 241 milhões). Isso na versão mais benigna, porque existem outros cálculos: a revista The Economist, por exemplo, estimou que os custos totais ultrapassaram por 11 vezes o orçamento inicial do projecto! Temos assim, com as suas nuances, um outro CCB ou uma outra Casa da Música. E uma de duas: ou os alemães andam a aprender com os portugueses, ou os portugueses afinal nunca foram tão diferentes dos alemães...

«CASO ENCERRADO»

A propósito da forma como se encerrou o caso envolvendo a agressão perpetrada pelos dois filhos do embaixador do Iraque em Portugal, ocorreu-me este episódio de Achille Talon, onde se percebe que a componente pecuniária e a outra, a emotiva, de uma agressão podem e até costumam coexistir. E é perante tanta publicidade e tanto zelo em prol do encerramento do caso, que nos apetece perguntar, quando se inventam para aí tantas causas para tanto crowdfunding, se não seria pertinente usar o mesmo método para financiar uma futura indemnização para encerrar um outro caso, nas pessoas dos dois filhos do embaixador do Iraque.
Adenda: Felicitava-me eu pela argúcia da proposta acima, quando descobri no Imprensa Falsa quem é muito melhor intérprete do espírito empreendedor dos portugueses: Já há portugueses a largar os seus empregos para andarem à tareia com os filhos do embaixador do Iraque. A ideia boa não será portanto arriar-lhes, que isso seria próprio de um Portugal de Camões a malhar nos mouros, a ideia própria para esta modernidade é enfardar para ganhar uns tostõezinhos para a bucha.

14 janeiro 2017

DIGA UM!!! Manel... Manel... DIGA UM!!!!

Não sei por quanto tempo a nossa memória colectiva reterá no seu anedotário este episódio burlesco entre Manuel Serrão e Pedro Guerra. O que se constata é que já decorreram três meses depois de ele ter acontecido, o que é tempo mais do que suficiente para que os responsáveis da TVI afastassem os protagonistas da cena, até discretamente, se essa fosse a sua genuína intenção. Não o tendo feito, torna-se límpido não apenas ao que vem a TVI, mas por quem a TVI nos toma. E eu, por muito que não goste destes episódios burlescos e que só os suporte quando eles têm a aparência de terem sido espontâneos, não faço parte de uma vara de porcos a quem se sirva esta vianda audiovisual, para mais quando, à posteriori, recaem estas suspeitas de ter sido encenada.

AS NOTÍCIAS «DELES» E OS «NOSSOS» MEIOS DE RESPOSTA

Significativo e simbólico a meio do 4º congresso de jornalistas, este episódio envolvendo a notícia acima e o desmentido que encontrei publicado no facebook abaixo. Explique-se melhor a coisa: a notícia do Observador assenta na interpretação dada pela jornalista (terá sido mesmo ela?...) «a uma carta de cinco páginas» endereçada ao ministério público e que foi escrita... precisamente pelo (general) António Menezes que abaixo critica a interpretação e as conclusões no seu facebook. É curioso que, nem o autor, nem sobretudo a jornalista se refiram a qualquer tentativa de contacto desta última com o primeiro, para que os comentários do autor da carta a respeito do que ele próprio escreveu pudessem ser incluídos na notícia. Talvez, desconfia-se, porque com eles, a notícia deixasse de ser... notícia. De facto, esta interpretação mais picante do depoimento escrito parece mais ser oriunda do lado dos destinatários da missiva do que do lado dos seus autores. Fossem os tempos outros e a indignação de António Menezes esgotar-se-ia e dissipar-se-ia em telefonemas para a redacção deste e doutros jornais onde a mesma notícia foi publicada. A irritação e a frustração poder-se-ia consubstanciar até em acusações (não fundamentadas e ouvidas apenas pelos próximos) de que o episódio se poderia dever à revanche da procuradora Cândida Vilar por causa da sua atitude não muito deferente para com o poder judicial. Mas toda aquele (hipotético) dispêndio de energia teria ficado desconhecido da quase totalidade das pessoas. Hoje o facebook terá melhorado apenas marginalmente a situação. Entre o alcance de um jornal como o Observador e o facebook de um privado como António Menezes a assimetria ainda é enorme. Mas a verdade prosaica é que, apesar dessa desproporção, os jornalistas deixaram de ficar com a última palavra (escrita). E isso estará a ter um efeito arrasador na reputação da classe. Mas eu suponho que não é bem isso que os jornalistas estão a tratar no seu 4º congresso...

