26 setembro 2016

PELO 70º ANIVERSÁRIO DA REVISTA TINTIN BELGA

Hoje assinala-se o 70º aniversário da revista Tintin belga, inaugurando um género de revistas semanais de BD para a juventude que também chegou a Portugal, mas que hoje se encontra extinto. Só quando adulto tive oportunidade de comparar a revista original com a sua versão portuguesa que, lançada a partir de 1968, me educou na arte da BD. Tive o cuidado (e também a nostalgia) de, quando de uma estadia em Bruxelas, comprar volumes encadernados de uma época em que já ambas coexistiam (abaixo) para as comparar e a conclusão foi que a revista portuguesa era objectivamente superior.

COMO SE PROMOVE A VENDA DE UM MENHIR?

Goscinny ensinou-nos há mais de 40 anos como se consegue promover algo absolutamente inútil: um menhir. A campanha que acima vemos a ser apresentada a Júlio César por um tecnocrata romano descaradamente inspirado em Jacques Chirac (quando jovem), faz-nos lembrar as razões para que o livro de José António Saraiva, não possuindo qualidade ou utilidade alguma, se tenha transformado num êxito editorial. Explica-nos quem sabe que o autor já se estreara em livros do mesmo género, embora mais suaves, e que outros autores já haviam publicado livros coscuvilheiros do mesmo calibre perante o desinteresse geral. E com essa constatação, lá se parece ir a teoria do comportamento indecoroso congénito dos portugueses... A haver diferença neste caso, ela terá que ter estado na promoção. Que, como no menhir, aqui também terá recorrido à infra-estrutura D embora com uma subtil diferença: não o que provoca a inveja, mas antes a irritação dos vizinhos. Porque, para além das que, naturalmente, foram dirigidas ao próprio livro, tantas foram as críticas antecipadas a quem se dispusesse a lê-lo, que o resultado terá resultado contraproducente: segundo o jornal i, o livro já vai na sétima edição. Esperemos apenas que não se repita o que aconteceu em Obélix e Companhia, o álbum de BD de onde foi retirada a passagem acima, quando o sucesso comercial do menhir veio a descambar numa moda e na saturação do mercado...

A (FALSA) QUESTÃO DAS INVESTIDURAS DO SÉCULO XXI

Costumava ser perante vitórias de partidos de esquerda, aconteceu mais recentemente com o Brexit e agora, pelos vistos, passou a ser com Donald Trump, visando a ala ultra direita do espectro político. Ao menos reconheça-se o seu ecletismo. O método (recorrente) consiste em invocar as reacções adversas das bolsas (também conhecidas por «os Mercados») para mostrar qual é o lado certo e o errado de uma disputa eleitoral que se aproxima. O expediente faz lembrar na aparência a questão medieval das Investiduras que, entre 1076 e 1122, colocou em confronto o poder temporal do imperador e o poder espiritual do papa. Se então houve a necessidade de separar aquilo que era de César daquilo que era de Deus, actualmente quem promove estas notícias não quer clarificar a linha divisória entre o que é política e o que é economia. O tempo veio demonstrar que o poder espiritual era mais uma construção ideológica do que uma realidade: o imperador Frederico II, por exemplo, recuperou Jerusalém na sexta Cruzada (1229), apesar de à época estar excomungado pelo papa... A excomunhão não o impediu de alcançar um grande triunfo político e diplomático. Como outrora seria pretensão dos papas, pretender-se-á agora que haja uma certa espiritualidade orientadora ou sancionatória no comportamento das bolsas antes ou depois dos resultados eleitorais. As bolsas não gostam de Trump. A verdade é que essa verdade só se torna verdade para aqueles que têm fé n'«os Mercados». Circunstancialmente até poderá acontecer o inverso e os fiéis podê-lo-ão aproveitar para cabeçalho, mas estruturalmente compete às bolsas seguir o comportamento da economia real - e não o contrário. É por isso, por exemplo, que a ausência de notícias sobre o comportamento da bolsa de Londres depois do Brexit é o mais eloquente dos silêncios, depois do que se escreveu quando da votação...

