29 agosto 2016

O REPÓRTER, SEMPRE «EM CIMA» DO ACONTECIMENTO... E SEMPRE «ATRÁS» DA VERDADE

Exemplo canónico do que pode ser o jornalismo dinâmico que se pratica hoje em dia (Jornal de Notícias), através do encadeado das notícias cobrindo um caso de uma agressão aparentemente fatal numa rixa entre jovens. Um jovem morreu após ter sido agredido com uma soqueira. Felizmente, logo nessa notícia inicial se dissiparam dúvidas prementes, porque numa primeira versão ele fora agredido com uma faca quando estava acompanhado de uma amiga. Porém, estabelecida a retificação que fora uma soqueira o instrumento da agressão, logo aparece a necessidade de outra, porque afinal a amiga que o acompanhava era mais do que amiga, era namorada, e os ciúmes terão sido a causa da agressão. Mas o assunto parece ainda longe de esclarecido porque o defunto afinal não morreu: está em estado grave no hospital. Constatada em 36 horas, a arma do crime, a causa do crime e até mesmo a ressurreição da vítima e a consequente despromoção do homicida a agressor, só se lamenta que o tópico em si seja trágico, porque no resto é cómico...

UMA FOTOGRAFIA BANAL, NÃO FORA...

Não haverá nada de anómalo na fotografia acima, a não ser para quem simultaneamente saiba ler cirílico e seja pessoa anormalmente atenta e inquisitiva. Só alguém assim se disporia a ler aquele certificado que é empunhado pelo campeão para se aperceber que afinal o campeão... é uma campeã - o nome que lá se lê é Natalia Ogryzko, que descobrimos ser uma russa que é imbatível em halterofilia (abaixo). Não consta que tenha estado presente nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro; lembrar-se-iam dela...  

A COR DO SUCESSOR

Angola, Setembro de 1979. Dos três homens que aparecem na fotografia, José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara e Henrique Teles «Iko» Carreira, há só um deles e pelas razões à vista (?!) que podia suceder ao recém falecido Agostinho Neto (cuja fotografia ampliada preenche a parede que lhes está por detrás) à frente dos destinos da República Popular de Angola. Momento irónico das contradições do discurso político do MPLA. O racismo que tanto se criticara aos portugueses perpetuava-se, agora de sinal contrário, na completa impossibilidade de se conceber um mulato à frente dos destinos de um país da África negra. A Luta continua(va), a Vitória é(ra) certa....e a hipocrisia também.

28 agosto 2016

HÁ CEM ANOS A ITÁLIA DECLARAVA GUERRA À ALEMANHA

Há precisamente cem anos, a Itália declarava finalmente guerra à Alemanha. A Grande Guerra começara já há dois anos (Agosto de 1914) e a Itália entrara nela quase um ano depois (Maio de 1915), ao declarar guerra ao império austro-húngaro, com o qual fazia fronteira e do qual cobiçava certas regiões. Mas não se pronunciou quanto à Alemanha. Seguiu-se mais de um ano de operações infrutíferas em mais uma frente de batalha que se abriu e que permaneceu essencialmente estática (abaixo), enquanto a Itália preservava esse equívoco diplomático (como o designa acima a Gazeta do Povo) que o desenrolar dos acontecimentos mostrava cada mais improvável vir a dar quaisquer frutos para a Itália: aquilo que a Alemanha estava disposta a forçar a Áustria-Hungria a ceder à Itália para a neutralizar, era muito menos do que o mínimo que a Itália estava disposta a aceitar como recompensa. A um ritmo lento que hoje nos parece impensável o realinhamento estratégico da Itália concluíra-se.

AGORA SEM AVÉ MARIAS E SEM PELOUROS

E com muitas avé marias e pelouros, nos fomos a eles e os matámos todos num credo.
A fotografia é do Líbano de 1976, em plena guerra civil, tirada por Ferdinando Scianna. A decoração mariana da coronha da M-16 identifica a confissão do combatente mas não a facção pela qual combate. Quarenta anos depois parece que, por aquelas mesmas paragens, eles continuam a morrer, muitos, sem necessidade de um pelouro ou de um credo, de uma avé maria ou de um padre nosso que, para morrer, as orações entoadas pelo padre ou os Allah hu Akbar do muezzin são indiferentes para os mortos...