13 janeiro 2017

«COMBATE SOCIALISTA»

Com os meus agradecimentos ao ephemera de José Pacheco Pereira, eis a primeira página de uma edição de há 30 anos de Combate Socialista, o órgão dos trotskistas portugueses. Francisco Louçã já emergira como o líder do grupo, que se apresentara às eleições legislativas de Julho daquele ano e recolhera 33.000 votos (0,6%). Mas o assunto dominante desta edição seria naturalmente a evocação do 70º aniversário da revolução soviética acompanhada das críticas ao reformismo então promovido por Mikhail Gorbachev (ao centro). Compreende-se, visto que, paradoxalmente, os nossos trotskistas podiam exprimir de forma aberta as críticas que, nesta fase, os ortodoxos do PCP apenas podiam murmurar em surdina. Num desafio suplementar, a imagem de fundo do jornal é a de uma famosa fotografia dos tempos da revolução em que aparecem conjuntamente Lenine e Trotsky (abaixo), uma fotografia tornada famosa por haver até versões dela em que Trotsky desaparece.
Mas, mostrando que as divergências entre trotskistas e ortodoxos leninistas em muitos aspectos são mais de circunstância do que de substância, o tratamento de imagem dado pelos camaradas de Louçã à foto nada deixa a desejar em relação a outros tratamentos à realidade socialista: a fotografia foi recentrada para dar o destaque a Trotsky e, sobretudo, foi invertida, para que, seguindo o sentido tradicional da leitura, Trotsky apareça antes de Lenine. É por causa disso, e não pelo seu proverbial esquerdismo que, na capa do Combate Socialista, Trotsky nos aparece a fazer a continência com a mão esquerda...

OS GALÕES NA GOLDMAN SACHS

A cena é a de uma reunião no escritório de Nova Iorque da Goldman Sachs já há muitos anos, em 1983. O fotógrafo foi Burt Glinn. Nota-se na fotografia um padrão hierárquico definido por quem usa suspensórios (os seniores) e quem usa cinto (os juniores). Deve ser o equivalente dos tradicionais galões dos militares e semelhantes, só que, em vez de usados em cima do ombro, é expresso pelos adereços que seguram as calças... Ceterum censeo, confesso que me faz uma certa confusão o contraste entre as críticas contundentes (porventura merecidas) que são dispensadas a Durão Barroso, quando saiu da política para ir para lá (Goldman Sachs), quando em comparação com a bonomia como se aceitou o percurso inverso, como foram os casos de António Borges e de Carlos Moedas, que saíram da instituição para vir para a política...