25 setembro 2016

AQUELES POLÍTICOS CONTRA QUEM UMA CERTA «OPINIÃO PUBLICADA» TEM UMA GRANDE IMPLICAÇÃO (Adenda)

Se ontem, quando aqui escrevi um texto a respeito do desvelo como a revista liberal The Economist acompanha as vicissitudes internas do partido trabalhista, ainda não me aparecera uma reacção oficial da revista à relegitimação reforçada do líder trabalhista, hoje aí está ela, reconhecendo não apenas o óbvio (que Jeremy Corbyn foi reeleito), como prestando os seus conselhos (eis o que os trabalhistas moderados devem agora fazer). Estas publicações anglo-saxónicas têm - felizmente - uma tradição diferente da nossa hipocrisia de aparentar uma falsa equidistância política: ainda ontem o New York Times anunciou o seu apoio a Hillary Clinton, por exemplo. Mas isto que a The Economist parece fazer, porque o trabalhismo não é a sua praia, é muito diferente: é procurar formatar o jogo condicionando as regras de quem pode aceder a ele. O que, por causa das ideologias que norteiam as publicações, pode dar origem a erros de paralaxe política assaz grosseiros: porque é que se pode observar esta disponibilidade para orientar os moderados de um partido de esquerda na oposição, mas não se imagina gesto equivalente (orientar os moderados) num partido de direita no governo, como aconteceu nos últimos quatro anos com o PSD português?...

O HOMEM FOI CLIENTE DE IMENSOS RESTAURANTES DE LUXO E NOTA-SE QUANTO É IMPORTANTE PRECISAR QUAIS FORAM

Acabei de ler o livro de José António Saraiva. Não o comprei. É uma merda em mais do que um sentido. Enquanto procurava uma imagem que ilustrasse este poste, googlei o nome do autor e apareceu-me a que se vê acima. Nas pesquisas relacionadas de baixo compreende-se perfeitamente o aparecimento do tio do autor, José Hermano Saraiva, tanto quanto se estranha a ausência do seu pai, António José Saraiva. Quanto à associação com Pedro Passos Coelho será circunstancial, conhecida esta polémica em relação à apresentação do seu livro. Mas a presença da jornalista Fernanda Câncio transcende-me. Será por causa do seu activismo militante pela causa do boicote à sua leitura?... São estes os mistérios das redes sociais. Mas realce-se quanto o livro é mesmo muito mau, nem merecia sequer a publicidade negativa.

EU ACHO QUE VOCÊ LEU... POUCO


Este diálogo tem mais de dez anos. O entrevistado é Rodrigo Amarante da banda brasileira Los Hermanos. E o jornalista com quem ele estabelece o diálogo nunca chega a aparecer nas imagens - felizmente para ele, considerando a figura que acaba por fazer...
 
Jornalista: Vocês são sempre lembrados por Anna Julia n'é?
Amarante: Nem sempre.
Jornalista: Isso incomoda vocês sempre serem lembrados por Anna Julia?
Amarante: Não, por que nem sempre.
Jornalista: Por que sempre quando tem Ana Julia tem referência, Los Hermanos, Anna Julia…
Amarante: Hã?
Jornalista: Sempre tem essa relação, Anna Julia, Los Hermanos
Amarante: É… É uma música nossa n'é? Por isso é que tem a relação… Você queria saber o quê, mesmo?
Jornalista: Não... Essa coisa... Se incomoda vocês, de vocês serem sempre lembrados por Anna Julia.
Amarante: Não, por que não é sempre que a gente é lembrado por Anna Julia. Você vai ver, hoje a gente não vai tocar Anna Julia e você vai ver…
Jornalista: Mas sempre a galera pede.
Amarante: Não.
Jornalista: Não pede?
Amarante: Você já foi em algum show dos Los Hermanos?!
Jornalista: Não.
Amarante: Ah… e esse «sempre» vem de onde?
Jornalista: Não... por que eu li…
Amarante: Ah...
Jornalista: Mas pelo jeito incomoda!
Amarante: Não. O que incomoda é um jornalismo - como é que eu vou dizer? - preguiçoso, assim de não saber o que perguntar e perguntar qualquer coisa: «Ah, incomoda?» É o jornalismo baseado na polémica, sabe? É muito comum hoje em dia a polémica ser a tónica do jornalismo, como se o papel do jornalista fosse descobrir um ponto fraco, uma coisa assim. Eu particularmente acho que o trabalho do jornalismo é um trabalho muito importante, é assim como o trabalho de uma pessoa pública do governo, do estado, tem uma responsabilidade, um papel importante n'é? As pessoas lêem ou ouvem o que vocês fazem e tomam como verdade, como uma coisa que é feita com um critério e isso influência a opinião das pessoas por aí então. Esse tipo de pergunta assim leviana, sem a profundidade, acaba levando as pessoas a ter uma impressão errada que é essa…, de que incomoda a gente Anna Julia… Pelo contrário! A gente adora a música, temos tocados em muitos festivais e nunca tivemos problemas com isso… Só que é comum no Brasil as pessoas acharem que fazer sucesso é uma coisa ruim, negativa, por que «Ah, não. Faz sucesso então não deve ser bom» e isso é uma ingenuidade, tanto da imprensa quanto das pessoas, de achar que se tornar público ou ser muito conhecido é uma coisa ruim. Acho que é ruim pra quem é fraco e tem medo de perder isso. A gente nunca teve isso, a gente faz música com coração da forma como a gente sabe fazer… Então Anna Julia foi feita da mesma forma, a gente adora a música, as pessoas se incomodam é com a gente ter feito sucesso…
Jornalista: Minha pergunta assim… não é nada contra, nunca assisti o show... é pelo facto de eu já ter lido sobre isso…
Amarante: Eu acho que você leu pouco… Desculpa a sinceridade.