27 agosto 2016

OS RUSSOS EM PALMIRA E A GUERRA DAS IMAGENS

É inegável que a presença dos soldados russos na Síria tem sido um tremendo golpe de propaganda a que os norte-americanos não conseguem ripostar de forma equivalente. Uns vão em apoio dos seus aliados locais, os outros apenas fornecem o material e as palavras de encorajamento. A fotografia acima é de duas sentinelas que guardam o edifício onde estava sediada a administração de Palmira, agora recapturada. O aviso pintado na coluna do lado direito (Мин нет) informa-nos que o local já foi desminado e desarmadilhado. Mas nem tudo poderão ser sucessos nesta guerra de imagens, atente-se a esta fotografia abaixo de algum material de guerra - no caso, granadas de morteiro - que foi capturado aos radicais islâmicos quando da reconquista.
Ultrapassando a imaginação (limitada?) do fotógrafo russo, pode imaginar-se ver ali a oração conjunta, no preciso momento em que os fiéis se prostram de cabeça no chão, os bojos das granadas a equivalerem-se aos rabos e costas dos fiéis, comparem-se as duas fotografias abaixo... De uma certa forma, e numa certa liberdade interpretativa, fica a parecer que até o próprio material de guerra se havia convertido ao islão...

OUTRAS VISÕES

Para além da luz visível há outras formas alternativas de visão, algumas delas popularizadas pelos filmes de acção, como é o caso desta famosa cena acima com Arnold Schwarzenegger vista em raios X, no filme Total Recall de 1990. Outros processos, como a termovisão que é empregue no caso abaixo, não servirão tanto para os filmes de acção porque não ajudarão a identificar o armamento escondido, mas serão perigosamente intrusivas de uma outra maneira, perceba-se aquilo que acontece com a senhora em primeiro plano que, para além de ligar o telemóvel, está a fazer mais outra coisa...

26 agosto 2016

VIVA O BENFICA!

Ele há certas crónicas em que se sente como o jornalismo político deste país pode estar tão atrasado quando em comparação com o do futebol. Muito longe vão já os anos em que ainda havia a ousadia de pôr Leonor Pinhão, só por ser jornalista, a escrever sobre um jogo em que participasse o Benfica. Era proverbial a sua falta de objectividade, certo e sabido que, em caso de mau resultado, o Benfica havia de ter saído prejudicado (grosseiramente) pela arbitragem - à antiga - porque os roubos vinham desde sempre. Mas, mesmo que já não se faça disso no futebol e essa função demagógica tenha sido entretanto assignada ao paineleiro radical do programa do dia seguinte (estatuto a que, não por acaso, Leonor Pinhão foi entretanto promovida), no jornalismo político ainda se vive a hipocrisia de fingir não querer perceber quem é que é - e não consegue deixar de ser... - do Benfica, do Porto ou do Sporting. É neste contexto que se devem apreciar alguns textos recentes que Helena Garrido tem vindo a publicar no Observador a respeito da CGD, em que a indignação que ela manifesta com as deficiências das soluções para a resolução do problema da Caixa tem sido manifestamente superior à indignação que ela manifestara originalmente quando da eclosão desse mesmo problema. Ou seja, aparentemente, para ela é pior estar a tentar resolver (ainda que mal) um grande problema, do que tê-lo causado. Não terá lógica mas, se no futebol nada é para ter lógica, este género de discussão política também estará repleta de outras certezas parecidas: a de que os nossos defesas nunca cometem faltas para grande penalidade. Na verdade, intriga-me porque é que os textos de Helena Garrido aparecem na páginas de Economia do Observador, eles nem sobre política são - Viva o Benfica!