12 janeiro 2017

O MAIOR NÚMERO PRIMO CONHECIDO

De quando em vez, noticia-se a descoberta de um novo e maior número primo. Ao contrário do que se possa pensar, a partir daqueles números primos com que estamos mais familiarizados, a pesquisa por números primos cada vez maiores já de há muito que não se faz de forma ordenada e sistemática, distinguindo numa contagem aritmética crescente todos os restantes daquela minoria que reúnem a propriedade de ser apenas divisíveis por si e pela unidade. Agora parte-se dos números de Mersenne para, através de muitos meses de computação, se chegar a colossos como o número acima, que foi descoberto há um ano, e que tem mais de 22 milhões de algarismos. Escrito, prolongar-se-á por quase 5 mil páginas. E destronou um predecessor calculado três anos antes (em Janeiro de 2013) que tinha 17 milhões de algarismos. A utilidade do feito pode ser questionável mas este processo não sistemático de investigação (haverá vários milhões de números primos entre o actual e o campeão anterior que permanecem por descobrir) pode ser utilizado como analogia para a forma também não sistemática como eu classifico as opiniões mais disparatadas que vou encontrando na internet. E o que encontrei até agora que me parece equivaler-se em estupidez a um número como o lá de cima é este site onde, reclamando-se do catolicismo, se acusa João Paulo II de apostasia, Bento XVI de insultar o dogma católico e Francisco de ser um antipapa. Atribui-se a Einstein o qualificar de infinita a estupidez. A qualificação da opinião destes dois irmãos Dimond, O.S.B., não será infinita mas é, mesmo assim, muito grande - com 22 338 618 algarismos, para ser mais preciso.

AINDA A PROPÓSITO DO EFEITO BORBOLETA...

A Sound of Thunder é um conto de ficção científica de Ray Bradbury (1920-2012) que foi publicado originalmente em 1952. O seu tema são as consequências das viagens temporais ao passado. Não li o conto, mas conheço-o porque ele foi transformado num episódio de televisão que a RTP transmitiu já há muitos anos e que, curiosamente, até vim a descobrir no YouTube (abaixo). Mas, para quem não o queira ou não o possa acompanhar, eis um resumo:

No ano 2055 as viagens no tempo haviam-se banalizado e eram até exploradas comercialmente, vocacionadas para o segmento dos clientes ricos. A Time Safari Inc. era uma dessas agências de viagem que oferecia caçadas de espécies exóticas e extintas, como era o caso clássico dos dinossauros. Um caçador chamado Eckels juntou-se a uma dessas expedições composta por um guia (Travis) e um assistente e mais dois outros caçadores para caçarem os afamados Tyrannosaurus Rex. Enquanto os cinco aguardavam pela viagem que os levaria para dezenas de milhões de anos no passado, para o período Cretáceo, comentava-se a recente eleição presidencial onde, para satisfação e alívio dos presentes, vencera o candidato moderado Keith, que se opunha a um candidato de tendências fascistoides chamado Deutscher. Ao chegarem ao terreno de caça, os turistas receberam formação sobre como proceder: era imperativo que as alterações que se provocassem durante a caçada fossem mínimas, porque as consequências do que fizesse de errado podia ter implicações imprevisíveis para o futuro. Seria por isso que eles teriam que se deslocar sobre uma passadeira que levitava para não afectar o ambiente e que o animal a abater havia sido previamente seleccionado, pois estaria a segundos de uma outra morte natural. E é claro que Eckels, o turista, perdeu o auto-controle à vista do colossal Tyrannosaurus, desatou a correr, saltando para fora da passadeira, apesar de todas as proibições. Furioso, depois de o ir buscar, Travis obrigou-o a ir extrair as balas que haviam abatido o animal pois, obrigatoriamente, nada podia ser deixado para trás. Ao regressarem ao presente, os membros do grupo depararam-se com mudanças em quem havia ficado: mudanças de atitude, de linguagem e, sobretudo, políticas - Deutscher, o fascista, era agora o presidente. A explicação estava na sola de uma das botas de Eckels: ao fugir e ao abandonar a passadeira que levitava pisara uma insignificante borboleta, cuja morte viera a alterar o futuro...

Afinal, não foi preciso chegar a 2055, porque em 2016, quarenta anos antes, os norte-americanos já elegeram um presidente daqueles que se adora detestar ainda antes de ele tomar posse. E, tomando em consideração que neste caso de 2016 o eleito foi Trump, quantos encarariam com a mesma moral de Bradbury a injustiça de ir ao passado transformar - ainda que involuntariamente - o presente?...