É preciso conhecer todo o episódio para perceber este remate em versão reduzida. Paradoxalmente, não é preciso lê-la, nem muito nem pouco, porque está em vídeo.... Mas esta versão condensada de 5 segundos parece-me portentosa per si. Ontem apliquei-a num comentário a uma indignação de facebook contra o senador Ted Cruz, que ali aparecia qualificado disparatadamente de luso-americano... Depois disso, deixei de encontrar a indignação. Talvez este sarcasmo do Rodrigo Amarante seja um bom remédio para colocar algum rigor em muitas bravatas que se lêem por aí...

24 setembro 2016

AQUELES POLÍTICOS CONTRA QUEM UMA CERTA «OPINIÃO PUBLICADA» TEM UMA GRANDE IMPLICAÇÃO

Jeremy Corbyn tornou a vencer as eleições internas do Labour com 313 mil votos (62%) versus os 193 mil do seu rival Owen Smith. É a segunda vez em pouco mais de um ano que a liderança do partido é disputada e a vitória de Corbyn foi mais acentuada desta segunda vez, apesar do conhecido e publicitado desagrado dos seus antecessores e de uma panóplia de figuras mais mediáticas do Labour: Gordon Brown, Tony Blair, Jack Straw, David Miliband ou Alastair Campbell. De uma certa forma, Jeremy Corbyn faz lembrar Francisco Sá Carneiro e o PSD dos anos 70: tem popularidade nas bases mas é detestado pela esmagadora maioria dos parlamentares (172 em 232 parlamentares numa eleição recente). O sistema eleitoral britânico torna muito mais equívoca a importância a atribuir ao deputado ou ao aparelho partidário que o ajudou a eleger. O Guardian noticia exuberantemente a vitória de hoje, mas o jornal pró-trabalhista foi o que menos hostilidade terá mostrado desde o princípio para com o extremismo ideológico de Corbyn. O mesmo não se poderá dizer, por exemplo, de um Financial Times que escrevia: É tão simples quanto parece: Corbyn profetiza o desastre para o Labour. Mas o que me parece inédito e inesperado, como se constata pela imagem abaixo, é a atitude preocupada da revista The Economist. Há décadas que a leio e não me recordo em todos esses anos de lá ler qualquer artigo manifestando preocupação com a fraca audiência que os trabalhistas pudessem ter junto do eleitorado britânico... Talvez pelo contrário, descontando aqueles anos em que Tony Blair esteve à frente do partido. Agora a sério, sem ironia, mas também denunciando a hipocrisia (da The Economist), este mundo moderno tem destes momentos discretamente totalitários em que uma das facções políticas procura subtilmente enformar a que se lhe opõe. Ora, depois de ter visto as voltas trocadas com o Brexit, a última coisa que o establishment britânico está a precisar é de uma oposição trabalhista ideologicamente vincada, como aquela que Corbyn parece prometer. Na verdade, se os trabalhistas se radicalizarem e o eleitorado não os acompanhar nesse radicalismo, o que acontecerá é que se criará um buraco sociológico no meio, propenso a ser preenchido por uma nova formação moderada, como aconteceu com o Partido Social Democrata (SDP), que recebeu 25% dos votos nas eleições em 1983. Não há perigo: Margaret Thatcher e os conservadores não ficaram com a Câmara dos Comuns toda para eles como mostra o desenho abaixo. Só que as preocupações de que a The Economist se faz eco têm a ver com um outro cenário, acentuado pela volatilidade de que o eleitorado britânico tem dado mostras recentemente, vejam-se os casos do UKIP e do Brexit: e se os eleitores dão em gostar dos discursos ideologicamente vincados de Jeremy Corbyn? E se o Labour com Jeremy Corbyn à sua frente ganha as eleições? Aí é que entramos num dos verdadeiros pesadelos do establishment... Um pesadelo tão antigo (e tão pronto a ressurgir...) que já foi transposto para uma série de televisão intitulada A Very British Coup. Quando começou a sua ascensão dentro do Labour, eu não tinha opinião alguma sobre Jeremy Corbyn; agora, tantas lhe fazem assim à sorrelfa, que eu já nem ligo ao que ele diz, apenas torço por ele. Deixem-no ao menos ter direito a ir por uma vez a votos nem que seja para ter uma derrota eleitoral fragorosa.