O MERGULHADOR

A fotografia é de Nino Migliori (1951) e tem a oportunidade do momento político actual: já vai sendo altura, depois das pressões lá de fora se terem dissipado em parte, de Mário Centeno proceder a algumas rectificações no orçamento sob pena de vir a dar um grande chapão quando chegar à água... Se o ministro for um genuíno olhanense saberá muito bem que um mergulho deste estilo dado do cais da Armona dói comó caraças...

FOTOGRAFIA DE MODA

A fotografia de moda é uma arte, mas pode ser cruel para quem está do outro lado da objectiva. Um bom profissional deste lado tem por missão realçar o produto que envolve o manequim, embora para isso tenha que despojar o modelo de qualquer personalidade, preservando-lhe a beleza. A modelo desta montagem é a mesma (Judy Dent) assim como o fotógrafo (Frank Horvat). Mas nesta sequência que aqui apresento (1960/61), acaba por se tornar indiferente para com Judy ver-mo-la coberta de roupa, com um vestido ligeiro ou mesmo sem roupa alguma, a nudez trivializa-se como se nem fosse íntima, como se se tratasse de um manequim de montra apanhado a fumar...

25 agosto 2016

A BATALHA DE RANDENIVELA (25 de Agosto de 1630)

Perdido bem no interior do Sri Lanka, o monumento da esquerda assinala a vitória do exército do reino cingalês de Kandy sobre um exército português comandado pelo governador Constantino Sá de Noronha na batalha de Randenivela que ocorreu há precisamente 386 anos. Num retoque irónico, quem celebra a vitória são os cingaleses, mas quem melhor descreve a batalha são fontes portuguesas e é a elas que a propaganda nacionalista cingalesa hoje recorre para detalhar como foi o feito das suas armas. Pelas descrições, as forças portuguesas seriam um clássico exército colonial, com uns 400 a 500 europeus (que seriam na sua esmagadora maioria portugueses) a enquadrar uns 13.000 soldados locais. Do outro lado, os efectivos do exército de Kandy são estimados em 40.000 (os números podem estar empolados porque por uma questão de reputação os portugueses nunca perderiam batalhas em que não defrontassem um inimigo numa desproporção inferior a 1 para 3...). Encurtando a história da batalha, terá havido traições de algumas unidades ao serviço dos portugueses mas a razão principal para a derrota portuguesa dever-se-á ao acaso. Terá sido a chuvada torrencial inesperada que lhes retirou a superioridade tecnológica das armas de fogo, ensopando-lhes a pólvora. E no entanto, os relatos da campanha são consequentes em reconhecer a competência e a experiência de Constantino Sá de Noronha, que até escolhera o mês mais seco (veja-se o quadro meteorológico abaixo) para entrar em operações. Mas, com um dos antagonistas desprovido do seu poder de fogo, os efectivos superiores e o poder de choque do outro terão pesado decisivamente no desfecho da batalha.
A batalha terminou com o aniquilamento total do exército português e com a morte de Constantino Sá de Noronha. Há nos relatos dos momentos finais uma semelhança marcante com Alcácer Quibir, que acontecera 52 anos antes. Também aqui no Sri Lanka, como acontecera em Marrocos, o desfecho da batalha pode ser assinalado como um dobre de finados das ambições portuguesas em constituir uma possessão com profundidade territorial na ilha de Ceilão, diferente das feitorias e praças-fortes (Goa, Malaca, Ormuz, Macau) que então constituíam o esteio do império marítimo português no Oriente. 25 de Agosto de 1630 poderá ter sido um dia negro para as armas portuguesas, mas parece-me um daqueles casos em que nos devemos orgulhar, nem que seja ao descobrir até onde alguns de nós foram na busca - mesmo por vezes inglória - do sucesso...

O RESTAURANTE DO FIM DA RUA E AS CLASSIFICAÇÕES SUPERLATIVAS DISPARATADAS

Havia uma história antiga que descrevia certa cidade onde o sector da restauração era não só bastante disputado mas onde havia também a particularidade dos concorrentes se concentrarem todos numa mesma rua. A uma esquina da rua, um dos concorrentes proclamava-se em cartaz o melhor restaurante da cidade, para alguns metros adiante um seu rival se proclamar o melhor restaurante do país, seguido de um outro que os batia na imodéstia de se considerar o melhor restaurante do Mundo até que se chegava ao do fundo da rua, que apostava no impacto psicológico dos superlativos dos rivais a que fora submetido o potencial cliente e que procurava pôr senso na escalada, assumindo-se simples e prosaicamente como o melhor restaurante desta rua...
Os superlativos têm isso: se lhes pregarmos uma rasteira, eles estatelam-se. Quando a BBC convocou 177 críticos para escolher o melhor filme do século e anuncia que "Mulholland Drive" assim foi considerado, põe-se um evidente problema de aritmética que nada tem a ver com o número - robusto - de críticos - decerto competentes - a que a BBC pediu a opinião. É que o século XXI ainda não completou 16 anos, o que corresponde a menos de 1/6 da duração normal de um século. Será talvez prematuro dispormo-nos a estas classificações seculares; o filme de David Lynch não sairia rebaixado se, como o restaurante do fim da rua, fosse reclassificado como o melhor mas apenas dos últimos 16 anos. Afinal o século XXI ainda nos reserva mais 84 anos de produção cinematográfica...
E que bem pode superar a que foi produzida até agora. Atendendo ao precedente do século XX, analisando este calhamaço que recomenda os 1001 filmes para ver antes de morrer (publicado em 2003 e ao qual, confesso, nunca prestei demasiada atenção...), verifica-se que só 5 deles foram feitos até 1916...

24 agosto 2016

O drama, a tragédia, o horror... - PARA LÁ DE NEPTUNO (2)

Há precisamente dez anos, a assembleia da União Astronómica Internacional estava ao rubro. Até parecia uma rede social... Defrontavam-se duas concepções distintas para a reclassificação dos planetas. O problema impusera-se com a descoberta encadeada durante os primeiros anos do século XXI de vários corpos celestes com dimensões próximas, mesmo superando, as de Plutão, o último dos planetas clássicos a ter sido descoberto (1930). Havia uma concepção democrática, a que aparece no quadro acima e que estaria aparentemente predestinada a vingar, que se prepararia para alargar o estatuto planetário a outros corpos celestes (12).
E havia uma concepção aristocrática, a do segundo quadro, que pretendia reduzir esse estatuto aos grandes planetas complanares canónicos (8). Na votação, que teve lugar a 24 de Agosto de 2006 e envolveu cerca de 2.500 membros do organismo, acabou por vingar esta segunda tese. Mas já então, mais importante que as razões que haviam levado a privilegiar uma solução em detrimento da outra, o que se impôs na comunicação social foi a vacuidade de anunciar tragicamente que o planeta Plutão fora despromovido do seu estatuto. Isso é que poderia interessar as pessoas! Na descrição ímpar de Artur Albarran: o drama, a tragédia, o horror...

SARKOZY ANUNCIA RECANDIDATURA ÀS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS

É uma pena que tenha de ser assim, porque eu até simpatizo com Sarko, mas outra coisa tem de ser a avaliação das condições políticas para que recomeçasse a carreira. Se outro indício não lhe bastasse, esta rapidez (de 24 horas!) com que alguém pagou e publicitou uma sondagem que dá uma maioria esmagadora de franceses contra a sua candidatura, devia dar-lhe uma dimensão precisa da sua (im)popularidade mas também das antipatias que gerará entre as forças vivas da nação francesa. Depois dos exemplos mais próximos de Passos Coelho e de Mariano Rajoy sucede-se mais este caso de políticos cimeiros que não se conseguem conceber fora de prazo...