«MA È UN'INGIUSTIZIA»

Se nos habituámos a ouvir os lancinantes protestos de Calimero ditos em várias línguas, convém recordar, nesta Europa plurinacional, que a original é o italiano. E onde o simpático pintainho reclamava que o que lhe acontecia só se devia ao facto de ele ser pequenino (e escuro), o menos simpático ex-presidente da comissão europeia reclama por ser português, que talvez seja uma outra maneira de dizer a mesma coisa...

PAULO E OS OUTROS POLVOS

Assim como havia o Paulo, aquele polvo que adivinhava os resultados dos jogos do Mundial (e que até tem direito a uma página dedicada na Wikipedia), os jornalistas americanos (e os portugueses por arrasto, acostumados a nem sequer pensar) partiram à procura dos seus Paulos de duas pernas, mas só dos que profetizem a vitória de Donald Trump, que antecipar a vitória de Hillary Clinton não tem valor informativo.
Para quem não verifica as hiperligações dos textos, esclareça-se que a última colocada no texto acima vai parar a um artigo da Al-Jazeerah de Abril deste ano em que o mesmo professor Allan Lichtman da notícia acima aparece a profetizar tudo ao contrário: a vitória do candidato democrático.

23 setembro 2016

AS «BOCAS» DO SENHOR LALL DO FMI

Ainda não percebi muito bem se é o senhor Lall que manda muitas bocas, se o que há é um grande zelo de uma parte da nossa comunicação social em coleccionar todas as bocas que ele manda. O que importa é que o resultado da sua actividade favorita pode ser apreciado mais abaixo, naquilo que é apenas uma amostrinha dos cabeçalhos que se escrevem à custa das suas inspiradas palavras. E isto foi só nos últimos três meses. Que foram os meses de Verão, quando vai tudo para a praia. O senhor Lall também foi, presume-se. Quando não está na praia, o senhor Lall, recorde-se, chefia a missão do FMI em Portugal. Adicionalmente, parece funcionar como consultor económico sénior do liberalismo económico em Portugal, isso depois do passamento do saudoso doutor António Borges. (O lugar teria sido naturalmente de Vítor Gaspar se as coisas tivessem corrido bem. Mas não correram, não é?...) Assim, quando o ouvimos dizer em finais de Junho - a Subir Lall - que o principal esforço tem que ser feito nos salários e pensões, já temos experiência que baste para perceber o que ele quereria dizer com o eufemismo esforço: FMI pede corte de 900 milhões em salários e pensões, como ontem se noticiava. O FMI explica ao governo português o que fazer, como fazer e onde fazer; e o recado vai em carta aberta. E quanto ao défice deste ano, já é tarde para o corrigir. Provavelmente terá razão neste último caso, as opiniões de Subir Lall podem não estar sempre erradas, estão é tão eivadas de ideologia que cumpri-las - como o fez o governo anterior sobretudo depois da Saída Limpa - seria torná-lo num procônsul de poderes que ninguém elegeu. A missão de Subir Lall é a de cuidar dos interesses dos credores da nossa dívida, não dos interesses dos portugueses. O governo português tem a legitimidade democrática de fazer orelhas de mercador às suas opiniões, mas, quanto à forma, imaginemos por momentos que um outro chefe de missão, essa diplomática, e também acreditado em Portugal exibia a mesma notoriedade e o mesmo à vontade deste senhor Lall. Não estaria esse hipotético embaixador em risco de se tornar numa "persona non grata"?... Então porquê esta aceitação de que sujeitos como o senhor Lall tenham este «direito especial de intromissão»?...

A EMOÇÃO É QUE CONSEGUE VENDER JORNAIS E CAPTAR AUDIÊNCIAS

Há cerca de uns quinze dias, a The Economist publicava um artigo questionando se Donald Trump conseguiria vencer no estado do Texas nas próximas eleições presidenciais (Can Donald Trump turn Texas blue?). Conforme ali se pode ler, isso poderá vir a acontecer, não por mérito de Hillary Clinton, mas por demérito do próprio Trump, que tem vindo a irritar sobremaneira a apreciável percentagem de eleitorado hispânico daquele estado (até mesmo os de simpatia republicana) com os seus discursos xenófobos complementados com a folclórica história da construção do muro - ⅔ do qual, a existir, será erigido no próprio Texas. Tanto radicalismo xenófobo arrisca-se a ser contraproducente em estados onde Trump precisará de contar com o voto dos hispânicos conservadores - que também os há, recorde-se que o seu candidato rival Ted Cruz era um deles. E quem conheça minimamente a geografia eleitoral dos Estados Unidos, sabe que a possibilidade da derrota de um candidato republicano no Texas seria a hecatombe das suas aspirações presidenciais: representando 38 votos eleitorais num colégio de 538 - o terceiro maior estado dos cinquenta - seria virtualmente impossível a Trump ir recuperar em outros estados menores o mesmo número de votos eleitorais que acabara de perder no Texas. Na realidade, as sondagens parecem mostrar que Trump goza no estado de uma vantagem confortável. O conteúdo da história só parece remotamente possível.

Mas, de uma notícia em que anuncia que um dos candidatos está em perigo de perder uma das pernas de um tripé, a The Economist é capaz de saltar em quinze dias para uma outra antagónica, em que é a outra candidata que se parece apresentar em posição muito frágil (If Clinton cannot hold on in Colorado, expect Trump to be the next president). Se Hillary Clinton não conseguir vencer no estado do Colorado (9 votos eleitorais), escreve-se, corre o risco de perder as eleições presidenciais para Donald Trump. As explicações neste caso são mais entarameladas, menos sociológicas: diz-se que há uma sondagem recente naquele estado que dá os dois candidatos como empatados (na verdade, houve cinco sondagens este mês, nas outras quatro, Clinton é dada como vencedora em três e Trump em uma). O facto parece tornar-se uma ameaça à hegemonia democrata e é tudo uma questão de saber frasear. Como se pode ler mais adiante no texto: «...dão agora a Mrs. Clinton apenas 65% de chances de vitória.» (65% representa cerca de ...). Mas o que é importante é desenvolver a partir daí o cenário (a ameaça?) de ver Donald Trump na Casa Branca (abaixo). Isso é muito mais interessante que a perspectiva da humilhação de Trump num santuário republicano, Trump presidente tem impacto, isso é que vende jornais, isso é que faz captar as audiências. Até uma revista que se pretende respeitável tem que se subjugar. Quem falou em análises políticas objectivas?...

«OSTEN RACHE»

Uma espécie de Vingança do Leste aparece-nos representada, mais de 25 anos depois da anexação da República Democrática Alemã, por esta colossal abóbora de quase 550 quilos, produzida numa estufa de Fürstenwalde, nos territórios da antiga pátria do socialismo alemão. Se a Baviera se orgulha dos automóveis da BMW ou a Renânia adoptou como sua a química da BASF, o Brandeburgo terá o seu equivalente nas abóboras gigantes de Oliver Langheim (na fotografia), conhecido familiarmente na região por Kürbis-Olli (Olli abóbora). Para que a vingança fosse perfeita, só é pena que a abóbora gigante não tivesse resultado do esforço colectivo dos trabalhadores da LPG local, que é como quem diz da Landwirtschaftliche Produktionsgenossenschaft - que era a versão leste-alemã dos kolkhozes soviéticos, que, cá pelo Alentejo, tiveram o nome de UCPs.