23 agosto 2016

O ATLETA HIPERSENSÍVEL, O PÚBLICO SAFADO E O JORNALISTA QUE NÃO PERCEBE PORRA DO ASSUNTO

Há algumas histórias olímpicas que, mais do que o facto de eu não acreditar nelas, tornam-se-me antipáticas para além da inverosimilhança. Foi o caso das lágrimas de Renaud Lavillenie, o saltador com vara francês (acima, à direita, a chorar durante a cerimónia protocolar de atribuição das medalhas e enquanto se escutava o hino brasileiro), que perdeu o concurso da disciplina num último salto de sorte do seu rival brasileiro Thiago Braz que se veio a sagrar campeão olímpico. O que terá provocado as lágrimas, e que foi pretexto para inúmeros artigos condenatórios na imprensa, terá sido a hostilidade da assistência brasileira, que o vaiava, e que o próprio chegou a comparar à que fora manifestada em Berlim em 1936 contra Jesse Owens: «desde aí nunca vimos mais nada assim». É muita ignorância, a par de tanta sensibilidade, a do francês. Nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 e na mesma disciplina do salto com vara, a grande disputa final travou-se entre o russo Volkov, que jogava em casa, e o polaco Kozakiewicz. E o público russo portou-se para com este último da mesma maneira antidesportiva como o brasileiro o fez agora no Rio de Janeiro com o atleta francês. A substancial diferença é que foi Władysław Kozakiewicz o vencedor e campeão olímpico. E o que distinguiu tal final de tantas outras finais olímpicas da mesma disciplina foi o gesto - tornado famoso e que Lavillenie, se não conhece, deveria conhecer... - como o novo campeão olímpico saudou na hora da vitória o público que o vaiara (abaixo): com um descomunal manguito - ora aí está quem não chora! As peripécias não acabaram por aí. Já contei a história aqui no blogue. Os soviéticos queriam que o atleta fosse punido, os polacos defenderam-no dizendo que aquilo não passara de um espasmo muscular... Para o que interessa, não me restam dúvidas que, Lavillenie tivesse sido o campeão olímpico, e suspeito que a sua hipersensibilidade dificilmente se teria manifestado e tantas críticas ao comportamento do público brasileiro ficariam por contar. Embora os jornalistas, que tanto opinaram sobre este episódio, fossem obrigados a saber como Renaud Lavillenie é até pessoa de lágrima fácil: ainda há três anos isso já acontecera, só que aí fora a protestar contra a decisão dos jurados... Não só parece mau perder, até faz lembrar a Linda de Suza.

O «MILAGRE ECONÓMICO» DA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO DE 2015

Foi só há precisamente um ano, mas na opinião pública já se terá desvanecido aquela sensação que se sentiu na segunda quinzena de Agosto de 2015 que no país se vivia um Milagre Económico... O crescimento económico (1,5%...) estabilizara, a dívida pública caíra, até se ventilava devolver a sobretaxa de IRS... O Diário Económico passava as mensagens todas. Constata-se quanto um ano pode ser muito tempo, porque fora precisamente um ano antes, em Agosto de 2014, que o banco Espírito Santo explodira e sobre a evolução dessa situação e sobre a situação da banca portuguesa em geral, nesse radioso mês de Agosto de 2015, a pouco mais de um mês das eleições, parecia não haver grande coisa que o governo quisesse que fosse dita...
Um ano depois desse milagre gorado, este outro governo a esses costumes nada tem dito. Concentra-se na banca, o enorme buraco que havia permanecido semi-escondido. Mas os indicadores económicos e financeiros permanecem medíocres, piores que os herdados, o que mudou substancialmente foi o teor da cobertura noticiosa desta tal imprensa da especialidade. Este cenário vai implicar significativos desvios na execução orçamental. Agora já se vai tarde para rectificar seja o que seja. Os outros sempre tinham razão quando insistiram com o actual governo para rectificar as contas públicas, porém o que os outros não têm é moral para se fazerem obedecer depois da benevolência que deram mostras para com os exercícios do governo anterior...

22 agosto 2016

AS CONTAS DO COSTUME

Todas as olimpíadas, de quatro em quatro anos, lá vem o quadro recalculando a atribuição das medalhas com o lirismo - e a ignorância - do costume. O exemplo canónico é o da União Europeia, cujos atletas agregados no Rio de Janeiro terão ganho quase o triplo das medalhas da equipa dos Estados Unidos. Também existe uma outra versão, igualmente lírica mas mais nostálgica, que é a de somar as medalhas alcançadas pelos atletas dos países da antiga União Soviética. Também aí, o resultado hipotético, com as 142 medalhas conquistadas, seria superior ao dos Estados Unidos. É um cálculo engraçado, mas quem conheça um mínimo de regras olímpicas, sabe que quaisquer conclusões que se queiram extrair do exercício, arriscam-se a ser um disparate. O busílis está nas condições de acesso aos jogos. Se concorressem unificadas, a União Europeia ou a União Soviética, como acontece com os Estados Unidos, apenas poderiam apresentar uma selecção por cada modalidade. A selecção da União Europeia até poderia ganhar o torneio de andebol masculino mas não poderia conquistar simultaneamente as medalhas de ouro (Dinamarca), prata (França) e bronze (Alemanha). A acrescer a isso, cada modalidade limita o número de atletas de cada equipa que podem competir em cada evento desportivo: são, por exemplo, três no atletismo, dois na natação, um na vela. Assim, a disputa travar-se-ia muito mais acirradamente na pré-selecção para os jogos (que é o que acontece com a equipa norte-americana) e dificilmente, apenas para concretizar a ideia, os seis (que aí já poderiam ser apenas três) concorrentes soviéticos à categoria de 105 kg da halterofilia masculina poderiam ter o aspecto sortido daqueles que foram os medalhados: um usbeque (ouro), um arménio (prata) e um cazaque (bronze). Em suma, nessas simulações não se comparam dados semelhantes. Uma hipotética equipa olímpica da União Europeia ou da União Soviética ressuscitada não teriam tido condições de alcançar os mesmos resultados que o somatório das equipas nacionais. Os ciclos olímpicos passam, as contas repetem-se, prestam-se estas mesmas explicações, e o que ainda não descobri se será por ignorância ou por malícia que nunca vejo esta ressalva assinalada...

UMA SESSÃO PARLAMENTAR NA ASSEMBLEIA NACIONAL

Assembleia Nacional, Lisboa, 5 de Dezembro de 1972. A sessão desse dia foi animada por um discurso do deputado Manuel José Homem de Mello (na fotografia da esquerda) visando indirectamente o deputado João Pedro Miller Guerra (à direita), elemento constituinte daquela que era conhecida informalmente por ala liberal. Sem nunca nomear os visados, o orador criticava os autores de certas odes à liberalização política, panaceia universal susceptível de sarar os males de que padecemos. A opinião de quem discursava divergia: crises sempre as houvera em Portugal, para as vencer o que sempre fora preciso fora força de ânimo e união. Ora na situação actual o país não só não estava preparado como viria a sofrer os mais graves reveses se, nesta fase crucial, enveredasse por experiências políticas portadoras do germe da desagregação e instabilidade. E prosseguia o deputado Homem de Mello, à época também director do vespertino A Capital: A democracia não se decreta, merece-se. Nem se impõe, conquista-se. Merece-se através do civismo das populações, da preparação consciente das elites, da unânime aceitação das regras do jogo político. Mas o mais interessante e significativo do discurso do deputado Homem de Melo não foi propriamente o detalhe das palavras do orador, foi o facto de elas terem servido de estopim para três interrupções do seu colega Miller Guerra, cujos diálogos com Homem de Mello, muito vivos e significativos pelas opções filosóficas e ideológicas subjacentes, a seguir se transcrevem:

Miller Guerra: - V.Exª. referiu-se àqueles que laboram num grave erro ao pretenderem a liberalização. Não é verdade?
Homem de Mello: - Eu não disse exactamente isso.
Miller Guerra: - Nesse caso, peço desculpa.
Homem de Mello: - Eu disse exactamente que temos, nestes últimos dias, voltado a ler e ouvir certas «odes» à liberalização política, panaceia universal susceptível de sarar os males de que padecemos e que laboram em grave erro quantos assim pensam.
Miller Guerra: - Muito obrigado. É exactamente a mesma coisa que apontei tendo a mais a referência às odes.
(Risos)
Homem de Mello: - Mas as «odes» por vezes são importantes.
Miller Guerra: - Não contesto. É uma opinião que respeito e a de muita gente, também respeitável. Mas protesto, permita-me a expressão, contra o que V.Exª. disse ao afirmar que o país não está preparado.
Há 50 anos que oiço dizer que o país não está preparado. Admiro-me imenso que 50 anos de pedagogia política constante não nos tenha preparado.
Pergunto a V.Exª. por que se espera para fazer essa preparação? Ou melhor, para preparar o país, visto que ele não está preparado nem parece por este caminho que chegue a estar.
Homem de Mello: - Sr. deputado Miller Guerra, pois eu admiro-me também com V.Exª. por o país não estar preparado, mas o problema consiste em se saber se está ou não preparado. E eu respondo que não está.
Miller Guerra: - Eu, sob pena de insistir num ponto já muito batido, repito: o país não está preparado porque não o prepararam. É o país que é incapaz de se preparar ou são os pedagogos que são incapazes de o ensinar?
Homem de Mello: - Eu limito-me a frisar que V.Exª. acaba de concordar que o país não está preparado.
Henrique Tenreiro: - V.Exª. que é pedagogo podia ensinar-nos alguma coisa...
(Risos)
Miller Guerra: - Tem razão o sr. almirante Henrique Tenreiro. Sou pedagogo por profissão mas não sou pedagogo político. Se fosse pedagogo político há muitos anos que o país estava preparado para a liberalização. Tínhamos hoje, em vez da situação presente, uma democracia.
Homem de Mello: - Sr. deputado Miller Guerra, mas não há pedagogia com efeito retroactivo?
(Risos)
Miller Guerra: - Não insisto. Perece que já está bem claro o meu pensamento e o de V.Exª.
Cunha Araújo: - 50 anos são muito na vida de V. Exª., mas não são nada na vida de uma nação.
Homem de Mello: - Dizia eu que a democracia...
Mais adiante o deputado Homem de Mello falou da defesa do interesse comum para fundamentar os seus pontos de vista. E novamente Miller Guerra:
Miller Guerra: - V. Exª. dá-me licença?
Homem de Mello: - Com certeza.
Miller Guerra: - É justamente a bem do interesse comum que eu desejo a liberalização.
Homem de Mello: - É justamente a bem do interesse comum que entendo que devemos aguardar por uma maior liberalização.
Vozes: - Muito bem!
O orador prosseguiu, empregando na sua argumentação a expressão “sacrificar o acessório”.
E por uma terceira vez:
Miller Guerra: - V.Exª. dá-me licença mais uma vez? Prometo que seja a última, pelo menos por hoje.
Homem de Mello: - Faça favor.
Miller Guerra: - Diz V.Exª. que é sacrificar o acessório. Eu acho que a liberdade é essencial e não acessória.
Homem de Mello: - Eu acho que o que é essencial é o interesse colectivo, muito mais importante do que a liberdade.
Vozes: - Muito bem!
Miller Guerra: - Isso é vago.
Homem de Mello: - É tão vago como a liberdade.
Miller Guerra: - Está enganado.
Homem de Mello: - Não estou, não.
Miller Guerra: - Depende de quem define a liberdade.
(Baseado na transcrição dos trabalhos parlamentares que foi publicada na edição do dia seguinte do Diário de Lisboa).
Menos de ano e meio depois dava-se o 25 de Abril de 1974. A sessão da Assembleia desse dia foi muito curta, teve quinze minutos... Antes disso, uns escassos dois meses após a troca de palavras, em Fevereiro de 1973, Miller Guerra renunciaria ao seu cargo de deputado. Terá sido uma cena interessantíssima, mas dessa pouco se soube, porque quase nada pôde ser publicado. Mas o percurso político que os dois antigos deputados vieram depois a ter sob o novo regime democrático pouco refletiu as posições filosóficas sobre a liberdade que haviam sido adoptadas por cada um deles durante o interessantíssimo debate acima transcrito. Posições amadurecidas, qualquer deles era um homem feito, Miller Guerra tinha 60 anos, Homem de Mello 42. 
 