22 setembro 2016

MARCELO MAGNO

Até fui ver: Marcelo Rebelo de Sousa mede 1,78, Michelle Obama 1,80 e Barack Obama 1,85. Há que perguntar como é que os fotógrafos americanos sabotaram aquilo de tal maneira que conseguiram transformar o nosso presidente no pequenote que as imagens mostram. Não fosse a tez e as rugas e Marcelo bem podia passar pelo filho adolescente do casal Obama. No princípio da adolescência. Que diabo, Marcelo não é nenhum Jorge Sampaio ao lado da Maria José Ritta. Mas, depois do episódio do jornalista francês que não sabia de quem se tratava (em Nova Iorque), este rebaixamento (em Washington) só pode ser pretexto para uma saudável teoria da conspiração à portuguesa: haverá uma associação informal das grandes potências mundiais para rebaixar o insuperável e incansável Marcelo à diminuta dimensão do seu país? É motivo mais do que suficiente para pugnar com zelo pela imagem do nosso Marcelo Magno, magno no sentido latino clássico da expressão, como usado no cognome de Alexandre da Macedónia (que também era rei de um reino pequeno).

PASSOS COELHO E O «SPIN» DAS AGÊNCIAS DE «RATING»

«- (...) passámos por tantos sacrifícios, para agora vermos um governo exibir satisfação pelas agências de rating, afinal, não nos baixarem ainda mais no degrau do lixo? Fizemos tudo isto para que o primeiro-ministro possa dizer do seu regozijo por a situação não ficar pior, quando o que devíamos era ficar melhor? Creio que entra pelos olhos adentro que aquilo que justificou a criação deste governo e desta solução no parlamento não está a provar a sua razão de ser no dia a dia. »
Com o tempo, apercebi-me do quão é importante preservar assim transcritas as passagens de alguns discursos da traulitada política, assim como é importante explicar sucintamente a conjuntura em que são proferidos. Depois de um breve período de promoção noticiosa os detentores das fontes tendem a fazê-las desaparecer e a denúncia das inconsistências (inúmeras e enormes!) do discurso político tendem a ser feitas por quem dispõe, profissionalmente, de fontes e meios próprios. Bem pode Pedro Passos Coelho tentar fazer-nos esquecer com aquele discurso de exigência, que ele também tem de responder por quatro anos e meio de governação e, no caso concreto daquele discurso, por uma ausência de resultados no que concerne à evolução da qualificação da dívida portuguesa. Veja-se em baixo como foi a evolução dessa notação nas três empresas até ao seu abandono do poder. Para tornar os quadros mais perceptíveis adicionei o logo do governo em funções.
Não vou comentar detalhadamente os gráficos, a não ser para corrigir o título do inicial, o referente à Standard & Poor's: é que aquela agência de notação só colocou o rating de Portugal em lixo em finais de 2012, quando o governo de Passos Coelho já estava em funções há ano e meio. Mas o que é verdadeiramente importante, e que serve de síntese de qualquer dos casos, é que o governo PSD/CDS se mostrou incapaz nesses quatro anos e meio de convencer qualquer das agências a retirar à dívida portuguesa a classificação de lixo, aquela que tanto parece indignar agora Pedro Passos Coelho. Esse é que era um dos objectivos dos tais tantos sacrifícios de que fala.
Mas não é tudo... Indo pesquisar ao passado, ao dia 24 de Março de 2011 (dia em que, como se pode ver pelos gráficos, a S & P e a Fitch baixaram simultaneamente o rating da dívida portuguesa), temos estas declarações confiantes do futuro secretário de Estado Carlos Moedas: com as reformas que um futuro Governo social-democrata vai aplicar, as agências ainda vão subir o rating de Portugal (note-se que este estava ainda, naquela época e nas três agências, vários graus acima do nível de lixo...). E prosseguia: assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal. O resultado é aquele que está à vista, com o requinte de apreciarmos Passos Coelho agora a criticar António Costa por não fazer aquilo que ele também não conseguiu fazer... Quanto a Carlos Moedas, e como prémio de tanta presciência, o mesmo Passos Coelho promoveu-o a comissário europeu... Quando desta polémica a propósito de Durão Barroso não me consigo esquecer de como, cada escolhido num estilo próprio, a comissão europeia tem sido o destino da nata da intelligentsia portuguesa...

21 setembro 2016

«FIRST, MARCELO TOOK MANHATTAN, THEN HE'LL TAKE BERLIN»


O episódio será mais caricato que sério mas, se a alguns de nós nos parece estranho que um repórter francês não consiga identificar Marcelo Rebelo de Sousa em Nova Iorque e isso possa nos incomodar um pouco, que tal se experimentássemos realizar um exercício semelhante com os nossos repórteres de televisão em relação a políticos estrangeiros? Será que eles estariam à altura do acontecimento? Será que um profissional categorizado como, por exemplo, José Rodrigues dos Santos conseguiria identificar um qualquer presidente de um país europeu de média dimensão como o nosso, como seria o caso da Suécia? (...estão-me a dizer pelo auricular que a Suécia é uma monarquia...) Que fosse o presidente da Áustria. (...a eleição desse está atrasada?...) O presidente da Grécia então, que aí, ele já lá esteve a cobrir as eleições e a ver as piscinas cobertas para eles se evadirem aos impostos...

CLASSE MÉDIA

Se o Natal é quando um homem quiser, a Classe Média é o que um comentador económico quiser. A fotografia é de Ernst Haas (1976).

20 setembro 2016

O NOSSO PIKETTY DOMÉSTICO E O OUTRO

- «É uma posição ideológica que..., é legítima do ponto de vista político, que é uma determinada maioria que governa ou que é apoiada (sic) decide devolver salários, devolver pensões, só que é um problema: tem que ir buscar o dinheiro a algum lado. E, dum ponto de vista que é tributar a posse de património imobiliário, parece fazer sentido, mas ela já é bastante tributado (sic) e quando, por exemplo ele se diz que se tributa só para ricos... Ora, nós podemos dar um exemplo duma família que até nem ganha..., nem tem muito excedente para se conseguir considerar classe média alta ou rica que tenha um apartamento avaliado em seiscentos mil euros em Lisboa ou no Porto e que tenha herdado uma casa na província. Casa de família, que tenha recuperado. Foi reavaliada. Logo ali faz superior a quinhentos mil euros e portanto já está a pagar. E é uma família que pode viver sem muito rendimento. Isto de facto é classe média.»(...)

Esta é o princípio da transcrição do comentário de José Gomes Ferreira a respeito daquilo que a redacção da SIC Notícias baptizou sobre o novo imposto sobre os imóveis. Confesso que me intriga - e que gostaria de ver quantos quartos teria - o tal de "apartamento avaliado em seiscentos mil euros..." Mas isto é assim mesmo: está aberto a debate.
Num outro contexto de debate da iniquidade da distribuição da riqueza, que esse, já não despertou a atenção da SIC Notícias (nem de qualquer outro órgão de comunicação social português, que me tenha apercebido...), há coisa de pouco mais de um mês, um economista brasileiro do FMI chamado Carlos Goés apresentou um estudo refutando as conclusões a que chegara o economista Thomas Piketty no seu famoso livro O Capital no Século XXI. Na altura, cheguei à notícia lendo o espanhol El País, porque por cá não dei que se tivesse abordado o assunto. E hoje, foi também através do Le Monde francês que fiquei a saber da resposta do economista. O estudo era técnico e maçudo, assim como a resposta também o é, mas aquilo que gostaria de transcrever e publicitar é o último parágrafo daquela. Escreve então Piketty nessa resposta:

Um último ponto: gostaria de realçar quanto este tipo de controvérsias me parecem perfeitamente natural e sãs para o debate democrático. Haveria quem preferisse que os «especialistas» das questões económicas chegassem a uma conclusão entre eles, a fim de que o resto da sociedade pudesse beneficiar das conclusões que se imporiam (é, por exemplo, o ponto de vista expresso neste artigo publicado no Le Monde). Compreendo o ponto de vista, ao mesmo tempo que o considero ilusório. A pesquisa em ciências sociais, de onde a economia não se consegue dissociar, por muito que alguns o pensem, é e será sempre balbuciante e imperfeita. Não tem vocação para produzir certezas absolutas. Não existe uma lei económica universal: o que existe é uma multiplicidade de experiências históricas e de dados imperfeitos, que necessitam de uma análise paciente para que se tente tirar daí algumas lições provisórias e incertas. Cada um deve apropriar-se dessas questões e desses materiais para formar a sua própria opinião, sem se deixar impressionar pelos argumentos de autoridade de uns e outros.