João Pedro Miller Guerra (1912-1993) veio a ser deputado à Assembleia Constituinte (1975-76), tendo sido eleito pelas listas do Partido Socialista. O seu melhor momento nessa câmara terá sido a ocasião em que pretendeu ler o mesmo discurso de renúncia que pronunciara na Assembleia Nacional, e que ele considerava mais actual que nunca, porque as condicionantes à liberdade, outrora representadas pela Acção Nacional Popular (ANP), eram então protagonizadas pelo lado oposto do espectro político, pelo Partido Comunista Português (PCP), em pleno PREC. Mordendo o isco, e numa situação repleta de ironia, Octávio Pato calçou os sapatos que outrora haviam pertencido a Henrique Tenreiro na contestação. Depois disso, a caminho dos 65 anos, Miller Guerra desapareceu discretamente da ribalta política.
 
Manuel José Homem de Mello (1930-   ) teve que fazer o seu caminho das pedras. Como deputado em exercício a 25 de Abril de 1974 teve os seus direito políticos cassados por alguns anos. Voltou à superfície depois disso, em meados da década de 80 e curiosamente sob a égide desse mesmo Partido Socialista que acolhera Miller Guerra. Mas, mais do que o Partido, Homem de Mello tornou-se conhecido por gravitar à volta de Mário Soares. Tornou-se um autor prolífero. Não consta é que continue a considerar que o interesse colectivo seja mais importante do que a liberdade...

É uma falsa questão apontar a pessoas como Homem de Mello o facto de eles terem mudado de opinião. Aí, é pacífico constatar que todos mudamos de opinião, que só os tolos é que não mudam de opinião. Mas a verdadeira questão é outra: é o quando, as circunstâncias e as motivações que levam as pessoas em geral e essas em particular a mudar de opinião, que nestes casos oportunistas nunca parece resultar de um profundo e genuíno trabalho de reflexão interior... Ou na definição imorredoura do meu pai, destinada a qualificar este género de pessoas interesseiras (que importa não deixar esquecer como o foram): eles foram da outra, são desta e hão de ser da próxima...

21 agosto 2016

AS DUAS LEGENDAS POSSÍVEIS PARA UMA CENA DA HIPERACTIVIDADE DE MARCELO

Tanta tem sido a hiperactividade demonstrada pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa que esta fotografia se pode prestar a duas legendas alternativas e distintas (e acredito convictamente que, se o próprio Marcelo nos ler, ele próprio sugerirá uma terceira...):
 
a) ou Marcelo há-de se deitar na cama que fizer com esta sua actividade frenética;
b) ou então é Marcelo a fazer a cama a um outro vulto da política portuguesa.
 
Acrescente-se, para o primeiro caso, que a cama é de casal, alimentando os novos rumores veranis da imprensa cor-de-rosa; e para o segundo caso, que, se a cama estiver a ser feita para Pedro Passos Coelho, a solidariedade de pertencerem ao mesmo partido mereceria a atenção de Marcelo deixar lá um chocolatinho em cima da almofada...

ZIKA OLÍMPICO

Agora que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro se aproximam do seu fim, adivinhe-se o que vai acontecer neste futuro próximo à densidade das notícias e fotos que apareceram publicadas a respeito do vírus Zika. Quantos fotografias de bebés afectados pela microcefalia teremos oportunidade de continuar a ver nestas semanas que se seguem, agora que a dinâmica noticiosa demonstra que os haverá por toda a parte, incluindo em cidades civilizadas? Ou querem ver que tanta preocupação com a saúde pública tinha um outro objectivo, o Rio de Janeiro, um objectivo bem preciso e razões completamente diferentes?!...