Ora, se não fossem os argumentos de autoridade, de que sobreviveriam naquelas redacções tanto José Gomes Ferreira (uns) quanto Nicolau Santos (outros)?... 

O ESCÂNDALO TOBIN (DE QUE JOSÉ ANTÓNIO SARAIVA ESTÁ INOCENTE...)

O apanhado dos artigos dos últimos cinco anos publicados pelo Público a respeito da Taxa Tobin mostra quanto o assunto tem aquela mesma institucionalidade de quando se criou a expressão obras de Santa Engrácia (a cronologia das notícias é para se ler de baixo para cima). A Taxa Tobin é um problema político aborrecido para quem se lhe opõe - o sector financeiro - porque se torna muito impopular rebatê-la frontalmente: a taxa tem sido apresentada como se se tratasse de um imposto sobre o jogo (o que não é assim tão descabido...). Assim, o que tem sido feito por aqueles é sabotar por todas as formas possíveis a sua implementação, enquanto, por outro lado, se anuncia que essa implementação está mesmo a chegar. O segredo, para retomar a metáfora supra, parece consistir em continuar a falar de Santa Engrácia (as necessidades de receitas fiscais para cobrir os défices orçamentais) mas escondendo da agenda mediática do quanto a Santa precisa de obras: há mais de dois anos que, naquele jornal, não há qualquer referência adicional ao assunto Tobin; quando é que os países europeus se decidem implementar a tal taxa? É que parece haver um acordo para continuar a não haver acordo... de implementação. Quanto aos especialistas económicos da nossa praça - casos exemplares de Helena Garrido ou de José Gomes Ferreira - esses parecem ter outras prioridades em temas fiscais, verifique-se o zelo que eles dedicaram recentemente a rebater a proposta bloquista de um imposto adicional sobre o património para os mais ricos. Por outro lado, as reacções publicadas a esta dilação de anos em implementar um novo imposto que sempre se afigurou justo e incontroverso, não se comparam à verdadeira comoção social generalizada que suscitou mais recentemente a publicação do último livro do jornalista José António Saraiva...

19 setembro 2016

A APRESENTAÇÃO DO DIRECTÓRIO EUROPEU FAZ-ME LEMBRAR O QUE ACONTECEU COM A ABERTURA DO BONANZA

Isto é uma daquelas comparações que só os cotas podem entender sem ajuda: a redução do número de figurantes do directório europeu, de quatro para três (depois da saída do Reino Unido), embora insistindo na mesma apresentação, faz-me lembrar o que aconteceu ao genérico de Bonanza depois da saída de Adam, o irmão mais velho dos Cartwright. É verdade que saiu uma das personagens do elenco, mas a apresentação a três continuava rigorosamente a mesma para acentuar o ar de continuidade da série.


QUANDO OS PAÍSES MÉDIOS - COMO PORTUGAL - SE MARIMBAM PARA AS DITAS POTÊNCIAS

Em Setembro de 1912 - há 104 anos - as ambições da Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia haviam-se concertado para a formação de uma aliança ofensiva para conquistar o resto dos territórios europeus do império Otomano. No meio dos acordos das chancelarias balcânicas, tudo havia sido feito para contornar as divergências entre os parceiros, nomeadamente o facto de que havia regiões a conquistar que eram cobiçadas por dois e mesmos três parceiros em simultâneo: era o caso da Macedónia, cobiçada por búlgaros, gregos e sérvios. Ainda não cheguei à eclosão da Primeira Guerra Balcânica propriamente dita, que começou a 8 de Outubro, mas o episódio que possui umas estranhas ressonâncias modernas é a tentativa concertada de última hora das capitais das «potências», Paris, São Petersburgo e Viena, em tentar refrear os seus aliados. Que, como a continuação da história demonstraria, se estiveram marimbando para essas tentativas. Em tempos de paz e mesmo se o assunto for a guerra, a influência das ditas potências é muito mais consentida pelos destinatários do que imposta. Foi a propósito disso que eu me lembrei da analogia com as fotografias exibindo Merkel, Hollande e Renzi juntos. Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, continuará a existir o directório dos países maiores, mas estas operações de relações públicas já não conseguem esconder que, por exemplo na matéria sensível dos refugiados, a capacidade de influência de Berlim ou Paris sobre polacos ou húngaros é nula. Como a antiga ordem internacional que se desmoronou em 1914, também a que vigorou até agora na União Europeia parece preparar-se para se desagregar.